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Por PolitikBr I Brasília, Em 23/08/2026, 20h:18min, leitura: 11min
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Editor: Rocha, J.C.

Essa é uma análise documental. Para visualizar “o todo” recomendamos a leitura dos demais artigos, e publicações relacionadas, que se somam ao tema de hoje. Boa leitura.
Hoje, comentamos a escalada da guerra comercial declarada entre os Estados Unidos e o Canadá, liderado pelo valente Mark Carney.
Enquanto o governo brasileiro de Lula se movimenta com cautela, o primeiro-ministro canadense deu um passo ousado, que serve de exemplo para todos os países que sofrem com as sanções unilaterais e coercitivas dos EUA.
A guerra comercial entre os Estados Unidos e o Canadá já vem desde de 2025, quando Trump impôs tarifas de 50% ao Canadá, além de zombar dos canadenses dizendo que eles deveriam se tornar o estado número 51 dos EUA.
De lá prá cá, houve amenização e negociações, mas o péssimo clima entre os dois líderes – entre risinhos e afagos falsos – é a tônica desde então. E agora Trump atacou de novo, com novas tarifas de 50%, com base em uma “lei do fundo do baú” do legislativo americano. E novamente as tensões escalaram, com Carney chamando de volta os seus negociadores e impondo tarifas recíprocas de 50%, que entrarão em vigor em 08 de setembro. Assim, Mark Carney acabou de dar um belo exemplo de altivez ao mundo, ao mostrar a Donald Trump que nem todo aliado está disposto a aceitar a lógica do “America First” como sinônimo de submissão. Entretanto, a complementariedade das duas economias sofre um duro golpe, o que prejudica não somente os canadenses, mas especialmente os próprios americanos.
Não vai ser com tarifas sem sentido e arbitrárias, que os EUA sairão do poço sem fundo em que se meteram durante décadas, na premissa de que o mundo iria pagar, indefinidamente, a gastança perdulária do modo de vida americano, e das aventuras policialescas e militares mundo à fora, através do petrodolar. Esse tempo está acabando, e a dívida trilionária de US$ 40 trilhões, rumo aos US$ 50 trilhões, é um desses indicadores.


O ex-presidente Clinton publicou um vídeo – “Canada Just Did What No Country Has Done To Trump!” | Bill Clinton – em que cita que Trump usou uma lei dos anos 1930, que nunca havia sido usada por nenhum presidente dos EUA, para sustentar as tarifas de 50% impostas ao Canadá. Clinton ainda argumentou, com razão, que Trump ao invocar essa lei, literalmente “jurássica”, leva a que todos os demais parceiros dos EUA avaliem que não há confiança jurídica em qualquer acordo celebrado com os americanos. E, em não havendo confiança, não há investimentos ou negócios.

Trump, literalmente, em sua saga insana, como afirma o professor Jeffrey Sachs em: “Get Him Out Of There Before He Kills Us All”: Sachs Trump Warning | WORLD NEWS | US NEWS mostra que é uma pessoa mentalmente doente, para dizer o mínimo; que está destroçando as relações dos Estados Unidos com o restante do mundo, e isolando os EUA com a sua governança errática e agressiva. Ele – narcisista que é – entrará para a história como uma das presidências mais estúpidas e prejudiciais aos interesses americanos.
O episódio, portanto, merece atenção muito além da disputa tarifária entre os dois países. Se trata quase que, literalmente, de Trump liderando uma cruzada dos EUA contra o mundo.
Mas, voltando ao errático Donald Trump, essa nova investida contra o Canadá atinge cerca de US$ 20 bilhões em produtos. E a resposta de Ottawa foi direta. O primeiro-ministro Carney declarou que a premissa de seu governo, seguindo o princípio de reciprocidade é: “dólar por dólar”. Entre os setores atingidos dos produtos americanos estarão aço, eletrônicos, equipamentos agrícolas, papel e celulose, eletrodomésticos e produtos lácteos.
E aqui está o ponto politicamente mais importante. Carney não está apenas discutindo tarifas. Está discutindo soberania.
Em declaração oficial, o primeiro-ministro canadense afirmou que o seu governo não aceitaria um acordo “a qualquer preço” e que o Canadá precisa construir a sua força interna e diversificar as suas relações comerciais, o que, segundo ele, vem sendo feito de forma acelerada, com diversos países do mundo, o último com os Emirados Árabes Unidos, após os primeiros problemas enfrentados com a posse de Trump.
