Lula: Trump é Bem Melhor na Relação Política do que a Assessoria

Internacional, Geopolítica, Economia

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Por PolitikBr I Brasília, Em 24/08/2026, 09h:36min, leitura: 10min

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Editor: Rocha, J.C.

Essa é uma análise documental. Para visualizar “o todo” recomendamos a leitura dos demais artigos, e publicações relacionadas, que se somam ao tema de hoje. Boa leitura.

Há algo de bastante curioso — e politicamente revelador — nas declarações do Presidente Lula depois de sua recente conversa telefônica com Donald Trump.

Segundo o presidente brasileiro, Trump é “bem melhor na relação política” do que sua própria assessoria.

A frase merece atenção.

Lula relata que sua conversa com o presidente norte-americano foi “muito civilizada” e “muito respeitosa”, tanto de sua parte quanto da parte de Trump. O problema, segundo ele, começa depois: no chamado segundo escalão do governo americano, onde seriam tomadas atitudes que considera simplesmente impensáveis.

E aqui está o ponto central deste artigo: quando a diplomacia presidencial funciona melhor do que a burocracia que deveria executá-la, existe uma contradição perigosa dentro da própria política externa.

O tarifaço e os argumentos que não convencem Lula

Lula foi direto com Trump.

Disse que as bases utilizadas para impor as novas tarifas ao Brasil são, em sua avaliação, “mentirosas” e que as medidas não correspondem à realidade brasileira.

Entre os argumentos apresentados pelo governo americano estão questões relacionadas ao desmatamento, trabalho forçado, comércio, propriedade intelectual, corrupção, Pix e etanol.

O governo brasileiro considera todas as alegações infundadas.

Segundo o Palácio do Planalto, as tarifas prejudicam não apenas o Brasil, mas também aos próprios Estados Unidos, razão pela qual Lula defendeu a continuidade das negociações.

Trump, de acordo com o relato de Lula, concordou sobre a importância de preservar os vínculos comerciais entre os dois países.

Há, porém, uma distinção importante.

Não é possível negar que muitos dos argumentos utilizados por Washington têm natureza política e não comercial, afinal, os Estados Unidos são superavitários em relação ao Brasil na questão comercial. Se trata, de fato, em criar um clima favorável ao candidato da extrema direita às eleições de outubro de 2026, queridinho de Trump: Flávio Bolsonaro, que os críticos acusam de ser entreguista e traidor da pátria.

No caso do desmatamento, por exemplo, dados do sistema Deter, apresentados pelo INPE, apontaram queda de 36,87% no desmatamento da Amazônia entre agosto de 2025 e julho de 2026 — o menor nível da série desde 2016.

Isso dá ao governo brasileiro uma prova incontestável para mostrar o quão falsa é a alegação sobre danos ambientais apresentada pelos Estados Unidos.

O Brasil não quer mais ser apenas exportador de matéria-prima

Outro trecho da conversa de Lula merece destaque.

Lula disse à Trump que o Brasil está disposto a cooperar com os Estados Unidos na exploração de minerais críticos e terras raras. Mas acrescentou uma condição fundamental: o Brasil não quer repetir o velho modelo de simplesmente exportar matéria-prima. Ou seja, o modelo de colônia que nos referimos nesse artigo: Trump afasta aliados — e a Coreia do Sul começa a caminhar com as próprias pernas

A intenção declarada do Presidente é transformar esses recursos dentro do próprio país, produzindo celulares, baterias elétricas e chips.

O problema nessa visão desenvolvimentista de Lula é que as nações industrializadas não querem que os países do sul global produzam aviões, chips, computadores, automóveis, televisores e celulares, isto é, bens de consumo de elevado valor agregado. Eles, assim como os Estados Unidos querem, que o Brasil e os demais países do sul global sejam mercados consumidores desses produtos que eles produzem, e que o sul global seja somente enormes fazendas, criadouros de proteína animal e fornecedores de matérias primas e, no máximo, que abriguem Data Centers consumidores de recursos valiosos como água potável e energia, ou complexos produtivos de baixa complexidade tecnológica e poluentes, como as siderúrgicas.

Independentemente de Lula, Trump ou qualquer outro presidente, a questão estratégica permanece: quem controla a transformação tecnológica dos recursos naturais controla uma parcela muito maior do valor produzido.

Exportar minério é uma coisa. Exportar tecnologia, componentes, baterias, semicondutores e produtos industriais de alto valor agregado é outra completamente diferente. E é justamente nessa disputa que Brasil, Estados Unidos e China estão inseridos.

Os EUA odeiam a China não por causa dos chineses. Eles odeiam a China porque os chineses se mostraram mais competentes, mais astutos, mas disciplinados e agora são mais desenvolvidos em todos os campos do conhecimento do que os EUA. Vocês viram a última façanha da indústria espacial chinesa? Veja nesse vídeo:

Então, a tal supremacia de Musk, literalmente, foi pro espaço. Agora eles tem um concorrente de peso. Aliás, não duvidem. Em breve, quem estará “correndo atrás dos chineses” é Musk e Cia. Os americanos, prepotentes, não toleram isso.

