Internacional, Geopolítica, Economia
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Por PolitikBr I Brasília, Em 12/06/2026, 19h:55min, leitura: 10min
Editor: Rocha, J.C.

Essa é uma análise documental. Para visualizar “o todo” recomendamos a leitura dos demais artigos, que se somam ao tema de hoje. Boa leitura.
Há uma arte, ainda que suja, na maneira como o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, conduz a sua guerra de nervos contra o Irã. Não se trata da arte da diplomacia, que exige sutileza e a dolorosa construção de pontes. Se trata, isso sim, da arte do abuso psicológico geopolítico; uma encenação, onde a realidade é um mero detalhe incômodo a ser ajustado conforme a direção do vento ou o minuto do teleprompter. Ou será uma mistura de sadismo, maldade e demência frontotemporal? De toda forma um coquetel de palavras mal intencionadas, que só um desiquilibrado compreende. Pela manhã, ele sussurra acordos; pela tarde, grita ameaças. E entre um ato e outro, inventa fatos, acordos e justificativas que os próprios adversários — e, por vezes, os seus aliados — desmentem com um cansaço que já beira a resignação.

O episódio mais recente dessa peça de mau gosto, ocorrido na primeira semana de junho de 2026, é um compêndio perfeito de tudo o que há de mais cínico na política externa trumpista. O palco é o Estreito de Ormuz, aquela garganta metálica por onde escoa um quinto do petróleo, e parte substancial do ácido sulfúrico e dos fertilizantes nitrogenados mundial. O gatilho oficial foi a derrubada de um helicóptero Apache dos Estados Unidos. E a reação foi a mais histérica. Irracional diante de um Trump acuado e querendo, de todas as formas, sair de um conflito criado a “mando de Israel”.
Um incidente que, num mundo racional, pediria ponderação, diante das circunstâncias, em que o Irã, com toda a certeza, é quem agora controla o ritmo. A escalada da guerra.
Mas não vivemos num mundo racional; vivemos num mundo onde a narrativa é a única moeda de valor. Então, a reação de Trump – repercutida pelas mídias patronais ocidental – foi a mais irracional e tola possível: atacou o Irã, em represália.

A trama começou a se desenrolar com a velocidade de um drone. Como noticiou a BBC News Brasil, – e outras midias. Na terça-feira, 9 de junho, Trump acusou o Irã de abater o Apache e, em uma entrevista à ABC News, declarou com a sua habitual teatralidade: “Acredito que a resposta deveria ser muito forte, muito poderosa”. Em Washington, o presidente da Câmara, Mike Johnson, disse estar ao lado de Trump quando o comandante-em-chefe decidiu “retomar os ataques”. A frase, carregada de um tom de inevitabilidade bíblica, à lá o radical Hegseth, Secretário da Guerra, soou menos como uma necessidade militar e mais como um roteiro pré-escrito para uma crise sem sentido, até porque qualquer um já sabia qual seria a resposta do Irã: pagar em dobro. E não deu outra.
O enredo, no entanto, logo apresentou as suas primeiras fissuras. O Comando Central dos EUA (Centcom) classificou a sua operação como “uma resposta proporcional à agressão injustificada do Irã”. Horas depois, mísseis e drones iranianos, reivindicados pela Guarda Revolucionária, respondiam atingindo 21 alvos na região, incluindo a base de al-Azraq, na Jordânia, e a sede do quartel-general da Quinta Frota dos EUA, no Bahrein; conforme relatou o UOL. O Kuwait, peça chave nesse xadrez, afirmou ter interceptado ameaças. O movimento era esperado, quase coreografado: Olho por olho, dente por dente, como o Irã havia sinalizado.
Mas é aqui que a farsa atinge o seu ápice. Em meio ao clarão das explosões na costa de Bandar Abbas e ao som das sirenes na Jordânia, Trump recorreu à sua Truth Social para plantar uma semente de paz. “Estamos nos momentos finais do que será um acordo muito, muito bom,” afirmou a jornalistas, segundo a BBC e a Carta Capital, que repercutiu a suspensão dos ataques sob a justificativa de “avanço nas negociações”.
O presidente “TACO” atacou e, de novo, retrocedeu. Ele vendeu a ideia de que o Estreito de Ormuz seria reaberto “imediatamente”, em dois ou três dias (?!). Um conto de fadas geopolítico que colidia frontalmente com a realidade dos mísseis ainda no ar. E O Irã respondeu ainda fechando novamente o Estreito de Hormuz. O “dono do portão” desmentiu Trump, de novo.

