Este é o segundo artigo de uma série de dois baseados na entrevista do ex-analista da CIA Larry Johnson ao podcast de Danny Haiphong. Enquanto o primeiro artigo focou na crise humanitária à bordo do USS Abraham Lincoln, e na revolta dos objetores de consciência, este segundo texto analisa o cenário geopolítico mais amplo: a guerra pelo controle do Estreito de Ormuz, o colapso iminente do mercado energético global, os limites militares e logísticos dos Estados Unidos, e as novas alianças que reconfiguram o Oriente Médio.
Principais entregas deste artigo:
- O bloqueio iraniano no Estreito de Ormuz e os ataques à petroleiros dos Emirados Árabes Unidos
- A crise do petróleo: estoques estratégicos dos EUA no nível mais baixo em 40 anos
- A escassez global de diesel e combustível de aviação
- O esgotamento dos mísseis americanos e a dependência da China por minérios de terras raras
- A guerra na Ucrânia: derrota iminente e o fechamento dos portos do Mar Negro
- A nova aliança Turquia-Arábia Saudita-Paquistão: arte performática ou realidade?
- As contradições de um império que não consegue mais se sustentar
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Internacional, Nacional, Geopolítica, Economia, Corrupção
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Por PolitikBr I Brasília, Em 15/08/2026, 18h:00min, leitura: 15min
Editor: Rocha, J.C.

Essa é uma análise documental. Para visualizar “o todo” recomendamos a leitura dos demais artigos, e publicações relacionadas, que se somam ao tema de hoje. Boa leitura.
Há uma imagem recorrente nos momentos finais dos impérios: a de líderes que insistem em declarar vitória enquanto as suas tropas recuam, seus estoques de armas se esgotam e os seus aliados buscam novas alianças. É essa a cena que se desenrola no Oriente Médio, sob as luzes ofuscantes de uma guerra que Donald Trump insiste em chamar de controlada, mas que, na realidade, escapa ao controle de Washington a cada dia que passa.
Enquanto o USS Abraham Lincoln definha e se retira de cena com a sua tripulação à beira do colapso, o teatro de operações mais amplo revela um império militarmente superado, logisticamente estrangulado e politicamente isolado. A guerra contra o Irã, longe de ter sido a vitória rápida prometida, se tornou um pântano que drenou os recursos energéticos e militares americanos, e expôs em toda a sua nudez, a fragilidade de uma potência que já não consegue impor a sua vontade, nem mesmo em seu principal domínio: o controle dos mares.


O Estreito de Ormuz: O Coração Estratégico da Nova Guerra
O epicentro da crise energética global está no Estreito de Ormuz, a passagem marítima por onde transitava cerca de um quinto do petróleo mundial antes do início da guerra, e de grande parte do enxofre, do ácido sulfúrico e dos fertilizantes nitrogenados produzidos no mundo.
Desde 28 de fevereiro de 2026 – data do início do ataque combinado dos EUA/Israel ao Irã, essa realidade mudou completamente. O Irã fechou Ormuz e o usa como arma estratégica de coerção contra os seus agressores e, por extensão, contra todo o mundo.
Entre idas e vindas, ora o estreito está parcialmente aberto às nações não agressoras ao Irã, ora não. E, diante de um EUA derrotado estrategicamente, todas as cartas seguem na mão do Irã. E tem sido assim desde então.
Quem tentou ou tenta desafiar a “autoridade do Irã” sobre Ormuz paga um preço: é atacado por drones ou misseis. E nenhuma seguradora quer bancar esse risco.
Mais uma vez, em 13 de agosto de 2026, o Irã lembrou quem é o “dono do portão”. Dois petroleiros da Abu Dhabi National Oil Company (ADNOC), dos Emirados Árabes Unidos, aliado de Israel e dos EUA, foram atacados por drones enquanto tentavam atravessar o estreito. O governo dos Emirados culpou a Guarda Revolucionária Islâmica do Irã pelo ataque, classificando-o como “ato de pirataria” e “violação flagrante” da liberdade de navegação.
Chega ser risível a alegação, já que os Emirados é um dos Estados mais beligerantes em relação ao Irã. Se a máxima valesse nessa situação, talvez fosse apropriado se recomendar a se “queixarem ao Papa”, até porque os EUA não tem como impedir que isso aconteça, apesar do que diga o falastrão laranja.
Os ataques iranianos, como sabemos, não são incidentes isolados. Desde o início do conflito, os petroleiros da ADNOC foram atingidos pelo menos 18 vezes. A empresa estatal dos Emirados criou um sistema de transporte próprio para tentar contornar a autoridade iraniana sobre o estreito, mas isso a colocou diretamente na mira do Irã .
