As Impressões de Mearsheimer Sobre Esse Momento do Oriente Médio

Entregas desse artigo:

  • A Grande Estratégia de Israel: enfraquecer qualquer polo de poder regional
  • O espectro de uma guerra Israel-Turquia e o Artigo 5º da OTAN
  • A guerra sem fim contra o Irã: o paralelo com o Vietnã e o Afeganistão
  • O “momento plástico” e a reconfiguração da arquitetura de segurança no Golfo
  • China e Rússia: os grandes vencedores do atoleiro americano

Internacional, Geopolítica, Economia, Corrupção

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Dedicado à Verdade e à Paz.

Por PolitikBr I Brasília, Em 27/07/2026, 18h:40min, leitura: 12min

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Editor: Rocha, J.C.

Essa é uma análise documental. Para visualizar “o todo” recomendamos a leitura dos demais artigos, e publicações relacionadas, que se somam ao tema de hoje. Boa leitura.

Há um fio condutor na análise de John Mearsheimer sobre o Oriente Médio que poucos têm a coragem de seguir até o fim. Não se trata de um exercício de pessimismo gratuito, mas de uma leitura realista, despida de ilusões, sobre as forças profundas que estão reconfigurando a região.

Em sua recente entrevista ao podcast Dialogue Works, o professor da Universidade de Chicago, um dos mais influentes realistas políticos do mundo, ofereceu um diagnóstico que conecta a guerra contra o Irã ao destino da hegemonia americana, à ascensão de uma nova ordem multipolar, e ao projeto expansionista israelense, que agora se vê diante de seus próprios limites.

Para Mearsheimer, a compreensão do momento atual exige o reconhecimento de que a guerra não é um evento isolado. Ela é a expressão de uma lógica mais profunda, alimentada por décadas de arrogância estratégica, e pela crença equivocada de que o poder militar, por si só, pode reescrever a geopolítica de uma região milenar.

A Grande Estratégia de Israel: Enfraquecer ou Destruir Potências Regionais

Mearsheimer descreve a lógica da política externa israelense como um projeto ofensivo e expansionista. “A grande estratégia de Israel para lidar com o Oriente Médio mais amplo é pegar qualquer país que seja potencialmente poderoso, ou que de fato seja poderoso, e enfraquecê-lo, se não destruí-lo”, afirmou o professor.

Nessa perspectiva, o Irã sempre foi o alvo principal, mas não o único. “Os israelenses entendem perfeitamente que a Turquia e o Irã são dois países com muita gente, muito capital humano, capaz de produzir armamentos sofisticados, uma economia sofisticada e assim por diante”, explicou Mearsheimer. E, em sua visão, a ambição israelense não se limita a conter Teerã: “Eles querem enfraquecer a Turquia. Eles veem a Turquia como um adversário que precisa ser enfrentado”.

A citação de Mearsheimer ao ex-primeiro-ministro israelense Naftali Bennett é reveladora para se entender o pensamento estratégico de Tel Aviv. Para os israelenses, a Turquia não é apenas um adversário potencial, mas um alvo na longa lista de potências regionais que precisam ser “enfraquecidas” para garantir a supremacia de Israel. “No momento, o Irã é o principal problema”, reconhece Mearsheimer. “Mas, se acabassem com o Irã, claramente voltariam a sua atenção rapidamente para a Turquia.”

O Dilema Turco e as Fronteiras da OTAN

Essa visão expansionista de Israel, no entanto, colide com uma realidade geopolítica incômoda para Washington: a Turquia é um país membro da OTAN.

“O que acontece se Israel atacar a Turquia? A garantia do artigo 5 entra em vigor, e os Estados Unidos saem em defesa da Turquia”, alerta Mearsheimer, colocando o dedo na ferida de uma aliança que se tornou um pesadelo para os estrategistas americanos.

O professor é claro ao prever que Washington exercerá “enorme pressão sobre os israelenses para que não provoquem um conflito com a Turquia”. No entanto, a mera existência desse cenário revela um ponto central: a aliança incondicional entre os EUA e Israel está se tornando um fardo estratégico.

“A última coisa que os Estados Unidos querem é que Israel e a Turquia entrem em guerra”, afirma Mearsheimer.

Essa percepção, que antes era um sussurro nos corredores do Pentágono, agora se torna uma análise lúcida sobre os limites do sionismo.