A Invenção do Consenso e a Mentira como Método
O problema, para quem ainda insiste em buscar coerência na política externa dos EUA, é que a “parte iraniana” — como ele a chama, reduzindo uma nação milenar a uma contraparte de negócios — não só não confirmou qualquer avanço, como classificou as declarações como inverídicas. O ministro das Relações Exteriores do Irã, Abbas Araqchi, por outro lado, em resposta, declarou: “Para reduzir o risco, a melhor solução é que eles [as forças estrangeiras] saiam da região”. Não há aí qualquer sinal de rendição ou de um acordo iminente. Há, isso sim, a linguagem dura de quem sabe que o adversário fala sozinho.

Esta dança das cadeiras, onde Trump anuncia acordos que só existem na sua mente enquanto ordena ataques “proporcionais”, não é um acidente de percurso. É o método. O objetivo não é a paz no Oriente Médio — uma ideia romântica e improvável — mas a desestabilização controlada.
O analista Pepe Escobar defende que os Estados Unidos são estruturalmente incapazes de cumprir ou manter qualquer acordo duradouro que, nesse caso, respeite as linhas vermelhas e a soberania do Irã.
Ao alternar entre o porrete e o cenário de uma mesa de negociação vazia, Trump cria um vácuo de informação. Assim, a mídia, sedenta por furos de reportagens, corre atrás das contradições, e o público, atordoado, perde a capacidade de distinguir o que, de fato, é a realidade ou mais um devaneio do presidente.
Enquanto o circo midiático se concentra em saber se o presidente disse “A” de manhã e “não-A” à tarde, o Irã se prepara para o próximo movimento. As notícias dão conta de que a resposta iraniana — aquela que virá depois da troca de mísseis já registrada — poderá mirar infraestruturas vitais, como usinas de dessalinização.
A aposta mais lógica recai sobre os aliados árabes dos EUA: Kuwait ou os Emirados Árabes Unidos, em especial. Atingir a água de uma população civil é uma escalada monstruosa. Os Estados Unidos fizeram isso contra o Irã. E o Irã aprendeu que, para sangrar o Ocidente, não precisa afundar um porta-aviões; basta ameaçar a torneira ou o tanque de combustível do vizinho.

