O Intrincado Xadrez de Interesses e Alianças em Construção no Oriente Médio

Internacional, Geopolítica, Economia

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Por PolitikBr I Brasília, Em 24/05/2026, 18h:37min, leitura: 20min

Editor: Rocha, J.C.

O Oriente Médio está deixando de ser apenas o palco onde os Estados Unidos e Israel projetam força, para se tornar o tabuleiro onde a sua própria capacidade de mandar está sendo testada, medida e contestada.

A guerra sem motivação real ou provocação promovida pelo consórcio Washington e Tel Aviv contra o Irã não produziu apenas crateras, incêndios, destruição, bloqueios e mortes. Ela produziu também um efeito político mais profundo, menos visível nas manchetes ocidentais e mais desruptivo para o futuro: a aceleração de uma arquitetura regional que tenta nascer sem depender para a sua segurança ou pedir licença ao “império”.

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O público ocidental, acostumado a receber a guerra em forma de boletins higienizados, costuma ser convidado a olhar apenas para a primeira camada da narrativa: os Estados Unidos bombardeiam, Israel ataca, o Irã sofre, o “programa nuclear” é degradado, as bases americanas seguem funcionais, e a superioridade militar ocidental permanece intacta como uma peça de museu. Só que essa versão, confortável para consumo interno, já não resiste ao acúmulo de fatos. A guerra não destruiu o Irã. Não devolveu aos Estados Unidos o comando incontestável do Golfo. Não consolidou Israel como árbitro regional. Ao contrário, expôs os limites da máquina militar americana, o caráter predatório da estratégia israelense e a disposição crescente de países da região de recalcular as suas alianças.

A pergunta central, portanto, não é apenas quantos mísseis foram disparados, quantos drones cruzaram os céus ou quantas bases militares americanas foram destruídas. Entretanto, essa conta importa, e importa muito, porque revela o tamanho da mentira vendida ao público ocidental. Mas o núcleo do problema é outro: depois da guerra, quem se sentará à mesa que reorganizará a segurança, o comércio, as rotas energéticas e a soberania regional? Os Estados Unidos e Israel ainda querem estar na cabeceira. O problema é que os demais jogadores parecem começar a perceber que a mesa pode ser montada de outra maneira.

Os danos sofridos pelos Estados Unidos são o primeiro rompimento da fantasia. O relatório do Congressional Research Service (CRS) citado pela Army Times contabilizou 42 aeronaves americanas perdidas ou danificadas durante a Operação Epic Fury.

Embora o CRS ressalve que trabalha com fontes abertas e que a contagem dos danos pode mudar por causa de classificação, combates em andamento e atribuição de responsabilidades, entre as perdas ou danos listados, estão quatro F-15E Strike Eagle, sete KC-135 Stratotanker, um F-35A Lightning II atingido por fogo terrestre iraniano, um E-3 Sentry, um A-10 Thunderbolt II, dois MC-130J Commando II, um HH-60W Jolly Green II, 24 drones MQ-9 Reaper e um MQ-4C Triton (Army Times).

Não é um rodapé estatístico. É um abalo simbólico.

Durante décadas, a doutrina militar americana se apoiou na ideia de domínio aéreo quase automático. Iraque, Kosovo, Líbia, Síria, Afeganistão: a fantasia operacional era a de que os céus pertenciam aos Estados Unidos, e que os seus adversários apenas administravam o tamanho da própria destruição. O Irã mostrou outra coisa. Mostrou que a guerra moderna contra um Estado preparado, disperso, industrialmente resiliente e dotado de sucessivas camadas de defesa anti aérea, mísseis avançados de curto, médio e longo alcance, drones, guerra eletrônica e, com capacidade de retaliação regional decisiva, já não se encaixa na velha coreografia imperial.

No Report Reveals Massive Damage to U.S Military | Gravitas, e também como publicado em um questionamento recente do Senado americano aos comandantes envolvidos na guerra, se vê que os EUA sofreram “o dano aéreo mais pesado da América” em sua história militar moderna.

