PATRICK HENNINGSEN: 2026. O Ano da Pior Derrota Geoestratégica dos EUA

O jornalista e analista geopolítico Patrick Henningsen, fundador do 21st Century Wire, analisa como a guerra contra o Irã expôs a fragilidade americana. Os EUA perderam o controle do Oriente Médio, esgotaram os seus arsenais de mísseis, e assistem, impotentes, à ascensão do Irã como uma potência normativa global. Enquanto isso, a Rússia e a China consolidam um novo centro de gravidade econômica e militar. 2026 é o ano em que os Estados Unidos deixaram de ser o árbitro do mundo.

Internacional, Geopolítica, Economia

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Dedicado à Verdade e à Paz.

Por PolitikBr I Brasília, Em 13/06/2026, 06h:53min, leitura: 14min

Editor: Rocha, J.C.

Essa é uma análise documental. Para visualizar “o todo” recomendamos a leitura dos demais artigos, que se somam ao tema de hoje. Boa leitura.

QUEM É PATRICK HENNINGSEN?

Patrick Henningsen é um jornalista, analista geopolítico e fundador do 21st Century Wire, uma mídia independente de notícias e análises que cobre geopolítica, conflitos e relações internacionais. Henningsen tem décadas de experiência cobrindo o Oriente Médio, a Ucrânia e as guerras por procuração da OTAN. Ele é conhecido por sua visão crítica do intervencionismo ocidental e por sua capacidade de conectar eventos aparentemente dispersos — de Gaza à Kiev, de Beirute à Washington — em uma única tese coerente sobre o declínio americano.

O Ano da Pior Derrota Geoestratégica dos EUA

Há quem ainda acredite que os Estados Unidos são a potência hegemônica inconteste do planeta. Pois bem: o ano de 2026 está aí para mostrar o contrário. A guerra de agressão contra o Irã, lançada em 28 de fevereiro sob falsos pretextos, terminou em uma derrota humilhante. As bases americanas no Golfo foram destruídas. Os caças F-35 e F-15 foram abatidos. O Estreito de Ormuz está sob controle iraniano. E os Estados Unidos, que prometeram uma “vitória rápida em quatro dias”, agora mendigam o fim do conflito que o Irã só aceitará nos seus termos.

Patrick Henningsen, em entrevista ao professor Glenn Diesen, disse: “2026 é o ano da pior derrota geoestratégica dos EUA.” E não se trata apenas de uma derrota militar. É uma derrota normativa. É a perda da capacidade de ditar as regras do jogo internacional. É o fim do “soft power” americano. E a ascensão, em seu lugar, de um novo centro de gravidade — ancorado na Rússia, na China e, cada vez mais, no Irã.

A guerra contra o Irã, que já dura 106 dias, expôs as fragilidades estruturais dos EUA, de uma forma que nem a guerra do Vietnã conseguiu. Como Henningsen pontua, os EUA perderam mais aeronaves de asa fixa nos últimos três meses do que em duas guerras do Iraque e na Guerra do Golfo, somadas. As reservas de mísseis de defesa aérea (Patriot, THAAD) estão no limite. O Pentágono está canibalizando arsenais de outras regiões (como o Leste Asiático), para tentar manter algum nível de defesa no Oriente Médio. E Israel, o aliado “incondicional”, está sendo destroçado dia após dia. Atacado em múltiplas frentes, em resposta às suas acões de agressão.

Mas o mais grave, segundo Henningsen, não é nem a derrota militar. É a incapacidade dos Estados Unidos de compreenderem o que está acontecendo.

A Ilusão do Cessar-Fogo: “Os EUA Não Querem a Paz”

Henningsen começa a sua análise com uma afirmação que desafia a narrativa predominante na grande mídia ocidental:

“Eu não estou convencido de que os Estados Unidos realmente queiram um cessar-fogo. E vou além disso: eu não estou convencido de que o governo atual entenda o que é um cessar-fogo dentro de um quadro diplomático tradicional.”

