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O Desmoronamento da Fantasia: Como a Guerra de Trump Expôs a Fragilidade Americana

Internacional, Geopolítica, Economia, Política

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Por PolitikBr I Brasília, Em 28/04/2026, 21h:00, leitura: 9 min

Editor: Rocha, J.C.

Há algo de trágico na arrogância quando ela finalmente encontra o seu destino: a verdade, implacável e atrasada, que não pede licença para entrar. Durante semanas, a sociedade americana e, por extensão, a Ocidental, foi inundada por uma enxurrada de propagandas triunfalistas vindas da administração Trump e de seus ecochambers nas mídias sociais – uma das mais nefastas estratégias de manipulação de massas, em especial da extrema direita.

A narrativa era sempre a mesma, monocórdica e vazia: o Irã estava “destruído”, a sua capacidade militar era uma farsa, os seus mísseis, uma ameaça fantasiosa. O botão nuclear americano era maior, os navios, mais imponentes. E, como num conto de fadas bélico, os “bárbaros” persas seriam facilmente domados pela força bruta e pela inteligência ocidental.

Era uma bela história. O único problema é que a realidade, teimosa, se recusou a seguir o roteiro.

Agora, a cortina de fumaça começa a se dissipar. E o que se revela não é a vitória retumbante prometida, mas o cenário desolador de uma aposta estratégica que saiu catastroficamente errada. Fontes antes alinhadas ao discurso oficial, como a NBC News – que raramente se destaca por sua ousadia crítica –, foi forçada a reportar o que analistas independentes – e o PolitikBr – já apontavam há semanas: o Irã não apenas tem uma gigantesca capacidade militar construída durante décadas, como a usou com eficiência estratégica, o que expôs a vulnerabilidade dos EUA.

O relatório da NBC, baseado em vazamentos de três funcionários anônimos dos EUA – dois assessores republicanos do Congresso e uma pessoa familiarizada com os danos – , é um documento revelador. A estimativa é de que os estragos causados pelos ataques iranianos, aos ativos de defesa americanos, podem chegar a US$ 5 bilhões, em valores conservadores, mas provavelmente esse valor é muito maior.

US$ 5 bilhões não inclui a reposição de equipamentos de ponta, como sistemas de radar e dezenas de aeronaves abatidas ou destruídas em solo. A fachada de invencibilidade das bases americanas, espalhadas como espinhos por sete países do Golfo (Bahrein, Iraque, Jordânia, Kuwait, Qatar, Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos), ruiu.

O que é mais chocante, no entanto, não foi apenas a extensão dos danos materiais, mas a natureza estratégica dos contra ataques iranianos. Os iranianos não agiram como os “cavaleiros da desgraça”, sem inteligência, que a propaganda trumpista tentou vender aos americanos. Eles foram metódicos. Estratégicos. É bom repetir essa palavra. Esse conceito. Pois a falta de estratégia, de planejamento e muita prepotência, foi exatamente o que levou o consórcio belicista EUA/Israel a ser derrotado nessa guerra.

Os primeiros alvos que o Irã destruiu foram os sistemas de radar de alta tecnologia dos EUA. Sem sistemas de radar de elevado alcance, não há tempo para a coordenação e preparação da defesa antecipada contra mísseis e mesmo drones, que, meia hora após os primeiros ataques dos EUA/Israel contra o Irã, já permitia aos iranianos uma resposta devastadora contra Israel e contra os ativos militares americanos, por todo o Oriente Médio.

Mas a notícia mais constrangedora, e que ainda não havia sido publicada, envolveu um feito que não ocorria há anos: Ao “cegar as defesas americanas”, um caça F-5 iraniano, relíquia de uma era passada, conseguiu sobrevoar e bombardear a base Camp Buehring, no Kuwait.

O inimigo, aquele que se falava ser acéfalo e desorganizado, executou um ataque aéreo em profundidade, de precisão, que penetrou o escudo tecnológico mais caro do mundo. A imagem de um jato iraniano violando o espaço aéreo e atacando uma base americana é uma ferida simbólica no orgulho dos belicistas americanos. Talvez eles tenham mesmo ficados indignados: “Como eles se atrevem”.

Há 60 dias, os Estados Unidos e Israel se lançaram em uma guerra contra o Irã sob falsos pretextos. Os objetivos declarados — mudança de regime, fim do programa de enriquecimento de combustível nuclear, fim do programa de mísseis avançados, abandono pelo Irã do apoio à Grupos de Resistência ao sionismo, como o Hesbollah, o Hamas, os Houthis e outros e; mais recentemente, a re-abertura do Estreito de Ormuz — não foram alcançados. As bases americanas por todo o Oriente Médio foram destruídas. Radares de mais de US$ 1 bilhão destruídos. Caças F-35, F-15, drones Reaper, helicópteros e aviões de transporte de tropas foram abatidos. As defesas iranianas continuam ativas e “a inteligência militar dos EUA acredita que o Irã ainda tem recursos militares significativos” (NBC News).

A administração Trump, que se gabava de ter os “melhores cérebros”, parece ter esquecido que o Irã é o herdeiro de uma civilização de 5.000 anos. Enquanto os EUA são uma jovem república de menos de 250 anos, a Pérsia antiga já havia dominado a arte da guerra e da diplomacia, quando os povos da Europa ainda habitavam cavernas. Subestimar a capacidade de adaptação e resiliência de uma nação com essa história não é apenas miopia; é estupidez estratégica.

