Putin, o BRICS e a Nova Arquitetura Global: A Cúpula de Nova Délhi e a Reconfiguração do Poder Mundial

Principais entregas deste artigo:

  • A declaração de Putin sobre a participação do BRICS no PIB global (mais de 40%) em contraste com o G7 (29%).
  • A crítica de Putin ao uso de instrumentos de coerção econômica e ações físicas diretas pelo Ocidente.
  • O avanço do BRICS Pay como infraestrutura de pagamentos alternativa ao sistema SWIFT.
  • O papel ampliado do Novo Banco de Desenvolvimento (NDB), presidido por Dilma Rousseff.
  • A expansão do BRICS para 11 membros plenos e 10 países parceiros, e a crescente fila de nações interessadas.
  • A reunião de Putin com Dilma Rousseff e o apoio russo à ampliação da participação no NDB.

Internacional, Nacional, Política, Economia, Geopolítica

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Por PolitikBr I Brasília, Em 13/09/2026, 08h:25min, leitura: 10min

Editor: Rocha, J.C.

Essa é uma análise documental. Para visualizar “o todo” recomendamos a leitura dos demais artigos e publicações relacionadas, que se somam ao tema de hoje. Boa leitura.

A XVIII Cúpula do BRICS, realizada em Nova Délhi (Índia), nos dias 12 e 13 de setembro de 2026, não é um evento diplomático protocolar.

Alguns dos focos da Cúpula, como não poderia deixar de ser, são os conflitos da Rússia x Ocidente Coletivo (Ucrânia) e a guerra de agressão dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã.

É o palco onde o presidente da Rússia, Vladimir Putin, explicitou, com a frieza de quem já não se submete às narrativas hegemônicas, o deslocamento tectônico que redefine a economia e a geopolítica mundial. O mundo, como disse um analista à Sputnik Brasil, “é outro”.

Putin chegou à capital indiana na noite de 10 de setembro (madrugada de 11 em Nova Délhi) e, já no primeiro dia, cumpriu uma agenda que, por si só, desmentia a tese do isolamento russo: Ele se reuniu com os chefes de Estado da África do Sul, Egito e Malásia, além do primeiro-ministro indiano, Narendra Modi. Não era um líder cercado, mas um articulador em um fórum que, segundo as suas próprias palavras, se consolidou como “a maior associação do mundo”.

A propósito. Se o objetivo das milhares de sanções e confisco dos ativos russos era estrangular economicamente a Rússia, isso saiu bem errado. Os russos foram acolhidos pelos países do sul global, fracassando as sanções internacionais, e ainda fomento a busca por alternativas ao dólar. Um tiro no pé dos americanos e europeus ao confiscarem bens russos.

O Dado que Desmonta a Ficção

O momento central de Putin foi a sua participação no Fórum Empresarial do BRICS. Ali, Putin não fez discurso genérico. Ele apresentou um número que, por si só, desqualifica a pretensão ocidental de representar a “comunidade internacional”:

“Mais de 40% do PIB mundial foi produzido pelos Estados do BRICS, enquanto a contribuição do G7 foi de apenas 29%. Eu não entendo por que eles chamam isso de G7. No mesmo período, quase metade do crescimento da economia mundial foi proporcionada pelos países da nossa associação, enquanto a participação do G7 foi de apenas 18%.”

A fala é um libelo. Não se trata de uma projeção, mas de um balanço de cinco anos. A referência ao “assim chamado G7” não é mera provocação retórica; é o reconhecimento de que o clube das economias industrializadas, autoproclamado diretório mundial, se tornou uma minoria economicamente superada. A conclusão que se impõe é que a governança global, ancorada em instituições criadas no pós-guerra, ignora a realidade de que o motor da economia mundial já não está em Washington, Londres ou Berlim, mas em Pequim, Nova Délhi, Moscou, Brasília.

A Crítica à Coerção e a Defesa da Cooperação

Putin não se limitou a números. Ele foi realista ao diagnosticar o modus operandi daqueles que perderam a hegemonia:

“Os concorrentes ocidentais estão tentando recuperar a sua antiga posição de liderança por qualquer meio necessário. A competição hoje assumiu dimensões desagradáveis. Passos estão sendo dados para destruir instalações industriais e logísticas e oleodutos. Tentativas estão sendo feitas para bloquear corredores de transporte internacionais e apreender embarcações.”

Recado mais que direto aos europeus, em especial aos ingleses, fornecendo drones de longo alcance aos ucranianos, para ataques em profundidade na Rússia e, aos Estados Unidos, em seu bloqueio naval e a sabotagem ao Nord Stream 2. Aliás, a energia dos EUA bate recordes de preços. O óleo diesel bateu a marca histórica de US$ 6.00 por galão, um presente de Trump aos americanos.

Putin também fez menção às sanções que, segundo ele, já somam mais de 30 mil contra a Rússia — “quase o dobro do que foi imposto a todos os países do mundo juntos”.

O Ocidente, que se apresenta como guardião da ordem baseada em regras, recorre à destruição física e à coerção econômica para manter uma posição que já não sustenta.

Putin, em contra ponto às ações destrutivas e coercitivas do Ocidente, ofereceu a visão alternativa do BRICS. Em suas palavras, o grupo “não é contra ninguém”, mas “a favor de nossos interesses”. E acrescentou:

“É evidente que uma parceria econômica sólida e laços comerciais confiáveis constituem a base das relações internacionais sob muitos aspectos, tornando-as mais estáveis e permitindo superar muitos dos fenômenos de crise que o mundo moderno enfrenta”.