A destruição ou dano de pelo menos 42 aeronaves, a um custo de reposição que já teria chegado a US$ 29 bilhões é astronômico, lembrando que o custo da operação militar dos Estados Unidos contra o Irã, como um todo, já ultrapassou US$ 77 bilhões (cerca de R$ 400 bilhões), segundo o portal Iran War Cost Tracker (dado de 11/05/2026).

Entretanto, o ponto mais importante do report do CRS está na leitura estratégica: “a questão real é o que isso revela sobre as capacidades bélicas do Irã”. E é exatamente aí que a propaganda ocidental começa a falsear a realidade.

A destruição dos ativos militares americanos não se limitou ao ar. Uma investigação do Washington Post, compartilhadas pelo Middle East Eye, apontou que os ataques iranianos danificaram ou destruíram pelo menos 228 estruturas ou peças de equipamento em sítios militares americanos no Oriente Médio desde o início da guerra, incluindo hangares, alojamentos, depósitos de combustível, aeronaves, radares, comunicações e equipamentos de defesa aérea. O Jerusalem Post, também citando a análise do Washington Post, detalhou danos em 15 instalações militares americanas espalhadas pelo Kuwait, Bahrein, Catar, Jordânia, Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos; com 217 estruturas danificadas ou destruídas e 11 peças de equipamento atingidas.

Essa fotografia da realidade é devastadora porque desmonta duas mentiras ao mesmo tempo. A primeira é a mentira da invulnerabilidade americana. A segunda é a mentira da proteção americana.

Se quase todas bases dos Estados Unidos no Golfo viraram alvos dos iranianos – e foram total ou parcialmente destruídas; se radares avançados de US$ 1 bilhão, sistemas de comunicações, e modernos e caros sistemas de defesa anti aérea Patriot, THAAD, se mostraram ineficazes até contra drones baratos, mas mortais, então a presença militar americana nos Estados do Golfo deixou de ser um suposto guarda-chuva de segurança contra o Irã, e passou a ser um para-raios. O país que hospeda a presença militar americana não compra segurança; compra a possibilidade de virar alvo. O cálculo geopolítico então mudou. E radicalmente.

É por isso que o verdadeiro artigo de hoje não é sobre baixas de guerra, embora elas precisem ser lembradas para furar a “bolha de manipulação” da mídia corporativa ocidental.

O tema central é o que vem depois da constatação de que os Estados Unidos não conseguem proteger plenamente nem a si mesmos, nem a seus aliados, e nem a narrativa de que ainda controlam os ritmos da guerra.

A Chatham House afirmou que o conflito mostrou os limites do poder militar americano e que, para os países do Golfo, manter a presença militar americana em seus territórios pode ter se tornado um passivo – se já não se tornou – , e não uma fonte líquida de segurança. Basta ver os danos causados pelos iranianos às infraestruturas desses países, em resposta às ações agressivas americanas. Aliás, uma estratégia brilhante.

Esse é o ponto de virada. O Golfo não acordou subitamente antiamericano. As monarquias não se tornaram revolucionárias. Ninguém ali está rasgando contratos, fechando embaixadas ou cantando hinos anti-imperialistas. O que está acontecendo é mais frio, mais sério e mais perigoso para Washington: os governos locais começaram a fazer contas. E quando governos fazem contas de sobrevivência, lealdades ideológicas evaporam rápido.

Antes da guerra, a lógica dos Acordos de Abraão prometia integrar Israel ao coração da arquitetura regional, com os Estados Unidos como fiador e a Arábia Saudita como prêmio maior.

Essa arquitetura precisava de uma ficção: a de que Israel poderia ser normalizado enquanto destruía Gaza, bombardeava o Líbano, atacava o Irã e ainda assim continuava sendo vendido como parceiro de estabilidade. A guerra contra o Irã tornou essa ficção muito mais difícil. A Modern Diplomacy cita que o projeto de normalização da relação saudita-israelense foi congelado, porque qualquer líder árabe que assine um status de normalização com Israel, no ambiente atual, enfrenta um custo doméstico que nenhuma garantia americana ou pacote econômico consegue compensar.

