RICHARD WOLFF: “O Petrodólar Está Morto…Trump Vive em Negação.”

Internacional, Geopolítica, Economia

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Por PolitikBr I Brasília, Em 09/06/2026, 08h:25min, leitura: 11min

Editor: Rocha, J.C.

Essa é uma análise documental. Para visualizar “o todo” recomendamos a leitura dos demais artigos, que se somam ao tema de hoje. Boa leitura.

O economista Richard Wolff, professor emérito da University of Massachusetts Amherst (UMass Amherst), não usou meias palavras ao analisar o momento atual da economia global. Em entrevista ao programa de Danny Haiphong, Wolff afirmou que o sistema do petrodólar — o acordo costurado por Henry Kissinger e Richard Nixon nos anos 1970 com a Arábia Saudita; que obrigava todas as transações de petróleo do mundo serem feitas em dólares — está morto. E o responsável pelo seu enterro foi a guerra iniciada em 28 de fevereiro pelos Estados Unidos e Israel contra o Irã.

Os iranianos agora controlam o Estreito de Ormuz, e o mundo já percebeu que não precisa mais do dólar, disse Wolff.

Os Estados Unidos não podem mais controlar os pontos de estrangulamento da economia global. O império está em decadência, e Trump se recusa a aceitar. (Wolff)

O cenário de colapso do dólar como moeda de reserva única — que o PolitikBr já vinha documentando em artigos como “A Tempestade Perfeita” (07/02/2026) — foi descrito por Wolff com a precisão de quem analisa o capitalismo americano há décadas.

A Parábola da Temperatura e o Paciente Terminal

Wolff começa a sua análise criticando a obsessão da grande mídia americana com indicadores superficiais — como a criação de 172 mil empregos em maio, um número que seria considerado medíocre se fosse no governo Biden.

“É como um médico que mede a sua temperatura e manda você para casa. A temperatura é um indicador, mas é só um entre muitos. Você precisa de uma bateria completa de exames: sangue, urina, raio-x, tomografia.”

Aplicando essa lógica à economia americana, Wolff lista os indicadores que a Casa Branca prefere ignorar:

  • Distribuição de renda e riqueza: Os 10% mais ricos dos americanos detêm hoje 87% da riqueza nacional (ações, fundos mútuos, ativos financeiros). Os outros 90% da população disputam os 13% restantes.
  • Crescimento econômico: Nos últimos 30 anos, a China cresceu entre 5% e 9% ao ano. Os Estados Unidos, entre 2% e 3%. “Se você consegue fazer isso por 30 anos, você vence”, afirma Wolff.
  • Infraestrutura física e social: Shoppings vazios, áreas comerciais abandonadas, estradas em ruínas, sistema de saúde falido, educação decadente.
  • Endividamento público e privado: Os EUA são o maior país devedor do mundo, e o custo para rolar a dívida de US$ 40 trilhões explode a cada aumento de 1% na taxa de juros. De serviços da dívida, por ano, se paga hoje mais de US$ 1 trilhão. Isso é insustentável.

O Fim do Petrodólar: Por que a Arábia Saudita Não Renovou o Acordo

O ponto central da análise de Wolff é o colapso do sistema do petrodólar — o acordo que garantiu a hegemonia do dólar por cinco décadas.

“Quando Kissinger e Nixon, nos anos 70, fizeram aquele acordo com a Arábia Saudita para que todas as transações de petróleo do mundo fossem feitas em dólares, a ideia era que o comércio global inteiro dependesse da moeda americana. A Malásia compra petróleo da Nigéria? Paga em dólares. A Índia compra da Arábia Saudita? Paga em dólares. Isso forçava todos os países a acumular dólares — e a emprestar esses dólares de volta para os Estados Unidos.”

O esquema era perfeito — do ponto de vista americano. Os EUA imprimiam dólares, compravam o que queriam, e o mundo financiava esse consumo, comprando títulos do tesouro americano. Mas, como Wolff explica, o sistema tinha uma vulnerabilidade fatal: dependia da vontade dos outros países de continuar participando dele.

A Arábia Saudita, o principal parceiro do acordo original, não renovou o compromisso de precificar seu petróleo exclusivamente em dólares. O reino agora aceita yuan, euros, rublos e outras moedas pelo seu petróleo. O Irã, que já vendia petróleo em yuan, consolidou o seu controle sobre o Estreito de Ormuz e cobra pedágio em criptomoedas e yuan. A Rússia, punida com milhares de sanções, aplicadas pelos aliados ocidentais dos EUA, redirecionou as suas exportações de energia para a China e para a Índia, negociando em moedas locais. E o BRICS+ — que hoje representa a maioria da população e do PIB global (medido por paridade de poder de compra) — criou a sua própria arquitetura financeira.

A Arquitetura Substituta: BRICS Pay e UNIT

Wolff não se limita a diagnosticar o problema. Ele aponta a solução que já está em curso:

  • BRICS Pay: Um sistema de pagamento alternativo que permite liquidação direta de transações comerciais entre os países-membros, sem passar pelo SWIFT e sem conversão para dólar. Está em fase avançada de implementação.
  • UNIT: Uma unidade de conta lastreada em 40% ouro e 60% em uma cesta de moedas dos membros do BRICS+. Não é uma moeda para circulação cotidiana, mas uma âncora, um padrão de valor.

Ao lastrear quase a metade de sua referência no metal que, por milênios, simbolizou a riqueza real e indestrutível, o BRICS envia uma mensagem poderosa: a nova arquitetura está sendo construída sobre ativos tangíveis, não sobre promessas de papel.

Enquanto o dólar pode ser inflado infinitamente por um clique de teclado do Federal Reserve, a “tabela periódica não pode ser inflacionada”. A escassez geológica do ouro é o limite à arrogância monetária.