Na perspectiva de Patrick, as idas e vindas das negociações de paz, mediadas pelo Paquistão, faz parte desse teatro. Dessa farsa.

Enquanto a mídia ocidental noticiava “avanços” e a “proximidade de um acordo”, os EUA continuavam a bombardear o Irã, e o Irã respondia atacando bases americanas no Bahrein, no Kuwait e na Jordânia.

Henningsen aponta que a administração Trump sequestrou o vocabulário diplomático:

“Um acordo não é um cessar-fogo. Um acordo não é um pacto. E um acordo, com certeza, não é um tratado. E aí está o problema. Eles mudaram o sentido das palavras, o que praticamente impede qualquer negociação realmente significativa.”

A conclusão de Henningsen é: os EUA não têm o menor interesse em uma paz duradoura. O que querem é um congelamento temporário, que lhes permita reabastecer os seus arsenais, reorganizar as suas forças, e tentar novamente mais adiante. É o mesmo padrão observado na Ucrânia: anos de negociações falsas, acordos de Minsk sabotados, e uma guerra por procuração que não acaba nunca.

O Fracasso como Estratégia: “Os EUA Não Têm Estoque de Munição”

A razão para essa relutância americana em encerrar a guerra é simples, segundo Henningsen: os EUA não têm escolha, a não ser manter um conflito de baixa ou média intensidade com o Irã, porque as suas reservas de munição estão no limite.

“As reservas de defesa antimísseis estão baixas. Eles estão tendo que tirar de um lado para cobrir o outro, no mundo todo. Vai levar anos para eles se recuperarem e voltarem aos níveis de antes da guerra.”

A escassez de mísseis Patriot e THAAD é um problema estrutural. Os EUA produzem cerca de 750 Patriots e 450 THAAD por ano. A demanda na Ucrânia, somada aos ataques iranianos, esgotou esses arsenais. Os navios da Marinha americana, com seus tubos de lançamento vertical vazios, precisam recuar por dias para serem reabastecidos.

E, como Henningsen observa, o mesmo vale para Israel. O “Estado judeu”, que se gabava de ter a melhor defesa aérea do mundo, viu os seus radares de alerta antecipado serem destruídos pelo Irã nos primeiros dias da guerra. O tempo de alerta para a população israelense caiu para meros 90 segundos. A taxa de interceptação dos mísseis iranianos é pífia — se estima ser entre 3% e 5%.

A conclusão de Henningsen é a de que os EUA e Israel estão presos em uma armadilha estratégica. Não podem vencer a guerra, mas também não podem admitir a derrota. A única saída é um “congelamento” que lhes permita salvar as aparências — enquanto o Irã dita os termos.

A Perda do Poder Normativo: “Os EUA Não São Mais uma Potência Normativa”

O ponto central da análise de Henningsen, no entanto, não é militar. É normativo.

“O Irã está adotando uma doutrina de sempre deixar a porta aberta para o diálogo. Não é só por interesse próprio, mas também para mandar um sinal para o resto do mundo e para outras potências, incluindo a China, de que o Irã é uma potência razoável que age dentro das normas do sistema internacional.”

Em contraste, os Estados Unidos se tornaram “totalmente erráticos, completamente inconsistentes, hipócritas, voltando atrás nas próprias declarações o tempo todo”.

Henningsen evoca um conceito central das relações internacionais: o poder normativo — a capacidade de um país de ditar as regras do jogo, de ser visto como um ator confiável, de atrair aliados pelo exemplo, não pela coerção.

Durante décadas, os Estados Unidos e a União Europeia foram potências normativas. O mundo queria se alinhar a eles não apenas por medo, mas por admiração.

Esse tempo acabou.

“Os Estados Unidos já não são mais uma potência normativa no sistema internacional. Dentro da unidade que é o mundo, o sistema tende a se inclinar a favor das potências normativas. É por isso que os EUA acabaram se isolando.”

