Combustível, Soberania e Lucro: A Geopolítica do Preço na Bomba – Caso Brasil e Estados Unidos

Internacional, Geopolítica, Economia

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Por PolitikBr I Brasília, Em 29/06/2026, 11h:10min, leitura: 11min

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Editor: Rocha, J.C.

Essa é uma análise documental. Para visualizar “o todo” recomendamos a leitura dos demais artigos, que se somam ao tema de hoje. Boa leitura.

O ano de 2026 nos reserva um cenário geopolítico e econômico de rara complexidade, onde o preço do litro de combustível na bomba se tornou o termômetro mais sensível de uma crise global.

Enquanto a guerra, sem motivação real dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã, se intensifica no Oriente Médio – com fechamento, depois abertura parcial, agora novo fechamento do Estreito de Ormuz, por onde passava quase 20% do consumo global de petróleo  –, o mundo assiste a uma bifurcação radical nas políticas de proteção ao consumidor. De um lado, um dos exemplos, é o do governo Lula, no Brasil, que lança mão de um arsenal de subsídios e intervenções para segurar os preços dos combustíveis, de maneira a não onerar o consumidor com o aumento da inflação: óleo diesel, gasolina, gás natural e de cozinha; do outro, os Estados Unidos, de Trump e cia, o maior palco do capitalismo desregulado, veem a inflação disparar e a escassez de combustível se aproximar .

E o que está em jogo? Comparemos, em um primeiro momento, as duas respostas à mesma crise: a da Argentina e a estadunidense, que seguem a cartilha do neoliberalismo ao extremo, e a brasileira, de livre mercado, de viés também neoliberal, mas que, no entanto, usa a força de seu maior ativo – o controle da Petrobras – para amortecer o impacto social dos reajustes dos preços dos combustíveis, em razão da alucinada, irresponsável, e injustificada guerra americana. Num segundo momento, analisaremos o perigo real representado pela agenda privatista que ronda o país, usando a experiência de reestatização na Europa, para iluminar os erros de uma suposta “modernização” que, na verdade, busca lucro acima do bem-estar coletivo.

A dicotomia é nítida e revela o DNA de cada modelo econômico. Enquanto o Brasil utiliza os royalties e a participação majoritária na Petrobras (50,26% das ações com direito a voto) para financiar uma “subvenção” de até R$ 0,89 por litro de gasolina, os EUA assistem a uma inflação anual de 4,2% em maio, a maior em três anos, com os preços da energia disparando 10,9% em março. Em solo americano, a lógica é a do livre mercado: o repasse integral da alta do barril do petróleo ao consumidor e a ameaça real de desabastecimento.

Hoje(29/06) foi publicado que o “governo federal abriu um crédito extraordinário de R$ 550 milhões para subsidiar a importação de óleo diesel de uso rodoviário. A medida provisória publicada nesta segunda-feira se destina ao Ministério de Minas e Energia, com execução pela Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP).”

Dessa forma, o governo federal brasileiro, ciente do impacto explosivo de um reajuste abrupto, costurou ainda uma medida provisória que devolve às refinarias, e importadoras, parte dos tributos federais (PIS, Cofins e Cide), atuando como um “cashback” tributário. A justificativa oficial é a neutralidade fiscal, já que a arrecadação extraordinária com a alta do petróleo (o Brasil é exportador líquido de petróleo bruto) – via royalties e dividendos – financiará o subsídio .

“Como a receita da União por meio de dividendos, royalties e participação especial tem crescido com o aumento da cotação do petróleo, a medida será neutra do ponto de vista fiscal”, afirmou o Ministério de Minas e Energia, Alexandre Vieira.

É a engenharia financeira à serviço da paz social, uma inversão virtuosa que transforma o lucro extraordinário da exploração, em escudo contra a carestia.

Porém, o que viabiliza essa engenharia financeira é a estrutura de propriedade da Petrobras, que a coloca em uma posição ímpar no mundo.

Com 50,26% das ações, o governo não apenas detém o controle, mas possui a maioria dos assentos no conselho de administração, permitindo uma influência direta sobre a política de preços.

A Petrobras, responsável por uma parcela esmagadora da produção de óleo e gás, e dona da maioria esmagadora das refinarias do país, não é uma empresa qualquer. Dados de mercado indicam que o setor de upstream (exploração e produção) responde por cerca de 78,62% do mercado de petróleo e gás no Brasil, consolidando a estatal como a espinha dorsal do setor energético.

A presidente da estatal, Magda Chambriard, disse: “Mudanças abruptas – de preços – estão fora da nossa intenção de repasse”.

A estatal está operando com o Fator de Utilização Total (FUT) das refinarias acima de 100%, o maior desde 2014, numa tentativa clara de aumentar a oferta doméstica e reduzir a dependência de importações voláteis.

Durante o governo Bolsonaro, essa forma de atuação havia sido 100% invertida, com a empresa sendo “forçada” a não investir no aumento da capacidade de refino, abrindo espaço, assim, para a instalação no país de mais de 300 empresas importadoras de diesel e gasolina, o que fez explodir os preços dos combustíveis. Uma autêntica operação do Estado, em conluio com o privado, para furtar o povo. O mesmo neoliberalismo praticado por Milei na Argentina: em detrimento dos interesses do argentino, que lá paga essa conta.