O curioso contraste entre Trump e a sua própria máquina

Lula diz que consegue conversar com Trump. E mais: afirma que a conversa produziu resultados.

Depois do telefonema, segundo Lula, Trump determinou que o seu secretário de Comércio procurasse o ministro brasileiro da Indústria e do Comércio. As equipes voltaram a conversar e uma nova reunião foi encaminhada.

A imprensa também confirmou que, após a ligação, o representante comercial americano Jamieson Greer entrou em contato com o ministro brasileiro Márcio Elias Rosa para retomar as negociações.

Portanto, alguma coisa efetivamente aconteceu.

Isso não significa que Trump tenha abandonado o tarifaço. Tampouco significa que Washington tenha reconhecido que as suas justificativas estavam erradas. Significa algo mais simples — e talvez mais importante: a porta da negociação foi reaberta.

E diplomacia, no fim das contas, existe justamente para manter portas abertas, quando os interesses entram em choque.

Uma guerra comercial não é uma guerra sem vencedores

O Brasil precisa, evidentemente, defender os seus interesses. Mas também precisa compreender que tarifas são uma arma de mão dupla.

Quando os Estados Unidos impõem tarifas sobre produtos brasileiros, não estão apenas atingindo as empresas e interesses brasileiros. Dependendo do produto e da cadeia de suprimentos, também podem aumentar custos para consumidores e empresas americanas. É por isso que Lula insistiu com Trump que a manutenção de relações comerciais fortes interessa aos dois países.

O governo brasileiro, entretanto, não está simplesmente esperando pela boa vontade americana. Em 13 de agosto, abriu formalmente o processo para avaliar possíveis contramedidas, com base na Lei da Reciprocidade Econômica. Ou seja: negociar não significa se submeter. Essa talvez seja a posição mais racional para o Brasil.

Soberania sem isolamento

Lula também levou para a conversa outros assuntos estratégicos.

Falou sobre o combate ao crime organizado e ofereceu cooperação aos Estados Unidos, mas deixou claro que o Brasil não aceita interferência estrangeira, em assuntos que considera de sua competência soberana.

Falou ainda sobre os conflitos internacionais e sobre a sua preocupação com a guerra na Ucrânia, o conflito envolvendo o Irã e a situação dos palestinos. Para Lula, o mundo vive, simultaneamente, uma escalada militar e uma guerra econômica.

É uma visão que coloca o Brasil diante de um desafio delicado: como manter relações com Washington sem abandonar a sua autonomia diplomática e, ao mesmo tempo, preservar as relações estratégicas com o seu maior parceiro comercial, que é a China, e com todo os os parceiros do BRICS, em especial, a Rússia? Essa é a verdadeira questão.

Dois homens de 80 anos deveriam dar o exemplo?

No final de seu relato, Lula faz uma observação curiosa. Ele disse à Trump que os dois são homens de 80 anos e que deveriam dar um bom exemplo ao restante do mundo. É uma frase simples, mas carregada de significado.

Porque a política internacional contemporânea parece cada vez mais dominada pela lógica do confronto, da ameaça, da sanção e da pressão econômica. E talvez seja justamente aí que a diplomacia presidencial possa desempenhar algum papel.

Trump continuará sendo Trump. Lula continuará sendo Lula. Os interesses dos Estados Unidos continuarão sendo os interesses dos Estados Unidos, e os interesses brasileiros continuarão sendo os interesses brasileiros.

Não existe amizade permanente entre Estados. Existem interesses permanentes.

Por isso, a declaração de Lula de que Trump seria “melhor na relação política do que a assessoria” merece ser observada com atenção. Pode ser apenas uma impressão pessoal do presidente brasileiro? Pode.

Mas também pode revelar algo mais profundo: a diferença entre a negociação direta entre líderes e a ação de estruturas burocráticas, ideológicas ou eleitorais que, muitas vezes, possuem os seus próprios interesses à revelia dos seus líderes.

Se a conversa direta entre Lula e Trump foi capaz de reabrir uma mesa de negociação, isso já é mais que positivo. Agora falta saber se a diplomacia conseguirá transformar essa abertura em resultado concreto. E, sobretudo, se Washington compreenderá que punir comercialmente o Brasil pode até produzir manchetes políticas, mas é também um ato de auto punição, que poderá acabar por destruir uma relação estratégica duradoura entre as duas das maiores democracias do continente.

O Brasil deve negociar. Deve defender seus interesses. Deve retaliar se necessário. Mas não deve aceitar ser tratado como subordinado.

Soberania não é isolamento. Diplomacia não é submissão. E negociação não é rendição.

É nesse espaço estreito — entre firmeza e inteligência diplomática — que o Brasil precisa caminhar.

Quer saber mais? Leia a matéria completa e assista à entrevista:
Lula na Record — “Minha conversa com Trump: muito civilizada”

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