O Fim da Guerra sem Fim: Por que Washington Buscará um Acordo

Em contraste com a retórica belicista de Donald Trump e a utopia expansionista de Netanyahu, Mearsheimer vislumbra um caminho inevitável para Washington: a negociação. “Não acho que irá haver uma guerra sem fim” – entre os EUA e o Irã- , afirmou o professor, rejeitando a ideia de um novo Vietnã ou Afeganistão no Oriente Médio.

“Não acho que tenhamos munições para continuar lutando mês após mês. E também acho que o possível dano econômico de esta guerra continuar é grande o bastante para que o presidente Trump tente encerrá-la de novo.”

Mearsheimer toca no ponto crítico que já se sabia desde o início do ataque surpresa dos EUA/Israel contra o Irã: os estoques de mísseis não iriam durar muito tempo.

A Sputnik Brasil, repercutindo mídia dos EUA, publicou que diante do esgotamento crítico dos arsenais antimísseis, as forças armadas dos Estados Unidos adotaram uma postura mais seletiva diante dos ataques iranianos. De acordo com informações divulgadas, que cita fontes da administração Trump, o comando militar passou a autorizar a passagem de alguns mísseis e drones do Irã, priorizando a preservação de seus estoques cada vez mais reduzidos.

“Dois altos funcionários do governo revelaram que a decisão estratégica visa economizar munições de defesa, permitindo que certos projéteis inimigos prossigam sem serem interceptados”, diz a reportagem. A medida, contudo, não é absoluta: alvos que representem risco direto às tropas americanas continuam sendo neutralizados.

A publicação acrescente que, em situações específicas, mísseis e drones que sobrevoam áreas desprovidas de pessoal podem ser ignorados, mesmo quando há potencial para danos à infraestrutura das bases. A lógica subjacente é clara: cada míssil interceptado é um recurso a menos em um estoque que já não comporta mais desperdícios.

Para Mearsheimer, entretanto, a guerra já foi encerrada uma vez, com o memorando de entendimento de 17 de junho de 2025 — um acordo que, na visão do professor, representava o reconhecimento tácito de Washington de que não poderia vencer.

“Não é do nosso interesse que esse conflito continue. E, em segundo lugar, se ele continuar, nós não vamos vencer. Não temos uma estratégia para vencer a guerra.”

O grande problema, agora, é que o Irã voltará à mesa de negociações com uma posição muito mais forte.

“Os linha-dura no Irã terão muito mais influência desta vez, do que tiveram no período que antecedeu o memorando de 17 de junho.”

Essa percepção de Mearsheimer coroa a tese que o PolitikBr vem desenvolvendo há meses: a guerra não terminou porque os EUA são benevolentes, mas porque a correlação de forças se inverteu.

O Momento Plástico: A Nova Arquitetura de Segurança no Golfo

Uma das imagens mais poderosas de Mearsheimer é a descrição do momento atual como “um momento plástico”.

“Estamos muito claramente no que eu chamaria de um momento plástico. Ou seja, é um momento em que há todo tipo de oportunidade para seguir direções diferentes. E não é fácil saber quais direções os diferentes estados vão seguir.”

Essa plasticidade, no entanto, não significa que tudo é possível. Para Mearsheimer, a direção geral é clara: a presença militar americana no Golfo será “muito reduzida”.

Os estados do Golfo, pressionados pelo Irã, buscarão um “modus vivendi” com Teerã. E, o que é mais importante, a influência da China e da Rússia na região aumentará significativamente.

“Pessoalmente, não vejo os turcos, os paquistaneses, os egípcios ou qualquer um desses países tendo muita influência sobre como será a arquitetura de segurança na área do Golfo Pérsico daqui para frente”, afirmou o professor.

Essa análise ecoa o que o PolitikBr já havia documentado: o Irã se consolidou como o “guardião do Estreito” [https://politikbr.org/2026/03/28/o-pedagio-de-hormuz-ira-cobra-us-2-milhoes-por-petroleiro-e-reescreve-as-regras-do-jogo/], e a retirada americana da região é a consequência inevitável da derrota estratégica sofrida pelos EUA.

A China como o Grande Vencedor e os EUA como o Grande Perdedor

A análise de Mearsheimer sobre os vencedores e perdedores da guerra é talvez a sua maior contribuição para a compreensão do momento geopolítico.

“Portanto, se há algum país que é um grande vencedor nesta guerra envolvendo o Irã, esse país é a China, e se há um grande perdedor, são os Estados Unidos.”