Por isso, a resposta canadense não termina na tarifa.
Ottawa vem ampliando mercados, diversificando parceiros e reduzindo a sua exposição à economia americana. O próprio governo canadense afirma que seus acordos comerciais já garantem acesso preferencial a cerca de 1,5 bilhão de consumidores e que pretende ampliar ainda mais essa rede. É uma mudança de paradigma.
Durante décadas, a complementariedade econômica entre os dois países foi tratada quase como algo natural. O Canadá dependia fortemente do mercado americano, enquanto os Estados Unidos contavam com uma cadeia produtiva profundamente integrada à economia canadense, e fortemente dependentes da energia vinda do Canadá.
Trump está descobrindo que essa dependência pode funcionar nos dois sentidos.
E Carney parece ter entendido algo fundamental: se Washington transforma o acesso ao seu mercado em instrumento permanente de pressão e coerção econômica, continuar dependente desse mercado deixa de ser vantagem e passa a ser vulnerabilidade estratégica. Um outro país que aprendeu isso foi o Brasil.
E o Brasil?
Aqui a história começa a ficar particularmente interessante.
O Brasil também está sofrendo com as tarifas impostas por Washington. Segundo o Ministério do Desenvolvimento, as novas medidas americanas alcançam 23,1% das exportações brasileiras, enquanto 52,7% permanecem sem tarifas adicionais específicas ou setoriais.
Brasília já iniciou o processo previsto na Lei da Reciprocidade Econômica, mas o governo Lula continua apostando prioritariamente na negociação.
E negociar é correto.
Mas negociar não significa negociar sem poder de pressão. Essa é a diferença que o Canadá está demonstrando neste momento.
Lula conversou com Trump por telefone em 21 de agosto, em uma conversa que o governo brasileiro classificou como cordial. Os dois presidentes concordaram sobre a necessidade de preservar os vínculos comerciais e os seus governos deverão retomar as negociações.
Tudo isso é positivo. Mas há uma pergunta que precisa ser feita: qual é a força de uma negociação quando apenas um dos lados acredita que pode impor custos ao outro?
Carney parece ter respondido a essa pergunta. Não se trata de defender uma guerra comercial permanente. As tarifas também custam caro para quem as impõe. Elas podem aumentar preços, reduzir a concorrência e prejudicar empresas e consumidores dos dois lados. O próprio primeiro-ministro canadense reconheceu esse problema ao anunciar a retaliação.
Mas existe uma diferença entre entrar voluntariamente em uma guerra comercial e demonstrar que uma agressão comercial terá consequências. E talvez seja justamente isso que esteja faltando ao sistema internacional.
Um problema que ultrapassa Trump
O caso Canadá-EUA revela algo maior.
Durante décadas, os Estados Unidos tiveram enorme capacidade de utilizar o tamanho de seu mercado consumidor como instrumento de influência. Países que dependem das exportações para o mercado americano acabavam tendo de pensar duas vezes antes de responder. Trump, nesse segundo mandato, percebeu essa assimetria e passou a explorá-la de maneira agressiva.
O problema é que essa estratégia parece estar produzindo exatamente o efeito contrário ao desejado. Quanto mais Washington utiliza o instrumento das tarifas, sanções e restrições comerciais como instrumentos de pressão, maior se torna o incentivo para que os seus parceiros diversifiquem mercados, procurem novos fornecedores e reduzam a sua dependência dos Estados Unidos. É como qualquer um faria diante de um ex-aliado, que se pauta como agressor. Aquele que exerce coerção.
E isso é exatamente o movimento que Carney está anunciando. E é também uma oportunidade para o Brasil que, entretanto, conta em casa com adversários aliados de Trump, taxados de traidores e entreguistas, nas próximas eleições presidenciais de outubro de 2026.
O Brasil deveria fazer o mesmo?
Sim — mas com inteligência.
Não significa simplesmente colocar uma tarifa de 50% sobre produtos americanos por uma questão de orgulho nacional. Significa utilizar a reciprocidade como instrumento de negociação. Se não surtir efeito a negociação, o Brasil deve retaliar da mesma forma.
Se os Estados Unidos impõem barreiras injustificadas à produtos brasileiros, o Brasil precisa ter capacidade de responder. E essa resposta deve ser calibrada para atingir interesses econômicos americanos, sem produzir danos desnecessários à economia brasileira.