Israel, como sempre, tenta transformar a região inteira em extensão dos seus próprios dilemas internos. Netanyahu precisa da guerra como um náufrago precisa de uma tábua de salvação. Sem guerra, ele volta a enfrentar a decomposição política e judicial dentro de casa.

A entrevista da editora do Cradle, Charmaine Arwani, ao podcast de Danny Haiphong, foi direta ao ponto ao dizer que “os israelenses, sob o Netanyahu, sempre querem manter a guerra ativa” e que o objetivo não é apenas derrotar o Irã, mas paralisar o país “em termos de infraestrutura e de economia”. A frase é dura, mas captura a lógica real da estratégia israelense: não é segurança, é devastação preventiva; não é dissuasão, é sabotagem civilizacional.

Vejam. O plano maior do Sionismo é a fundação da Bíblica Grande Israel. Com o Irã na cena geopolítica, isso não é possível.

O problema para Israel é que o desejo de guerra não basta quando os demais atores começam a perceber que a continuidade do incêndio ameaça os seus próprios palácios. Segundo se noticia, os países do Golfo teriam advertido Trump a não retomar os ataques contra o Irã nesse momento, inclusive por causa do hajj, a peregrinação à Meca.

O raciocínio é simples: bombardear o Irã durante o Ramadã já havia provocado enorme irritação no mundo muçulmano; reacender a guerra durante o hajj poderia produzir um custo religioso e político impossível de se administrar. Aqui a geopolítica toca a teologia, e a teologia toca a legitimidade dos regimes.

Essa cautela dos Estados do Golfo não nasce de amor ao Irã. Nasce do medo de que a guerra arraste todos para dentro de um triturador. A Chatham House observou que os Estados do Golfo não escolheram a guerra, mas foram obrigados a absorvê-la, e que Washington ignorou apelos para evitá-la. A Modern Diplomacy foi ainda mais explícita ao dizer que a guerra abalou a auto imagem do Golfo como zona de estabilidade, modernização e segurança, atingindo a infraestrutura civil, energia, alimentos e a confiança de investidores e expatriados.

Dubai, com toda a certeza, é uma das que mais sofreu e sofrerá com isso, até que a confiança, destroçada por Trump e Netanyahu, seja restaurada. E isso passa pela convivência de todos na região. Em especial com o Irã. Queiram eles ou não.

É nesse vazio de confiança que começa a se desenhar o novo xadrez. A Arábia Saudita, que durante anos flertou com a normalização das relações com Israel, sob tutela americana, agora precisa calcular se vale à pena associar o seu futuro a uma potência que não impede ataques ao seu território, ao seu entorno; e a um aliado israelense que parece desejar a guerra permanente.

Riad, de cujas bases militares americanas partiram ataques ao Irã, não autorizou o uso do espaço aéreo saudita, na recente investida fracassada de Trump – Projeto Liberdade. Que nada libertou; e foi vergonhosamente encerrado, em menos de 48 horas. Uma humilhação aos EUA.

E nesse turbilhão de incertezas, de ruptura, começam a haver rearranjos. O Egito, a Arábia Saudita, a Turquia e o Paquistão entram em cena, não como figurantes, mas como peças de contenção, mediação e reorganização.

E é nesse novo contexto que a Ahram Online noticiou que os 4 países citados vêm testando um alinhamento discreto, impulsionado pelas consequências da guerra dos EUA/Israel contra o Irã, através de negociações de alto nível sobre segurança, estabilidade, soberania e não-interferência.

A mesma reportagem afirma que o formato ainda não é uma aliança tradicional, mas que os participantes reconhecem a necessidade de um mecanismo, em evolução, sem um caráter institucional rígido e sem provocar diretamente os americanos.

