O BRASIL SE PREPARA PARA O MUNDO COMO ELE É: Mísseis e Yuan

Internacional, Geopolítica, Economia

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Dedicado à Verdade e à Paz.

Por PolitikBr I Brasília, Em 08/06/2026, 06h:05min, leitura: 11min

Editor: Rocha, J.C.

Essa é uma análise documental. Para visualizar “o todo” recomendamos a leitura dos demais artigos, que se somam ao tema de hoje. Boa leitura.

O mundo não é como os idealistas gostariam que fosse. Ele é beligerante, fragmentado, e caminha à passos largos para confrontos que se avolumam, ou pelo acesso e controle de recursos estratégicos, ou pela busca de segurança, que leva insegurança ao outro. Isso se dá, em especial, com o colapso em curso, pós segunda grande guerra, da dominância americana e do consequente surgimento de novos e poderosos players no cenário global: China, Rússia, Índia, Irã e demais parceiros do BRICS. Uma organização moldada pela premissa do ganha-ganha, e não da exploração de um sobre o(s) outro(s) – modelo ocidental, americano. Neocolonial.

Nesse nova realidade, de um sistema multipolar, o dólar já não é – e nem poderia mais ser- a única moeda de reserva. Esse tempo acabou. Queira Trump ou não.

O Brasil, sob a administração desenvolvimentista de Lula, e da afirmação da sua aspiração em ser uma grande economia, rica; que se relacione com todos. De igual para igual; sem submissão, em oposição à extrema direita brasileira, atrelada aos interesses americanos e não os do Brasil, parece ter entendido isso. Em menos de uma semana, duas notícias confirmaram o realismo estratégico do país: a inauguração, ainda este ano, da maior fábrica de mísseis da América Latina, em Caçapava (SP), e a preparação da primeira emissão de títulos soberanos brasileiros denominados em yuan, a moeda chinesa.

Não é contradição. Não é esquizofrenia. É o Brasil se preparando para o mundo como ele é — e para o mundo que está por vir.

Há quem veja contradição em um governo de centro-esquerda investir na indústria bélica e, ao mesmo tempo, ampliar laços com a China. Há quem veja hipocrisia. Mas a análise superficial é inimiga da compreensão. O que o Brasil está fazendo é, na verdade, um exercício de realismo estratégico — a arte de navegar em um mundo hostil sem se curvar, mas também sem se isolar.

Como já declarou diversas vezes o presidente Lula: O Brasil quer negociar com todos. De igual para igual.

Mísseis em Caçapava: A Defesa como Política de Estado

A fábrica da SIATT (controlada pela Edge, conglomerado de defesa dos Emirados Árabes Unidos) em Caçapava, no Vale do Paraíba, produzirá mísseis antinavio — até oito por mês. O investimento é bilionário. O objetivo, segundo o CEO da Edge, Rodrigo Torres, é claro: atender o mercado interno (o Exército Brasileiro já recebeu mísseis antitanque) e, principalmente, exportar. Além do mais, o Brasil parece ter compreendido, de vez, que sem forças armadas poderosas: Marinha, Exército e Aeronáutica, não há dissuasão.

Sem, por exemplo, uma Marinha de Guerra poderosa e sofisticada, não há como proteger os imensos recursos da Amazônia Azul brasileira, ainda mais agora, com o início da exploração das imensas reservas de hidrocarbonetos da Margem Equatorial, que já vem sendo exploradas pela Guiana e pelo Suriname (Guiana Francesa).

O Brasil começa a olhar a defesa do mar territorial sob o prisma de ameaça, em especial, dos americanos.

O mundo está em frangalhos. A indústria de defesa experimenta um “crescimento exponencial violento”. Conflitos na Ucrânia, no Oriente Médio, tensões no Mar do Sul da China — tudo isso impulsiona a demanda por armas.

O Brasil, que já é um dos maiores exportadores de alimentos e minerais do mundo, agora ambiciosa se tornar também um player de peso na indústria de defesa – uma indústria multiplicadora de capacidade industrial de ponta de qualquer país . Não por beligerância. Por necessidade.

Em um mundo onde as nações são respeitadas não apenas pela sua diplomacia, mas pela sua capacidade de dissuasão, o Brasil não pode ficar para trás.

Enquanto os holofotes globais se voltam para os gigantes da indústria bélica — Estados Unidos, Rússia, China, Alemanha, Turquia, Índia, que disputam a hegemonia no negócio de armas; que cresce exponencialmente — o Brasil segue um caminho próprio, mas igualmente estratégico.

