Pepe Escobar: A Arábia Saudita, o Iêmen e o BRICS em Ascensão

A nova escalada entre a Arábia Saudita e os houthis do Iêmen pode parecer, à primeira vista, apenas mais um capítulo da longa guerra iemenita. Mas a entrevista de Pepe Escobar ao podcast de Nina sugere uma leitura muito mais ampla: o conflito estaria expondo as transformações profundas que estão ocorrendo no equilíbrio de poder do Oriente Médio.

O ponto estratégico está na geografia. De um lado, Bab el-Mandeb, porta de entrada do Mar Vermelho. Do outro, o Estreito de Hormuz, passagem essencial para o petróleo do Golfo. Com os dois pontos sob crescente tensão, qualquer escalada regional pode produzir efeitos que ultrapassam as fronteiras do Oriente Médio.

Escobar sustenta que Mohammed bin Salman estaria enfrentando uma situação particularmente delicada porque a antiga garantia de segurança americana já não teria a mesma previsibilidade. A atual hesitação de Washington em assumir uma nova intervenção militar direta contra os houthis reforça essa percepção.

Pezeshkian, os Emirados e a Verdade que Washington Não Quer que Você Ouça

O presidente iraniano Masoud Pezeshkian concedeu uma entrevista à India Today em 12 de setembro de 2026, à margem da cúpula do BRICS em Nova Délhi, na qual falou sobre quem o Irã considera como seus aliados naturais — os países do Golfo, incluindo os Emirados Árabes Unidos — do que considera seu verdadeiro adversário: as bases militares americanas instaladas em solo emiradense. “Não temos problemas com os Emirados”, disse. “Temos um problema com as bases americanas nesses países, de onde atacam nosso país.” Pezeshkian descreveu os emiradenses como “irmãos” e acusou Washington de usar as bases para atacar o Irã, vender armas para fomentar divisões e explorar o petróleo regional. O encontro com o príncipe herdeiro Khaled bin Mohamed bin Zayed, o primeiro desde o início do conflito em fevereiro de 2026, sinaliza uma possível reaproximação entre Teerã e Abu Dhabi, facilitada pelo foro do BRICS. A Declaração de Nova Délhi, adotada por unanimidade, pede máxima contenção no Oriente Médio, e serve como contenção institucional para que as divergências não fraturem o bloco. Pezeshkian também defendeu o Novo Banco de Desenvolvimento como instrumento de desdolarização e de resistência ao unilateralismo americano.

Putin, o BRICS e a Nova Arquitetura Global: A Cúpula de Nova Délhi e a Reconfiguração do Poder Mundial

Na XVIII Cúpula do BRICS, em Nova Délhi, O presidente da Rússia, Vladimir Putin, apresentou números que desmontam a centralidade do G7: os países do BRICS geraram mais de 40% do PIB mundial nos últimos cinco anos, contra 29% do G7. Putin criticou o uso da coerção e destruição física pelo Ocidente para manter a sua posição e defendeu a cooperação multilateral. A cúpula também avançou na ampliação do Novo Banco de Desenvolvimento (NDB), presidido por Dilma Rousseff, e no BRICS Pay, sistema de pagamentos em moedas locais, alternativo ao SWIFT.
Com 11 membros plenos e mais de 30 países na fila de adesão, o BRICS se consolida como o principal fórum de articulação do Sul Global, em um mundo multipolar.

Tailândia Vê o BRICS como Plataforma Estratégica para Ampliar Comércio, Investimentos e Cooperação Econômica

Com base na entrevista exclusiva do vice-primeiro-ministro e ministro das Relações Exteriores da Tailândia, Sihasak Phuangketkeow, à TV BRICS, este artigo analisa a visão do país sobre o bloco como plataforma estratégica para ampliar comércio e investimentos. A reportagem original foi publicada pelo Brasil 247.
O tabuleiro geopolítico global ganha mais um movimento calculado. Enquanto o Ocidente se debruça sobre as próprias crises, a Tailândia — até pouco tempo vista como um país alinhado ao bloco ocidental — dá um passo firme em direção ao Sul Global.

Pepe Escobar: A Falência do Bloqueio Econômico Americano ao Irã

A tentativa dos EUA de impor um bloqueio econômico total ao Irã está fadada ao fracasso, segundo análise de Pepe Escobar. Após a derrota militar estratégica, Washington recorreu ao cerco financeiro, mas esbarra em obstáculos intransponíveis. O Irã, uma encruzilhada geográfica na Eurásia, possui múltiplos corredores terrestres e marítimos (Paquistão, Cáspio, Ásia Central) que os americanos não podem bloquear. Além disso, aliados-chave como o Paquistão, a China e a Rússia se recusam a aderir às sanções unilaterais, mantendo o comércio e a cooperação com Teerã. O Irã já avisou que os países que se aliarem ao bloqueio serão considerados inimigos, e ameaçou retaliar ataques a seus alvos civis na proporção de “dez por um”. Apesar da tensão, há movimentos diplomáticos (Qatar, Omã, Paquistão) para reanimar um “memorando de entendimento em coma”, mas a posição iraniana é de força e desconfiança.