Essa discrição é reveladora. Ninguém ali quer anunciar uma OTAN islâmica, uma frente antiamericana ou um bloco anti-Israel. O movimento é mais sofisticado: construir margem de manobra. O Egito quer conter a dominância israelense e preservar as rotas como o Bab al-Mandab e o Mar Vermelho. A Arábia Saudita quer reduzir a exposição estratégica, sem romper com Washington. A Turquia quer evitar que Israel se torne o centro de gravidade incontestável da região. O Paquistão quer transformar a sua posição geográfica e nuclear em capital diplomático. Nenhum desses países precisa amar o Irã para concluir que um colapso iraniano entregaria a região à Israel.

A Chatham House observou exatamente isso ao analisar o papel do Egito: O Cairo integra um agrupamento informal com o Paquistão, a Turquia e a Arábia Saudita porque esses países compartilham preocupações com a agenda regional impulsionada por Israel e seus parceiros, incluindo os Emirados Árabes Unidos – com pretensões de desafiar a dominância da Arábia Saudita na região; e temem que um possível colapso do regime iraniano venha a desiquilibrar essa balança à favor de Israel.

Eis o paradoxo que o Ocidente finge não ver: muitos governos árabes não confiam no Irã, mas confiam ainda menos em uma região na qual Israel, protegido pelos Estados Unidos, possa bombardear quem quiser.

O papel do Paquistão é talvez a peça mais subestimada desse tabuleiro. Entretanto, de uma forma perspicaz, o Paquistão se colocou na posição de mediador dessa guerra. E nessa condição, ele ganhou protagonismo.

Há portanto algo maior em gestação.

As mudanças de paradigma só acontecem em virtude de rupturas. O ataque combinado dos EUA/Israel ao Irã foi o catalisador disso. Não se trata de um mero detalhe diplomático. É, na verdade, um deslocamento de centro.

Se o Paquistão media, a China avaliza, o Irã negocia, a Arábia Saudita observa, a Turquia calcula e o Egito participa, a pergunta se impõe: onde está a indispensabilidade americana? Washington ainda tem porta-aviões, sanções, bancos e bombas. Mas indispensabilidade não é possuir instrumentos de coerção. Indispensabilidade é conseguir produzir ordem. E os Estados Unidos, estão cada vez mais, somente sendo capazes de gerar caos e instabilidade.

Há uma dimensão logística profunda nessa mudança. O Middle East Eye informou que o Paquistão abriu 6 rotas terrestres para cargas destinadas ao Irã por meio do SRO 691, conectando Karachi, Port Qasim e Gwadar aos pontos fronteiriços iranianos de Gabd e Taftan, via Balochistão (Middle East Eye). A rota Gwadar-Gabd pode colocar a fronteira iraniana a duas ou três horas de carro, enquanto o corredor conecta potencialmente o Irã ao CPEC, o Corredor Econômico China-Paquistão, e ao INSTC, o Corredor Internacional de Transporte Norte-Sul que liga Irã, Rússia e Índia (Middle East Eye).

Reparem que esse arranjo consolida a China e a Rússia como líderes incontestes da Eurásia, e fere de morte dos interesses dos Estados Unidos em sabotar os esforços dos russos em escoarem os seus produtos através do Índico, e da China em impulsionar os seus negócios, em direção à Europa, via rotas terrestres e não marítimas, sujeitas à bloqueios ou pagamentos de taxas de passagem, como já começa a ser pleiteado pela Indonésia, em relação ao Estreito de Malaca. A guerra dos EUA/Israel contra o Irã, como dissemos, catalisou tudo isso.

Aqui está o coração da guerra que a mídia ocidental quase nunca explica. Os Estados Unidos tentam controlar o mar, bloquear portos, ameaçar navios, manipular seguros, sanções e gargalos. A resposta eurasiática é construir em terra: corredores rodoviários e ferroviários, portos alternativos, rotas internas, integração logística e, acima de tudo, redundância. O “império” olha para o Estreito de Hormuz como uma alavanca de coerção. A Eurásia olha para ele como um problema a ser contornado, administrado ou incorporado a uma rede maior.