A Negação de Trump: “O Rato que Rugiu”

Wolff descreve a posição de Trump diante desse cenário:

“Os Estados Unidos gostam de se ver como uma economia capitalista competitiva, dominante. Mas a realidade é outra. Nos últimos 30 anos, a China cresceu de duas a três vezes mais rápido que os Estados Unidos. A China sozinha tem quatro vezes a população dos EUA. O BRICS+ representa a imensa maioria do planeta. Os EUA, com os seus 335 milhões de pessoas, são cerca de 4,5% da população mundial. Quando você vê o Sr. Trump rugindo, ele realmente faz jus ao título: o rato que rugiu.”

Trump, segundo Wolff, não é um líder no controle. É um homem perdendo o controle.

“Ele representa uma economia no limite. Foi eleito porque disse ‘vou fazer a América grande novamente’ — e Hillary Clinton respondeu ‘já somos grandes’. Ela estava errada. Ele falou com as pessoas que perderam os seus empregos sindicais, que viraram recepcionistas no Walmart, que precisam de vale-refeição do governo para complementar a renda. Mas o pouco que ele poderia fazer, ele mesmo não faz. Ele está garantindo que a família dele fique mais rica e ajudando os bilionários que financiaram a sua campanha. O resto de nós fica como espectador.”

A Guerra contra o Irã Como Catalisador do Colapso

Wolff conecta a crise do petrodólar diretamente à guerra iniciada em 28 de fevereiro pelos Estados Unidos e Israel contra o Irã.

“O Estreito de Hormuz é só um ponto de estrangulamento entre vários. O Canal de Suez, o Estreito de Malaca, o Canal do Panamá. As condições políticas e econômicas desses gargalos mudam o tempo todo. E o setor empresarial americano quer que os Estados Unidos controlem tudo isso. Mas os Estados Unidos não têm como fazer isso. Você vai patrulhar os sete oceanos o tempo todo, em todos os pontos?”

O Irã, ao fechar seletivamente o estreito e cobrar pedágio em yuan e criptomoedas, mostrou ao mundo que os EUA não podem mais controlar os fluxos de energia global.

“A indignação dos iranianos, até o início dessa guerra, era só pela possibilidade de que eles pudessem exercer controle. Eles não tinham feito isso. O Estreito de Hormuz nunca tinha sido fechado. Eles diziam que, se os Estados Unidos atacassem junto com Israel, uma das formas de reagir seria fechar o estreito. E isso mostraria ao mundo o que está acontecendo agora.”

O Desespero: Qual será o Próximo Capítulo?

A conclusão de Wolff é sombria:

“Um império em declínio, à medida que fica mais claro para as pessoas que é isso que está acontecendo, gera desespero. O que vai acontecer comigo, com a minha família, com o meu trabalho, com o meu futuro? Trump não consegue encarar que está perdendo. Ele é o grande vencedor. Agora está perdendo. Isso deixa as pessoas desesperadas. E eu fico com medo quando penso no que um presidente desesperado pode fazer.” (Wolff)

Wolff ainda comenta sobre o caos e a baixa qualificação da equipe de Trump. Ele cita o exemplo do discurso do radical fundamentalista e secretário de Guerra americano (Pete Hegseth) na cerimônia do Dia D, na Normandia, atacando a Europa por não “compartilhar os sacrifícios” ofendendo os franceses que sediaram o evento, os russos que perderam 24 milhões de pessoas, os alemães que perderam 8 milhões, e exaltando os americanos que perderam 400 mil.

“Como é possível que um representante americano não só claramente não saiba do que está falando, mas ainda faça isso da forma mais ofensiva? Esse não é um país que está no comando do mundo do jeito que gostaria. Esse tipo de comportamento não combina com quem quer liderar o mundo. É um comportamento de incapacidade e incompetência monumentais.”

A Decadência é o Fogo Lento

A frase de Victor Hugo — “a queda é a fornalha, a decadência é o fogo lento” — nunca foi tão apropriada. Os Estados Unidos não estão caindo de uma só vez. Eles estão sendo consumidos lentamente por suas próprias contradições, abusos e beligerância diante do mundo:

  • Um sistema financeiro que só funciona imprimindo dinheiro.
  • Uma sociedade das mais desiguais do mundo ocidental.
  • Uma classe média destruída por décadas de neoliberalismo.
  • Uma dívida impagável.
  • E, agora, uma guerra perdida contra o Irã, e o fim do petrodólar.

Wolff não se alegra com isso. Afinal, ele é americano.

“Eu vejo isso sem nenhuma satisfação, mas o que eu vejo é uma crescente sensação de desespero. Um império em declínio, à medida que fica mais claro para as pessoas que é isso que está acontecendo. Quando elas superam a fase da negação, o próximo passo é sentir desespero.”

E enquanto Trump se debate e ameaça, o mundo multipolar já é uma realidade. O dólar vai continuar existindo, mas nunca mais será mecanismo de chantagem dos EUA diante do mundo.

Nota ao leitor: Este artigo buscou compilar, em uma análise única e aprofundada, os elementos factuais e contextuais que cercam a morte do sistema do petrodólar e o declínio acelerado da hegemonia americana — desde o fim do acordo com a Arábia Saudita e o controle iraniano sobre o Estreito de Ormuz, até a construção da arquitetura financeira substituta pelo BRICS+ (BRICS Pay e a unidade de conta UNIT, lastreada em 40% ouro). A análise de Richard Wolff, professor emérito da University of Massachusetts Amherst (UMass Amherst), é apresentada como um contraponto lúcido à narrativa oficial de Washington. As fontes utilizadas são públicas e estão devidamente listadas para a sua verificação.

Esse artigo foi baseado em:

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