O Império dos Espelhos: A Queda Silenciosa dos EUA no Oriente Médio

O Império dos Espelhos: Como a fantasia da hegemonia americana desabou sobre si mesma no Oriente Médio.

Internacional, Geopolítica, Economia

PolitikBr é uma mídia independente. Informar não é “torcida”. Não é distorcer, manipular ou mentir.

As pessoas. Talvez você, queira, como eu, entender o mundo em que vive. E é isso que o PolitikBr oferece. Conectar fatos, em uma “linha do tempo”: Uma cartografia do presente. Venha conosco! Subscreva o nosso conteúdo.

Você pode apoiar a consolidação e o crescimento desse projeto. Contribua através do Paypal (internacional) ou Pix (nacional). Chave: crowdfunding@politikbr.org. Muito Obrigado.

Dedicado à Verdade e à Paz.

Por PolitikBr I Brasília, Em 18/05/2026, 15h:50min, leitura: 9min

O Ocidente, e em particular os Estados Unidos, construiu ao longo das últimas décadas uma narrativa de poder tão brilhante e tão bem polida que acabou por confundi-la com a realidade. Espelho nenhum, porém, resiste para sempre ao choque com o real. E o real, nesse início de maio de 2026, tem a forma de um mapa do Oriente Médio sendo redesenhado, não por mísseis Tomahawk ou porta-aviões, mas pela paciência estratégica de quem aprendeu, na dor e na necessidade, a se adaptar.

O analista Scott Ritter, em entrevista concedida em 13 de maio de 2026 no YouTube sob o título “Scott Ritter: O Irã Não Quebrou. Se Adaptou — e Agora Está Mais Forte do que Nunca”, oferece uma das mais lúcidas — e incômodas — radiografias do momento atual.

Ritter é um ex-inspetor de armas da ONU, fuzileiro naval reformado e uma das vozes independentes mais respeitadas — e mais atacadas — quando o assunto é geopolítica militar.

As análises diretas, cruas de Ritter, muitas vezes ácidas e sem concessões, nesse caso, tem o mérito de enfrentar aquilo que a grande mídia prefere maquiar: a derrocada silenciosa, mas acelerada, da capacidade militar e política dos Estados Unidos de projetar poder de forma hegemônica.

O que Ritter nos mostra, em essência, é o retrato de um império que não se sustenta mais.

E o mais surpreendente não é a queda em si — afinal, os impérios caem desde que o mundo é mundo —, mas a teimosia com que os seus administradores insistem em representar, no palco vazio da política internacional, de uma peça teatral, cujo público já foi embora.

A Mentira Como Método: Netanyahu, o Relógio Quebrado e a Guerra Inventada

Comecemos por Benjamin Netanyahu. Durante mais de três décadas, Netanyahu repetiu, como um mantra, que o Irã estava a “poucos meses” de obter a bomba atômica. A afirmação, sempre solene, sempre urgente, sempre falsa, serviu a um propósito claro: manter Israel em estado de exceção permanente e justificar, sob o guarda-chuva da ameaça existencial, toda a sorte de aventuras militares e expansões territoriais.

Ritter, com a experiência de quem já esteve dentro da “máquina” e conhece os seus mecanismos, resume a questão de forma lapidar: “a relação dele com o calendário é bem flexível”.

A narrativa que sustentava Netanyahu não era apenas o medo — era a certeza de que os Estados Unidos estariam sempre lá, prontos para bancar o xerife do mundo, abastecendo Israel com armas, legitimidade e, quando necessário, com os seus próprios soldados. Essa certeza, hoje, desmorona pela perda de apoio e legitimidade de Israel, – diante da sociedade americana – , em especial após o continuado genocídio perpetrado por Netanyahu contra os Palestinos em Gaza, na Cisjordânia, e agora no sul do Líbano.

Outro fator crucial é a contingência atual do campo de batalha: os Estados Unidos, simplesmente, não têm mais os meios materiais para sustentar o papel de potência hegemônica incontrastável. Esse tempo passou.

Uma super potência marítima, que projetava o seu poder pelo mar, mas que, agora, tem que manter os seus porta-aviões a mais de 1000, até 2000 km da costa marítima do inimigo – Irã – deixou de ser dominante.

Mesmo uma potência regional terrestre, como o Irã e o Iêmen, afugenta pra bem longe o seu inimigo, usando, por exemplo, mísseis anti-navio que tem alcance de até 2000Km. Se falarmos de poderio militar em equivalência, caríssimos porta – aviões americanos de US$ 13 bilhões podem ser hoje afundados por ataques combinados de mísseis hipersônicos, tanto russos quanto chineses.

Ritter menciona, segundo o senador Mark Kelly, com base em um relatório confidencial do Departamento de Defesa, que os Estados Unidos esgotaram o seu arsenal de mísseis de longo alcance. A produção não conseguirá repor os estoques em não menos do que alguns anos, outras fontes falam em até 06 anos. Isso significa que, em uma eventual nova escalada contra o Irã, a capacidade de bombardeio sustentável — aquela mesma que devastou o Iraque em 2003 e a Líbia em 2011 — duraria não 37 dias, como na operação anterior, mas menos de uma semana. Uma semana. E isso sem contar com o fato de que o Irã, ao contrário do que a propaganda ocidental insiste em repetir, não foi enfraquecido. Está fortalecido.

