Pepe Escobar e a virada da geopolítica global
Internacional, Geopolítica, Economia
PolitikBr é uma mídia independente. Informar não é “torcida”. Não é distorcer, manipular ou mentir.
As pessoas. Talvez você, queira, como eu, entender o mundo em que vive. E é isso que o PolitikBr oferece. Conectar fatos, em uma “linha do tempo”: Uma cartografia do presente. Venha conosco! Subscreva o nosso conteúdo.
Você pode apoiar a consolidação e o crescimento desse projeto. Contribua através do Paypal (internacional) ou Pix (nacional). Chave: crowdfunding@politikbr.org. Muito Obrigado.
Dedicado à Verdade e à Paz.

Por PolitikBr I Brasília, Em 16/05/2026, 09h:28min, leitura: 12min
Editor: Rocha, J.C.
A visita de Donald Trump à China, na leitura de Pepe Escobar, não foi uma demonstração de força do velho centro imperial, mas a encenação de uma mudança histórica que Washington ainda tenta negar.
Em vez de ir à Pequim para impor a sua vontade política, Trump foi com uma comitiva de executivos e interesses corporativos para pedir espaço, negócios e algum tipo de acomodação, diante de uma China que não aceita o papel de satélite econômico dos Estados Unidos.

A cena, para Escobar, foi tão simbólica quanto brutal: o poder americano foi à capital chinesa bater na porta de um sistema que aprendeu a operar sem submissão.

A imagem é forte porque o conteúdo é forte. No discurso de Escobar, os EUA passaram anos tentando conter a China por meio de tarifas, sanções, bloqueios tecnológicos, pressão militar indireta, e uma retórica de desacoplamento que parecia anunciar um divórcio econômico irreversível. Só que a realidade cobrou a conta.
A China respondeu com planejamento estratégico, maior autonomia industrial, maior capacidade de inovação tecnológica, geração de maior número de patentes, em relação ao restante do mundo, a liderança mundial na maioria dos nichos tecnológicos críticos de futuro, incluindo as tecnologias de inteligência artificial.
Quando Trump chegou a Pequim, já não chegou como árbitro, mas como negociador de danos.
A raiz do impasse
O ponto de partida para entender a cena é simples: a política externa americana contra a China deixou de ser apenas uma disputa comercial, e virou uma tentativa de sabotar a ascensão de um rival sistêmico.
No primeiro mandato de Trump, vieram tarifas, sanções, pressão sobre cadeias produtivas e o início da guerra contra o acesso chinês à chips avançados e tecnologias sensíveis.

No segundo mandato, a agressividade americana se ampliou e passou a atingir não apenas Pequim, mas a lógica inteira da ordem internacional liberal, que os próprios EUA ajudaram a construir. Só que essa ofensiva encontrou um mundo menos obediente e mais multipolar do que o imaginado por Washington.

Escobar enxerga nisso uma falha de leitura estratégica. Os EUA apostaram que poderiam isolar a China, sufocar a sua indústria de ponta e forçá-la a aceitar a dependência tecnológica e financeira. Mas o resultado foi o contrário: a China acelerou a substituição de importações críticas, fortaleceu a sua cadeia produtiva de semicondutores, aprofundou a automação industrial ao extremo e tratou a inteligência artificial como eixo de soberania econômica.
O novo plano quinquenal chinês, segundo a Reuters, incorpora as tecnologias em inteligência artificial de maneira ampla, e a coloca no centro do crescimento, da produtividade e da competição tecnológica. Isso dá substância factual ao argumento de Escobar de que a China não apenas resistiu ao cerco, como também aproveitou o cerco para acelerar a sua própria modernização em tecnologias críticas ao seu desenvolvimento econômico, e de projeção do seu poder negocial por todo o mundo.
Ao mesmo tempo, a ofensiva americana gerou o aumento dos custos internos nos próprios Estados Unidos e inflação.
O sistema jurídico americano considerou ilegal, na Suprema Corte, as tarifas impostas por Trump, e a imprensa internacional noticiou o início de um processo de reembolso bilionário à importadores afetados.

