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Por PolitikBr I Brasília, Em 17/08/2026, 19h:03min, leitura: 12min
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Editor: Rocha, J.C.

Essa é uma análise documental. Para visualizar “o todo” recomendamos a leitura dos demais artigos, e publicações relacionadas, que se somam ao tema de hoje. Boa leitura.
Há ideias que parecem ficção científica até percebermos que parte delas já está sendo demonstrada em laboratório.
Em uma nova entrevista, o neurocientista brasileiro Miguel Nicolelis apresenta uma dessas ideias: a possibilidade de que cérebros humanos individuais, quando submetidos simultaneamente à determinadas informações, possam formar uma espécie de “supraestrutura cerebral” coletiva — uma Brainet.
E o conceito vai muito além da tecnologia.
Ele toca em uma questão incômoda: até que ponto aquilo que pensamos ser uma decisão individual é, na realidade, produto de uma informação compartilhada por milhões de cérebros ao mesmo tempo?
Quem é Miguel Nicolelis?
Antes de discutir a ideia, é importante saber quem a está propondo.
Miguel Nicolelis é médico e neurocientista brasileiro. Ele se formou em Medicina pela Universidade de São Paulo e fez doutorado em Fisiologia Geral, também pela USP. Em 1994, foi para a Duke University, nos Estados Unidos, onde construiu uma das carreiras mais importantes da neuroengenharia contemporânea.
Na Duke, foi professor de Neurobiologia, Engenharia Biomédica e Psicologia e Neurociência, além de fundador do Center for Neuroengineering. Em 2021, se tornou Professor Emérito da universidade.
O seu trabalho ficou particularmente conhecido pela pesquisa sobre interfaces cérebro-máquina: sistemas capazes de registrar sinais neurais e utilizá-los para controlar máquinas ou próteses.
Foi dessa linha de pesquisa que surgiu o Projeto Andar de Novo (Walk Again Project), que reuniu mais de uma centena de cientistas e engenheiros de diversos países. Em 2014, durante a abertura da Copa do Mundo no Brasil, um jovem paraplégico, Juliano Pinto, realizou o chute inicial do jogo, utilizando um exoesqueleto controlado por sinais cerebrais.
A trajetória científica de Nicolelis não se resume ao espetáculo da Copa. A Duke registra, entre as suas principais contribuições, o desenvolvimento de métodos para registrar a atividade de centenas de neurônios, experimentos com interfaces cérebro-máquina em primatas, estudos de recuperação neurológica em pacientes paraplégicos, e pesquisas sobre estimulação neural.
É, portanto, alguém que passou décadas estudando justamente a fronteira entre cérebro, máquina, informação e comportamento. E é daí que surge a Brainet.
Quando vários cérebros passam a trabalhar como um só
Na entrevista, Nicolelis recupera experimentos realizados com macacos.
Segundo ele, diferentes animais tiveram as suas atividades cerebrais registradas simultaneamente, e seus sinais combinados para realizar uma tarefa cooperativa. O resultado chamou atenção: os cérebros apresentavam sincronização da atividade elétrica e, juntos, conseguiam realizar operações que cada animal individualmente não realizaria da mesma maneira.
A ideia foi posteriormente formalizada na literatura científica como Brainet.
Em trabalhos em seu laboratório, grupos de primatas foram treinados para combinar a atividade cerebral individual e controlar, conjuntamente, movimentos de um braço virtual.
A literatura científica descreve esses sistemas como uma forma de “Brainet”: múltiplos cérebros conectados por uma interface capaz de combinar as suas atividades neurais.
É importante perceber o que isso significa — e também o que não significa.
Não se trata de telepatia. Os cérebros não estão magicamente compartilhando pensamentos. Existe uma infraestrutura tecnológica registrando os sinais neurais, processando-os e combinando-os.
Mas o fenômeno demonstrado é extraordinariamente interessante: informações provenientes de cérebros diferentes podem ser integradas de maneira que o sistema coletivo execute uma tarefa.
Nicolelis dá então um salto conceitual. E é aí que a discussão fica muito mais interessante.
A Brainnet social
Para Nicolelis, a lógica da Brainet pode ajudar a compreender algo que observamos todos os dias: a formação de grupos humanos altamente sincronizados.
Times de futebol, exércitos, orquestras, grupos religiosos, congressos, movimentos políticos e comunidades inteiras possuem algo em comum.
Milhares ou milhões de indivíduos passam a compartilhar determinadas referências, emoções, objetivos, símbolos e informações. O resultado pode ser uma espécie de coordenação coletiva.