O Irã Que Não Se Curvou: Lições de uma Estratégia de Sobrevivência

É aqui que a análise de Ritter atinge o seu ponto mais mais indigesto. O Irã não quebrou. O Irã não entrou em colapso. O Irã não se rendeu. Ao contrário: aprendeu, ao longo de décadas de sanções, sabotagens e assassinatos seletivos (como o do general Qasem Soleimani, em janeiro de 2020), a transformar a fraqueza em dissuasão. O programa de mísseis balísticos iraniano, longe de ter sido neutralizado, foi reconstruído e ampliado.

Ritter cita o seu contato Arashi — referência ao chanceler iraniano Abbas Araghchi — para afirmar que a capacidade atual do Irã é, no mínimo, 20% superior à que existia no início do conflito. Ou seja: a cada míssil interceptado, dois novos surgem.

Isso não é mágica. É geopolítica de sobrevivência. O Irã compreendeu, antes de muitos, que a única maneira de negociar com um país predador não é oferecendo submissão, mas construindo a capacidade de infligir danos, que torne a agressão um suicídio econômico e militar.

E o mais fascinante é que essa lição foi aprendida também por grupos como o Hezbollah, cuja evolução tática no uso de drones FPV (primeira pessoa, guiados por fibra óptica) impressiona até os analistas mais experientes.

Ritter descreve, com riqueza de detalhes, como os drones do Hezbollah deixaram de ser operados de maneira frenética e insegura, para assumir um comportamento quase teatral: pairam, aguardam, sondam. O som do motor, sozinho, já funciona como uma arma psicológica. E quando eles atacam, não buscam mais o primeiro alvo que aparece: buscam o alvo certo.

Essa sofisticação, obtida em parte pela observação da guerra na Ucrânia (onde ambos os lados aperfeiçoaram o uso de drones de ataque), torna o Domo de Ferro — joia tecnológica israelense — surpreendentemente vulnerável. Por quê? Porque o Domo de Ferro foi projetado para interceptar foguetes em trajetória balística, não para lidar com enxames de drones que voam a poucos metros do chão, abaixo da linha de detecção dos radares.

Portanto, a superioridade tecnológica, quando confrontada com inovação tática de baixo custo, perde a sua centralidade no campo de batalha. E essa é uma das grandes viradas da época, que estamos testemunhando.

O Presidente, o Narcisista e a Estrada para Pequim

Nesse cenário de desmanche militar e realinhamento geopolítico, surge a figura de Donald Trump. E aqui é preciso que sejamos cuidadosos — não por piedade, mas por precisão analítica. Trump é, antes de qualquer coisa, um fenômeno psicológico traduzido em política. Ritter, que em 2019 discordava do diagnóstico de “narcisismo maligno” formulado pela psiquiatra Bandy Lee e seus colegas de Harvard, admite agora que eles estavam certos.

O homem que ocupa a Casa Branca é mentalmente instável do ponto de vista clínico? Não podemos afirmar à distância, como lembra a regra Goldwater. Mas podemos, sim, observar os seus atos e concluir que a sua relação com a verdade, com o compromisso e com a realidade é, no mínimo, patológica.

O problema é que essa patologia individual se torna uma catástrofe coletiva quando aplicada à política externa. Trump não negocia acordos — ele os performa. Não busca soluções sustentáveis — busca vitrines para o seu próprio ego.

A viagem de Trump à China, em maio de 2026, foi exemplar. Segundo Ritter, Trump não foi a Pequim para ditar termos ou para impor a rendição chinesa, como talvez imaginasse fazer no passado. Ele foi para pedir ajuda. Para perguntar, nas entrelinhas, como sair do atoleiro em que se meteu. O “imperador”, desnudado, buscou um alfaiate que lhe costurasse uma saída honrosa.

E os chineses, com a paciência estratégica que lhes é característica, provavelmente oferecerão essa saída — mas a seu modo, e a seu tempo. A China não tem pressa. Sabe que o século XXI é, em grande medida, o seu território de construção. Ela não precisa declarar vitória para já ter vencido.

A Hora dos que Aprendem a Nadar no Naufrágio

A entrevista de Scott Ritter não é um libelo antiamericano. É um aviso. O “império americano” não será destruído por mísseis iranianos ou por hackers chineses. Ele está se desfazendo por dentro, corroído por sua própria incapacidade de enxergar a realidade. A hegemonia militar não se mantém apenas com armas — ela se mantém com a percepção de que as armas serão usadas. Quando essa percepção desaparece, o poder evapora.

O Irã entendeu isso antes de muitos. Não porque seja mais sábio, mas porque a necessidade o forçou a aprender. Décadas de sanções, sabotagens e assassinatos lhe ensinaram que a única linguagem que o Ocidente respeita é a da dissuasão efetiva. E o Irã construiu essa dissuasão com os recursos de que dispunha: mísseis baratos mas numerosos e sofisticados, drones adaptáveis, alianças regionais pragmáticas e um aprendizado a cada crise, como oportunidade.

O Ocidente, por sua vez, parece preso em uma espiral de repetição. Gasta bilhões de dólares em sistemas de defesa que já nascem obsoletos. Insiste em estratégias de contenção que não contêm nada. E, sobretudo, se recusa a aprender a lição mais básica da geopolítica: ninguém governa para sempre. Impérios caem. E a forma como se cai — com dignidade ou com espasmos histéricos — define o que vem depois.

Esse artigo foi baseado em:

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *