André Mendonça – o “Terrivelmente Evangélico”: A Transparência Seletiva e o Sigilo que Interessa a Quem?

Da série Ministro André Mendonça, o “terrivelmente evangélico”.

Nesse artigo, as revelações dos bastidores do poder feitas pelo jornalista Reinaldo Azevedo.

As principais entregas deste artigo:

  • A decisão de Fachin e o pedido da PGR
  • A seletividade na liberação de Mendonça
  • A reação de Alexandre de Moraes
  • O pedido de Gilmar Mendes
  • A negativa sobre os dados de Vorcaro
  • O silêncio sobre o Dark Horse
  • A sessão de 15 de setembro
  • O que está em jogo

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Internacional, Nacional, Política, Economia, Geopolítica

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Por PolitikBr I Brasília, Em 12/09/2026, 16h:52min, leitura: 15min

Editor: Rocha, J.C.

Essa é uma análise documental. Para visualizar “o todo” recomendamos a leitura dos demais artigos e publicações relacionadas, que se somam ao tema de hoje. Boa leitura.

Uma série que se desenrola em tempo real

Desde os primeiros dias de setembro, esta série tem acompanhado, passo à passo, a atuação do ministro André Mendonça, o “Terrivelmente Evangélico”, como ele próprio se definiu, no comando das investigações que envolvem o Banco Master e a Operação Compliance Zero, no âmbito do Supremo Tribunal Federal do Brasil (STF). 

Os artigos anteriores mapearam os antecedentes do ministro e as suas “jogadas” com Daniel Vorcaro. Em seguida, analisamos o embate de Mendonça com o Ministro Alexandre de Moraes e a delação que pode implodir o clã Bolsonaro, e que, aparentemente está engavetada, já que o ministro, ainda relator desse inquérito, não apreciou ainda a colaboração premiada proposta pelo doleiro, operador de Vorcaro. E não há um prazo regimental que o obrigue a fazer isso, já que será difícil ele alegar que a colaboração não cumpriu os requisitos legais, já que foi chancelada pela PGR. Depois, veio o afastamento do chefe da PF como embaraço à Operação Dark Horse, alegação de colaboradores do também ministro do STF Flávio Dino e, e na última sexta-feira, a análise sobre o pedido do ministro Fachin (presidente do STFem exercício) de liberação dos documentos em posse de Mendonça, seguido da entrega parcial dos dados apurados pelas autoridades policiais tanto sobre a Operação Compliance Zero e Dark Horse. Entretanto, o que foi liberado já era de amplo conhecimento da imprensa. Ou seja, ele liberou nada que já não houvesse sido indevidamente vasado, parecido com um “jogo de caça ao rato”. Agora, nesse artigo, o quadro se adensa e expõem, de forma crua, o que está em jogo quando um ministro decide, ele mesmo, o que o público – e os próprios pares ministros – pode e não pode saber.

A decisão de Fachin: uma resposta à pressão e ao descrédito

Na sexta-feira, 11 de setembro de 2026, o presidente do Supremo Tribunal Federal, ministro Luiz Edson Fachin, deu um passo que a Procuradoria-Geral da República (PGR) e boa parte da Corte cobravam: acolheu o pedido do vice-procurador-geral, Hindemburgo Chateaubriand, e determinou que o ministro André Mendonça, relator do caso Master, promovesse, em até 24 horas, a remessa, em HD próprio, de todos os procedimentos contidos ou relacionados à Petição 15.556 e à Operação Compliance Zero à Presidência da Corte e aos gabinetes dos demais ministros. Mais do que isso: determinou o levantamento do sigilo de toda a Pet 15.556 e dos procedimentos correlatos (Dark Horse ) ressalvadas apenas as diligências em andamento ou a serem realizadas, cuja divulgação pudesse prejudicar sua efetividade. A decisão de Fachin reproduz, quase literalmente, o texto da petição da PGR. 

A PGR havia sido incisiva. Em sua manifestação, o vice-procurador-geral escreveu: “o que se verifica, porém, da listagem encaminhada, é que nela não se contêm grande parte dos procedimentos atualmente correlatos à investigação mais ampla da chamada Operação Compliance Zero”. E acrescentou que o fato, “embora se suponha motivado por alguma razão escusável, de ordem administrativa, pode induzir à ideia equivocada de que a transparência que animou a medida proposta por vossa excelência, perca ao fim ao cabo o seu sentido último”. Um autêntico embaraço e xeque-mate.

A seletividade de Mendonça: o que foi liberado e o que ficou de fora

Mendonça havia atendido ao pedido anterior – não determinação – de Fachin na noite de quinta-feira, 10 de setembro, liberando o sigilo de parte das investigações. Foram divulgados 15 procedimentos derivados da Compliance Zero, entre eles o inquérito que resultou na prisão de Daniel Vorcaro, frentes de busca e apreensão, apurações sobre cooptacão de influenciadores e linhas sobre corrupção de servidores ligados ao BRB.  A Petição 15.556, o núcleo original da investigação, foi incluída. 