Essa é a diferença entre poder de destruição e poder de construção. Washington pergunta: o que podemos bloquear? Pequim pergunta: por onde podemos conectar? Tel Aviv pergunta: quem podemos paralisar? Teerã pergunta: como transformamos agressão em legitimidade regional? Islamabad pergunta: como viramos ponte? Riad pergunta: como sobreviveremos ao colapso da garantia americana sem parecer que abandonamos os americanos? O Cairo pergunta: como impedimos que Israel reorganize sozinho a região? Ancara pergunta: como preservamos espaço em um sistema em movimento? Esse é o xadrez.

O Estreito de Hormuz é a casa crítica desse tabuleiro. Antes da guerra, por ali passava cerca de 20% das exportações globais de energia. Depois do início das hostilidades, o Irã instituiu o bloqueio à Hormuz e passou a administrar a passagem pelo estreito de forma condicionada à:  “com autorização e em colaboração com a Marinha do IRGC” e, mediante o pagamento de US$ 1,00/barril de petróleo transportado.

Do ponto de vista jurídico, a medida iraniana é contestável. Do ponto de vista estratégico, é compreensível. O Irã está dizendo, em linguagem de poder: se vocês transformaram nossas águas, nossos portos, nossas exportações e nossa infraestrutura em campo de guerra, então nós também transformaremos o principal gargalo energético do planeta em instrumento de poder e coerção. O Ocidente chama isso de chantagem, quando o adversário faz. Quando o Ocidente faz, chama de sanção, bloqueio, operação de liberdade ou proteção da navegação.

A China, nesse ponto, joga com extrema frieza. Não quer um Hormuz fechado, porque depende da energia que passa por ali.

Mas a posição chinesa é dupla: ela rejeita o caos que interrompe o comércio, mas se beneficia da expulsão, na prática, dos EUA do Golfo Pérsico, e da perda de credibilidade americana, dando as bênçãos a um novo modelo de segurança regional no sudoeste asiático.

Por isso, a guerra fortaleceu a China mesmo quando a China não disparou um tiro.

A Modern Diplomacy afirma que Beijing não assumiu formalmente o papel da mediação e nem gastou capital diplomático relevante publicamente, mas se posicionou como o ator que Washington e Teerã precisavam mais do que queriam admitir, se tornando indispensável quando o cessar-fogo se materializou. É uma vitória típica da diplomacia chinesa: não aparecer como incendiária; mas aparecer como bombeiro; não controlar a crise com bases, mas com comércio, crédito, paciência e infraestrutura.

Essa leitura dialoga com o que o PolitikBr já havia apontado em artigo anterior sobre a visita de Trump à China: a guerra contra o Irã se conecta ao fracasso mais amplo dos EUA em tentar controlar os fluxos mundiais de energia, rotas e gargalos estratégicos; enquanto consolida novas alianças e aprofunda a percepção de que Washington opera mais por ruptura do que por estabilidade. A visita de Trump à Pequim, naquele enquadramento, não foi a de um imperador exigindo tributo, mas a de um negociador de danos, diante de uma realidade que já não se dobra ao velho comando atlântico.

A crise prossegue. O Irã não está ileso. Mas ele tem uma enorme capacidade de reconstrução, e seu povo é extremamente resiliente, diante de catástrofes como essa.

Esse é o pesadelo de Washington e de Tel Aviv. Não basta destruir. É preciso impedir a reconstrução. E o Irã, ao que tudo indica, reconstrói mais rápido do que o Ocidente esperava, porque não depende apenas de um ponto, de uma fábrica, de um porto ou de uma rota. A sua resiliência nasce da dispersão, da redundância, da ajuda de parceiros, do aprendizado sob sanções e da percepção, agora generalizada, de que sobreviver aos Estados Unidos exige autonomia industrial e profundidade estratégica.