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A realidade nua e crua é que o Irã impôs um bloqueio eficaz à passagem pelo Estreito de Ormuz, exigindo que todos os navios que queiram transitar por ali solicitem aprovação prévia, através do que o Irã chama de “Autoridade do Estreito do Golfo Pérsico”, o que significa informar a bandeira e propriedade do navio, o nome do capitão, o tipo e o volume de carga, a nacionalidade da tripulação e pagar a tarifa de trânsito.
Nesse cenário instável e repleto de riscos, o fluxo de navios por Ormuz caiu drasticamente. Em 13 de agosto, apenas oito embarcações atravessaram o estreito, contra uma média de 130 a 140 antes da guerra. Em alguns dias, esse número foi de apenas seis .
Larry Johnson, em sua análise para o programa de Danny Haiphong, explicou o mecanismo por trás do bloqueio iraniano:
“O Irã deixou isso muito claro… Eles disseram que criaram um site, criaram um formulário online para ser preenchido. Então, se um navio está pensando em passar pelo Estreito de Hormuz, é preciso fornecer aos iranianos o nome do navio, o país cuja bandeira o navio ostenta, o nome do capitão, o destino do navio, a carga a bordo e, como sexto e último item, as nacionalidades dos marinheiros a bordo.”
O analista acrescentou que, na prática, o Irã está usando esse mecanismo para garantir que “nenhum navio alinhado com Israel e com os EUA passe pelo Estreito” e para cobrar pedágios. O pagamento, segundo Johnson, será feito – há relatos de que os pagamentos já são feitos há semanas – em renminbi chinês, “em bancos ligados à China, fora do alcance dos Estados Unidos”, impossibilitando que Washington furte os ativos iranianos, como já fez no passado e que, agora, o Irã exige de volta: algo em torno de US$ 20 bilhões. Um verdadeiro ato de pirataria praticado pelos americanos.
A Crise Energética: O Mundo à Beira do Colapso
O bloqueio de Ormuz não é apenas uma questão de soberania regional. As consequências são globais, imediatas e potencialmente catastróficas. A Agência Internacional de Energia (IEA) revisou drasticamente a previsão para a oferta global de petróleo, prevendo agora uma queda de 4,3 milhões de barris por dia, ou cerca de 4% do total mundial .
O CEO da Saudi Aramco, Amin Nasser, emitiu um alerta ainda mais sombrio: o mercado já registra um déficit de mais de 2,6 bilhões de barris de petróleo desde o início do conflito — o equivalente a quase um mês de produção global. Mesmo que o Estreito de Ormuz seja totalmente reaberto hoje, o mundo levaria até 18 meses para repor as reservas esgotadas .
Os Estados Unidos, em particular, enfrentam uma situação crítica. Johnson, durante a entrevista, destacou um dado alarmante: as reservas estratégicas de petróleo dos EUA estão no nível mais baixo em 40 anos, em torno de 290 milhões de barris. O analista explicou as implicações técnicas desse esgotamento:
“Desses 290, é preciso manter no mínimo 145 milhões de barris nas cavernas… Se você retirar o petróleo, a única forma de fazer isso é bombear a água para dentro. E o petróleo é mais leve que a água, então ele sobe com a água até o topo e então é sugado para fora. Mas o problema é que com toda essa água, se você estiver basicamente retirando até a última gota, vai criar uma crise, uma crise estrutural para a caverna de sal. A água se mistura com o sal, enfraquece a parede, a caverna de sal desaba sobre si mesma.”
Entenda um pouco mais:
A crise não se limita ao petróleo bruto. Johnson alertou para uma escassez global de diesel e querosene de aviação, agravada pelo fato de que as refinarias americanas — especialmente as do Golfo — estão configuradas para processar petróleo pesado, com alto teor de enxofre, exatamente o tipo que deixou de fluir do Golfo Pérsico.
Esse tipo de petróleo é produzido por players como a Venezuela, que levará anos para voltar a ser um produtor de peso, e pelo Brasil, que Trump faz questão de considerar “inimigo” e o “quintal da sua casa”. Tentando manter de todas as formas o “naco das Américas” sob as suas asas, já que o resto do mundo ele já perdeu para a China e para a Rússia.
Não será fácil convencer Lula a ceder. É justo por isso que trump usa e abusa da coerção contra o governo Lula, aliado e fundador 01 do BRICS, um dos países que irá decretar, com a sua moeda própria, o fim da espoliação da riqueza do mundo à favor do perdulário padrão de vida da sociedade americana. Decretar o fim do “dinheiro sem fim” – o dólar – que os EUA usam para financiar as suas bases militares ao redor do mundo, subverter regimes, e fomentar guerras eternas.
