Principais entregas desse artigo:
- O “diagnóstico psicológico” de Donald Trump por Jeffrey Sachs
- A normalização do anormal na política e na mídia dos EUA
- O colapso dos freios e contrapesos e a guerra como política
- Trump como sintoma de um sistema político profundamente doente
- O silêncio cúmplice da grande imprensa e a fuga da verdade
- As consequências globais de uma liderança impulsiva e descontrolada
Internacional, Geopolítica, Economia
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Por PolitikBr I Brasília, Em 24/08/2026, 20h:28min, leitura: 14min
Editor: Rocha, J.C.

Essa é uma análise documental. Para visualizar “o todo” recomendamos a leitura dos demais artigos, e publicações relacionadas, que se somam ao tema de hoje. Boa leitura.
Há momentos em que uma análise política deixa de ser apenas uma discussão sobre partidos, eleições ou ideologias. Ela passa a tocar em uma questão muito mais incômoda: o que acontece quando uma pessoa dotada de enorme poder político demonstra, segundo os seus críticos, um comportamento cada vez mais imprevisível — e as instituições encarregadas de controlá-la parecem incapazes ou não querem fazê-lo?
É exatamente nesse território que entra Jeffrey Sachs.

No vídeo que serve de ponto de partida para este artigo, Jeffrey Sachs, economista, professor da Universidade de Columbia, e conselheiro de longa data de secretários-gerais da ONU, oferece uma dessas intervenções raras em um diálogo no programa World Affairs In Context, de 22 de agosto de 2026.
O professor fez uma das avaliações mais duras que já feitas sobre Donald Trump. Ele não se limitou a criticar decisões econômicas ou políticas externas. Ele questionou a própria condição psicológica do presidente e, principalmente, a capacidade do sistema político americano de conter um presidente que dispõe de poderes extraordinários.
É importante, entretanto, estabelecer uma distinção fundamental. Sachs não é médico de Trump e não apresenta um diagnóstico clínico formal. Ele próprio reconhece que está falando como um “psicólogo amador”, isto é, um observador leigo fazendo uma interpretação psicológica. Entretanto, Sachs compartilha visões da saúde mental de Trump, que o PolitikBr já publicou, como esse artigo em que especialistas discorrem sobre o estado mental de Donald Trump: Does Trump Suffer from Frontotemporal Dementia? Speculation or Fact?
Não cabe, entretanto, ao PolitikBr transformar as afirmações de Sachs em diagnóstico médico. O que interessa é compreender o argumento político construído pelo professor, a partir daquilo que ele percebe no comportamento público de Trump.
E esse argumento é muito maior do que Trump.
A validade da fala de Sachs, é que ele expressa o que a imprensa mainstream americana sistematicamente se recusa a fazer: chamou o presidente dos Estados Unidos pelo que ele é, na sua avaliação, e alertou para o perigo iminente que ele representa.
“Quem é mais louco, Trump ou nós?”, perguntou ele, em uma provocação que expõe a cumplicidade de uma sociedade que normalizou o anormal.
“Como podemos não ser adultos e dizer: aquele homem é um louco, tirem-no daí antes que ele mate todos nós?”
Este artigo, portanto, não é uma análise política convencional. É uma dissecação do que Sachs identificou como a psicose do poder americano – uma condição em que a doença mental de um indivíduo se funde com a falência sistêmica de uma nação, para criar um dos momentos mais perigosos desde a Segunda Guerra Mundial.
E aqui está o ponto realmente interessante.
Sachs não considera ser Trump apenas a causa da crise americana. Para ele, Trump é também um sintoma de uma doença institucional muito mais antiga.
“Ele é presidente por causa da existência de problemas muito mais profundos no sistema político americano”. Esse é essencialmente o raciocínio desenvolvido pelo economista.
Na visão de Sachs, um sistema político saudável não deveria permitir que uma única pessoa concentrasse tamanho poder para iniciar ou ampliar guerras.
Essa talvez seja a parte mais importante de toda a entrevista. Porque, se Trump fosse apenas o problema, bastaria retirá-lo do poder.
Mas como Trump é produto de um sistema apodrecido, trocar o presidente não resolve a doença.