A diferença do Brasil para os EUA, em práticas de políticas de mitigação de choques nos preços da energia – onde a maioria das refinarias e campos de produção são privados – é abissal. Lá, a busca pelo lucro máximo prevalece. A escassez de querosene de aviação e óleo diesel já se desenha, pois, apesar de ser um grande produtor, os EUA dependem de importações de petróleo pesado, para abastecer as suas refinarias produtoras desses combustíveis . A resiliência da economia americana, frequentemente citada por analistas, não impede o calvário do consumidor na bomba. A lógica é a de mercado: “A priorização de lucros das empresas privadas é, na maior parte das vezes, conflitante com a execução de serviços de que a sociedade depende”, como já registrou o relatório do Instituto Transnacional (TNI)Nos EUA, a guerra é lucrativa para as petroleiras; no Brasil, ela é mitigada pelo Estado.

É precisamente essa função social que a agenda de extrema-direita, inspirada no experimento de Milei na Argentina, busca demolir. O mantra privatista, que já engoliu a Liquigás, a BR Distribuidora (atual Vibra), parte dos gasodutos e oleodutos, e a Eletrobras (agora Axia Energia), durante o governo Bolsonaro, é um atalho para o desastre.

A recente fala do presidente Lula é um alerta: “Eu quero que apareça um gênio para explicar aos mais humildes dos brasileiros o que o Brasil ganhou com a privatização da BR Distribuidora. O que o Brasil ganhou quando venderam a Liquigás”.

A resposta, para quem observa a história recente, é nada. Só perda de capacidade regulatória, tornando o consumidor refém da ganância do lucro, onde a combinação de preços – cartel – é uma prática que se tenta combater, mas quase sempre esse combate é ineficaz.

A título de exemplo do que a privatização causa no cotidiano, se nota que a não adesão de grandes distribuidoras como Vibra – ex-BR distribuidora – , Ipiranga e Raízen aos primeiros pacotes de subsídio do governo gerou um impasse. As empresas alegaram que o subsídio vinha atrelado a um “quase tabelamento” de preços, um risco que não estavam dispostas a correr .

Ou seja, preferem não receber o dinheiro público para não abrir mão de 1 centavo de lucro especulativo, enquanto o consumidor paga a conta. Com a privatização, o Brasil perdeu o agente moderador que a BR Distribuidora representava. A lógica do quase oligopólio se impôs.

Para além do combustível, a Europa já viveu e reverteu esse ciclo de privatismo desenfreado. O exemplo do saneamento é didático e deveria servir como uma bússola moral. Entre 2000 e 2019, 312 cidades em 37 países reestatizaram os seus serviços de água e esgoto

Em Paris, o retorno ao controle público (Eau de Paris) reduziu os preços em 8% e instalou mais de 1.200 fontes públicas. 

Em Berlim, a recompra da concessionária obrigou as empresas a reduzirem as tarifas em 18%, após um processo judicial revelar lucros abusivos.

A pergunta que fica é: por que o Brasil insiste no caminho inverso? A resposta é política e ideológica. Enquanto a Europa percebeu que serviços essenciais não podem ser reféns do lucro, nossos “gestores” neoliberais veem o patrimônio público como um bazar. O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas privatizou a SABESP logo que assumiu o governo. As tarifas caíram como prometido? Não. O serviço de fornecimento de água e esgoto se ampliou? Não. As promessas por trás das privatizações sempre são mentirosas.

O que o Brasil ganhou com a “era privatista” do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso? Nada. O setor da telefonia se concentrou em poucas empresas. O setor bancário idem. A privatização da ex-Vale do Rio Doce foi um escândalo nacional.

E se o candidato Flávio Bolsonaro vencer as eleições? Ele professa essa nefasta agenda. O projeto de desmonte da Petrobras e da capacidade estatal de intervir será acelerado. Ficaremos, novamente, à mercê do “neocapitalismo selvagem” que assola a Argentina, onde o povo paga o pato de uma guerra que não criou; o mesmo se aplica ao americano, onde a guerra de Trump os penaliza.

A guerra é, em essência, um choque de oferta. Nesse cenário, ter um instrumento estatal forte como a Petrobras não é um “privilégio” ou um “atraso”, como apregoa a direita e a extrema direita; é uma necessidade de sobrevivência. Segurar os preços através do uso dos próprios lucros do petróleo é um mecanismo inteligente de redistribuição – transforma um choque externo em um problema administrável internamente. Nos EUA, os preços disparam porque o petróleo é um ativo financeiro; aqui, ainda pode ser, um instrumento de política social. Essa é a diferença entre a soberania e a submissão ao capital.

Nota ao leitor: Este artigo buscou compilar, numa análise única e aprofundada, os elementos factuais e contextuais que cercam a crise dos preços dos combustíveis e as diferentes respostas dos modelos estatal e privado. As fontes utilizadas são públicas e estão devidamente listadas para sua verificação.

Agradecimento: Até 28 de junho de 2026, o PolitikBr foi acessado a partir de dezenas de países – talvez o seu. Agradecemos aos leitores dos Estados Unidos, Japão, Brasil, Israel, China, Irã, Rússia, Canadá, Polônia, Reino Unido, e de tantos outros países que nos acompanham. Seguimos dedicados à verdade e à paz, em todos os idiomas.

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