Pepe Escobar: Já que Trump Perdeu e Não Conseguiu Controlar o Irã, Agora Ele Quer Destruir Tudo

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Por PolitikBr I Brasília, Em 18/08/2026, 08h:53min, leitura: 8min

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Editor: Rocha, J.C.

Essa é uma análise documental. Para visualizar “o todo” recomendamos a leitura dos demais artigos, e publicações relacionadas, que se somam ao tema de hoje. Boa leitura.

A guerra contra o Irã parece ter produzido um resultado muito diferente daquele imaginado por Washington. Na leitura do jornalista e analista geopolítico Pepe Escobar, os Estados Unidos não conseguiram submeter Teerã, não conseguiram isolá-lo politicamente, não conseguiram acabar com o seu programa nuclear, e tampouco estabelecer o controle que pretendiam sobre o estratégico Estreito de Ormuz.

Agora, segundo Pepe Escobar, a estratégia estaria mudando: se não é possível controlar, será preciso destruir.

A declaração ganha peso diante dos acontecimentos dos últimos dias. O prazo de 60 dias previsto no memorando entre Estados Unidos e Irã terminou ontem (17/8) sem um acordo definitivo, enquanto Teerã avançou nas negociações com Omã para estabelecer um mecanismo próprio de circulação pelo Estreito de Ormuz. A passagem é estratégica para o comércio mundial de energia.

E é justamente aí que surge a nova ameaça de Donald Trump.

Ormuz: o ponto central da disputa

Trump ameaçou bombardear Omã caso o país, que historicamente exerce papel de mediador entre Washington e Teerã, “se intrometa” no acordo sobre o Estreito de Ormuz. As águas de Ormuz tem jurisdição do lado leste pelo Irã e do lado oeste por Omã. A ameaça foi feita justamente quando expirava o prazo de negociação de 60 dias entre Estados Unidos e Irã.

A questão não é simplesmente marítima.

Ormuz é uma das principais artérias energéticas do planeta. Quem consegue controlar a passagem pelo estreito possui enorme capacidade de interferir no fluxo mundial de petróleo e gás, ácido sulfúrico, adubos nitrogenados, hélio e outros produtos da cadeia do petróleo e gás — e, portanto, nos preços da energia, na inflação e na própria estabilidade econômica mundial.

É por isso que, na leitura de Escobar, a disputa ultrapassa em muito a guerra entre Washington e Teerã. Ela envolve quem terá poder para definir as regras do comércio energético no Golfo Pérsico.

Do controle ao isolamento — e do isolamento à destruição

Na visão de Escobar, a lógica americana teria passado por três etapas.

Primeiro, tentar controlar o Irã por meio de governos aliados e das estruturas políticas do Oriente Médio.

Depois, diante da dificuldade de obter esse resultado, isolar o país.

Mas, segundo Pepe, a guerra de agressão dos EUA e de Israel, em meio às negociações que vinham ocorrendo com o lado iraniano, teve justamente o efeito contrário: o Irã saiu dela com um peso militar, geopolítico e geoeconômico maior do que possuía antes do ataque surpresa de 28 de fevereiro com o assassinato, pelos Estados Unidos, de Ali Khamenei.

Cabe lembrar que com o fracasso em alcançar os 4 objetivos de Guerra: mudança de regime, fim do enriquecimento de urânio, fim do programa de mísseis de longo alcance, e fim do apoio iraniano à grupos de resistência pelo Irã (Hamas, Hesbollah, Houthis), então aparece a terceira possibilidade, na formulação do analista: “destruir tudo”. Não deixar que o Irã se converta em um poderoso fornecedor de energia para o sul global, sem passar pelo uso dos petrodólares, do qual os EUA dependem miseravelmente, e no qual se baseou a sua dominância unipolar no mundo. Sem a máquina de gerar dólares e reciclar dólares injetando de volta na economia americana, os EUA estão fadados, em algum momento, à derrocada. Ao default de sua economia.

Essa é uma das teses centrais de Escobar: a disputa pelo Irã seria também uma disputa pelo futuro da ordem econômica internacional.

O problema é que a guerra também cobra uma conta

Há outro elemento importante no raciocínio de Escobar.

Segundo o analista, os generais do Pentágono teriam advertido Trump de que os estoques americanos de interceptadores, mísseis e sistemas de defesa estavam próximos dos níveis mínimos, tornando inviável sustentar uma nova ofensiva de grande escala. Mas ela ajuda a entender a lógica de sua análise: Washington estaria diante de uma situação paradoxal.

Quanto mais tentar pressionar militarmente o Irã, maior será o desgaste dos próprios recursos americanos, que estão sendo drenados do leste asiático (fundamental à contenção estratégica da China) e direcionados ao Golfo Pérsico — enquanto Teerã, em vez de capitular, amplia, cada vez mais, a sua importância estratégica.

É nesse contexto que a ameaça de Trump contra Omã ganha significado.

Omã é a nova peça do tabuleiro

Omã não é um inimigo tradicional dos Estados Unidos. Pelo contrário: durante décadas, Mascate manteve relações próximas com Washington e desempenhou papel de mediador em conflitos envolvendo o Irã e os Estados Unidos. Por isso, ameaçar militarmente Omã representa uma escalada particularmente significativa.

O motivo imediato é a possibilidade da assinatura de um acordo entre Omã e o Irã sobre a circulação pelo Estreito de Ormuz. A imprensa internacional confirmou que Teerã anunciou avanços nesse sentido, e que Washington considera qualquer arranjo que contorne as suas condições uma ameaça aos seus interesses.

Na interpretação de Escobar, portanto, o problema já não seria somente “como derrotar o Irã”, mas como impedir que o Irã construa uma nova arquitetura regional sem depender de Washington. E isso muda completamente a natureza do conflito.

O que está realmente em jogo

A grande questão é saber se estamos diante de uma tentativa americana de recuperar poder de negociação ou de uma escalada para uma guerra ainda maior que, pelo que temos publicado em vários de nossos artigos, os EUA não tem mais condições de conduzir. Aliás, nesse momento, são os “linha dura” iranianos que estão planejando “partir para o ataque”, aproveitando a evidente fraqueza dos Estados Unidos e de Israel, em termos de armamentos e munições e vigilância; e com o fim do MOU ontem, os iranianos se partirem para o ataque contra os ativos militares – ainda existentes – e econômicos dos EUA no Oriente Médio, estariam tentando uma capitulação definitiva pelos americanos. Isto é, a aceitação de todos os seus termos, que já são bem conhecidos. Uma sinuca de bico para Trump e Vance.

Mas a ameaça contra Omã mostra – se não for mais um blefe, o que parece, assim como ele disse há poucos dias que o estreito de Ormuz se tornaria território americano (?!) – pelo menos, que Washington estaria disposto a elevar significativamente o custo para qualquer ator regional que tente estabelecer um acordo sobre Ormuz sem a sua participação. Para Omã será pagar para ver.

Mas há uma ironia estratégica. Quanto maior e mais prolongada for a pressão americana sobre o Irã e os seus parceiros, maior pode ser o incentivo para que os países da região procurem mecanismos próprios de segurança, comércio e energia, reduzindo justamente a dependência que Washington tenta preservar.

É aí que a tese de Pepe Escobar se torna particularmente interessante. Para ele, o problema não é apenas a derrota de uma operação militar. É a possibilidade de que a própria guerra esteja acelerando a transição para uma ordem multipolar.

Quer saber mais? Leia a matéria completa: “Trump ameaça bombardear Omã caso país assine acordo com Irã” — Correio Braziliense

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