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MEARSHEIMER: “Trump Foi Enganado por Netanyahu e pelo Mossad. A Estratégia era Fadada ao Fracasso.”

Internacional, Geopolítica, Economia, Política

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Por PolitikBr I Brasília, Em 29/04/2026, 17h:10, leitura: 11 min

Editor: Rocha, J.C.

O professor John Mearsheimer, um dos mais influentes analistas em geopolítica do mundo, não usou meias palavras ao analisar a guerra contra o Irã, em entrevista ao Juiz Andrew Napolitano. Para Mearsheimer, a derrota estratégica americana não foi um acidente — foi a consequência inevitável de uma campanha desastrosa que os próprios conselheiros de Trump alertaram ser “absurda”. “Praticamente todos os conselheiros do presidente Trump disseram a ele que essa ideia era absurda”, afirmou Mearsheimer. “A única possível exceção é Pete Hegseth. Mas Pete Hegseth não é considerado um estrategista sério.”

O presidente, no entanto, foi enganado por Benjamin Netanyahu e pelo chefe do Mossad, David Barnea, que o convenceram de que uma campanha de “choque e pavor”, baseada na decapitação do regime iraniano, produziria uma vitória rápida e decisiva. “Não há nenhum registro histórico de uma campanha aérea, por si só, ter derrubado um regime e isso resultar em um desfecho favorável para quem a realizou”, disse Mearsheimer. “Simplesmente não funciona.”

Provavelmente, é pela razão explicada por Mearsheimer, que a Operação Militar Especial Russa segue indefinida. Ela foi iniciada em 24/02/2022 – 4 anos – e a Ucrânia não se rendeu, apesar da destruição generalizada da sua infra estrutura crítica, da clara superioridade aérea, de mísseis, drones, e tudo o mais que os Russos tem utilizado. Entretanto, Putin sabia que sem uma incursão terrestre seria inimaginável se derrotar os ucranianos. Uma visão que Trump não teve ao atacar o Irã.

Há 61 dias, os Estados Unidos e Israel se lançaram em uma guerra contra o Irã sob falsos pretextos. Os objetivos declarados — mudança de regime, fim do programa de enriquecimento de combustível nuclear, fim do programa de mísseis avançados, abandono pelo Irã do apoio à Grupos de Resistência ao sionismo, como o Hesbollah, o Hamas, os Houthis e outros e; mais recentemente, a re-abertura do Estreito de Ormuz — não foram alcançados. As bases americanas por todo o Oriente Médio foram destruídas. Radares de mais de US$ 1 bilhão destruídos. Caças F-35, F-15, drones Reaper, helicópteros e aviões de transporte de tropas foram abatidos. As defesas iranianas continuam ativas e “a inteligência militar dos EUA acredita que o Irã ainda tem recursos militares significativos” (NBC News).

Agora, em meio ao “cessar-fogo eterno” e à consolidação do controle iraniano sobre o Estreito de Ormuz, o professor John Mearsheimer oferece a análise mais realista sobre como e por que os Estados Unidos perderam esta guerra.

A Estratégia Fadada ao Fracasso

Mearsheimer, coautor do influente livro “O Lobby de Israel” e um dos mais respeitados acadêmicos da Universidade de Chicago, disse:

“Os israelenses convenceram o presidente Trump de que, se nós e eles atacássemos o Irã com uma campanha de choque e pavor, tendo como ponto central dessa ofensiva uma estratégia de decapitação, tudo mudaria. Acreditavam que isso faria o regime colapsar e permitiria instalar um novo governo que obedeceria aos nossos interesses. E diziam que seria algo muito fácil de realizar, com uma vitória rápida e decisiva para nós.”

O martírio que incendiou o Oriente Médio

O problema, como Mearsheimer aponta, é que essa estratégia nunca funcionou na história.

“Não há nenhum registro histórico de uma campanha aérea, por si só, ter derrubado um regime e isso resultar em um desfecho favorável para quem a realizou. Simplesmente não funciona. Não é possível usar apenas o poder aéreo para provocar uma mudança de regime e vencer uma guerra em poucos dias ou em uma semana.”

Os Conselheiros Alertaram — Trump Ignorou

Mearsheimer revelou que, praticamente, todos os principais conselheiros do presidente o alertaram contra a estratégia israelense.