Como dissemos, esse material todo já havia sido vazado seletivamente, em especial os contra Jaques Wagner (PT) e contra o filho do presidente Lula (Lulinha), processo esse que, aliás, a PF não vê crime praticado. Quem vazou as informações de posse do ministro? E por que os vazamentos só incluíram aqueles do grupo que se credita adversário de Mendonça?

O problema, como a PGR e outros ministros apontaram, é o que ficou de fora. A listagem encaminhada por Mendonça não continha “grande parte” dos procedimentos correlatos à investigação mais ampla. A Procuradoria afirmou que a relação de processos, cujo sigilo foi levantado, deixava de fora procedimentos que não dependiam de diligência nenhuma e que, portanto, não justificariam a manutenção do segredo.  Em outras palavras: Mendonça liberou o que quis, e manteve sob sigilo o que não lhe interessava tornar público.

A palavra que mudou de sentido: de “solicitar” para “determinar”

O jornalista Reinaldo Azevedo, em comentário veiculado em seu canal, capturou a diferença entre o primeiro e o segundo movimento de Fachin. No primeiro, Fachin solicita a Mendonça o envio dos autos e a quebra de sigilo, ressalvando o que fosse “imprescindível” às investigações. No segundo, após a resposta parcial de Mendonça e a manifestação da PGR, Fachin determina, em 24 horas, a remessa de todos os procedimentos e o levantamento do sigilo. Bingo.

Azevedo foi ainda mais longe ao classificar a atuação de Mendonça: “Do Dark Horse, evidentemente, o Mendonça não quebrou.” A observação é crucial, faltando menos de 20 dias para as eleições (04 de outubro).

O inquérito do (filme) Dark Horse, que apura o financiamento do documentários sobre Jair Bolsonaro, com recursos – R$ 69 milhões (US$ 14 milhões) – recebidos de Vorcaro, após pedido de Flávio Bolsonaro, permaneceu intocado pela seletividade do relator.  A investigação que envolve o clã Bolsonaro e o senador Flávio Bolsonaro é justamente aquela que, segundo a PGR, não foi incluída na lista de procedimentos liberados. 

Sobre a recente operação da PF, e a liberação dos arquivos, a reação de Flávio foi a esperada. O senador e candidato atacou o ministro Flávio Dino – mas poupou André Mendonça, já que os advogados dele pleiteiam – óbvio – que o ministro continue como relator do inquérito – , classificando a operação da PF como uma “tentativa de interferência política”, que ele atribuiu à Dino, contra a produtora do filme Dark Horse. O parlamentar alegou que a ação, autorizada por Dino, teve motivação eleitoral.

Sobre a liberação dos documentos, ele disse:

“— Mas o ministro André Mendonça está certo, gente. Ele está sendo juiz. E, assim, eu queria muito que todos no Supremo fossem iguais ao André Mendonça, que não pesassem para lado nenhum (!?). Investiga tudo, todo mundo, com transparência. Mostra para a imprensa, mostra para o povo, vamos ver quem é que está certo — afirmou Flávio em Manaus.” ( O Globo )

O que mais Flávio poderia dizer, afinal? E o investiga tudo? Chega a ser ridícula a declaração, pós liberação de toda a documentação, antes, em sigilo.

A reação de Moraes e o pedido de Gilmar

Alexandre de Moraes, diretamente interessado no julgamento das Petições 16.662 e 16.704, não tardou a reagir. Em ofício encaminhado à Fachin, Moraes afirmou que Mendonça “selecionou subjetivamente o levantamento do sigilo, tornando público somente o que entendeu conveniente”. E foi além: “A seletividade, entretanto, foi ainda maior, pois nesses 15 procedimentos contidos ou relacionados à PET 15.556 o sigilo levantado foi parcial, excluindo 180 documentos e, consequentemente, dificultando a análise probatória.” 

Moraes pediu que Fachin determinasse a quebra completa do sigilo e que as duas petições — a que trata das mensagens entre Vorcaro e Moraes, e a que investiga a conduta do próprio Mendonça — fossem julgadas em conjunto (o que, aparentemente, não foi aceito por Fachin). O ministro citou decisão anterior do próprio Fachin segundo a qual as PETs 16.704 e 16.662 “evidenciam relação de conexão e continência”, e que a análise separada poderia gerar “risco concreto de decisões contraditórias e de tumulto processual”. 

Horas depois, o decano Gilmar Mendes se somou ao coro. Em ofício à Fachin, ele pediu que o presidente da Corte assumisse a relatoria dos casos envolvendo Moraes e Mendonça, e que os procedimentos fossem reunidos e organizados antes do julgamento. Gilmar alertou para “sérias dúvidas de que o referido feito, em seu estágio processual atual, esteja em condições de julgamento”, referindo-se à “natureza ainda amorfa do procedimento” Sugeriu, ainda, que a sessão de 15 de setembro fosse adiada, caso não houvesse tempo hábil para a delimitação precisa das questões a serem analisadas. 

