John Mearsheimer critica a arrogância americana: “Quando você ouve Trump e Hegseth, eles falam dos iranianos como se fossem idiotas, e nós, os gênios estratégicos. Eu acho que isso não é o caso.” O professor lembra que o poder aéreo sozinho nunca derrubou um regime — nem o bombardeio de Tóquio em 1945, que matou mais pessoas, em uma noite, do que as bombas atômicas.
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Por PolitikBr I Brasília, Em 14/05/2026, 08h:20min, leitura: 12min
Editor: Rocha, J.C.
O professor John Mearsheimer, um dos mais influentes realistas políticos do mundo, não poupou críticas à arrogância da administração Trump. Em uma análise recente, Mearsheimer contrastou a forma como os iranianos têm conduzido a guerra — com inteligência, paciência e estratégia — com a maneira como os americanos falam sobre o Irã: como se fossem “um monte de idiotas” e os EUA fossem “gênios estratégicos”.“Eu acho que isso não é o caso“, disse Mearsheimer. “Estamos contra um adversário formidável.”


O professor também recorreu à história para lembrar um fato que os planejadores militares americanos parecem ter esquecido: o poder aéreo sozinho nunca derrubou um regime. Nem o bombardeio de Tóquio em 1945, que matou mais pessoas, em uma noite, do que as bombas de Hiroshima e Nagasaki, fez o Japão se render.
Foi a entrada da União Soviética na guerra. “O registro histórico é notavelmente claro sobre isso”, afirmou. “É difícil, se não impossível, conseguir mudança de regime usando apenas o poder aéreo.”
“Há 76 dias, os Estados Unidos e Israel se lançaram em uma guerra contra o Irã sob falsos pretextos. Os objetivos declarados — mudança de regime, fim do programa de enriquecimento de combustível nuclear, fim do programa de mísseis avançados, abandono pelo Irã do apoio à Grupos de Resistência ao sionismo, como o Hesbollah, o Hamas, os Houthis e outros e; mais recentemente, a re-abertura do Estreito de Ormuz — não foram alcançados.
As bases americanas por todo o Oriente Médio e radares de mais de US$ 1 bilhão foram destruídos. Caças F-35, F-15, drones Reaper, helicópteros e aviões de transporte de tropas foram abatidos. As defesas iranianas continuam ativas e “a inteligência militar dos EUA acredita que o Irã ainda tem recursos militares significativos” (NBC News) (PolitikBr)
Agora, enquanto Trump e Hegseth continuam repetindo que os EUA estão “vencendo”, John Mearsheimer oferece uma análise, que contrasta a realidade no terreno com a propaganda.


A Arrogância Americana vs. a Estratégia Iraniana
Mearsheimer começa destacando a diferença fundamental na forma como os dois lados veem o conflito.
“Quando você ouve a conversa entre Hegseth e Trump, eles falam sobre os iranianos como se fossem um monte de idiotas, e nós somos os gênios estratégicos, e não somente temos uma vantagem em poder material, nós, americanos, temos uma vantagem em como pensar estrategicamente. Eu acho que isso não é o caso.”
O professor contrasta essa arrogância com a abordagem iraniana. Enquanto Washington subestima Teerã, os iranianos vêm executando uma estratégia inteligente e metódica.
“Os iranianos estão perseguindo uma estratégia inteligente. […] O general Caine fez vários comentários sobre os iranianos, que dizem que ele respeita a sua habilidade de se estrategizar nesta guerra. Ele não é contemptuoso com os iranianos.”

