TRUMP ESTÁ DESTRUINDO OS EUA POR DENTRO — MAS O GRANDE RISCO PODE ESTAR NO JAPÃO

Principais entregas deste artigo:

  • A guerra tarifária de Trump e a armadilha inflacionária
  • O Japão como epicentro silencioso da próxima crise global
  • O petrodólar em frangalhos e o tiro no pé americano
  • A dívida pública como corda-bamba do sistema financeiro mundial
  • O Brasil como porto seguro em um mundo em chamas

Internacional, Nacional, Política, Economia

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Por PolitikBr I Brasília, Em 29/08/2026, 17h:25min, leitura: 10min

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Editor: Rocha, J.C.

Essa é uma análise documental. Para visualizar “o todo” recomendamos a leitura dos demais artigos e publicações relacionadas, que se somam ao tema de hoje. Boa leitura

Em entrevista recente, o economista e professor José Kobori — referência em finanças, fusões e aquisições, com passagem pelo IBMEC e à frente da JK Global Partners  — oferece um análise particularmente interessante sobre a economia mundial, e esse momento, em particular: “A queda e o declínio do sistema imperialista estadunidense está sendo acelerada por Donald Trump” diz ele. Não se trata, segundo Kobori, de um episódio político isolado, mas de um catalisador de transformações geopolíticas profundas.

O que se desenha diante de nós, portanto, é o desmonte de um sistema que funcionava desde Bretton WoodsO Acordo de Bretton Woods foi um tratado econômico assinado em julho de 1944 por 44 países em New Hampshire, nos Estados Unidos, para reorganizar o sistema financeiro mundial, após a Segunda Guerra Mundial – , e o Japão, e não a China, é a peça-chave desse tabuleiro prestes a ruir para Kobori.

Há uma ironia profunda, quase trágica, na trajetória atual dos Estados Unidos. O país que construiu a ordem financeira mundial do pós-guerra, que impôs o dólar como moeda de reserva, em substituição ao padrão ouro, e que transformou a dívida pública americana em ativo de lastro global, se vê agora refém das próprias contradições. E no centro dessa autodestruição está Donald Trump — não como um agente isolado, mas como um catalisador de forças que já vinham corroendo as entranhas do sistema.

A guerra tarifária e o tiro no pé

O primeiro movimento da coreografia suicida de Trump é a guerra tarifária. Kobori disse: “Todas as medidas da guerra tarifária do Donald Trump, na realidade, são medidas inflacionárias.” O que o presidente vende como proteção da indústria nacional se traduz, na prática, em aumento de preços para o consumidor final — pressão inflacionária pura e simples.

E aqui reside a contradição maior: Trump trocou a presidência do Federal Reserve para forçar uma queda nos juros, mas as suas próprias políticas tornam essa queda impossível. “Não tem como ele fazer isso, porque o próprio Donald Trump, todas as ações que ele faz, é para aumentar o preço dos produtos finais.” diz Kobori.

O resultado é uma armadilha: o Federal Reserve mantém os juros entre 3,5% e 3,75% — e três dirigentes já votaram pelo aumento. A política monetária, que deveria estimular a economia, se trava diante da inflação gerada pelo próprio governo. “É aquilo que eu falo: se correr o bicho pega, se ficar o bicho come.” Os Estados Unidos, nas mãos de Trump, dançam uma valsa dissonante, em que cada passo agrava o passo anterior.

O Japão: a bomba-relógio que ninguém vê

Mas o verdadeiro epicentro do colapso iminente, na visão de Kobori, não está em Washington — está em Tóquio. “O Japão é um grande risco da economia mundial”, afirma ele.

Ele explica: “O Japão, no pós-guerra, com os acordos de Bretton Woods, passou a ser o centro fornecedor de dólar para a economia mundial.” O sistema do eurodólar — todo o dólar que circula fora dos Estados Unidos — tem como base a economia japonesa.

A mecânica é sofisticada e perversa. O Japão acumulou enormes superávits comerciais frente aos Estados Unidos e, com eles, se tornou o maior detentor de dívida pública americana — US$ 1,23 trilhão, mais que a China.

Esse estoque de títulos do Tesouro americano, combinado com operações de carry tradeuma estratégia financeira em que o investidor pega dinheiro emprestado em um país com juros baixos, e aplica em outro com juros altos para lucrar com a diferença – e derivativos, criou uma alavancagem gigantesca, em ativos denominados em dólar na economia mundial. “Tudo isso depende do Japão e da política monetária japonesa, de quanto o Japão defende ou não o valor da sua moeda frente ao dólar.”

O problema é que o iene está numa corda-bamba. Se o Japão permitir uma desvalorização excessiva, os ativos em iene perdem valor; se o iene se valoriza demais, os produtos japoneses ficam menos competitivos no exterior. E se o Japão, diante de uma crise, decidir repatriar os seus capitais — vendendo títulos americanos em massa — o efeito seria devastador: queda do preço dos títulos, disparada dos juros americanos, e um efeito manada que poderia levar o mundo a uma depressão nos moldes de 1929. O Japão, portanto, é o fiel da balança de uma quebradeira econômica geral.