A erosão dos freios institucionais
Sachs chama atenção para aquilo que considera uma das maiores anomalias da política americana contemporânea: a perda de protagonismo do Congresso na definição da política externa e militar.
Na Constituição americana, o poder de declarar guerra pertence ao Congresso. Sachs argumenta, entretanto, que a prática política das últimas décadas criou uma realidade muito diferente, na qual o presidente e a estrutura de segurança nacional, passaram a operar com enorme autonomia.
Ele chega a afirmar que a política externa americana é conduzida, em grande medida, por estruturas como a CIA, a NSA e o Conselho de Segurança Nacional, enquanto o Congresso teria abandonado boa parte de sua responsabilidade de supervisão.
É uma acusação grave.
E é justamente aqui que a discussão deixa de ser “Trump é louco?” e passa a ser outra: Por que o sistema permite que qualquer presidente tenha tamanho poder? Essa pergunta é muito mais relevante.
Um Diagnóstico Clínico na Arena Política
Sachs, conhecido por suas análises econômicas rigorosas, não hesitou em adentrar o território da psicologia para explicar o inexplicável. Ele descreveu Trump como um indivíduo que se enquadra no que a psicologia define como “personalidade da tríade sombria” (dark triad) – um espectro que combina narcisismo, maquiavelismo e psicopatia.
Na explicação de Sachs, o narcisismo se manifesta na grandiosidade e na necessidade de admiração; o maquiavelismo, na manipulação, na desonestidade e na falta de confiabilidade; e a psicopatia, na ausência total de empatia pelo sofrimento alheio.
“Não há empatia por quantas pessoas ele mata ou quanto dano é causado”, afirmou Sachs, sem rodeios.
A este diagnóstico, ele somou um agravante, sugerindo que há sinais de demência frontotemporal no comportamento de Trump, percebida “através da incoerência das frases, da deriva do pensamento, e até da confusão de palavras”
“Acho que Donald Trump é literalmente, mentalmente, doente em uma extensão muito séria. […] Estamos lidando com um indivíduo psicologicamente profundamente debilitado que, por acaso, tem muito poder.”
Esta não é uma observação isolada. Em abril de 2026, Sachs foi um dos cinco acadêmicos de peso – incluindo especialistas em psiquiatria forense da Universidade de Yale, e em violência da Universidade de Harvard – que assinaram uma carta ao Congresso dos EUA alertando que o estado mental de Trump constituía uma “crise constitucional”.
A carta, motivada pela imposição do bloqueio naval ao Irã sem autorização do Congresso – um ato de guerra, na prática –, usou o conceito de “triade sombria” para basear a sua advertência, demonstrando que a preocupação de Sachs tem lastro na comunidade científica .
Trump e a Síndrome do “Déjà Vu” da Demência
Um dos pontos mais ferinos da fala de Sachs é que, na visão dele, esta é a segunda vez consecutiva que os EUA têm um presidente sofrendo de demência. Ele compara o tratamento da mídia ao caso de Joe Biden, cujo declínio cognitivo foi “encoberto até que ele ficou lá, boquiaberto em frente a uma câmera, babando para todo o povo americano que assistia a um debate”.
A crítica é devastadora: o sistema político e a mídia não protegem o público; eles protegem o poder, independentemente do estado de quem o exerce.
No caso de Trump, Sachs argumenta que a deterioração da saúde mental do presidente se acelerou nos três ou quatro meses anteriores à essa entrevista, resultando em “um grau de impulsividade que é absolutamente além de qualquer coisa que eu já vi antes”, declarou Sachs.
A jornalista e comentarista norte-americana que entrevistou Sachs reforçou essa percepção, ao relatar que “um ex-funcionário do alto escalão” lhe disse, em off, que Trump “está tendo um colapso nervoso” e que “os assessores não conseguem mais controlá-lo” .
A imagem que emerge, portanto, é a de uma Casa Branca onde a política externa é ditada por impulsos de um homem que, na visão de Sachs, perdeu o contato com a realidade.