Na entrevista, Nicolelis conta que realizou experimentos com jogadores de futebol, registrando a atividade cerebral de dois atletas enquanto interagiam. Segundo o seu relato, quando os jogadores receberam uma instrução comum sobre como deveriam atuar, houve uma sincronização imediata da atividade pré-frontal. A sua interpretação do que aconteceu é provocadora: antes havia jogador A e jogador B. Depois, havia um time.
É nesse sentido que ele emprega o conceito de Brainnet para além do laboratório.
O “vírus informacional”
Mas como uma Brainnet social se forma? Segundo Nicolelis, através daquilo que ele chama de “vírus informacional”.
Não estamos falando de um vírus biológico. Se trata de uma metáfora para um pacote de informações capaz de explorar mecanismos muito antigos do cérebro humano: medo, ameaça, pertencimento, sobrevivência, proteção do grupo e identificação de um inimigo.
Uma informação assim pode ser transmitida simultaneamente a milhões de pessoas pelas redes sociais, televisão, plataformas digitais e outros meios de comunicação. E, quando milhões de pessoas recebem a mesma mensagem, no mesmo ambiente informacional, as suas respostas podem começar a convergir.
Aqui está a parte mais perturbadora da tese. Não é necessário conectar fisicamente os cérebros para se produzir sincronização social. Basta conectar as pessoas pela informação.
Nicolelis ilustra isso com uma experiência aparentemente inocente. Ele convocou os seus seguidores nas redes sociais para ouvir simultaneamente determinado trecho musical. Milhares de pessoas, espalhadas pelo mundo, fizeram isso no mesmo momento. Não havia conexão neural entre elas. Mas havia uma experiência compartilhada.
Depois, começaram a aparecer relatos de pessoas descrevendo a sensação de estarem acompanhadas, como se houvesse uma plateia ou uma comunidade ao redor delas. Para Nicolelis, naquele momento, havia se formado uma espécie de Brainnet social. O elemento de conexão não era um fio. Era a informação compartilhada no mesmo instante.
A experiência coletiva pode ser mais poderosa que o indivíduo
É aqui que a ideia ganha uma dimensão política.
Uma sociedade pode compartilhar uma determinada narrativa até que ela deixe de parecer uma narrativa e passe a ser percebida como realidade.
A história oferece exemplos suficientes de sociedades altamente educadas que aderiram coletivamente a ideias destrutivas.
Nicolelis menciona a Alemanha do século XX justamente para lembrar que a inteligência individual não imuniza automaticamente uma sociedade, contra fenômenos coletivos de manipulação.
Esse é um ponto essencial. Uma sociedade formada por indivíduos inteligentes não é necessariamente uma sociedade que toma decisões inteligentes. Porque o comportamento coletivo não é simplesmente a soma das inteligências individuais. Há emoção. Há pertencimento. Há medo. Há repetição. Há autoridade. E há o poderoso mecanismo psicológico do “todo mundo está pensando assim”: o efeito manada.
Quando a linguagem começa a mudar a realidade
Na entrevista, Nicolelis aproxima a sua tese de uma preocupação clássica da literatura: George Orwell.
No clássico 1984, o controle político não dependia apenas da força. Dependia também do controle da linguagem e, consequentemente, daquilo que pode ser pensado, comunicado e reconhecido como realidade. Hoje, porém, existe uma diferença gigantesca.
Orwell imaginou uma sociedade submetida a um sistema centralizado de controle. Nós, entretanto, construímos algo muito mais sofisticado: uma infraestrutura planetária capaz de distribuir uma informação em segundos, para centenas de milhões de pessoas.
E, pior: o algoritmo consegue descobrir previamente quais informações despertam mais medo, indignação, entusiasmo ou pertencimento em cada indivíduo.
A Brainnet moderna, portanto, não precisa necessariamente de um controlador único. Ela pode emergir da própria dinâmica das redes sociais.
O paradoxo da tecnologia
Nicolelis amplia ainda mais a discussão ao falar sobre tecnologia.
Segundo ele, tecnologias utilizadas continuamente acabam sendo incorporadas à maneira como o cérebro interage com o mundo. Uma bicicleta, por exemplo, deixa de ser percebida simplesmente como um objeto externo, quando o ciclista desenvolve domínio sobre ela. Ela passa a funcionar como uma extensão do próprio corpo.
A linguagem escrita produziu uma transformação ainda maior: permitiu que pensamentos sobrevivessem ao próprio indivíduo.
Shakespeare morreu. Mas Shakespeare continua falando. Aristóteles morreu. Mas as suas ideias continuam circulando. A tecnologia, portanto, não é apenas uma ferramenta externa à humanidade. Ela modifica a própria condição humana. E agora chegamos ao problema da era digital.