Ao adicionar gasolina a esse incêndio, a relação entre os próprios EUA e Israel, parceiros formais nesta guerra contra o Irã, se mostra cada vez mais fraturada quanto a narrativa. A Deutsche Welle noticiou o caso, cada vez mais preocupante, de espionagem dos Estados Unidos por Israel. Revelando assim que, mesmo na morte e na destruição, a confiança de Netanyahu, em relação à Trump, é mercadoria escassa.
Enquanto Israel realiza ataques no sul do Líbano para tentar inviabilizar qualquer acordo de paz, Teerã alerta que a ocupação estrangeira na região é um “risco constante”, seja por “erros humanos, acidentes ou fogo cruzado”. É a tradução em política externa do caos: ninguém está seguro, nem mesmo os “vencedores”.
Em recente entrevista do jornalista Patrick Henningsen ao podcast do professor Gleen Diesen, ele mencionou que o Islã, e por consequência o Irã, tem na base de sua fé a solidariedade aos povos oprimidos, seja onde for. Portanto, o apoio do Irã aos grupos de resistência que se opõem ao expansionismo de Israel – Hamas, Hesbollah, Houthis, outros – deve ser olhado nessa perspectiva. O Irã se sente obrigado a intervir – e Netanyahu sabe disso – quando Israel ataca o Líbano, a Cisjordânia e Gaza.
Na edição de amanhã, 13/06, o PolitikBr vai publicar, em detalhes, a excelente discussão sobre geopolítica e história, entre Patrick e Gleen, abordando, obviamente, as guerras atuais. As suas causas. Aguardem.
A Vitória Pirro de um Narciso Geopolítico
No fim, o que resta deste episódio não é a segurança de Israel, nem a supremacia dos EUA, nem a capitulação do Irã. Resta a imagem de um presidente que, ao tentar controlar todos os fios da marionete, acaba irremediavelmente emaranhado neles. Trump quer projetar a imagem de um grande estadista que negocia a paz; mas também a imagem de guerreiro implacável, que não hesita em retaliar. Como não pode ser ambas as coisas simultaneamente, opta por ser um pela manhã e o outro à noite, confiando que a velocidade do ciclo de notícias apague as pegadas das suas próprias contradições.
A guerra contra o Irã não é, portanto, apenas uma guerra por petróleo, por rotas marítimas ou por hegemonia regional. É, acima de tudo, uma guerra pela definição da realidade. E enquanto um dos lados insiste em reescrever o roteiro a cada telefonema, o outro — o Irã, paciente e metódico — se limita, com maestria, a executar o que sempre disse que faria: responder golpe com golpe, mentira com ação concreta.
A perspectiva burra de fragilidade do, agora, “dono do portão”, foi um erro de cálculo colossal de Trump. E se os EUA estão praticamente sendo expulsos do Oriente Médio; uma nova realidade geopolítica está se desenhando, e, em decorrência, novas e poderosas alianças vão se firmando, a culpa é exclusivamente da falta de visão de Trump e de seus auxiliares bajuladores, que não tiveram coragem, força, para se opor a que ele iniciasse essa guerra estúpida, sob todos os sentidos.
Nota ao leitor: Este artigo buscou compilar, numa análise única e aprofundada, os elementos factuais e contextuais que cercam as contradições narrativas do presidente Donald Trump em sua guerra contra o Irã e as consequências imediatas no Oriente Médio. As fontes utilizadas são públicas e estão devidamente listadas para sua verificação.
“Em apenas 12 dias de junho de 2026, o PolitikBr foi acessado a partir de mais de 1.300 localidades em todo o mundo. Agradecemos aos leitores dos Estados Unidos, Japão, Brasil, Israel, China, Irã, Rússia e de tantos outros países que nos acompanham. Seguimos dedicados à verdade e à paz, em todos os idiomas.“
Esse artigo foi baseado em:
- BBC News Brasil: EUA lançam ataques contra o Irã em retaliação à derrubada de helicóptero militar. Publicado em 10 jun. 2026. Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/articles/c932qnk8q0lo
- PolitikBr: https://politikbr.org/2026/05/06/fim-do-projeto-liberdade-trump-humilha-os-eua/
- UOL Notícias: Irã ataca base dos EUA na Jordânia e acirra tensão no Oriente Médio. Publicado em 10 jun. 2026. Disponível em: https://noticias.uol.com.br/internacional/ultimas-noticias/2026/06/10/ira-ataca-base-dos-eua-e-acirra-tensao-no-oriente-medio.ghtm
- Noticias Brasil: Trump suspende ataques ao Irã após avanço nas negociações
- Deutsche Welle (DW): Acusações de espionagem expõem tensão entre EUA e Israel. Disponível em: Acusações de espionagem expõem tensão entre EUA e Israel
- Financial Times: Iran says 20,000 people left without water after US hits reservoir tanks. Publicado em 10 jun. 2026 (acesso por assinatura). Disponível em: https://www.ft.com/content/155db8a4-f2ff-463b-9c6c-2b1a8104750c
- Carta Capital: Irã anuncia ataque contra quartel-general da 5ª Frota dos EUA no Bahrein. Em https://www.cartacapital.com.br/mundo/ira-anuncia-ataque-contra-quartel-general-da-5a-frota-dos-eua-no-bahrein/
- Carta Capital: https://www.cartacapital.com.br/mundo/ira-confirma-bloqueio-total-do-estreito-de-ormuz/
- YouTube: https://www.youtube.com/watch?v=y0c559DkOkE&t=284
- You Tube: https://youtu.be/Qz8Y0hBzQDg?is=h7fFuJUYeLr51QyH