O Arsenal Iraniano e a Capacidade de Infligir Danos
“A chave aqui é que o Irã tem um enorme arsenal de mísseis balísticos de curto alcance e drones que ela pode usar contra os estados do Golfo. E os estados do Golfo apresentam um ambiente rico em alvos. É fácil usar esses drones e mísseis balísticos de curto alcance para causar grandes danos a todos os países do Golfo, incluindo a Arábia Saudita.”
Além disso, o Irã possui mísseis de longo alcance e drones que podem atingir Israel – e vem atingindo, não somente durante a guerra de 12 dias, em 2025, assim como agora, após o ataque combinado dos EUA/Israel contra o Irã em 28 de fevereiro.
“Os iranianos também têm muitos mísseis de longo alcance, e drones de longo alcance, que podem atingir Israel.”
Mearsheimer observa que, na guerra de 12 dias em junho de 2025, o Irã lutou quase que exclusivamente contra Israel. Nesta guerra, o escopo se expandiu dramaticamente.
“Nesta guerra, eles estão atingindo Israel, as instalações militares americanas na região e os estados do Golfo. E na primeira parte da guerra, até agora, eles se concentraram principalmente em atacar as instalações americanas e os estados do Golfo. Mas eles anunciaram que agora estão começando a mudar de foco e vão se concentrar muito mais em atacar Israel.”
O Problema dos Estoques de Mísseis de Defesa
Um dos pontos mais críticos da análise de Mearsheimer é a questão dos estoques de mísseis de defesa.
“O problema que os israelenses enfrentam, e é claro que é um problema que os americanos enfrentam, é que nós só temos um número finito de mísseis de defesa que podem ser usados para derrotar esses mísseis balísticos. E mesmo quando usamos esses mísseis de defesa, eles geralmente não atingem o míssil balístico iraniano.”
E a situação piora com o tempo.
“Com o tempo passando, nossa capacidade de abater mísseis, de abater drones, diminui. Não aumenta. Diminui.”
Mearsheimer concluiu que os iranianos têm “um sério conjunto de opções militares contra nós”.
A Ilusão da Dominância na Escalada
Trump e Hegseth afirmam que os EUA têm a “dominância na escalada”. Mearsheimer discorda:
“Pete Hegseth e Donald Trump dirão que temos dominância na escalada enquanto subimos essa escada, mas eu não acho que isso seja verdade. Eu acho que os iranianos têm cartas poderosas para jogar e, portanto, estamos em uma situação realmente terrível.”
Por que os EUA Estão Contendo Israel?
Mearsheimer observa que há evidências de que os americanos estão “desencorajando os israelenses” de irem longe demais e rápido demais na escalada.

“Porque nós entendemos que os iranianos têm capacidade de segundo ataque. Os israelenses não se importam com isso, porque eles querem nos ver profundamente envolvidos nesta guerra e destruir o Irã. Eles querem que a gente arrase todas as cidades do Irã e destrua o país.”
Mas Trump, neste ponto, não quer seguir por esse caminho. A razão é simples: qualquer escalada americana será respondida pelo Irã.
“Se nós atacarmos a infraestrutura de energia do Irã, os iranianos atacarão mais e mais a infraestrutura de energia no Golfo. Se atacarmos as usinas de dessalinização, eles atacarão as usinas de dessalinização em lugares como a Arábia Saudita e em Israel.”
Mearsheimer observa que Israel tem “quatro ou cinco grandes usinas de dessalinização das quais dependem muito”, e os iranianos serão incentivados a destruí-las se seus próprios alvos forem atacados.
Saiba mais:
- A TRÍADE DA DISSUASÃO: O Irã Já Tem a Bomba? Jiang, Postol e Mearsheimer Convergem para o Mesmo Alerta
- EARSHEIMER: “Trump Foi Enganado por Netanyahu e pelo Mossad. A Estratégia era Fadada ao Fracasso.”
Vamos lembrar, para fins de contexto, que a dependência de água potável pelo Irã, obtida por usinas de dessalinização, é de somente 2 a 3% das necessidades do país. Ao contrário do Kwait, dos Emirados árabes Unidos, do Catar, da Arábia Saudita. E também de Israel.
A Lição da História: Poder Aéreo Sozinho Não Funciona
Mearsheimer recorre à história para lembrar um fato que os planejadores militares americanos parecem ter esquecido.
“Existe algum exemplo de uma campanha aérea que derrubou um governo? Eu acho que não.”
Ele descreve o bombardeio de Tóquio, com bombas incendiárias, em 10 de março de 1945:
“Na primeira noite que bombardeamos Tóquio — 10 de março — matamos mais japoneses do que foram mortos em Hiroshima ou Nagasaki. Apenas pense nisso. Foi a primeira noite que atacamos Tóquio. E então fomos descendo a lista das grandes cidades japonesas, assassinando enormes quantidades de pessoas. É realmente notável. E os japoneses não se renderam.”

Os japoneses só se renderam em agosto — e não por causa das bombas atômicas, argumenta Mearsheimer, mas por causa da entrada da União Soviética na guerra.
“Acredito que foi a decisão soviética de atacar o Japão em 8 de agosto (1945) — que é entre as duas bombas, em 6 e 9 de agosto — que é o fator crítico que fez os japoneses desistirem.”
A conclusão de Mearsheimer é inequívoca:
“A campanha de bombardeio de fogo não funcionou. E isso apoia o ponto básico que estou fazendo: você pode matar — e isso é realmente matar, porque você está deliberadamente alvejando civis — você pode matar números enormes de civis, e isso não funciona. O registro histórico é notavelmente claro sobre isso.”
Nesse ponto, acho que podemos fazer um paralelo de abordagem entre os Russos e os Americanos: A Operação Militar Especial Russa na Ucrânia, que já está em seu quarto ano, mostra que os russos não conseguiram, ainda pelo menos, fazer capitular os Ucranianos, apesar do intenso bombardeio aéreo usando aviões, drones de ataque e mísseis balísticos avançados, como o Iskander e o Tzircon. Mas lá, diferentemente do caso do Irã, os Russos fizeram a “lição de casa de história”.