E quem perde o contato com a realidade está mentalmente incapaz de conduzir os rumos de uma nação, especialmente quando essa pessoa, tem sob a sua responsabilidade, o emprego ou não de armas atômicas, como se especula que Trump estaria cogitando usar contra o Irã, já que os EUA saíram derrotados e humilhados da guerra iniciada – com Israel – , ao atacar o Irã de surpresa em 28 de fevereiro de 2026.
E nesse caso limite – um ataque nuclear tático contra uma “cidade de mísseis iraniana – o que aconteceria? O professor Postol já disse que o Irã tem condições de em dias, ou em poucas semanas, produzir até 15 artefatos nucleares – será que eles já não os tem? Alguns analistas acreditam que sim. E nessa premissa insana, o enlouquecido Trump, magoado, humilhado pelos “legos iranianos“, seria aquele que não só “incendiaria Roma”, mas o mundo.
A normalização do absurdo
Outro alvo de Sachs é a imprensa americana.
Segundo ele, a mídia teria se acostumado a tratar declarações contraditórias, ameaças e mudanças abruptas de posição de Trump como se fossem simplesmente parte do espetáculo político cotidiano. E é aí que surge uma das frases mais fortes da entrevista, que já citamos:
“Quem é o mais louco. Trump ou nós?”
A pergunta é provocativa porque desloca o foco do indivíduo para a sociedade.
Se um político faz uma afirmação mentirosa, se contradiz pouco depois e, ainda assim, todo o aparato político e jornalístico passa imediatamente a discutir “o que ele fará a seguir”, o problema não está apenas no comportamento do político. Está também na normalização coletiva do anormal. Todos fazendo parte do mesmo “circo”.
Sachs, portanto, acusa a imprensa de transformar decisões potencialmente perigosas do presidente, em uma espécie de espetáculo esportivo: todos querem saber qual será o próximo movimento, mas poucos perguntam se o movimento deveria sequer estar nas mãos de uma única pessoa.
E onde entra a economia?
Aqui chegamos ao segundo eixo fundamental da análise.
Jeffrey Sachs não é apenas um comentarista político. Ele é um dos economistas americanos mais conhecidos internacionalmente. As suas críticas econômicas à administração Trump, portanto, não são uma extensão improvisada das inúmeras críticas políticas.
Em uma entrevista publicada recentemente – Jeffrey Sachs: America’s Economic Crisis – U.S. Debt & Rising Rates Signal Trouble – , Sachs foi direto. Segundo ele, a combinação entre guerra, tarifas e decisões econômicas improvisadas, estaria prejudicando a economia americana, pressionando custos e comprometendo a competitividade do país.
O ponto central de Sachs sobre as tarifas é conhecido: tarifa é imposto.
Quando os Estados Unidos impõem uma tarifa sobre um produto importado, o governo americano cobra o imposto do importador. O custo pode depois ser distribuído entre importadores, empresas, fornecedores e consumidores. Portanto, afirmar simplesmente que “os estrangeiros pagam” é uma simplificação enganosa.
Sachs sustenta que os déficits comerciais americanos não podem ser compreendidos simplesmente como resultado de países estrangeiros “roubando” os Estados Unidos. A questão está ligada aos desequilíbrios macroeconômicos internos, especialmente à relação entre poupança, investimento e déficit público.
Essa interpretação encontra respaldo em análises econômicas independentes. O Council on Foreign Relations, por exemplo, observa que os déficits comerciais americanos são fortemente influenciados por fatores macroeconômicos, incluindo os grandes déficits fiscais dos Estados Unidos, e que as tarifas não constituem uma solução simples para o problema.
E há um dado especialmente incômodo para a narrativa tarifária de Trump: o déficit americano de bens alcançou aproximadamente US$ 1,2 trilhão em 2025, apesar da ofensiva tarifária.
Ou seja: se a tarifa deveria automaticamente reduzir o déficit comercial, a realidade mostrou que a equação é muito mais complexa.
A guerra também tem uma conta a ser paga
Sachs conecta ainda a política externa à economia.
Ele argumenta que as guerras americanas das últimas décadas produziram enormes custos econômicos, sem necessariamente gerar benefícios correspondentes para a população dos Estados Unidos. No caso do conflito com o Irã, a sua avaliação é particularmente dura, associando a guerra à gastos públicos, aumento dos preços da energia e efeitos indiretos sobre os alimentos e a atividade econômica em geral.