O Esgotamento Militar: Mísseis, Terras Raras e a Dependência da China
A crise energética dos EUA é ainda acompanhada pelo colapso militar. Segundo a agência Reuters, os Estados Unidos utilizaram “praticamente todos” os mísseis ATACMS e os Precision Strike Missile (PrSM) disponíveis, na campanha contra o Irã. A CNN informou que quase 80% do estoque de interceptadores THAAD também foram consumidos. O Washington Post revelou que a escassez de armamentos levou Trump à cancelar novos ataques contra o Irã .
Mas o problema é ainda mais profundo. segundo Johnson:
“O Pentágono agiu muito rapidamente para liberar dinheiro para enviá-lo à Lockheed Martin e à General Dynamics… ‘Precisamos quintuplicar, expandir de forma realmente drástica a produção de mísseis PAC-3’. Aqui está. Aqui está o dinheiro. Então eles receberam o dinheiro. Só há um pequeno problema. Para produzir esses mísseis PAC-3, são necessários dois tipos de ímãs especiais feitos de minerais de terras raras, que são controlados pela China.”
A resposta da China foi direta: “É vocês que querem esses minerais de terras raras? Vocês querem essas peças? Esqueça isso… Não vamos armar vocês para que depois se virem e usem essas armas contra nós.” (Johnson)
O resultado é que, segundo Johnson, “os Estados Unidos agora se encontram em uma situação em que ficamos sem mísseis. Precisamos fabricar mais mísseis, mas não conseguimos fabricar mais mísseis porque a China controla a cadeia de suprimentos”.
A Guerra na Ucrânia: O Colapso Final
Enquanto o Oriente Médio consome a atenção de Washington, a guerra na Ucrânia caminha para o seu desfecho. Johnson foi categórico em sua avaliação:
“Está caminhando para a derrota completa e absoluta da Ucrânia, possivelmente já até o fim deste ano.”
O analista destaca que a Rússia está agora operando em sete eixos de ataque simultâneos: Chernigov, Sumy, Kharkiv, Donetsk, Zaporizhia, Dnipropetrovsk e Odessa. Em anos anteriores, o máximo que os russos faziam eram dois eixos de ataque.
“É um nível de atividade que a Ucrânia não consegue deter. Eles estão perdendo na guerra aérea, na guerra naval e na guerra terrestre”.
A destruição do comércio marítimo através do Mar Negro, com o fechamento dos portos de Odessa e Nikolaev, está estrangulando a economia ucraniana. O bloqueio naval russo, combinado com ataques contínuos à infraestrutura crítica em Kiev e outras grandes cidades, tem um “efeito cumulativo na redução da capacidade de resposta da Ucrânia”.
A Nova Ordem no Oriente Médio: Alianças Performáticas ou Mudança Real?
Em meio a esse cenário de crise, uma nova aliança foi anunciada: Turquia, Arábia Saudita e Paquistão – o Egito ficou de fora desse novo arranjo, por quê? – assinaram um pacto de defesa em Meca. Johnson, no entanto, trata o acordo com ceticismo, chamando-o de “arte performática”:
“Os sauditas não oferecem nada do ponto de vista militar. Os sauditas são inúteis. Sim, eles têm um exército de 250 mil homens, supostamente, mas não conseguem nem derrotar os malditos Houthis. E tentaram por 10, 12 anos.”
O analista aponta uma contradição imediata: “O Paquistão e a Arábia Saudita já tinham feito esse acordo em setembro de 2025. E desde então, a Arábia Saudita foi atacada pelo Iêmen. E o que os paquistaneses estão dizendo? Não façam nada. Eles disseram, ah, não é problema nosso.”
A falta de reação após o ataque do Iêmen à Arábia Saudita, horas após a assinatura do novo pacto, sugere, para Johnson, que o acordo são “palavras sem ação”.
As Contradições de um Império em Declínio
O que emerge da análise de Larry Johnson é o retrato de um império militarmente superado, logisticamente estrangulado e politicamente isolado. Os Estados Unidos, que iniciaram a guerra contra o Irã com a promessa de uma vitória rápida – de até 4 dias como se gabou Trump – se encontram agora em uma posição em que não podem vencer. A única coisa que podem fazer é “declarar uma vitória falsa” e se retirar. Humilhados já estão.
As contradições são múltiplas e profundas:
A contradição logística: Os EUA não têm mais mísseis de longo alcance para sustentar a guerra, nem capacidade de produzi-los rapidamente, devido à dependência da China por matérias-primas críticas. Se eles se aproximam do espaço aéreo iraniano são abatidos a custos bilionários. Restam drones e “bombas burras”, que podem ser dotadas de módulos planadores, como usam os russos contra a Ucrânia. Mesmo assim, com praticamente todas as bases por todo o Oriente Médio destruídas ou fora de operação, assim como os radares, fica cada vez mais difícil a logística e a inteligência para tais ataques.