Lá, no terreno, os Russos estão com as “botas” no chão, e já anexaram entre 25 a 30% do território ucraniano à República Federativa Russa. Mesmo que se chegue a um acordo de paz amanhã, eles já teriam saído vencedores, diante desse formidável espólio. Além, obviamente, da não adesão à OTAN da Ucrânia.
O que os EUA estão, de fato, ganhando com a guerra contra o Irã? Nada. Nenhum dos objetivos traçados por Netanyahu – REVELAÇÃO: Netanyahu Traçou o Plano de Guerra Contra o Irã na Casa Branca – foram alcançados.
Mearsheimer aplica essa lição ao Irã:
“E aqui estamos nós, no Irã. Não vamos enviar forças terrestres. Vamos depender do poder aéreo. Vamos bombardear. Vamos bombardear o Irã e vencer a guerra. Vamos promover mudança de regime sem enviar forças terrestres. Vamos fazer isso através do ar. O registro histórico mostra claramente que isso é quase impossível de fazer. Sem um milagre — e eu não acredito em milagres — é difícil ou impossível conseguir mudança de regime usando apenas o poder aéreo.”
Ele lembra o que foi necessário para derrubar Saddam Hussein no Iraque:
“Você tem que colocar botas no chão. Foi o que fizemos no Iraque. Tivemos que invadir o Iraque para conseguir mudança de regime. E se você quer mudança de regime no Irã, você vai ter que invadir aquele país. E isso não vai acontecer. O país é muito grande, há muitas pessoas – 90 milhões -, e, além disso, nós já estivemos lá antes. Isso não funciona muito bem. E até mesmo Donald Trump é inteligente o suficiente para saber que enviar um exército para o Irã seria uma receita para o desastre.”
A Resiliência Iraniana: Por que os Iranianos Não se Renderão
Mearsheimer também aborda a questão da resistência da população iraniana. Ao contrário do que Trump e Hegseth imaginam — que matar civis iranianos – crimes de guerra – forçará o regime a desistir — Mearsheimer argumenta o oposto.
“O que acontece na maioria, se não em todos esses casos, é que a população se une em torno da bandeira. Então, se nós pensamos, ou se os israelenses pensam, que matar civis iranianos vai pressionar o governo a desistir da guerra, eu acho que isso é um pensamento equivocado. Nós tentamos isso no Vietnã. Nós tentamos isso na Coreia. Se você olhar o que fizemos com a Coreia do Norte durante a Guerra da Coreia, é horrível. É muito pior do que o que fizemos no Vietnã. E não funcionou.”
A Estupidez de Subestimar o Inimigo
A análise de Mearsheimer é um lembrete de que a guerra não se vence com arrogância. Os iranianos não são “um monte de idiotas”. São herdeiros de uma civilização de 5.000 anos. Têm uma estratégia. Têm paciência. Têm capacidade de infligir danos.
E, como Mearsheimer argumenta, os EUA estão contra “um adversário formidável”.
A História Não Mente
Mearsheimer recorreu à história para mostrar que o poder aéreo sozinho nunca derrubou um regime. Nem o bombardeio de Tóquio em 1945. Nem o bombardeio do Vietnã. Nem o bombardeio da Coreia.
E, no entanto, a administração Trump persiste na ilusão de que bombas podem vencer uma guerra contra um país de 90 milhões de pessoas, com uma história milenar de resistência a invasores.

Os iranianos não se renderão. Não importa quantas bombas caiam. Não importa quantas sanções sejam impostas. Não importa quantas ameaças sejam feitas.
A história não mente. E Mearsheimer está aqui para nos lembrar disso.
Esse artigo foi baseado em:
- YouTube: Iran’s GRAND STRATEGY (w/ John Mearsheimer) (13/05/2026)
- PolitikBr: A TRÍADE DA DISSUASÃO (12/05/2026)
- PolitikBr: O IMPASSE DE ORMUZ (05/05/2026)
- PolitikBr: NUREMBERG: Mearsheimer Diz que Trump, Biden e Netanyahu Seriam Enforcados por Genocídio (14/04/2026)