Essa conexão é essencial. Porque uma potência pode financiar uma guerra durante algum tempo simplesmente emitindo dívida, expandindo gastos e realocando recursos. Mas existe sempre uma conta a ser paga. E a conta aparece na dívida pública, nos juros, nos investimentos que deixam de ser realizados, na inflação, nos preços da energia, na perda da competitividade industrial e, finalmente, no padrão de vida da população. É por isso que a crítica de Sachs não pode ser reduzida à sua antipatia pessoal por Trump.
Ele está descrevendo um modelo de poder que, na sua interpretação, transforma a força militar e a coerção comercial em instrumentos permanentes da política econômica e externa americana que não irão resolver os problemas estruturais dos Estados Unidos.
O problema talvez seja maior do que Trump
Há uma ironia nessa história. Trump prometeu recuperar a grandeza americana.
Sachs, ao contrário, enxerga na atual política americana sinais de uma potência que está perdendo justamente aquilo que lhe deu força: estabilidade institucional, previsibilidade, alianças, credibilidade internacional e racionalidade econômica.
E não é apenas Sachs quem aponta problemas na política tarifária. Análises do Council on Foreign Relations indicam que a política tarifária aumentou a incerteza econômica e comercial, afetando os consumidores, as empresas e as cadeias globais de produção.
Até mesmo a discussão sobre o déficit comercial revela uma contradição: enquanto Washington tenta reduzir importações por meio de tarifas, as empresas procuram adaptar as suas cadeias produtivas, transferindo fornecedores de um país para o outro. Assim, parte do comércio simplesmente muda de endereço.
A globalização não irá desaparecer porque Washington decreta que ela deve desaparecer. Ela muda de caminho.
A questão que permanece
No fim, o argumento de Jeffrey Sachs é muito mais inquietante do que a afirmação de que Donald Trump seria, ou não, portador de alguma doença mental. A pergunta verdadeiramente política é outra: o que acontece quando um sistema institucional debilitado entrega poderes extraordinários a um presidente, cujo comportamento é percebido como impulsivo, contraditório e imprevisível?
Sachs responde de maneira brutal.
“Tire-o de lá antes que ele mate todos nós.”
É uma frase deliberadamente alarmista. Mas a sua força está menos no diagnóstico sobre Trump do que na pergunta que a acompanha: quem controla o poder quando o próprio sistema deixa de exercer os seus controles?
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Nota ao leitor:
Este artigo buscou compilar, numa análise única e aprofundada, os elementos factuais e contextuais que cercam a crítica do economista Jeffrey Sachs à liderança de Donald Trump, à falência do sistema político e à conivência da mídia. As fontes utilizadas são públicas e estão devidamente listadas para sua verificação.
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Referências utilizadas neste artigo:
- YouTube (2026): JEFFREY SACHS. Entrevista ao programa World Affairs In Context, disponível em: https://youtu.be/0lHoLAwy-Eo
- LinkedIn (2026): Publicação sobre a entrevista de Sachs, disponível em: https://www.linkedin.com/posts/tut0ughmedia_jeffreysachs-uspolitics-donaldtrump-activity-7497389595349942272-cJ9m
- China.com (2025): Artigo sobre a crítica de Sachs à Estratégia de Segurança Nacional dos EUA, disponível em: http://news.china.com.cn/2025-12/15/content_118229430.shtml
- The Paper (2024): Reportagem sobre a denúncia de Sachs contra o New York Times, disponível em: https://m.thepaper.cn/newsDetail_forward_29676322
- LinkedIn (2026): Ensaio sobre a crítica de Sachs a Trump e Netanyahu, disponível em: https://www.linkedin.com/posts/yusuf-musa-15945154_geopolitics-internationalrelations-leadership-activity-7447782393823784960-c9i1
- Toutiao (2026): Reportagem sobre a carta de especialistas ao Congresso dos EUA, disponível em: https://m.toutiao.com/article/7629266491108327987/
- You Tube (2026): Jeffrey Sachs: America’s Economic Crisis – U.S. Debt & Rising Rates Signal Trouble