A Xinhua informou que o governo americano iniciou a devolução das tarifas consideradas inconstitucionais, com valores que podem alcançar 166 bilhões de dólares em reembolsos. Isso não é um detalhe contábil; é um sinal político de desgaste.
A guerra tarifária, vendida como instrumento de pressão externa, acabou criando um passivo doméstico formidável, e praticamente anulando os ganhos em impostos, obtidos pelo governo; expondo ainda o autoritarismo do presidente em tomar medidas que deveriam, antes de mais nada, ter a aprovação do parlamento.
Diante da fragilidade legal, as tarifas coercitivas de Trump fracassaram. Assim como também fracassou, a própria estratégica de Trump em tentar reverter a multipolaridade em curso, em ritmo acelerado no mundo.
Pequim como palco
Escobar usa a visita para falar de símbolo, e aqui o símbolo importa tanto quanto o comércio. A recepção em Pequim, segundo ele, foi um ato de pedagogia geopolítica. Xi Jinping não respondeu com hostilidade. Não precisou. Bastou administrar a cena com segurança, protocolar os gestos e fazer a delegação americana circular em um ambiente que comunicava, por si só, quem dita os termos da nova centralidade global.
A frase de Xi é quase um manifesto: “devemos ser parceiros, não rivais”. Mas a leitura de Escobar é que essa cordialidade não representa subordinação; representa autoridade.
Há uma diferença fundamental entre conciliação e capitulação. Xi fala em estabilidade estratégica construtiva, enquanto o universo político de Trump opera em chave de choque, coerção e improviso. Na interpretação de Escobar, a China não está pedindo benesse nem autorização; está estabelecendo limites.
A China é uma potência que aceita diálogo, mas não aceita tutela. E, ao contrário da imagem que Washington tenta preservar, já não depende do consumo americano para sustentar a sua trajetória histórica. A balança comercial bilateral, embora ainda enorme, representa uma fração relativamente pequena do total da economia chinesa (8%), algo que ajuda a explicar por que Pequim pode negociar sem pânico.
A resposta chinesa foi, portanto, não emocional – ao bom estilo Chinês- , mas estratégica. Xi enquadra a relação com os EUA dentro de uma visão de longo prazo, falando de transformação global e de um ambiente internacional “fluido e turbulento”. Na boca de um líder chinês, esse tipo de formulação não é poesia diplomática; é aviso. O sistema internacional está mudando, a era da predominância unilateral americana está se dissolvendo, e a China quer atravessar essa transição, sem cair na armadilha de uma guerra aberta, que destruiria ganhos acumulados por décadas.

A comitiva do capital
Um dos elementos mais interessantes do relato de Pepe Escobar é a presença da elite corporativa americana na delegação. Não foi uma viagem simplesmente de relações políticas, entre presidentes. Foi uma peregrinação do capital.
Segundo a cobertura da CNBC, Trump chegou a Pequim acompanhado por executivos de gigantes como a Tesla e a Nvidia; e o South China Morning Post também registrou a presença de nomes do topo do empresariado americano, incluindo a Apple, a BlackRock, a Boeing, o conglomerado Goldman Sachs, Visa, Cargill, Citi e outros.
Isso confirma a tese central de Escobar: os Estados Unidos não foram à China para ditar a agenda, foram com os donos do capital para negociar acesso e sobrevivência comercial.
A presença desses executivos dá à visita de Trump um sentido quase confessional.
A Tesla quer seguir produzindo sem ser esmagada por tarifas e por um ambiente de hostilidade regulatória em Washington. A Nvidia quer preservar alguma fatia do mercado chinês de chips avançados para inteligência artificial, mesmo sabendo que a China caminha, aceleradamente, para anular a sua dependência nesse segmento de semicondutores, e mesmo competir com esses players, no futuro. A Apple precisa da China como base produtiva, mercado consumidor e engrenagem industrial. A BlackRock deseja uma porta de entrada no sistema financeiro chinês, mas sabe que essa porta será estreita e rigidamente controlada.

Escobar captura bem essa contradição. Em público, os EUA falam em segurança nacional, contenção e autonomia estratégica. Em privado, o mesmo ecossistema empresarial vai à Pequim pedir por negócios mútuos, fluxo, margem e continuidade.
A hipocrisia é antiga, mas agora está mais exposta do que nunca, porque o centro de gravidade econômico mudou. A China já não é apenas a fábrica do mundo; ela se tornou o árbitro de acesso a mercados, regulador de oportunidades, e definidora dos termos em que capitais estrangeiros podem operar dentro de seu domínio.
A guerra que falhou
Quando Escobar fala em fracasso americano, ele não está usando apenas retórica. Ele está apontando para uma sequência concreta de resultados desastrosos. A tentativa de conter a China pela privação tecnológica não impediu o avanço chinês em semicondutores e IA. A tentativa de cercar a economia chinesa por tarifas e sanções produziu contestação jurídica dentro dos próprios Estados Unidos. A tentativa de empurrar o mundo para uma divisão rígida entre blocos, não conseguiu evitar que grandes potências e grandes economias buscassem autonomia maior, inclusive por meio de arranjos como o BRICS, a cooperação sino-russa e redes comerciais menos dependentes do dólar.