A elegância da formulação não esconde sua radicalidade: Ele propõe uma ordem internacional em que a soberania e o interesse nacional não são concessões, mas fundamentos. Saudemos a isso.

A Infraestrutura da Soberania: NDB e BRICS Pay

As proposições de Putin encontraram respaldo concreto na agenda da cúpula. Um dos eixos centrais foi o fortalecimento da arquitetura financeira do bloco. O Novo Banco de Desenvolvimento (NDB), presidido por Dilma Rousseff (ex-presidenta do Brasil), deve ter o seu papel ampliado, com foco na mobilização de capital privado para infraestrutura e no financiamento de projetos prioritários.

Putin se reuniu com Dilma à margem da cúpula e foi explícito em seu apoio:

“Apoiamos o envolvimento do maior número possível de participantes em seu trabalho, e que seus programas sejam mais amplos em escopo, cobrindo um maior número de setores econômicos, dentro dos países membros do BRICS.”

Dilma, por sua vez, retribuiu o tom, afirmando que a participação russa no NDB é “vitalmente importante – tanto para fortalecer o Sul Global quanto para a organização do BRICS como um todo”. A fala da presidenta do banco é um reconhecimento de que a instituição, criada para ser uma alternativa ao Banco Mundial e ao FMI – mecanismos financeiros de dominação do Ocidente – , precisa de capital político e financeiro para cumprir o seu papel. E a Rússia, mesmo sob sanções, é um pilar desse esforço.

A outra ponta dessa infraestrutura é o BRICS Pay. A plataforma de pagamentos digitais, que visa conectar os sistemas nacionais de pagamentos instantâneos dos países membros — como o Pix brasileiro e o UPI indiano —, avançou na agenda da cúpula. O objetivo é permitir transações transfronteiriças em moedas locais, sem a mediação do dólar, e sem a dependência do sistema SWIFT, controlado pelos Estados Unidos.

O CEO do BRICS Pay, Andrey Mikhaylishin, foi claro ao afirmar que a plataforma “está sendo desenvolvida como um ecossistema de pagamentos aberto, que pode conectar a infraestrutura de pagamento nacional”. E, em um aceno para desarmar as críticas ocidentais, frisou que o sistema “não foi projetado para substituir o dólar americano”. A ressalva é diplomática, mas o efeito prático é o mesmo: cada transação em moeda local que dispensa o dólar e o SWIFT é um tijolo a menos no muro da hegemonia financeira americana. Isso é mais que óbvio.

A Expansão como Termômetro

O BRICS que se reune em Nova Délhi já não é o grupo de cinco países que se encontrou pela primeira vez em 2009. Hoje, são 11 membros plenos — Brasil, Rússia, Índia, China, África do Sul, Egito, Etiópia, Irã, Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos e Indonésia — e 10 países parceiros, incluindo Belarus, Bolívia, Cuba, Cazaquistão, Malásia, Nigéria, Tailândia, Uganda, Uzbequistão e Vietnã.

Mais revelador do que a lista atual é a fila de espera. Mais de 30 países buscam adesão plena ou status de parceiro, incluindo a Turquia, membro da OTAN. A expansão não é um capricho diplomático; é a expressão de uma demanda real por um espaço de articulação e de negócios, que não esteja subordinado às prioridades estratégicas de Washington.

O BRICS se tornou atraente não por sua coesão ideológica — que é inexistente —, mas por sua promessa de multipolaridade prática: um fórum onde potências médias e grandes economias emergentes podem negociar sem a tutela de um hegemon.

O Significado do Momento

A cúpula de Nova Délhi ocorre em um contexto de tensões globais agudas: a guerra na Ucrânia, a escalada no Oriente Médio, a rivalidade tecnológica entre os EUA e a China. O agudo empobrecimento da Europa. Nesse cenário, o BRICS não se apresenta como um bloco militar ou uma aliança ideológica, mas como um mecanismo de coordenação econômica e política que oferece uma alternativa à ordem unipolar.

Putin sintetizou essa visão ao afirmar que “o sistema unipolar de relações internacionais, que servia aos interesses de um grupo restrito de países, está ficando para trás. O equilíbrio de poder está mudando em favor dos novos centros de crescimento no Sul Global e no Leste”. A frase não é uma previsão; é a constatação de um fato demográfico e econômico. A questão que se coloca não é se a ordem global mudará, mas como as potências ocidentais reagirão à sua própria irrelevância relativa.

A resposta de Putin, e do BRICS, é clara: a mudança não precisa ser conflituosa, mas será inexorável. E aqueles que insistirem em manter a hegemonia pela força — seja destruindo gasodutos, seja impondo sanções, seja apreendendo navios — apenas acelerarão o processo de seu próprio declínio.

Nota ao leitor: 

Este artigo buscou compilar, em uma análise única e aprofundada, os elementos factuais e contextuais que cercam as declarações do presidente Vladimir Putin na XVIII Cúpula do BRICS, em Nova Délhi, e os desdobramentos correlatos sobre a arquitetura financeira e a expansão do bloco. As fontes utilizadas são públicas e estão devidamente listadas para sua verificação.

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