O presidente iraniano Masoud Pezeshkian expõs, com clareza, a engrenagem que transforma países irmãos em adversários: bases militares americanas, armas vendidas para o medo, e petróleo que não pertence à Washington.
Principais entregas deste artigo:
- A fala de Pezeshkian que redesenha o mapa do conflito
- O que os Emirados Árabes Unidos representam para o Irã
- As bases militares dos EUA como instrumento de controle regional
- A suspensão do comércio entre os Emirados e o Irã em agosto de 2026
- O BRICS como foro de contenção e a Declaração de Nova Délhi
- A Nova Arquitetura Global e o declínio do unipolarismo
Internacional, Nacional, Política, Economia, Geopolítica
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Por PolitikBr I Brasília, Em 13/09/2026, 13h:48min, leitura: 9min
Editor: Rocha, J.C.

Essa é uma análise documental. Para visualizar “o todo” recomendamos a leitura dos demais artigos e publicações relacionadas, que se somam ao tema de hoje. Boa leitura.
Na entrevista que o presidente do Irã concedeu ao India Today, no Âmbito da Cúpula do Brics, ele não atacou os Emirados Árabes Unidos. Ele não ameaçou Abu Dhabi. Ele simplesmente disse o que todos já sabem há muito tempo: nomeou o verdadeiro inimigo.
“Não temos problemas com os Emirados Árabes Unidos. Não temos problemas com nenhum dos países regionais. Temos um problema com as bases americanas localizadas nestes países e a partir das quais atacam o nosso país.”
A frase, em sua simplicidade, contém uma geopolítica inteira. Os Emirados não são o problema. O problema são as instalações militares que Washington mantém em solo emiradense — Al Dhafra, Al Minhad — e que, segundo o presidente iraniano, são usadas para lançar ataques contra o Irã. Pezeshkian não fez uma acusação velada; fez uma acusação explícita, com endereço.
E foi além. Ele descreveu os emiradenses como “irmãos”, com quem o Irã “convive há muito tempo”, com quem “tem comércio” e “apoio mútuo”. A frase seguinte, porém, é a síntese da política que os EUA praticam mundo afora: coerção, coação, corrupção e assassinatos diretos ou encomendados.
“Então estes são os EUA que vieram aqui e estabeleceram bases e a partir dessas bases martirizam os nossos filhos.”
O verbo “martirizar” carrega uma densidade que o inglês padrão não captura. É a linguagem do luto religioso, da perda que se transforma em testemunho. Pezeshkian não está descrevendo uma baixa militar; ele está descrevendo um filho morto. As crianças assassinadas em Minab. E ele atribui a autoria ao hóspede, que os países do Golfo mantêm em suas casas.
Pezeshkian pergunta, então, por que os Emirados permitem que o seu território seja usado como plataforma de violência contra um país irmão. A frase que resume essa arquitetura moral é:
“Na verdade, o problema é que os países amigos e vizinhos não devem permitir que inimigos utilizem seu solo para atacar nosso país.”
A palavra “inimigos” não é um descuido retórico. Pezeshkian não diz “os americanos” — ele diz os “inimigos”. Ao fazê-lo, ele redefine a relação triangular: Irã e Emirados não são inimigos; os Emirados e o Irã têm um inimigo comum, que se instalou entre eles. A pergunta, de fato, é: se somos – países – irmãos, por que abrigamos quem nos quer separados?
E a resposta que Pezeshkian oferece não é a da resignação, mas a da denúncia:
“São os EUA que não querem que isso aconteça.”
Aqui está o coração do artigo. Não é uma questão de divergência de interesses entre Teerã e Abu Dhabi. É uma questão de um terceiro ator — Washington — cuja presença militar e cuja política de “dividir para reinar” impedem uma reaproximação que, de outro modo, seria natural. Pezeshkian explicita o mecanismo:
“Eles querem utilizar nossos reservatórios de petróleo da região e, em vez disso, estão vendendo armas e mísseis para os países da região, para nos assustar uns com os outros, e nos colocar uns contra os outros.”
A lógica é a da venda do medo, depois a venda a arma (o lobby armamentista americano é tão poderoso quanto o lobby sionista em Washington), e finalmente o controle da principal fonte mundial de energia – o petróleo.
O encontro com o príncipe herdeiro de Abu Dhabi, Khaled bin Mohamed bin Zayed, ocorrido ontem, 12 de setembro, à margem da cúpula, foi o primeiro contato direto de alto nível entre os dois países, desde o início do conflito em fevereiro de 2026.
O gesto não é trivial. Em agosto, Abu Dhabi havia suspenso todas as transações comerciais e financeiras com Teerã se somando ao cerco econômico que os EUA começaram a impor ao Irã – um gesto de alinhamento à Trump. A desculpa foi que o Irã havia lançado, segundo o governo emiradense, 3.300 mísseis e drones contra o país. A confiança, como disse o assessor presidencial emiradense Anwar Gargash, é “uma montanha a escalar”.