A guerra contra o Irã, na leitura mais ampla de Escobar, também se conecta a isso. O esforço americano de controlar energia, rotas e gargalos estratégicos não resultou em domínio sustentável. Ao contrário, consolidou novas alianças e aprofundou a percepção de que os EUA operam mais por ruptura do que por estabilidade.
Nesse quadro, a China aparece como o oposto funcional do caos americano: previsibilidade, planejamento, interesse de longo prazo e recusa em transformar toda divergência em devastação sistêmica.
É por isso que Escobar fala com tanta ênfase sobre a transformação não vista em um século. Não se trata apenas de uma mudança de discurso. Se trata de uma inversão histórica de capacidade. O império que antes punia, isolava e ditava, agora busca a mesa de negociação para preservar lucros e linhas de produção. A potência que antes sofria pressão, agora escolhe o que abre, quando abre e em que condições abre.
A lição de Xi
A força da visita, na visão de Pepe Escobar, está também no contraste de estilos. Trump encarna a política do espetáculo, da intimidação e da improvisação. Xi encarna a linguagem da continuidade estratégica, da paciência e da escala civilizacional. Isso faz toda a diferença.
Quando Xi menciona que os dois países devem ser parceiros, ele não está adotando ingenuidade diplomática. Está deixando claro que a China prefere coexistência à guerra, mas não aceitará ser tratada como subordinada.

A referência à “armadilha de Tucídides” – feita à Trump por Xi – aparece nesse contexto como advertência e moldura, mas não como destino inevitável. Escobar lê nessa discussão uma disputa entre duas visões de mundo: uma potência ascendente que quer estabilidade para continuar crescendo, e uma potência hegemônica, em declínio relativo, que tenta compensar a sua perda de centralidade com coerção.
O problema é que a coerção já não produz os mesmos efeitos. O mundo aprendeu a resistir. E a China aprendeu a usar a pressão americana como argumento para fortalecer a sua própria arquitetura produtiva.
A visita de Trump à China, portanto, teve menos a ver com triunfo e mais com reconhecimento. Os EUA precisaram ir até a China, porque a China já não pode ser contornada. Quando um presidente americano leva CEOs, banqueiros e industriais para conversar com Pequim, ele está, na prática, aceitando que o centro decisório global deixou de estar exclusivamente em Washington. Pode ainda haver ruído, tarifas, teatro e ameaças, mas a direção do sistema já mudou.
O significado maior
Em termos geopolíticos, o que Escobar descreve é uma etapa avançada da passagem para a ordem multipolar. China, Rússia, Irã e os demais parceiros do BRICS são expressões diferentes de uma mesma erosão: a da capacidade americana de impor sozinho a sua vontade ao sistema mundial. Isso não significa uniformidade entre esses atores, nem ausência de conflitos entre eles. Significa, porém, que a velha centralização ocidental perdeu a naturalidade. Hoje, os EUA precisam barganhar mais, ameaçar mais. Mesmo assim convencem menos. E conseguem menos.
A China, por sua vez, parece confortável com a lentidão estratégica. Não precisa humilhar o adversário; basta deixá-lo perceber as suas próprias limitações.
A recepção a Trump, lida por Escobar, é um desses momentos em que o protocolo esconde uma mensagem duríssima: a China está aberta ao comércio, não à tutela; ao investimento, não à submissão; ao diálogo, não ao isolamento imposto de fora.

É nesse ponto que a metáfora de “prestar tributo” ganha sua a força editorial. Não no sentido literal, infantil ou caricatural, mas como descrição de uma assimetria real.
O que foi buscar Trump em Pequim? Continuidade de negócios, alívio comercial, espaço para os seus executivos em negócios, algum retorno político, e a chance de vender ao seu eleitorado a ideia de que ainda controla o tabuleiro. O que ele encontrou, entretanto, foi uma China segura de si, menos dependente e mais capaz de determinar o que será concedido e o que será negado.
A leitura de Pepe Escobar é dura: Trump não foi à China como vencedor, foi como alguém que precisa da China, mais do que a China precisa dele.
A visita cristaliza o esgotamento da fantasia americana de contenção unilateral e expõe a maturidade estratégica chinesa, num momento em que a ordem mundial já não cabe nas velhas molduras da Guerra Fria, ou da globalização subordinada.
Por trás da solenidade, há um recado simples: Os Estados Unidos é que precisaram atravessar o Pacífico para pedir espaço numa economia que já não gira ao seu redor.
Esse artigo foi baseado em:
- Trump, Xi begin Beijing talks with trade truce, Iran war at stake
- Trump arrives in Beijing with CEOs ahead of Xi meetings
- Trump taps Musk, Cook and other leaders for high-stakes China trade mission
- China’s new five-year plan calls for AI throughout its economy, tech self-reliance
- U.S. to kick off tariff refunds process next week
- Judge orders US Customs to process refunds on illegal Trump tariffs
- YouTube: Como Trump foi à China prestar tributo