Essa conclusão é derivada da lógica. A guerra, ao invés de conter a China, a fortaleceu.

“Os Estados Unidos, desde o primeiro mandato de Trump, desde 2017, estão comprometidos em conter a China. Bem, esta guerra no Oriente Médio contra o Irã é um desastre para essa mudança de foco para a Ásia, porque se alguma coisa aconteceu, foi que tivemos de nos afastar da Ásia”,

explicou Mearsheimer, lembrando que os EUA tiveram de retirar forças do Leste Asiático para enviá-las ao Oriente Médio, e gastar “munições preciosas” que seriam necessárias para conter Pequim.

A China e a Rússia, por sua vez, observam o desgaste americano com satisfação.

“E, claro, é por isso que a China e a Rússia têm um interesse profundo em ajudar o Irã a derrotar os Estados Unidos”,

concluiu Mearsheimer, apontando para a convergência de interesses entre os três países – China, Rússia e Irã – que desafiam a ordem unipolar.

Conexão com a Série do PolitikBr: O Direito à Dissuasão e a Derrota Anunciada

As impressões de Mearsheimer sobre o momento atual não podem ser compreendidas isoladamente. Elas são a continuidade lógica de sua análise, que o PolitikBr tem documentado.

Em artigos anteriores, já havíamos explorado a tese de Mearsheimer sobre o direito do Irã à dissuasão nuclear [https://politikbr.org/2026/03/05/o-direito-a-dissuasao-nuclear-por-que-o-argumento-de-mearsheimer-para-o-ira-e-um-alerta-para-o-brasil/], a sua análise sobre como Trump foi enganado por Netanyahu [https://politikbr.org/2026/04/29/mearsheimer-trump-foi-enganado-por-netanyahu-e-pelo-mossad-a-estrategia-era-fadada-ao-fracasso/], e a constatação de que os EUA já perderam a guerra [https://politikbr.org/2026/03/12/john-mearsheimer-eua-ja-perderam-a-guerra-com-o-ira-sem-saida-a-vista/].

Agora, Mearsheimer adiciona uma nova camada à sua análise: a guerra, ao invés de conter o Irã, acelerou a ascensão da China e expôs a fragilidade da aliança EUA-Israel. O sonho sionista de um “Grande Israel” [https://politikbr.org/2026/04/26/a-demografia-e-a-grande-israel-israel-sangra-em-populacao-e-economia-enquanto-netanyahu-persegue-um-sonho/] se choca com a realidade de um Irã nuclear, e de uma Turquia cada vez mais assertiva, enquanto os EUA se veem forçados a um recuo humilhante.

O Crepúsculo da Ordem Unipolar

As impressões de Mearsheimer sobre esse momento do Oriente Médio são um testemunho do crepúsculo da ordem unipolar.

A guerra contra o Irã, longe de consolidar a hegemonia americana, acelerou o seu declínio. O Irã está mais forte. A China está mais influente. A Rússia está mais engajada. E Israel, o aliado que outrora ditava os termos, agora se vê encurralado e parcialmente destruído, com a sua estratégia expansionista em frangalhos. Além de uma, quase irreparável, perda de apoio popular, não somente nos EUA, mas em todo o mundo, que vê os Estados Unidos e Israel como nações fora da lei, párias.

A pergunta que Mearsheimer deixa no ar não é se os EUA perderam a guerra, mas que tipo de acordo eles conseguirão negociar em sua derrota. E, como o professor sugere, o “momento plástico” que se abre pode ser tanto uma oportunidade para a paz quanto para um novo ciclo de violência.

A história, no entanto, já está sendo escrita. E o PolitikBr continuará documentando cada linha, dedicado à verdade e à paz.

Nota ao leitor: Este artigo buscou compilar, em uma análise única e aprofundada, os elementos factuais e contextuais que cercam a visão do professor John Mearsheimer sobre a reconfiguração do Oriente Médio, tendo como base a sua recente entrevista ao Dialogue Works. As fontes utilizadas são públicas e estão devidamente listadas para sua verificação.

Agradecimento:

Nesses 27 dias de julho de 2026, o PolitikBr foi acessado a partir de dezenas de países – talvez o seu. Agradecemos aos leitores dos Estados Unidos, Japão, Brasil, China, Rússia, Canadá, Reino Unido, e de tantos outros países que nos acompanham. Seguimos dedicados à verdade e à paz, em todos os idiomas.

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Referências utilizadas neste artigo

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