Trump afasta aliados — e a Coreia do Sul começa a caminhar com as próprias pernas

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Por PolitikBr I Brasília, Em 23/08/2026, 5h:54min, leitura: 8min

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Editor: Rocha, J.C.

Essa é uma análise documental. Para visualizar “o todo” recomendamos a leitura dos demais artigos, e publicações relacionadas, que se somam ao tema de hoje. Boa leitura.

Enquanto o presidente Trump fala em tornar os Estados Unidos novamente grandes, a sua política errática pode estar tornando os seus próprios aliados menos dependentes de Washington.

É exatamente esse o ponto central de uma análise recente da CNN sobre a deterioração da confiança dos aliados tradicionais dos Estados Unidos. E o episódio envolvendo a Coreia do Sul talvez seja um dos exemplos mais emblemáticos dessa mudança.

Trump decidiu ordenar ao Pentágono uma redução substancial dos exercícios militares conjuntos com a Coreia do Sul. A justificativa apresentada foi uma combinação de fatores: o custo das operações, a relação pessoal que Trump afirma manter com Kim Jong-un e, sobretudo, a irritação com a decisão de Seul de não participar da guerra americana contra o Irã.

Em outras palavras: um aliado histórico dos Estados Unidos passou a ser cobrado por não participar de uma guerra que não é sua.

E aqui aparece uma mudança importante na lógica tradicional das alianças americanas.

Durante décadas, Washington construiu sua influência mundial oferecendo proteção militar, estabilidade e presença estratégica em troca de cooperação política e econômica. A lógica de Trump é diferente: a relação passa a ser permanentemente submetida à pergunta — “o que você está fazendo por nós?”

A Coreia do Sul, entretanto, parece estar chegando a outra conclusão: se a proteção americana pode ser reduzida ou condicionada às conveniências políticas de Washington, então é melhor possuir maior capacidade de defesa própria.

Seul quer recuperar o comando de suas próprias forças

A questão é particularmente significativa porque a Coreia do Sul ainda não possui o controle operacional, em tempo de guerra, de todas as suas forças militares.

A origem dessa situação está na Guerra da Coreia. O controle operacional passou ao comando americano durante a guerra entre as coreiais e, posteriormente, ao Comando das Forças Combinadas EUA-Coreia do Sul. Seul recuperou o controle operacional em tempo de paz em 1994, mas, em caso de guerra, o comando combinado continua estruturado sob a liderança americana.

Isso vem sendo discutido há muitos anos. Portanto, seria incorreto afirmar que Trump simplesmente “obrigou” a Coreia do Sul a recuperar a sua soberania militar. Mas há uma ironia histórica aqui.

Trump pode estar acelerando exatamente aquilo que a política americana tradicional tentou evitar: a autonomia estratégica de seus aliados.

O governo do presidente Lee Jae-myung reafirmou que pretende recuperar o controle operacional durante o seu mandato, que termina em 2030. Seul pretende inclusive estabelecer um ano-alvo para a transferência, após a avaliação das capacidades militares coreanas.

E a mensagem política de Lee foi clara: uma Coreia do Sul militarmente autônoma não significa abandonar a aliança com os Estados Unidos. Significa, ao contrário, se tornar um parceiro mais capaz. Será mesmo?

O paradoxo de Trump

Trump quer que os aliados dependam menos dos Estados Unidos financeiramente; que ele contribuam mais para a sua própria defesa e assumam uma maior parcela dos custos militares.

Na verdade, na premissa de diminuir a sua trilionária dívida publica de US$ 40 trilhões, e subindo para US$ 50 trilhões daqui há alguns anos, Trump está certo. Afinal, o que mais ele pode fazer? Entretanto, sem o seu “papel de xerife” do mundo, quem de fato precisará deles? Outras alianças de segurança serão formadas. Outras estruturas de governança surgirão e os EUA lá do outro lado do mundo, protegido das guerras em seu território, é verdade, mas isolado em sua ilha, irão lentamente à caminho da perda do protagonismo, na medida em que a China, a Rússia, o Brasil, o BRICS e a ASEAN assumirem o seu antes onipotente papel. É assim que os impérios declinam. Que outras ordens surgem, até que também sejam substituídas..