Nos últimos anos, o país vem construindo, de forma silenciosa e metódica, uma das mais avançadas bases tecnológicas de defesa do Sul Global.

O programa PROSUB é o carro-chefe: o submarino nuclear Álvaro Alberto, ainda em construção, tornará o Brasil um dos poucos países do mundo com capacidade de projetar e operar submarinos com propulsão nuclear, patrulhando a chamada Amazônia Azul e protegendo o mar territorial brasileiro.

Embora o Brasil esteja construindo uma base industrial de defesa invejável, a realidade operacional atual expõe uma dura disparidade. A Amazônia Azul, por exemplo, o vasto território marítimo brasileiro de jurisdição soberana, abrange cerca de 5,7 milhões de km² — uma área equivalente a mais da metade de todo o território terrestre do país .

Para defender esta imensa área rica em recursos naturais (responsável por mais de 90% do petróleo nacional), a Marinha do Brasil conta atualmente com apenas quatro fragatas leves modernas (Classe Tamandaré) e quatro submarinos convencionais modernos (Classe Riachuelo) . É uma frota pequena para a enormidade da jurisdição.

Embora o país lidere programas estratégicos de vanguarda — como o desenvolvimento do primeiro submarino de propulsão nuclear e o ambicioso plano de expandir a frota de fragatas para oito navios — o momento atual é de transição.

Neste hiato entre o Brasil que se projeta e o Brasil que opera hoje, o recado silencioso ao mundo é o mesmo: a proteção soberana da ‘Amazônia Azul’ está sendo construída com tecnologia e paciência, e não será negociável.

Um orgulho nacional. A gigante Embraer, fabricante consagrada de uma enorme família de jatos de grande e média capacidades para uso civil, vem também se consolidando, no segmento militar, como fornecedora global de primeira linha com o KC-390, um cargueiro militar multimissão que já foi adquirido por nações como Portugal, Hungria, Suécia, Coreia do Sul e Holanda, desafiando a hegemonia de gigantes como a Lockheed Martin (C-130) e a Airbus (A400M).

Longe dos holofotes, o Brasil também avança no desenvolvimento de drones avançados — com aplicações que vão da agricultura de precisão à vigilância de fronteiras e, em versões táticas, a capacidades de ataque.

A fábrica da SIATT em Caçapava, que produzirá até oito mísseis antinavio por mês, é apenas a face mais visível de um ecossistema que inclui a Avibras (fabricante do sistema de foguetes ASTROS II, em operação em vários países) e outros fabricantes nacionais.

No front dos mísseis, o protagonismo hoje se divide entre a Avibras e a Mac Jee. A Avibras, que quase foi privatizada — o que teria sido um erro estratégico irreparável, condenando o país a depender de tecnologia estrangeira —, mantém seu legado com o míssil de cruzeiro AV-TM 300 (o “Matador“), 90% concluído após duas décadas de desenvolvimento. Ao mesmo tempo, a Mac Jee, nascida em São Paulo e hoje uma das empresas mais ambiciosas do setor, vem ocupando espaços deixados pela crise da Avibras.

Reconhecida como ‘Empresa Estratégica de Defesa‘ (EED) pelo Ministério da Defesa, a Mac Jee adquiriu a propriedade intelectual de projetos estratégicos da extinta Mectron, como os mísseis MAR-1 e MAA-1B Piranha, além de atuar como parceira do IEAv no desenvolvimento do Projeto 14-X de propulsão hipersônica, que já atingiu Mach 6 em testes de protótipo.

O ecossistema brasileiro de defesa, ao estimular essa diversidade de players, parece ter aprendido a lição: a soberania tecnológica não pode ser refém de uma única empresa, nem entregue a controladores estrangeiros, sem a devida supervisão do Estado.

O Brasil não quer guerra. Mas quer que qualquer potencial agressor saiba que o custo de uma aventura militar contra o país seria proibitivo. Não é beligerância. É realismo estratégico — e um recado silencioso ao mundo de que a soberania brasileira não está à venda.

A fábrica de Caçapava da SIATT, portanto, não é um desvio do pacifismo brasileiro. É a sua condição de possibilidade. Um país que não pode se defender não pode falar de paz. Fala de submissão.

Yuan em Xangai: A Desdolarização como Estratégia

Enquanto os mísseis são montados em Caçapava, uma missão oficial brasileira se prepara para viajar a Xangai e Pequim (24 a 26 de junho) para anunciar a primeira emissão de títulos soberanos brasileiros denominados em yuan — os chamados “títulos Panda“.