Mas foi justamente essa montanha que os dois líderes começaram a escalar em Nova Délhi. A cúpula do BRICS, que reuniu os 11 membros do bloco ampliado — incluindo o Irã e os Emirados —, forneceu o palco e, mais importante, a pressão institucional para que ambos os países encontrassem uma linguagem comum.
A Declaração de Nova Délhi, adotada por unanimidade, expressa “profunda preocupação” com a escalada no Oriente Médio e pede “máxima contenção” e proteção à infraestrutura civil. Não é um documento que resolve conflitos. É um documento que impede que eles se aprofundem dentro do bloco.
O BRICS, aqui, funciona como o que sempre foi: um espaço onde países que não se toleram fora dele, se veem obrigados a se tolerar dentro dele. Não por amor, mas por interesses. A declaração não menciona o Irã e nem os Emirados pelo nome — e essa omissão é, ela própria, um triunfo diplomático.
Na entrevista, Pezeshkian não se limitou à questão regional. Ele conectou o conflito com a agenda mais ampla que o BRICS vem construindo desde pelo menos 2023: a desdolarização. Ele defendeu que o Novo Banco de Desenvolvimento — o NDB — possa facilitar transações entre os membros sem a dependência do dólar. E foi além: disse que o objetivo é “erradicar o unilateralismo” e construir um mundo onde os países “interajam entre si” e “prossigam de forma independente”. E todas as demais lideranças do BRICS falam a mesma coisa: O presidente Lula, Putin, Xi Jinping, Cyril Ramaphosa, Narendra Modi. Todos estão alinhados com esses mesmos objetivos.
E é aqui que o artigo anterior do PolitikBr – sobre Putin e a Nova Arquitetura Global – encontra o seu complemento natural . Se Putin falou da multipolaridade como horizonte, Pezeshkian falou do que a multipolaridade significa: um presidente iraniano dizendo, em Nova Délhi, que os Emirados são irmãos e que o problema são as bases americanas em seu território.
A pergunta que se impõe, ao final, é se Pezeshkian está sendo sincero ou estratégico. A resposta é: provavelmente ambos. Ao nomear as bases americanas como o problema, ele desloca a culpa. Ao falar de “irmãos”, ele apela a uma identidade regional que Washington não pode oferecer.
Os Emirados, por sua vez, também têm a ganhar. A suspensão do comércio com o Irã está custando caro à Dubai, cujos mercados sempre foram o pulmão financeiro do comércio iraniano. A guerra transformou os Emirados em alvo de mísseis iranianos, e a confiança de que Washington os protegeria incondicionalmente foi destruída. Virou, literalmente pó.

O encontro de Nova Délhi, portanto, não é um abraço. É um reconhecimento mútuo de que a situação atual é insustentável. Pezeshkian disse o que disse porque quer que os Emirados ouçam. Os Emirados ouviram porque têm razões próprias para querer ouvir. E o BRICS, ao adotar uma declaração que ambos assinaram, deu a esse reconhecimento um selo institucional.
Pezeshkian usou uma frase que merece ser repetida, porque resume tudo:
“Nós, com os países vizinhos e regionais, podemos partilhar os nossos poderes para ajudar uns aos outros e estabelecer a segurança.”
Parece que Pezeshkian se refere à recente aliança regional envolvendo a Turquia, a Arábia Saudita e o Paquistão. Se especula que o Irã fará parte desse arranjo em algum momento. Afinal, o inimigo real é a Grande Israel sonhada pelos sionistas.
Nota ao leitor:
Este artigo buscou compilar, em uma análise única e aprofundada, os elementos factuais e contextuais que cercam a entrevista do presidente iraniano Masoud Pezeshkian ao India Today, em 12 de setembro de 2026, e o encontro com o príncipe herdeiro de Abu Dhabi, à margem da 18ª Cúpula do BRICS em Nova Délhi. As fontes utilizadas são públicas e estão devidamente listadas para a sua verificação.
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Referências utilizadas nesse artigo:
- YouTube (2026): ‘Friendly Countries Should Not Allow Enemies…’: Pezeshkian On Tensions Between UAE And Iran
- India Today (2026): ‘Friendly Countries Should Not Allow Enemies…’: Pezeshkian On Tensions Between UAE And Iran
- Middle East Eye (2026): “Iran’s Pezeshkian ‘held a meeting and talks’ with UAE crown prince in New Delhi”
- Euronews (2026): “UAE and Iran discuss easing tensions at BRICS summit”
- Outlook India (2026): “Iran President Says BRICS Bank Can Challenge Dollar Dominance Ahead Of India Visit”
- The Statesman (2026): “BRICS Summit 2026: Here is what the New Delhi Declaration says”
- PolitikBr (2026): “Putin, o BRICS e a Nova Arquitetura Global”
