Cezinha de Madureira: O Pastor do Tráfico de Influência e o Guru que Abençoou o “Terrivelmente Evangélico”

Da série André Mendonça – O Terrivelmente Evangélico

Tópicos principais abordados neste artigo:

  • A Operação Transparência 3 e o deputado Cezinha de Madureira
  • O modus operandi do tráfico de influência em tribunais superiores
  • A relação entre Cezinha, André Mendonça e o caso do Banco Master
  • O encontro secreto entre Mendonça e Vorcaro intermediado pelo deputado
  • A apreensão de R$ 510 mil com a esposa do parlamentar
  • O contexto da batalha campal no STF e a eleição de 2026

Internacional, Nacional, Política, Economia, Geopolítica, Saúde e Bem Estar

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Por PolitikBr I Brasília, Em 15/09/2026, 09h:22min, leitura: 12min

Editor: Rocha, J.C.

Essa é uma análise documental. Para visualizar “o todo” recomendamos a leitura dos demais artigos e publicações relacionadas, que se somam ao tema de hoje. Boa leitura.

O dia em que a Polícia Federal bateu na porta do guru

Na manhã dessa segunda-feira (14/09), que amanheceu insana, a Polícia Federal bateu na porta de um dos deputados evangélicos de maior influência do seio da extrema direita do Brasil. Ele é, ninguém mais ninguém menos, o pastor que “abençoou” André Mendonça, em sua escolha para o STF.

A operação, autorizada pelo ministro Flávio Dino (STF), não mirava um alvo qualquer: esse deputado federal era Cezinha de Madureira (PL-SP), pastor da Assembleia de Deus Ministério Madureira, e que se tornou homem de confiança de André Mendonça, o ministro “terrivelmente evangélico” do Supremo Tribunal Federal, como ele a si próprio se referiu.

A terceira fase da Operação Transparência cumpriu quatro mandados de busca e apreensão em São Paulo e no Distrito Federal, investigando os crimes de exploração de prestígio, tráfico de influência, corrupção passiva e lavagem de dinheiro. Nas palavras da jornalista Daniela Lima, âncora do UOL que vem destrinchando o caso:

“Ele era uma espécie de lobista de luxo, de gente encrencada com a justiça. Mas que vendia, muito caro, eu posso afirmar para vocês, vocês vão ver na decisão, segundo aponta a Polícia Federal, essa é a suspeita, vendia muito caro a chave dos gabinetes de gente, que ele ajudou a fazer circular no Congresso Nacional.”

A fala resume o cerne da questão: Cezinha não é advogado, mas vendia acesso a quem era. Não tem caneta para despachar, mas tinha as chaves dos gabinetes de ministros que ajudou a promover. E cobrava por isso. Muito caro. Ele cobrava por “sucesso”, isto é, por “resultado obtido”.

A anatomia de um esquema de influência

A investigação revela um padrão de conduta que se repetia sistematicamente. A advogada Mariângela Fialek, conhecida como Tuca, servidora da Câmara dos Deputados e ex-assessora de Arthur Lira, operacionalizava a distribuição de emendas do orçamento secreto. Quando o seu telefone foi apreendido em dezembro de 2025, a PF encontrou conversas com um contato salvo como “Cezinha 3”. Revelador? Veremos.

O que se seguiu foi a descoberta de uma engrenagem sofisticada. Tuca captava clientes com problemas na Justiça, redigia as peças processuais e entregava os chamados “memoriais” — documentos com argumentações para julgamentos. A companheira de Cezinha, a advogada Valéria Rodrigues Linhares, assinava os contratos de honorários e de cessão de crédito. E Cezinha entrava com aquilo que só ele podia oferecer: a entrada nos gabinetes dos ministros.

A PF detalha o modus operandi: Tuca encaminhava o processo à Cezinha, que confirmava ter falado ou despachado com o ministro. Em seguida, Tuca cobrava o resultado — “me dê boas notícias, qual é o próximo passo?” — e, paralelamente, se formalizava o instrumento de honorários de êxito, a “taxa de sucesso”, vinculada exclusivamente ao resultado do julgamento.

Os valores são impressionantes. Contratos de R$ 500 mil, R$ 1 milhão, R$ 2 milhões. A investigação cita uma prefeita de Beberibe, no Ceará, que queria anular uma investigação do Ministério Público; um ex-secretário de Belford Roxo, preso por desvio de R$ 112 milhões; e sempre o mesmo destino: os gabinetes dos ministros Nunes Marques, André Mendonça e Gilmar Mendes.

“Existe um padrão de conduta constante que se repete em todos os episódios. A Tuca encaminha ao parlamentar o processo, o que ele tem que defender. Ele confirma que falou, despachou, pediu ao que será recebido pelo ministro. A Tuca cobra o resultado. E, paralelamente, formaliza-se o instrumento de honorários de êxito.” (Daniela Lima)

O elo com André Mendonça: muito além de um encontro

O caso Cezinha de Madureira não é uma história isolada de tráfico de influência. É a ponta de um iceberg. O deputado não apenas vendia acesso a gabinetes; ele foi o intermediário direto do encontro mais explosivo do ano: a reunião entre André Mendonça e Daniel Vorcaro, o banqueiro do Banco Master, preso por fraudes bilionárias.

O encontro ocorreu em 14 de março de 2025, na sede do Instituto Iter, fundado pelo próprio Mendonça, em São Paulo. Mensagens extraídas do celular de Vorcaro mostram o deputado avisando: “Ministro já está te esperando”.

A PF foi taxativa: “o representado, Cezinha da Madureira, teria atuado na articulação logística de um encontro reservado, em 14 de março de 2025, no endereço tal entre o empresário do setor financeiro e o ministro dessa Suprema Corte, comunicando ao interessado que o ministro já está esperando”.