A decisão é inédita. E é revolucionária — silenciosamente revolucionária.

O movimento ocorre em um momento de tensões comerciais com os Estados Unidos (Trump ameaça novas tarifas sobre produtos brasileiros) e de fortalecimento das relações econômicas com a China, atualmente o principal parceiro comercial do Brasil.

A emissão de títulos em yuan é mais um passo na estratégia de diversificação de fontes de financiamento e, sobretudo, de redução da dependência do dólar. O Brasil segue, assim, o caminho que outros países do BRICS já haviam sinalizado: o mundo multipolar exige moedas múltiplas.

A desdolarização não é uma ideologia. É uma necessidade diante dos Estados Unidos, que não hesitam em usar o sistema financeiro global como arma. E também usar o mundo para continuar pagando pela ineficiência da sua economia, e do caráter perdulário de sua sociedade de consumo.

As Duas Faces do Realismo Estratégico

Mísseis e yuan. Defesa e desdolarização. À primeira vista, parecem temas díspares. Mas são duas faces da mesma moeda: o realismo estratégico.

  • Os mísseis dizem: “Não nos ataquem. A defesa é cara, mas a rendição é mais cara ainda.”
  • O yuan diz: “Não nos subjuguem financeiramente. A diversificação é um escudo contra a chantagem.”

Autoridades brasileiras, em conversas com a Reuters, manifestaram o receio de que a decisão dos EUA de classificar as organizações criminosas PCC e CV, possa “abrir caminho para ações militares ou encobertas dos EUA no Brasil, semelhantes às operações na Venezuela e contra cartéis os cartéis de drogas mexicanos“- também classificados pelos EUA como organizações terroristas.

O secretário nacional de Segurança Pública, Chico Lucas, foi categórico: “Não permitiremos nenhuma forma de intervenção estrangeira no nosso país” .

Enquanto Flávio Bolsonaro pediu a Trump para classificar o PCC e o CV como organizações terroristas, e Trump bombardeia barcos na Venezuela, o coração do problema — as redes de contrabando de armas baseadas nos EUA — permanece impune.

A propósito, a principal rede de abastecimento das duas facções criminosas brasileiras – PCC e CV – operam à plena luz do dia em cidades como Phoenix e Houston.

Se o Brasil quiser jogar o mesmo jogo, pode começar a classificar como criminosos os contrabandistas de armas americanos. A lista de ‘organizações terroristas’ de Trump é, no mínimo, seletiva.

E se o Brasil quiser retaliar os EUA com simetria, o caminho é claro:

  • Identificar as organizações de contrabando de armas americanas (as células de suprimento dos cartéis que operam em cidades como Phoenix, Tucson, El Paso e San Diego).
  • Classificá-las como “organizações criminosas transnacionais” (ou, no limite, como terroristas, pela letra fria da lei brasileira, já que fornecem armas para grupos que aterrorizam comunidades no Brasil).
  • Usar os mesmos argumentos dos EUA: “Ameaçam a segurança nacional do Brasil ao abastecer o crime organizado que desestabiliza a Amazônia e as fronteiras”.

É claro que a Casa Branca reagiria com fúria. Mas o Brasil estaria apenas seguindo a cartilha que os próprios americanos criaram. O tiro no pé eleitoral de Flávio Bolsonaro, pode ter dado ao governo Lula a desculpa perfeita para expor a hipocrisia de Trump.

O Brasil de Lula, que discursou em Barcelona sobre a paz (“a minha arma é o argumento“), também preside um país de 8,5 milhões de km², com fronteiras porosas, uma Amazônia cobiçada, e um lugar de destaque no concerto das nações. A paz não se conquista com boa vontade. Se conquista com capacidade de dissuadir quem quer quebre a paz.

Nota ao leitor: Este artigo buscou compilar, numa análise única e aprofundada, os elementos factuais e contextuais que cercam a nova fase da estratégia de defesa do Brasil — desde a inauguração da maior fábrica de mísseis da América Latina (em Caçapava) e o avanço silencioso na indústria de drones e mísseis hipersônicos, até o ambicioso programa PROSUB e a renovação da esquadra com fragatas e submarinos convencionais. O texto também conecta esse movimento ao realismo estratégico do país, que se prepara para proteger as suas fronteiras terrestres e uma área marítima de 5,7 milhões de km² — a Amazônia Azul — sem alarde, mas com tecnologia própria e propósito claro. As fontes utilizadas são públicas e estão devidamente listadas para a sua verificação.

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