Estamos terceirizando o pensamento?
Nicolelis manifesta preocupação com a possibilidade de que as ferramentas digitais, e agora os sistemas de inteligência artificial, retirem progressivamente do indivíduo determinadas funções cognitivas.
Se uma máquina calcula por nós, escreve por nós, pesquisa por nós, traduz por nós, e até formula argumentos por nós, existe uma pergunta inevitável: o que acontece com as capacidades que deixamos de exercitar?
A tecnologia pode ampliar o cérebro. Mas também pode acomodá-lo. Essa é uma distinção fundamental.
Uma calculadora pode ampliar a nossa capacidade de cálculo. Mas se nunca mais aprendermos a calcular, podemos perder a própria habilidade que a máquina substituiu.
O mesmo raciocínio vale para a inteligência artificial. A questão não é ser contra a tecnologia. É não confundir extensão da inteligência com terceirização da inteligência. E isso é vital de ser compreendido.
E aqui está o perigo real da Brainnet
A ciência já demonstrou que é possível combinar atividades de múltiplos cérebros em sistemas experimentais controlados. Fato.
O salto para afirmar que sociedades humanas inteiras possam constituir literalmente uma Brainnet neurofisiológica é uma hipótese desafiadora, na maneira que vemos a proposição do professor. Entretanto, salta aos olhos de que se trata de um fenômeno real em arranjos grupais submetidos ao mesmo estímulo, como ocorre com os religiosos, com os extremistas de direita, com os combatentes em guerras; e até nas vibes de multidões em transe nos shows de rock.
E os magnatas do Silicon Valley e da Palantir apostam todas as suas fichas que milhões de seres humanos ao receberem simultaneamente a mesma informação, irão reagir emocionalmente a ela, modificando o seu comportamento em conjunto, ou parcialmente em conjunto, talvez de forma segmentada, dependendo da idade, orientação religiosa, sexual, política e de nível cultural.
Isso é algo que possa ser validado? Fica a pergunta.
E sobre o “virus mental” de que fala Nicodelis?
Talvez o verdadeiro “vírus mental” do século XXI não seja uma informação falsa específica. Mas sim a capacidade de fazer uma determinada informação se tornar emocionalmente impossível de se questionar. Quando e se isso acontece, a pessoa já não precisa ser convencida. Ela passa a convencer os outros. E é justamente aí que o vírus se multiplica.
A pergunta que fica
A grande provocação de Nicolelis não é saber se os seres humanos literalmente formam um cérebro coletivo.
É outra.
Se milhões de pessoas podem ser sincronizadas por uma mesma informação, quem controla a informação passa a ter, em alguma medida, poder sobre o comportamento coletivo?
Essa talvez seja uma das perguntas políticas mais importantes da era digital. Porque nunca tivemos, na história humana, uma máquina capaz de falar simultaneamente com bilhões de cérebros. E nunca tivemos algoritmos capazes de aprender, em tempo real, quais mensagens conseguem fazê-los reagir.
A Brainnet pode ser uma ferramenta para cooperação. Pode ampliar a inteligência coletiva. Pode ajudar a tratar doenças. Pode conectar pessoas. Mas exatamente a mesma arquitetura pode ser utilizada para produzir medo, fanatismo, polarização e obediência.
A tecnologia não decide qual desses caminhos será seguido. Nós decidimos.
O problema é que, quando milhões decidem sincronizadamente, talvez já não seja tão fácil descobrir onde terminou a decisão individual — e onde começou a decisão da multidão.
Quer saber mais? Assista à entrevista: “BRAINNET: COMO UM VÍRUS MENTAL PODE CONTROLAR MILHÕES DE CÉREBROS”
Outros artigos sobre as reflexões e opiniões de Nicodelis, aqui no PolitikBr:
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Referências Utilizadas
- Opera Mundi (2026): BRAINNET: COMO UM VÍRUS MENTAL PODE CONTROLAR MILHÕES DE CÉREBROS – Miguel Nicolelis
- TV Cultura (2025): “Quando apareceu a vacina, o maior choque da minha vida foi esse”, diz Miguel Nicolelis sobre negacionismo nas redes sociais
- G1 (2015): Estudo de brasileiro mostra interação à distância de cérebros de animais
- Scientific American (2013): Brain to Brain: Dawning of the Telepathic Rat Tweet
- SE Palmeiras (2026): Nicolelis se encontra com Felipão e sugere projeto ao Palmeiras
- SciELO (2020): Beyond Boundaries Expanded Edition: Neuroscience, Brains and Machines – Book review