Charmaine Arwani sintetizou esse imbróglio da seguinte forma: “a presença americana acaba transformando esses países – do Golfo – em alvos”. Mais adiante, ela disse que “a região está escapando do controle deles – EUA/Israel”. São frases opinativas, vindas de uma analista de orientação crítica ao imperialismo americano, mas o valor delas encaixa perfeitamente com o desenrolar dos acontecimentos. Quando bases americanas são atingidas em 15 locais, quando o Golfo questiona a garantia dos EUA, quando o Paquistão vira mediador, quando a China se torna indispensável, quando o Egito se torna articulador de uma aliança regional, quando a Arábia Saudita evita uma nova escalada, a conclusão deixa de ser panfleto e passa a ser diagnóstico.

Os Estados Unidos estão em franco declínio. E “impérios” em declínio costumam se debater, serem mais violentos, não menos.

Quando já não conseguem organizar o mundo por consentimento, recorrem à sabotagem, ao bloqueio, à coerção financeira, ao terrorismo civil e de infraestrutura e à guerra por procuração.

Charmaine Arwani disse: “o que vem depois dessa guerra é puro terrorismo dos Estados Unidos e dos seus aliados, incluindo Israel”, porque eles não teriam outro meio de parar projetos de infraestrutura vantajosos para a Ásia Ocidental. A frase é acusatória, mas a história recente de ataques a gasodutos, sanções extraterritoriais, bloqueios e campanhas de desestabilização torna a advertência politicamente plausível.

O mais provável é que a próxima fase, que se avizinha, combine diplomacia e sabotagem. Haverá negociações sobre Hormuz, extensão do cessar-fogo – até o fim das hostilidades, compensações, reconstrução e garantias. Mas também haverá operações encobertas, ataques atribuídos à terceiros – bandeiras falsas, pressão sobre bancos, ameaças a empresas, instrumentalização de milícias e tentativas de dividir o bloco regional nascente.

O Oriente Médio pós-americano não existe ainda. O que existe é uma região que já não acredita na tutela americana, mas ainda não dispõe de uma arquitetura madura para substituí-la. O que existe é uma China indispensável, mas cautelosa; uma Rússia relevante, mas ocupada em várias frentes; um Irã fortalecido em dissuasão, mas ferido; uma Arábia Saudita prudente, mas ambígua; uma Turquia ambiciosa; um Egito defensivo; um Paquistão emergindo como ponte; e Israel tentando incendiar o tabuleiro para não perder centralidade.

No fim, talvez o novo xadrez do Oriente Médio não seja decidido por um xeque-mate espetacular. Talvez seja decidido por deslocamentos graduais: um porto que ganha importância, uma rota terrestre que sai do papel, uma reunião discreta em Islamabad, uma ligação entre Xi e Mohammed bin Salman, uma taxa iraniana em Hormuz, uma base americana esvaziada, um investidor que hesita em Dubai, um príncipe que percebe que Washington protege primeiro Israel, uma opinião pública árabe que torna a normalização tóxica, um drone barato que destrói um sistema de defesa bilionário.

É assim que as ordens internacionais morrem. Não com uma declaração formal, mas com a multiplicação de pequenos atos de desobediência prática. E é assim que outras nascem: não puras, não lineares, não livres de contradições, mas empurradas pela necessidade de sobreviver a quem confundiu o planeta com uma extensão das suas bases militares.

Nota ao leitor: Este artigo buscou compilar, numa análise única e aprofundada, os elementos factuais e contextuais que cercam a guerra, sem motivação real, promovida pelos EUA e Israel contra o Irã, os seus danos, as suas contradições narrativas e o intrincado xadrez de interesses e alianças em construção no Oriente Médio. As fontes utilizadas são públicas e estão devidamente listadas para a sua verificação.

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