Ao contrário do que afirmam os “falcões americanos”, o Irã ainda possui três quartos de sua força aérea intacta, milhares de mísseis de curto, médio, longo alcance, hipersônicos, anti navios, e drones aos milhares; além de uma marinha de submarinos e barcos rápidos que tornam o Estreito de Ormuz um pesadelo logístico para qualquer potência marítima.

Mesmo com toda a destruição dos ataques combinados EUA/Israel, a indústria bélica do Irã segue a todo vapor produzindo armamentos, e repondo o que foi utilizado ou destruído. Em resumo: uma máquina de guerra abrigada em milhares de quilômetros de instalações subterrâneas, algumas delas com a capacidade de sobreviver mesmo a um ataque nuclear.

O resultado dessa guerra estúpida dos EUA, a serviço de Netanyhu, é um impasse devastador. O Pentágono, antes tão loquaz, agora se refugia no silêncio sobre as “avaliações de danos de batalha” por “razões de segurança operacional”. Uma tradução livre: “Não queremos que você veja o tamanho do vexame”.

A guerra contra o Irã custa ao contribuinte americano US$ 1bilhão/dia e o governoTrump já solicitou um reforço de orçamento de US$ 1,5 trilhão e pede ainda US$ 400 bilhões extras para continuar o conflito. Pior: a Sputnik Brasil reportou que os EUA gastaram mais de 1.000 mísseis Tomahawk e até 2.000 mísseis de defesa aérea, incluindo os sofisticados THAAD e Patriot. O reabastecimento total desses arsenais, segundo o Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais (CSIS), pode levar até seis anos. Seis anos. Enquanto a doutrina militar americana teoriza sobre um confronto com a China, o exército está sangrando os seus ativos mais preciosos no Oriente Médio. A China certamente agradece à Trump. Já Taiwan, nem tanto.

A bomba política, porém, é ainda mais explosiva do que a militar. A guerra está corroendo as bases de sustentação interna de Trump. Lawrence O’Donnell, em seu programa, apontou a Síndrome da “Evasão de Prazo”.Trump ameaça, dá prazos, e depois se retrata covardemente. Pela manhã, disse que não queria estender a trégua; à tarde, estendeu-a indefinidamente. O seu estilo de “negociação” é uma ilusão, que até os adversários já aprenderam a ignorar.

As pesquisas de opinião, antes manipuladas para parecerem favoráveis, começam a mostrar o colapso. Segundo dados citados por Lawrence, 67% dos americanos desaprovam Trump, 67% desaprovam a sua condução da guerra contra o Irã e pasmem: 76% desaprovam a forma como ele combate o aumento do custo de vida.

Mas o verdadeiro terremoto político não está nos democratas, que sempre se opuseram, mas na base republicana. Jesse Dollemore destaca um fato inédito: pesquisas recentes indicam que 55% de todos os americanos apoiam o impeachment de Trump. E não se trata apenas de democratas ou independentes. 21% dos próprios republicanos e, crucialmente, 21% dos eleitores que votaram em Trump em 2024, agora apoiam a abertura de um processo de impeachment.

O mito da base unificada e fanática desmorona quando a gasolina chega à preços estratosféricos, o salário não dá prá chegar no final do mês, e os soldados americanos voltam em caixões.

A fratura no campo conservador ainda se torna escandalosamente pública quando figuras como Tucker Carlson, o ex-âncora da Fox que construiu a sua carreira alimentando o monstruoso Frankenstein trumpista, agora diz se sentir “atormentado”. Carlson, em um raro momento de autoconsciência, admitiu: “Nós estamos implicados nisso com certeza. […] Em pequenas formas, mas reais, você, eu e milhões de pessoas como nós somos a razão pela qual isso está acontecendo agora”. A perda de Carlson é a perda de uma arma de propaganda de massa.

A geopolítica, como um eco distante dos canhões na Ucrânia, também se reorganiza. Enquanto os EUA sangram no Oriente Médio, o chanceler iraniano, Abbas Araghchi, se encontrou em São Petersburgo com Vladimir Putin. O líder russo, com a elegância de quem observa o adversário se auto infligir feridas mortais, elogiou a “coragem” do Irã e prometeu fazer “tudo o que estiver em suas mãos para alcançar a paz no Oriente Médio”.

O dilema final é cruel, especialmente para os países do Golfo. Eles aceitaram bases americanas em seus territórios como “escudos protetores”. O resultado foi o oposto: se tornaram alvos primários do Irã. Agora, se questionam se devem permitir a reconstrução dessas bases, já que a presença americana não lhes trouxe segurança, mas sim a perspectiva de se tornarem campos de batalha de uma guerra que não pediram.

Assim, caminhamos. O “cessar-fogo” é uma trégua sem prazo, uma pausa forçada pela exaustão. O mito da supremacia americana ilimitada foi desafiado e exposto não por um super vilão, mas por uma nação que, cansada de ser humilhada, mostrou que a paciência persa é tão letal quanto as suas armas. A guerra que deveria ser “fácil”, de até 4 dias, se tornou um buraco negro financeiro, moral; e uma derrota estratégica militar reconhecida por todos.

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