A ascensão do Irã, nesse contexto, não é apenas uma vitória militar. É uma vitória moral. O Irã conseguiu se apresentar ao mundo — especialmente ao mundo islâmico e ao Sul Global — como um defensor da justiça, da resistência à opressão, e do direito internacional.

Enquanto os EUA bombardeiam escolas e hospitais (como em Minab, onde 165 meninas foram assassinadas deliberadamente), o Irã se apresenta como o guardião do Estreito de Ormuz — cobrando pedágio, mas mantendo o fluxo de energia para os países não beligerantes.

O Irã, literalmente, se tornou “o dono do portão”, e isso lhe confere uma posição privilegiada no intrincado jogo geopolítico e das relações comerciais.

O Eixo da Resistência e a Ascensão Moral do Irã

Henningsen dedica uma parte significativa da entrevista à dimensão moral da liderança iraniana no mundo islâmico.

“Quando você ouve a retórica da liderança religiosa iraniana ao longo de toda a existência da República Islâmica, eles falam do Islã em termos universais. Eles sempre assumiram essa liderança no mundo islâmico e colocaram a questão moral no centro dos assuntos de Estado. É quase como se estivesse escrito na Constituição deles que precisam defender de forma explícita qualquer pessoa que esteja sendo oprimida ou intimidada no mundo.”

Em contraste, os países do Golfo — Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Catar — que se alinharam com os EUA e Israel na guerra contra o Irã, passaram a serem vistos pela população muçulmana como traidores da causa palestina.

“O único país que realmente se colocou para defender o Islã, proteger a Palestina e a Terra Santa, foi o Irã.”

Essa percepção não é trivial. Ela tem consequências geoestratégicas profundas. O Irã não é mais visto apenas como uma potência xiita. É visto, crescentemente, como o líder do mundo islâmico sunita também — um feito extraordinário para um país que os EUA tentaram isolar por décadas.

“O que isso permitiu que o Irã fizesse? Permitiu que eles não só se elevassem politicamente no mundo islâmico, mas também em relação ao Paquistão. O Paquistão e o Irã têm muita sinergia. Ambos são repúblicas islâmicas.”

A conexão com o Paquistão é crucial, porque o Paquistão é uma potência nuclear declarada, com laços profundos com a China. A aliança emergente entre o Irã, o Paquistão, a China e a Rússia é o eixo que está reconfigurando a geopolítica global.

O Deslocamento do Centro de Gravidade para o Leste

Henningsen conecta a derrota americana no Oriente Médio a um fenômeno mais amplo: o deslocamento do centro de gravidade econômico e político do mundo para o Leste.

“O capital não está mais indo para a Europa. Está indo para o Leste. E a China hoje é o lugar mais seguro e estável para estacionar o capital global. Isso significa que qualquer um que esteja aliado a esse lado do paradigma vai acabar saindo vitorioso no longo prazo.”

A China, que observou a guerra contra o Irã a uma distância segura, consolidou as suas relações com Teerã. Afinal, o Irã é um “nodal” insubstituível no sul da Ásia Ocidental. Estratégico ao sucesso da rota da seda.

O comércio bilateral entre a China e o Irã, que já era significativo, cresceu exponencialmente durante o conflito. O petróleo iraniano é vendido em yuan. O BRICS Pay e a unidade de conta UNIT (lastreada em 40% ouro) estão em fase avançada de implementação. A desdolarização é uma realidade.

“O Irã está completamente ancorado nesse movimento para o Leste. Isso é praticamente inevitável.”

A Comparação com a Ucrânia: O Mesmo Padrão de Falsas Negociações

Henningsen traça um paralelo entre a guerra contra o Irã e a guerra na Ucrânia. Em ambos os casos, os EUA se apresentam como “mediadores” enquanto, na realidade, são parte beligerante.

