Principais entregas desse artigo:
- A nova guerra entre a Arábia Saudita e os houthis
- O dilema estratégico de Mohammed bin Salman (MBS)
- O papel do Irã e da China
- Hormuz e Bab el-Mandeb: os dois gargalos do petróleo
- A falência do mito da proteção americana
- A aliança estratégica entre a Rússia, a China e o Irã
- O futuro do BRICS
- O BRICS Pay e a busca por alternativas ao sistema financeiro ocidental
Internacional, Nacional, Política, Economia, Geopolítica
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Por PolitikBr I Brasília, Em 21/09/2026, 17h:22min, leitura: 6min
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Editor: Rocha, J.C.

Essa é uma análise documental. Para visualizar “o todo” recomendamos a leitura dos demais artigos e publicações relacionadas, que se somam ao tema de hoje. Boa leitura.
A Escalada no Iêmen e a Reconfiguração Global: A Análise de Pepe Escobar
Em entrevista concedida ao podcast Dialogue Works, o analista geopolítico Pepe Escobar defende que a nova escalada militar entre a Arábia Saudita e os Houthis do Iêmen ultrapassa o âmbito local. Para Pepe, o conflito é, em si, uma transformação profunda na arquitetura de segurança do Oriente Médio e na própria ordem internacional.
A Geografia do Conflito: Hormuz e Bab el-Mandeb
A nova fase das hostilidades — marcada por ataques aéreos sauditas e respostas houthis com drones e mísseis contra o território da Arábia Saudita, inclusive contra Riad — traz para o centro do tabuleiro da geopolítica dois pontos vitais para a economia global: os estreitos de Hormuz e Bab el-Mandeb.

Controlar esses dois gargalos de trânsito energético não exige ocupação territorial ostensiva; basta elevar o risco da navegação para que a incerteza se reflita imediatamente nos preços mundiais do petróleo, e nos custos do comércio entre o Oceano Índico e o Mediterrâneo.
O Dilema Saudita e o Limite do Guarda-Chuva Americano
Essa vulnerabilidade geográfica coloca o príncipe herdeiro Mohammed bin Salman (MBS) diante de um impasse estratégico.
Histórica e profundamente dependente do modelo “petróleo por segurança” firmado com Washington, a Arábia Saudita enfrenta a relutância dos Estados Unidos em se comprometerem com uma nova intervenção militar direta no Iêmen. Em um contexto no qual a diplomacia americana já lida com múltiplas crises na região.
Riad já percebeu que a premissa do apoio irrestrito da Casa Branca ao reino não é mais garantida, forçando a liderança a recalcular as suas opções de defesa e diplomacia.

A Transição do Petrodólar e o Papel do BRICS
As incertezas regionais – diretamente aceleradas por Trump ao atacar o Irã, junto com Israel – tem por consequência direta a erosão do modelo tradicional do petrodólar, já em xeque quando a Arábia Saudita não renovou o acordo de cooperação de 50 anos com os Estados Unidos, e que expirou oficialmente em 9 de junho de 2024.
Embora o dólar continue dominante nas reservas e transações internacionais — fato respaldado por dados do FMI —, cresce a busca por alternativas de liquidação em moedas locais e por redes financeiras imunes a sanções ocidentais. O BRICS atua precisamente como um laboratório dessa transição. Reunindo atores com interesses diversos e até rivalidades históricas — como Arábia Saudita, Irã, China, Índia e Rússia —, o bloco não opera como uma aliança militar unificada, mas como uma plataforma flexível para construir infraestruturas de pagamentos e cooperação transfronteiriça.
Apesar das expectativas em torno do BRICS Pay, o próprio Escobar cita entraves técnicos como um dos fatores para que o sistema ainda não esteja completamente operacional e integrado a todos os países do BRICS: a criação de um sistema integrado exige padronização bancária, liquidez e acordos regulatórios complexos, que ainda estão em fase de maturação.
O relevante nesse cenário de incertezas e mudança da ordem unipolar para a multipolar, não é a existência de uma moeda única imediata – UNIT – mas a disposição de se mitigar gradualmente a dependência ao sistema financeiro tradicional (sistema SWIFT) e o dólar, usado como arma geopolítica pelos americanos, o que, em certa medida, será o catalizador para a sua ruína, junto com a colossal dívida pública de mais de US$ 40 trilhões, e a destruição de confiança com o furto dos ativos russos (US$ 300 milhões). Uma estupidez monumental dos EUA. Foi como matar “a galinha de ovos de ouro”, ao invés de se contentar em colher os ovos.
A Nova Diplomacia no Oriente Médio e a Multipolaridade
O pragmatismo do BRICS fica evidente na mediação diplomática promovida pela China, que em 2023 reaproximou Riad e Teerã, e no diálogo mantido entre a Índia e a China no âmbito da última cúpula em Nova Delhi.

Ao contrário da projeção de poder ocidental baseada na coerção e coação militar direta, a atuação de Pequim prioriza o comércio, os investimentos em infraestrutura e a mediação política. O paradoxo de ter países em lados opostos de um conflito indireto (como Arábia Saudita e Irã), coexistindo dentro do mesmo fórum multilateral, demonstra que a ordem emergente não exige alinhamento ideológico total, mas sim a convergência de interesses econômicos e estratégicos.
O conflito saudita-houthi sinaliza que o Oriente Médio deixou de ser um espaço gerido exclusivamente pelas diretrizes de Washington. O cenário atual aponta para a ampliação sistemática de alternativas diplomáticas, energéticas e financeiras.
A verdadeira questão que se coloca não é se os modelos antigos falharam completamente, mas por quanto tempo será possível administrar a geopolítica regional por regras do passado, enquanto novas redes globais de poder já estão em pleno funcionamento.
Nota ao leitor:
Este artigo buscou compilar, em uma análise única e aprofundada, os elementos factuais e contextuais que cercam a nova escalada entre a Arábia Saudita e os houthis do Iêmen, relacionando-a às transformações estratégicas do Oriente Médio, à atuação da China e do Irã e à expansão da cooperação dentro do BRICS. As fontes utilizadas são públicas e estão indicadas para a sua verificação.
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Referências utilizadas neste artigo:
- YouTube (2026): entrevista de Pepe Escobar ao podcast Dialogue Works
- Binance (2024): QUEBRANDO: ARÁBIA SAUDITA TERMINA ACORDO DE PETRODÓLAR | Professor Mende – Creator of the bonuz Human Layer no Binance Square
- Reuters (2026) : avanço dos houthis e exposição da Arábia Saudita
- Reuters (2026v): Oil price dips briefly below $100 on Saudi exports
- Reuters (2026): Houthis push for control of Yemen highlands
- FMI (2025): Global Cross-Border Payments: A $1 Quadrillion Evolving Market?