Ao mesmo tempo, Brasília vem faz algumas décadas, ao menos 25 anos, acelerando a sua diversificação comercial. No exercício fiscal de 2025 a dependência das exportações brasileiras perante os EUA era de 11%. Esse ano deve ser menor ainda. Já se fala em 7% ou menos.
O Brasil possui algo que poucos países têm simultaneamente: alimentos, energia, minerais estratégicos, indústria, território, água, e uma enorme capacidade de produção. Entretanto, esse modelo exportador primário ou quase isso, vendedor de commodities, que vem desde o tempo da colônia, não tornou o Brasil, de fato, rico para o seu povo. E isso tem que mudar, com a extirpação da praga que é a dependência do famigerado neoliberalismo, juros abusivos, e o nefasto equilíbrio fiscal, que impede que o Brasil volte a ser uma nação industrializada como antes. Próspera. Basta olhar para aqueles que são os líderes industriais do mundo. Nenhum deles deixa de ter dívidas públicas grandes frente ao PIB. Entretanto, tem economias pujantes, como a China, por exemplo, se tornou.
O Brasil não precisa escolher entre Washington e Pequim. A premissa básica da governança Lula é ter relações comerciais com todos — sem depender politicamente de nenhum. Já com o candidato queridinho de Trump – Flávio Bolsonaro – o que podemos esperar é a volta de um Brasil acanhado, medroso, como foi o governo Jair Bolsonaro. 04 anos perdidos do Brasil frente ao mundo.
O Canadá não está dizendo que não quer negociar com os Estados Unidos.
Está dizendo algo muito mais simples: queremos negociar, mas não queremos ser subordinados.
E essa é também a posição do Brasil. Pelo menos a posição de Lula. Não do seu principal adversário da extrema direita.
Trump pode continuar tentando transformar o tamanho do mercado americano em instrumento de coerção. Mas existe um limite para essa estratégia. Quando os países começam a perceber que podem sobreviver sem depender de um único mercado, o poder de pressão daquele mercado diminui. E é exatamente aí que a guerra comercial iniciada por Trump, já vem produzindo consequências que Washington não calculou: em vez de tornar o mundo mais dependente dos Estados Unidos, ele está acelerando a construção de um mundo comercial muito mais diversificado — multipolar – e, portanto, menos dependente de Washington.
Quer saber mais? Leia a matéria completa no site da Sputnik Brasil: “Canadá anuncia tarifas de retaliação de 50% contra produtos dos EUA a partir de setembro” (https://noticiabrasil.net.br/20260822/canada-anuncia-tarifas-de-retaliacao-de-50-contra-produtos-dos-eua-a-partir-de-setembro-53424450.html) e na BBC News Brasil: “Brasil inicia processo de reciprocidade contra tarifaço dos EUA” (https://www.bbc.com/portuguese/articles/cpd734wdz85o).
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Referências Utilizadas:
- Sputnik Brasil (2026): “Canadá anuncia tarifas de retaliação de 50% contra produtos dos EUA a partir de setembro” – https://noticiabrasil.net.br/20260822/canada-anuncia-tarifas-de-retaliacao-de-50-contra-produtos-dos-eua-a-partir-de-setembro-53424450.html
- You Tube (2026): “Canada Just Did What No Country Has Done To Trump!” | Bill Clinton
- You Tube (2026): “Get Him Out Of There Before He Kills Us All”: Sachs Trump Warning | WORLD NEWS | US NEWS
- BBC News Brasil (2026): “Brasil inicia processo de reciprocidade contra tarifaço dos EUA” – https://www.bbc.com/portuguese/articles/cpd734wdz85o
- Al Jazeera (2026): “Carney: Canada will enact retaliatory US tariffs starting September 8” – https://www.aljazeera.com/news/2026/8/22/carney-canada-will-enact-retaliatory-us-tariffs-starting-september-8
- O Globo (2026): “Coragem ou tiro no pé? Canadá tem cacife para desafiar Trump” – https://oglobo.globo.com/economia/noticia/2026/08/23/coragem-ou-tiro-no-pe-canada-tem-cacife-para-desafiar-trump-e-retaliar-tarifas-dos-eua-dolar-por-dolar.ghtml
- News18 (2026): “Dollar For Dollar’: Canada Threatens US With Retaliatory Tariffs As Trade War Escalates” – https://www.news18.com/explainers/dollar-for-dollar-canada-threatens-us-with-retaliatory-tariffs-as-trade-war-escalates-what-does-it-mean-ws-l-10288848.html