A contradição humana: As Forças Armadas americanas estão moralmente esgotadas, com soldados pedindo para serem dispensados como objetores de consciência, em números sem precedentes.
A contradição econômica: O bloqueio de Ormuz, que deveria pressionar o Irã, está infligindo danos igualmente severos à economia global e aos próprios Estados Unidos, com o esgotamento das reservas estratégicas de petróleo .
A contradição política: Trump afirma ter “controle total” do Estreito de Ormuz, mas o tráfego de navios caiu para menos de 10% do volume pré-guerra. E cada vez que um petroleiro não autorizado a passar tenta furar o bloqueio, ele é atacado pelos iranianos. E não nos esqueçamos dos Houthis e o estreito de Bab al-Mandab, também sob estrito controle dos aliados do Irã.
A contradição estratégica: Os EUA lutam para manter a sua suposta – e falsa – unipolaridade militar, mas a China, a Rússia e o Irã se coordenam cada vez mais, enquanto a Coreia do Norte testa mísseis; e a Turquia, a Arábia Saudita e o Paquistão formam novas alianças .
Johnson resume o dilema americano com a visão realista o cenário:
“Eles – EUA – estão fazendo um bloqueio, mas não tem navios suficientes para bloquear de fato todo o Oceano Índico. Podem parar um navio de vez em quando, mas mesmo que parem esse navio, vão assumir o controle dele? Se tiverem que assumir o controle, você precisa designar um navio para navegar junto com ele. Não temos uma frota ilimitada, nem de longe. Estamos extremamente limitados.”
Nota ao leitor: Este artigo buscou compilar, em uma análise única e aprofundada, os elementos factuais e contextuais que cercam a crise energética global, o esgotamento militar dos EUA, a guerra na Ucrânia e as novas alianças no Oriente Médio, a partir da entrevista de Larry Johnson e de reportagens recentes da imprensa internacional. As fontes utilizadas são públicas e estão devidamente listadas para sua verificação.
Agradecimento: O PolitikBr vem sendo acessado e lido a partir de dezenas de países – talvez o seu. Agradecemos aos leitores dos Estados Unidos, Japão, Brasil, Israel, China, Irã, Rússia, Canadá, Polônia, Reino Unido, e de tantos outros países que nos acompanham. Seguimos dedicados à verdade e à paz, em todos os idiomas.
Referências utilizadas neste artigo:
- The Maritime Executive (2026). Two More Tankers Attacked in the Strait of Hormuz. Disponível em: https://maritime-executive.com/article/two-more-tankers-attacked-in-the-strait-of-hormuz
- China.org.cn (2026). 2 UAE tankers attacked while transiting Hormuz Strait: sources. Disponível em: http://www.china.org.cn/world/Off_the_Wire/2026-08/14/content_118646933.shtml
- The Libertarian Institute (2026). The Kyle Anzalone Show guest Larry Johnson: Is WWIII INCOMING?! Disponível em: https://libertarianinstitute.org/blog/the-kyle-anzalone-show-guest-larry-johnson-is-wwiii-incoming-zelensky-attempts-to-merge-ukraine-iran-war/
- SBS Australia (2026). The US threatens ‘indefinite naval blockade’ of Iran as oil crisis resurges. Disponível em: https://www.sbs.com.au/news/article/the-us-threatens-indefinite-naval-blockade-of-iran-as-oil-crisis-resurges/9kzf1e95h
- AP News (2026). 2 UAE tankers attacked while transiting Strait of Hormuz. Disponível em: https://uat.apnews.com/article/iran-uae-us-strait-hormuz-august-14-2026-e8565c608ac5283ec8103c85df924b13
- Gulf News (2026). ‘Indefinite’ US blockade of Iran: Why equation changes. Disponível em: https://gulfnews.com/world/mena/indefinite-iran-blockade-why-it-changes-the-equation-as-hormuz-crisis-deepens-oil-supply-gap-widens-1.500640464
- DW Brasil (2026). Guerra com Irã leva militares dos EUA a pedir desligamento. Disponível em: https://www.dw.com/pt-br/guerra-com-ir%C3%A3-leva-militares-dos-eua-a-pedir-desligamento/a-78280904
- Left Voice (2026). War on Iran Is Motivating U.S. Troops to File as Conscientious Objectors. Disponível em: https://www.leftvoice.org/war-on-iran-is-motivating-u-s-troops-to-file-as-conscientious-objectors/
- YouTube (2026). Motim FATAL no USS Lincoln | Larry Johnson. Disponível em: https://youtu.be/P5PKED9S284