“É importante lembrar que praticamente todos os conselheiros do presidente Trump disseram a ele que essa ideia era absurda. A única possível exceção é Pete Hegseth. Mas Pete Hegseth não é considerado um estrategista sério. E eu nem acredito que o próprio Trump o leve tão a sério.”

Os conselheiros que se opuseram incluíam figuras de peso da segurança nacional americana:

  • O general Dan Caine (presidente do Estado-Maior Conjunto), escolhido pessoalmente por Trump, informou ao presidente, em diversos momentos, que: “não tínhamos capacidade para alcançar os objetivos que ele buscava”. Caine também alertou que, caso se entrasse em guerra com o Irã, acabaria se esgotando o estoque de armas especializadas — e é exatamente onde os EUA está agora.
  • O diretor da CIA, John Ratcliffe,
  • O vice-presidente J.D. Vance,
  • O secretário de Estado Marco Rubio.

Todos foram contra…

Mearsheimer observou que tanto Rubio quanto Vance, por terem ambições presidenciais para 2028, sempre estão em uma posição delicada.

Ambos desejam ser presidente dos Estados Unidos, então querem manter-se bem com Donald Trump e também com Israel. De certa forma, estão presos. Existem limites claros para o que podem fazer.”

O General Caine: Uma Figura Admirável

Mearsheimer fez questão de elogiar a postura do general Dan Caine, que muitos criticam, mas que, na sua opinião, demonstrou “um comportamento admirável”.

“Caine, escolhido pessoalmente por Trump para presidir o Estado-Maior Conjunto, informou Trump em diversos momentos que não tínhamos capacidade para alcançar os objetivos que ele buscava. Além disso, Caine alertou que, caso entrássemos em guerra com o Irã, acabaríamos esgotando nosso estoque de armas especializadas. E chegaríamos a um ponto extremamente perigoso. E, claro, é exatamente onde estamos agora.”

A falta de armamentos é uma das principais razões para os EUA não retomarem aos bombardeios – o que favorece o Irã. Se dá conta que os EUA gastaram até aqui mais de 1.000 mísseis Tomahawk e até 2.000 mísseis de defesa aérea, incluindo os sofisticados THAAD e Patriot. O reabastecimento total desses arsenais, segundo o Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais (CSIS), pode levar até seis anos.

A Visita de Araghchi a Moscou: Aliança Consolidada

Mearsheimer também analisou a visita do chanceler iraniano Abbas Araghchi à São Petersburgo, onde foi recebido pessoalmente pelo presidente Vladimir Putin.

“Quando Araghchi vai a São Petersburgo para conversar com Putin, e eles têm uma longa reunião, isso mostra claramente o vínculo estreito que se formou entre os dois lados. Há diversas evidências de que os russos estão ajudando os iranianos em várias frentes — no uso de drones e mísseis balísticos contra forças dos EUA, de Israel e dos países do Golfo.”

Mearsheimer destacou que os russos estão fornecendo dados de satélite, em tempo real, e chips de computador para os drones e mísseis iranianos, tornando-os “extremamente precisos”.

“Portanto, enfrentamos uma força de combate muito poderosa no Golfo, em grande parte devido ao apoio dos russos aos iranianos.”

O analista notou que tanto os russos quanto os iranianos parecem “otimistas e até animados”.

“Acredito que, em ambos os casos, eles percebem que os americanos estão em desvantagem, que enfrentamos sérios problemas, tanto no Oriente Médio quanto na Ucrânia. E que, de muitas formas, eles é que estão no controle da situação.”

A Nova Proposta Iraniana: Paz Primeiro, Depois Ormuz, Depois o Nuclear

Mearsheimer revelou que o Irã apresentou uma nova proposta de três pontos que inverte completamente a ordem das prioridades americanas.

“Eles afirmam que, antes de tudo, é preciso alcançar uma paz real. É necessário encerrar esse conflito. E deve haver alguma garantia de que os Estados Unidos e Israel não atacarão o Irã novamente. Essa é a primeira exigência. A segunda é que, depois disso, discutirão sobre o Estreito de Hormuz. E, claro, está muito evidente que eles vão manter o controle do Estreito de Hormuz pelo tempo que conseguirem enxergar. Portanto, eles não vão fazer nenhuma concessão para nós nesse ponto. E, em terceiro lugar, estarão dispostos a discutir a questão nuclear.”