“Como os Estados Unidos conseguem se apresentar como mediadores? É extraordinário. Na guerra da Ucrânia, foram os Estados Unidos que colocaram lá um monte de ONGs, tentando fortalecer aquela oposição antirrussa. Foram os americanos que lideraram o golpe em 2014. Foram eles que minaram o Acordo de Minsk por sete anos, enquanto fortaleciam o exército ucraniano. Foram eles que sabotaram o Acordo de Paz de Istambul em abril de 2022.”

A mesma dinâmica se repete no Oriente Médio. Os EUA armam Israel, fornecem inteligência, reabastecem caças F-35 sobre o território saudita para atacar o Irã, e depois se apresentam como “mediadores” de um cessar-fogo que eles mesmos sabotam.

“Isso não são coisas separadas. Eles não podem fingir que são. Muita gente no Ocidente é ingênua o bastante para não perceber o nível de ações obscuras em que os Estados Unidos estão envolvidos. Mas o resto do mundo não se deixa enganar.”

O Que Vem Depois?

A conclusão de Henningsen é sombria, mas não derrotista. Ele não celebra o declínio americano — ele o constata.

“Compare onde os Estados Unidos estão agora em junho com onde estavam em 27 de fevereiro. Compare militarmente, politicamente, interna e geopoliticamente, internacionalmente e do ponto de vista econômico. Em apenas três meses, eles estão numa situação terrível.”

A frase de Victor Hugo — “a queda é a fornalha, a decadência é o fogo lento” — nunca foi tão apropriada. Os EUA não estão caindo de uma só vez. Estão sendo consumidos lentamente por suas próprias contradições: um complexo industrial-militar insaciável, uma classe política capturada por interesses estrangeiros (Israel), uma sociedade desigual e fragmentada, e uma dívida impagável.

O Irã, ao contrário, está em ascensão. Não porque seja um país perfeito ou uma democracia exemplar. Mas porque, neste momento histórico, ele representa algo que o mundo está desesperado para encontrar: consistência, coragem e uma posição moral clara e firme.

“O Irã assumiu o eixo da resistência, da resistência islâmica, que é algo muito real e muito vivo. E, além disso, o Irã agora se colocou, se não como líder da Ummah global, pelo menos de um ponto de vista moral.”

A pergunta que fica não é se os Estados Unidos entrarão em colapso. Mas quando. E o que virá depois. O deslocamento do centro de gravidade para o Leste — para Pequim, para Moscou, para Teerã — já está em curso. A única incógnita é a velocidade com que os EUA e a Europa conseguirão se adaptar a essa nova realidade.

O Ano da Derrota

2026 será lembrado como o ano em que os Estados Unidos deixaram de ser o árbitro do mundo. Não porque tenham sido derrotados em uma única batalha, mas porque perderam o que é mais importante em relações internacionais: a capacidade de ditar as regras.

O Irã não “venceu” a guerra no sentido tradicional. Ele não invadiu os EUA. Não impôs um governo fantoche em Washington. Mas ele mostrou ao mundo que os Estados Unidos podem ser desafiados — e que desafiá-los não leva à aniquilação, mas ao respeito.

Patrick Henningsen, com a lucidez de quem acompanha conflitos há décadas, capturou esse momento com precisão. 2026 é o ano da pior derrota geoestratégica dos EUA.

Nota ao leitor: Este artigo buscou compilar, numa análise única e aprofundada, os elementos factuais e contextuais que cercam a derrota geoestratégica dos Estados Unidos na guerra contra o Irã — desde o esgotamento dos arsenais militares e a perda de poder normativo, até a ascensão do Irã como potência moral e geoestratégica ancorada no movimento para o Leste (China e Rússia). A análise de Patrick Henningsen, fundador do 21st Century Wire, é apresentada como um contraponto lúcido à narrativa oficial de Washington. As fontes utilizadas são públicas e estão devidamente listadas para a sua verificação.

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