Quanto à Coreia do Sul, ela já possui uma das maiores capacidades militares e industriais do mundo. O governo Lee também vem defendendo o fortalecimento da indústria de defesa e o desenvolvimento de capacidades estratégicas próprias, inclusive submarinos de propulsão nuclear.

Ela começa a investir mais em sua própria indústria militar. Procura diversificar fornecedores. Desenvolve tecnologias estratégicas. Amplia relações diplomáticas. Procura alternativas comerciais. E, principalmente, passa a construir uma política externa menos dependente de uma única potência.

É exatamente por isso que o episódio coreano merece atenção muito além da Península Coreana. O que está em jogo não é apenas uma discussão sobre exercícios militares

E há outro elemento que não pode ser ignorado: a Coreia do Norte não está parada.

Pyongyang ampliou as suas capacidades militares e aprofundou a sua cooperação econômica e militar com a Rússia. Portanto, Trump ao reduzir os exercícios conjuntos com Seul, em nome de uma relação pessoal com Kim Jong-un, sinalizou uma mensagem ambígua para o aliado, que está justamente na linha de frente dessa potencial ameaça.

Trump insiste que Kim sempre o tratou com respeito e que mantém com o líder norte-coreano uma relação pessoal positiva — algo que aparece também no material do vídeo analisado. Então, parece que Trump só quer ser adulado. Se assim ele se sente adulado, respeitado, ele cede. E, inebriado, não mede as consequências geoestratégicas de seus atos.

Mas relações pessoais entre líderes não são necessariamente equivalentes a alianças estratégicas entre Estados. E essa talvez seja a questão central. Essa pergunta muda o comportamento de um país.

Quando alianças viram contratos

O problema para Washington é que as alianças militares dependem de algo que não aparece nos contratos: confiança.

Japão, Coreia do Sul, Austrália e os países europeus podem continuar formalmente aliados dos Estados Unidos. Podem continuar comprando armas americanas, realizando exercícios militares e mantendo acordos de defesa. Mas podem começar a pensar de maneira diferente:

“E se amanhã Washington decidir que não vale mais a pena nos defender?” Os europeus já temem que no caso de uma guerra contra a Russia, Trump não irá levantar um dedo sequer. Abandonará os aliados à própria sorte. E, convenhamos, a Rússia é n vezes mais poderosa em termos militares que toda a Europa reunida.

É a transformação da arquitetura de segurança construída pelos Estados Unidos depois da Segunda Guerra Mundial.

E isso também diz respeito ao Brasil

O trecho final do vídeo analisado toca justamente nessa questão: soberania, independência estratégica e preparação nacional. O material chega a levantar a fragilidade brasileira nos campos econômico, militar e tecnológico e questiona se o Brasil está preparado para um cenário internacional no qual as antigas estruturas de poder estão sendo rapidamente modificadas.

Essa é uma pergunta que merece ser feita. Porque o mundo que está surgindo parece cada vez menos organizado em torno de uma única potência capaz de oferecer segurança, tecnologia, financiamento e mercados aos seus parceiros.

A Coreia do Sul está dizendo, em essência: queremos continuar aliados dos Estados Unidos, mas precisamos ser capazes de nos defender sozinhos. Talvez essa seja uma das consequências mais importantes da política de “America First”.

Ao tentar fazer com que os aliados dependam mais de Washington para justificar aquilo que recebem dos Estados Unidos, Trump pode estar ensinando justamente o contrário: que depender demais de qualquer potência é, em si, um risco estratégico.

E essa talvez seja a verdadeira ironia da política externa americana neste momento.

Quer saber mais?

Leia a matéria completa: “Seul avança para recuperar controle operacional de suas forças armadas”, da Deutsche Welle. Deutsche Welle — Seul avança para recuperar controle operacional de suas forças armadas

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