A pergunta que não quer calar: por que um ministro do STF receberia um banqueiro investigado em um instituto privado, e não em seu gabinete oficial? A resposta, segundo a própria decisão de Flávio Dino, e o que se apura seria “a mercancia da influência por quem a ofereceu e a precificou, e não o comportamento de quem foi apresentado à terceiros como influenciável”?

Em outras palavras: Cezinha vendia a promessa de acesso. Se o acesso se concretizava ou não, se o ministro sabia ou não da intermediação remunerada, é juridicamente irrelevante para a configuração do crime. O que importa é que ele oferecia e recebia por isso.

A mala, o advogado e o aeroporto

O caso ganhou contornos de roteiro de cinema quando, em 25 de agosto de 2026, a Polícia Federal apreendeu R$ 510 mil em dinheiro vivo na bagagem de mão de Valéria Rodrigues Linhares, esposa de Cezinha, no aeroporto de Congonhas.

Chamada a se explicar, Valéria alegou que se tratava de honorários advocatícios. Mas quem foi socorrê-la? Daniel Bialski, advogado de Daniel Vorcaro — o mesmo banqueiro que Cezinha levou ao Instituto de Mendonça.

A coincidência é perturbadora. O advogado do maior escândalo financeiro do país é o mesmo que corre para explicar meio milhão de reais em espécie na mala da esposa do deputado, que faz a ponte entre o banqueiro e o ministro.

O pano de fundo: uma batalha campal no Supremo

É impossível analisar o caso Cezinha de Madureira fora do contexto da guerra total que se desenrola no Supremo Tribunal Federal. Como bem observou Daniela Lima, “é impossível analisá-la fora do foco da batalha campal que se desenrola no Supremo Tribunal Federal”.

A operação de segunda-feira ocorreu na véspera do julgamento que discutirá hoje a conduta do ministro Alexandre de Moraes, cuja proximidade com Daniel Vorcaro foi exposta pelo próprio André Mendonça. O que se vê é uma troca brutal de acusações, uma sobreposição de decisões e ordens que a PF cumpriu em um único dia.

A Polícia Federal entregou nos gabinetes dos ministros Cristiano Zanin, Gilmar Mendes e Alexandre de Moraes cópias dos dados brutos do celular de Vorcaro. O material também está com André Mendonça, que terá de comparar e fazer perícia sobre a acusação que ele mesmo fez contra o colega – se não o fizera antes, como acusar Moraes? E é, óbvio, que ele sendo o acusador, que fique impedido de votar quando da apreciação da conduta do colega. Isso é o mínimo que se espera.

A Procuradoria-Geral da República ainda endossou uma queixa de Moraes, e revelou que Mendonça mantinha sob sigilo uma investigação que detalha o fluxo financeiro de Vorcaro. O ministro Luiz Edson Fachin determinou que ele derrubasse o sigilo. E, como pano de fundo, a campanha eleitoral de 2026 se desenrola nesse clima de guerra.

O que está em jogo

A decisão de Flávio Dino delimita o objeto da investigação: “não constitui objeto desta investigação nem da medida hora requerida a conduta de ministros do Supremo Tribunal Federal, do Superior Tribunal de Justiça, do Tribunal Superior Eleitoral ou de quaisquer outros magistrados”.

Não há, segundo a PF, “notícia de solicitação, de aceitação ou de recebimento de vantagem indevida por integrante do Poder Judiciário, tampouco de prolação de ato jurisdicional em desconformidade com o direito”. Os magistrados aparecem apenas como “destinatários cogitados da influência anunciada pelos investigados” .

O que se investiga é a mercancia da influência. Cezinha de Madureira é suspeito de ter transformado a proximidade com ministros do STF — proximidade construída, em parte, por ter ajudado a promovê-los — em um negócio lucrativo. Ele vendia a expectativa de acesso, a promessa de que uma causa seria vista com bons olhos; a esperança de que um memorial chegaria às mãos certas.

É um crime formal. Ele se consuma com a solicitação ou o recebimento da vantagem, independentemente de o resultado ser alcançado. Como explicou Alexandre Borges, “só o fato de você oferecer esse serviço, e receber por ele, você já está tipificado nesse crime previsto no Código Penal”.

A pergunta que fica

Cezinha de Madureira não é uma figura menor. Ele é pastor de um dos maiores troncos da Assembleia de Deus no país, membro da bancada evangélica, articulador da indicação de André Mendonça ao STF. A sua influência é real, construída ao longo de anos de trânsito entre o Congresso, as igrejas e o Judiciário.

Se as suspeitas se confirmarem, o que isso diz sobre a relação entre fé, poder e dinheiro no Brasil? O que isso revela sobre a permeabilidade do Supremo Tribunal Federal à pressões externas, mesmo quando não há indícios de corrupção direta dos magistrados?

André Mendonça, o ministro “terrivelmente evangélico”, viu o seu nome arrastado para o centro do furacão por um aliado que o ajudou a chegar ao STF. A pergunta que ecoa nos corredores do poder é se o ministro conseguirá manter a serenidade diante da tempestade — ou se o caso Cezinha de Madureira será o prelúdio de sua própria derrocada.

Uma coisa é certa: em Brasília, o acesso tem preço. E quem vende influência, um dia, pode ter que pagar a conta.

Nota ao leitor: 

Este artigo buscou compilar, em uma análise única e aprofundada, os elementos factuais e contextuais que cercam a operação da Polícia Federal contra o deputado Cezinha de Madureira e suas conexões com o ministro André Mendonça. As fontes utilizadas são públicas e estão devidamente listadas para sua verificação

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