Os americanos querem o oposto: priorizar a questão nuclear. Mas, como Mearsheimer observa, “os iranianos se sentem cada vez mais confiantes em sua posição”.

“Como já disse várias vezes, o tempo está a favor do Irã. Na minha visão, não há pressa para o Irã fechar um acordo. Basta esperar e deixar que as consequências econômicas desta guerra se manifestem. Isso vai aumentar cada vez mais a pressão sobre os americanos para negociar, dando ao Irã mais poder de barganha.”

Rubio e Vance: Por que se Mantêm Fora das Negociações

Mearsheimer fez uma observação perspicaz sobre o comportamento de Marco Rubio e J.D. Vance:

“Há dois membros do governo que querem muito ser presidente em 2028. Um é Marco Rubio e o outro é J.D. Vance. Ambos sabem que ao se envolver nessas negociações, no final das contas, você vai acabar cedendo bastante aos iranianos, porque neste momento o Irã está comandando as negociações. Basicamente, perdemos essa guerra.”

Qualquer concessão feita por Rubio ou Vance seria usada contra eles pelo lobby israelense em 2028.

“Se você fizer essas concessões, sendo o responsável por elas, vai enfrentar forte pressão do lobby israelense. Você vai ter problemas com o lobby e isso vai dificultar muito a sua chance de se tornar presidente. Portanto, pode ter certeza de que J.D. Vance não tem interesse algum em ir a Islamabad para liderar negociações com os iranianos.”

A Possibilidade Nuclear: Israel e Rússia

Mearsheimer alertou para a possibilidade de Israel usar armas nucleares contra o Irã — e de a Rússia fazer o mesmo na Ucrânia. Entretanto, Mearsheimer não cita na entrevista, que na opinião de especialistas americanos – A Iminência de Um Ataque Nuclear Israelense ao Irã e a Provável Resposta Nuclear Iraniana – , o Irã já possa ter alcançado a dissuasão estratégica nuclear.

Theodore Postol alerta que o Irã possui cerca de 450 quilos de urânio enriquecido a 60%. E que em poucos dias, o urânio pode – ou já foi – enriquecido para 90% (grau militar), suficiente para fabricar pelo menos 10 ogivas nucleares de 15 quilotons cada — o poder de destruição da bomba de Hiroshima. Essas ogivas podem ser montadas em mísseis hipersônicos, contra os quais, como o próprio Postol demonstra, não há defesa possível.

Portanto, a pergunta não é se o Irã pode ter a bomba, mas quando decidirá tê-la, se já não a tem. E tudo indica que a decisão já foi tomada. Starr especula que um teste nuclear no deserto iraniano, pode ser um aviso a Israel. Assim, a dissuasão nuclear postulada pelo próprio Mearsheimer estaria estabelecida.

Mas a esse respeito, nessa entrevista, Mearsheimer diz:

“É importante entender que, se Israel usasse armas nucleares contra o Irã, o Irã não teria capacidade de revidar. E se a Rússia utilizasse armas nucleares dentro da Ucrânia, os ucranianos não teriam como responder. Portanto, estamos diante de uma situação extremamente perigosa.”

O analista mencionou o estrategista russo Sergei Karaganov, que defende o uso demonstrativo de armas nucleares contra o Ocidente.

“Karaganov defende que, ao usar algumas armas nucleares contra o Ocidente, a mensagem será transmitida de forma clara, levando-os a parar imediatamente de apoiar a Ucrânia.”

Mearsheimer não está prevendo o uso nuclear, mas alertou: “não se deve subestimar as medidas radicais que os estados podem tomar se se sentirem desesperados”.

Mearsheimer fala isso pois, segundo ele, nessa fase da guerra do Ocidente Coletivo/Ucrânia x Rússia, cada vez mais os ucranianos estão infringindo danos aos Russos, mesmo a grande profundidade em território Russo, o que tem levado a que a opinião pública, e os apoiadores de Putin, pressionem o presidente para o fim das hostilidades. Nesse caso, o uso de um artefato nuclear tático provavelmente levaria a Ucrânia à rendição.

Um Futuro Sombrio

Mearsheimer é pessimista sobre o futuro.

“O futuro aqui é sombrio. E, por sinal, o futuro na Europa também não é nada animador. O futuro no leste asiático também é preocupante. Conseguimos complicar completamente a arquitetura de segurança global.”

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