“Se o Japão começar a repatriar o dinheiro, que está em dólar, é vender título do Tesouro Americano. Quando ele vende, força o preço para baixo. Para o preço baixar, a taxa de juros tem que subir.” E uma taxa de juros americana em alta é um parâmetro para o mundo inteiro. “Todo mundo que tem título da dívida americana diz: se os japoneses estão pulando fora, eu vou pular fora junto. Não porque eles acreditem nos japoneses, mas porque é o sinal que tudo vai dar errado.”

O petrodólar em frangalhos

A terceira frente desse colapso é o sistema do petrodólar, o acordo de 1974, que atou o comércio mundial de petróleo ao dólar, e reciclava os petrodólares em títulos da dívida americana. Kobori lembra que a Arábia Saudita, então líder da Opep, foi alinhada após um golpe, e firmou o compromisso: todo petróleo vendido em dólar, e todo dólar recebido investido em títulos do Tesouro americano.

Esse ciclo, que sustentou a hegemonia do dólar por cinco décadas, está se rompendo. O conflito no Irã e o controle do Estreito de Ormuz estão forçando os países a comercializar petróleo sem usar o dólar — utilizando o yuan chinês ou acordos bilaterais em moedas locais. “Na realidade, você está criando agora uma possibilidade de você comercializar petróleo sem utilizar o dólar, que não era antes do conflito do Irã.” E Kobori é incisivo: “Novamente, é um tiro no pé que os Estados Unidos deu.”

Menos dólares circulando no comércio mundial de petróleo, significa menos dólares a ser reciclado em títulos da dívida americana. O mercado para a dívida dos EUA está diminuindo exatamente no momento em que o governo mais precisa emitir mais dívida. Por isso, Washington é forçada a oferecer garantias extras — “colaterais” — para que países como o Japão não sigam o exemplo da China, que reduziu a sua exposição em ativos denominados em dólar de 70% para 30% em poucos anos.

A Rússia, que forma a tríáde com a China e com o Irã, reduziu drasticamente a sua dependência do dólar americano na década que antecedeu as sanções de 2022. O Central Bank of Russia cortou a fatia do dólar em suas reservas internacionais de mais de 40% em 2017 para cerca de 16% em 2021, eliminando quase totalmente ativos em títulos do Tesouro dos EUA e zerando a participação da moeda no Fundo Nacional de Riqueza.

“Quando os Estados Unidos sancionaram a Rússia e confiscaram os seus ativos em dólarquase US$ 300 bilhões — o mundo falou: (os EUA) não são uma coisa mais confiável, observou Kobori. O sequestro das reservas russas enviou um sinal claro a todos os detentores de dólar: livrem-se deles, ou ficarão reféns de Washington.

O Brasil como porto seguro

Em meio a esse cenário apocalíptico, Kobori enxerga uma janela de oportunidade para o Brasil.

Contrariando o pessimismo da Faria Lima – a elite financeira de São Paulo (Brasil), que previa o dólar a R$7,00 com o agravamento dos conflitos, o real se valorizou. Porquê? “ O Brasil talvez seja a única economia grande em termos de escala, que suporta o investimento estrangeiro”, explica Kobori. Fundos como a BlackRock, com US$ 14 trilhões sob gestão, não têm onde aplicar. “Ele não vai investir no Zimbabwe, em Bangladesh.” 

Diante da Eurásia em conflito, dos Estados Unidos instáveis, e da Europa definhando, o Brasil surge como um porto seguro — uma economia de escala, com instituições que funcionam e uma democracia que, ironicamente, provou ser mais resiliente que a americana.

Kobori, contudo, critica o custo desse “porto seguro”: os juros reais no Brasil, que já estiveram entre 4% e 5%, agora orbitam entre 9% e 10%. “É o cara drogado que acostumou a tomar certa dose da droga e não consegue diminuir”, ironiza. O Brasil paga um spread excessivo para atrair capital, alimentado pelo terrorismo do mercado financeiro, que “gosta de ganhar os maiores juros possíveis sem fazer nada”.

O fim de uma era

O que Kobori descreve é mais do que uma crise cíclica é o desmonte estrutural da hegemonia americana. Trump, com as suas tarifas, a sua beligerância e a sua política monetária contraditória, está acelerando um processo que talvez fosse inevitável, mas que agora ganha velocidade de avalanche. E o Japão, o grande fiador silencioso do dólar, pode ser o gatilho que faltava para transformar a fragilidade em colapso.

“Eu acho que a gente está num ponto, do ponto de vista do mercado financeiro, muito delicado. De um desmonte de um sistema que está funcionando desde o pós-guerra.” As palavras de Kobori ressoam como um alerta: o império que se construiu sobre o dólar, a dívida e o petróleo, está com os dias contados. E, como em toda grande queda, o estrondo será ouvido em todos os cantos do planeta.

Nota ao leitor

Este artigo buscou compilar, em uma análise única, os argumentos apresentados pelo economista José Kobori sobre a política econômica de Donald Trump, a erosão da hegemonia financeira americana e, principalmente, o papel estratégico do Japão na arquitetura internacional do dólar. As fontes públicas utilizadas estão listadas abaixo para a sua verificação.

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