A negativa sobre os dados de Vorcaro: o que Mendonça não quer que alguém veja

Enquanto a crise se desenrolava, outro flanco se abria. O ministro Cristiano Zanin solicitou à Mendonça o acesso integral ao conteúdo extraído do celular de Daniel Vorcaro. A resposta veio em tom de recusa. Mendonça afirmou que a divulgação da íntegra dos dados “poderia comprometer a investigação da Polícia Federal”. Ele sustentou que não teve acesso à totalidade do conteúdo, e que o aparelho não está em seu gabinete, além de ter alegado que a PF entregou apenas uma cópia de segurança armazenada em um HD dentro de um envelope lacrado, que nunca foi manuseado por ele. 

O argumento é, no mínimo, curioso. Se o relator não acessou os dados, como pode saber que a divulgação comprometeria a investigação? E se a cópia está lacrada, por que a simples disponibilização aos demais ministros — que têm igual dever de sigilo — seria um risco?

Mendonça disse que as informações encaminhadas ao STF foram “selecionadas pelos investigadores responsáveis”, no exercício da autonomia da PF.  A pergunta que fica é: quem selecionou, e com base em quais critérios? A PF não é parte neutra neste processo; as suas decisões são, por natureza, orientadas por uma estratégia investigativa — e essa estratégia, em um caso que envolve um ministro do STF, não pode ser confundida com transparência.

O Dark Horse: o elefante na sala

Talvez o ponto mais revelador da seletividade de Mendonça seja o silêncio sobre Dark Horse. A Operação Dark Horse, deflagrada pela Polícia Federal em 3 de setembro, sob autorização do ministro Flávio Dino, mirou uma rede de empresas montada para lavagem de dinheiro, com ramificações que incluem o financiamento do filme “Dark Horse” — 69 milhões de reais – treze milhões de dólares – transferidos por Daniel Vorcaro, por meio de um doleiro, para o fundo Havengate nos EUA, a pedido do senador e candidato Flávio Bolsonaro. 

Mendonça, que determinou o afastamento do diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, no dia 8 de setembro — cinco dias após a deflagração da Dark Horse, e no mesmo dia em que o Partido Novo pediu a prisão do diretor —, não incluiu nos procedimentos liberados nenhum dos autos relacionados a essa operação.  A coincidência de timing é, no mínimo, sugestiva. Para aliados do ministro Flávio Dino, o movimento de Mendonça não foi um ato de zelo institucional, mas uma tentativa calculada de sabotar uma investigação que se aproximava de pessoas próximas a ele. 

A sessão de 15 de setembro e o que está em jogo

Na próxima terça-feira, 15 de setembro, o plenário do STF está convocado para analisar a Petição 16.662, que trata do relatório da PF sobre as mensagens entre Vorcaro e Moraes. O julgamento, no entanto, pode ser adiado ou ter o seu escopo alterado diante dos pedidos de Gilmar Mendes e das dúvidas sobre a maturidade processual do feito. 

O que está em jogo é mais do que a sorte de um ou outro ministro. Está em jogo a credibilidade do Supremo como instituição, capaz de investigar os seus próprios membros sem seletividade.

Se um relator pode escolher o que liberar e o que manter sob sigilo, a transparência deixa de ser um princípio e se torna um instrumento. E, como escreveu a PGR, a transparência que “perca ao fim e ao cabo o seu sentido último” não é transparência — é encenação.

Reinaldo Azevedo, em seu comentário, resumiu o espírito da coisa: “Tira tudo! Põe tudo pra fora!” Não por voyeurismo, mas porque, como ele mesmo observou, “na verdade é contra-sacanagem o que eu tô falando”.

A sacanagem é o vazamento seletivo, a liberação calculada, o sigilo que protege alguns e expõe outros. A contra-sacanagem é a transparência radical: que todos os autos, de todas as operações — Master, Compliance Zero, Dark Horse, INSS, Lulinha, Willer Thomas — sejam abertos. Não porque a investigação deva ser conduzida no Twitter, mas porque, quando o investigador é também investigado, só a publicidade integral pode restaurar a confiança mínima, de que o processo não é um jogo de cartas marcadas.

Nota ao leitor: 

Este artigo buscou compilar, em uma análise única e aprofundada, os elementos factuais e contextuais que cercaram a decisão do presidente do STF, ministro Edson Fachin, de solicitar ao ministro André Mendonça a quebra total do sigilo dos autos ligados ao Banco Master e à Operação Compliance Zero, bem como a resistência seletiva do relator, e a reação da Procuradoria-Geral da República e de outros ministros da Corte. As fontes utilizadas são públicas e estão devidamente listadas para a sua verificação.

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Referências utilizadas nesse artigo:

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