Pepe Escobar: O Pacto de Meca e a Espiral de Demência do Império

A escalada no Oriente Médio atingiu um novo patamar nesse final de agosto de 2026. O Pacto de Meca entre a Arábia Saudita, o Paquistão e a Turquia, uma aliança militar de defesa coletiva, busca reposicionar a segurança regional. Simultaneamente, os Houthis impuseram um bloqueio naval no Mar Vermelho, atacando petroleiros sauditas e invalidando a eficácia do pacto, em certa medida. Israel escalou a tensão ao bombardear uma base síria, que poderia ser usada pela Turquia, enquanto a administração Trump tentou, sem sucesso, subornar alguns dos generais do IRGC para dividir o Irã, revelando o seu completo desespero diante da derrota geoestratégica e militar que sofreu. A especulação sobre a adesão iraniana ao pacto de Meca – uma especulação – tem potencial para reconfigurar o xadrez geopolítico, apontando para o fim da presença americana na região, e o início de uma nova ordem de segurança regional. A ameaça iminente de um ataque nuclear dos EUA ao Irã, debatida abertamente, mostra a “espiral de demência” de um império em decadência.

O Crepúsculo da Ordem Unipolar – A Geopolítica de Trump na Cúpula de Ancara e o Avanço Silencioso da China na Eurásia

A Cúpula da OTAN em Ancara revelou o estado fraturado da ordem ocidental. Trump priorizou sua amizade com Erdogan, anunciando o fim das sanções e a possível venda de caças F-35 à Turquia, irritando Israel e os aliados europeus. Enquanto isso, a guerra contra o Irã se intensificava, expondo o isolamento americano e a falta de apoio europeu para suas ações militares. Em contraste, a China avança metodicamente com investimentos e soft power na Eurásia, contrastando com a política externa errática e coercitiva de Washington. O evento evidenciou a transição para um mundo multipolar, onde a influência se constrói com planejamento de longo prazo, não com ameaças e personalismo.

O Intrincado Xadrez de Interesses e Alianças em Construção no Oriente Médio

O artigo analisa a guerra de agressão dos EUA-Israel contra o Irã não apenas pelo prisma dos danos militares, mas sobretudo pelo redesenho político e estratégico em curso no Oriente Médio. Relatórios e análises recentes indicam que os Estados Unidos sofreram perdas materiais muito maiores do que a narrativa ocidental admite, incluindo dezenas de aeronaves perdidas ou danificadas e centenas de estruturas ou equipamentos atingidos em bases americanas na região. Esses danos não são apenas militares: eles abalam a ideia de que a presença americana no Golfo representa proteção automática para seus aliados.

A tese central é que a guerra acelerou a formação de um novo xadrez regional, com Irã, Arábia Saudita, Egito, Turquia, Paquistão, China e Rússia recalculando posições. O Golfo começa a perceber que bases americanas podem ser mais passivo do que garantia. A normalização com Israel fica congelada. O Paquistão surge como mediador e corredor logístico. A China ganha centralidade sem disparar um tiro. O Estreito de Hormuz se torna instrumento de poder iraniano. O resultado é uma região ainda instável, mas cada vez menos disposta a aceitar que Washington e Tel Aviv sejam os únicos autores do roteiro.

O Efeito Borboleta: Flávio Bolsonaro, Vorcaro, a Direita em Colapso e o Destino do Brasil em 2026

A eleição de 2026 no Brasil funciona como um experimento de mecânica quântica: pequenos eventos – áudios, discursos, entrevistas – reconfiguram a correlação de forças de um projeto de país inteiro. De um lado, está a visão de um Brasil soberano, multipolar, integrado ao BRICS e ao Sul Global; de outro, a perspectiva neocolonial de subordinação à extrema direita trumpista, hostil à China e ao multilateralismo.

O senador Flávio Bolsonaro, herdeiro do espólio político do pai condenado por tentativa de golpe, tentou se vender como “o favorito do mercado”, mas o escândalo Vorcaro‑Master detonou sua aura de probidade. Ex‑aliados como Julian Lemos o acusam de operar esquemas de propina em torno do filme sobre Jair Bolsonaro, e um pastor de direita, Ottoni de Paula, passou a denunciá‑lo como mitômano e “guloso”, afirmando que suas mentiras podem entregar a eleição a Lula no primeiro turno.

A direita começa a olhar para o próprio abismo: insistir em Flávio, dizem vozes internas, pode afundar o campo conservador inteiro. Cada novo fato colapsa a função de onda da “nova direita racional” e torna mais nítida a escolha diante do país: um Brasil pequeno, dependente e submisso ou um Brasil protagonista de uma ordem multipolar em disputa.