A Pax Americana de Joelhos: O Acerto de Contas Irã-EUA e o Crepúsculo do Sionismo Estratégico

Internacional, Geopolítica, Economia

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Dedicado à Verdade e à Paz.

Por PolitikBr I Brasília, Em 16/06/2026, 16h:35min, leitura: 14min

Editor: Rocha, J.C.

Essa é uma análise documental. Para visualizar “o todo” recomendamos a leitura dos demais artigos, que se somam ao tema de hoje. Boa leitura.

O formuladores da geopolítica norte-americana costumavam operar sob um véu de arrogância mítica, no qual Washington ditava as regras e o restante do planeta se curvava ao inevitável. Contudo, o ano de 2026 ficará marcado na história como ano em que essa áurea ruiu.

O recente anúncio do presidente Donald Trump selando um acordo com a República Islâmica do Irã, sob a discreta mediação do Paquistão, não representa um ato de magnanimidade ou de brilhantismo diplomático de um suposto “artesão de acordos”. Ao contrário, se trata, despido de eufemismos, da maior derrota geoestratégica dos Estados Unidos em décadas.

Para compreendermos a profundidade desse abismo, a recente entrevista do professor e expoente do realismo político, John Mearsheimer, concedida ao jornalista e âncora Tucker Carlson, serve como uma autópsia impiedosa da cena.

E Mearsheimer não usou meias palavras ao analisar o momento atual das negociações entre os Estados Unidos e o Irã. Ele descreveu um quadro de desespero na Casa Branca, de isolamento de Israel, e de vitória estratégica iraniana. “Trump está desesperado para obter um acordo”, disse Mearsheimer. “Ele entende as consequências econômicas desta guerra. Se ela continuar por mais alguns meses, com o Estreito de Ormuz fechado, será um desastre.”

O problema, segundo o acadêmico da Universidade de Chicago, é que os iranianos “não vão dar a Trump nenhum espaço”. Eles estão no banco do motorista. E Netanyahu, excluído das negociações mediadas pelo Paquistão, enfrenta um dilema cruel: obedecer à Trump e aceitar o acordo (o que significaria a derrota completa de Israel) ou desobedecer e humilhar o presidente americano — com o risco de aprofundar a crise econômica global e o isolamento de Israel.

“Há 109 dias, os Estados Unidos e Israel lançaram uma guerra de agressão contra o Irã sob o falso pretexto de uma “ameaça nuclear iminente”. O objetivo declarado era “mudar o regime” em Teerã e “destruir” o seu programa nuclear. O resultado foi o oposto: o Irã continua com o seu programa nuclear à todo vapor, com especulações, cada vez mais frequentes, de que já teriam alcançado a dissuasão nuclear, isto é, já estariam de posse de alguns artefatos nucleares – A TRÍADE DA DISSUASÃO: O Irã Já Tem a Bomba? Jiang, Postol e Mearsheimer Convergem para o Mesmo Alerta; os iranianos promoveram uma mudança radical na geopolítica – e no poder de barganha – ao fechar e consolidar o seu controle sobre o Estreito de Ormuz; os EUA e Israel esgotaram os seus arsenais de mísseis de ataque e de defesa, na premissa falsa que poderiam derrotar o Irã usando o poderio dos bombardeios aéreos, sem o emprego de tropas em solo, como fazem os russos na Operação Militar Especial na Ucrânia – MEARSHEIMER: “Os EUA Depreciam a Inteligência Iraniana. A História Mostra que o Poder Aéreo Sozinho Não Derruba Regimes.” . O Irã – com apoio da inteligência de satélites e sistemas de coordenação integrada de ações defensivas, tanto dos russos quanto dos chineses, abateu mais aeronaves, destruiu mais instalações militares, e radares de alta vigilância, do que em todas as guerras recentes que os EUA promoveram; e forçou Washington a uma capitulação disfarçada de “acordo de paz”. ” [PolitikBr, 14/06/2026].

Agora, quando a assinatura do memorando em Genebra se aproxima (sexta-feira, 19), John Mearsheimer oferece a análise mais lúcida sobre o que está em jogo — e por que Netanyahu está entre a cruz e a espada.

O Desespero de Trump: Economia, Eleições e a Necessidade de um Acordo

Mearsheimer começa a sua análise descrevendo a situação desesperadora de Trump.

“Onde está a guerra do Irã? Eu acho que neste momento, o presidente Trump está desesperado para obter um acordo. Ele entende as consequências econômicas desta guerra, que vai continuar por mais alguns meses; com o Estreito de Hormuz fechado será um desastre.”

O professor enumera as pressões que Trump enfrenta:

  1. Econômicas: O fechamento do Estreito de Ormuz já causou uma crise energética global. Os preços do petróleo dispararam. A inflação corrói o poder de compra dos americanos. Os estoques estratégicos dos EUA estão no limite.
  2. Políticas: As eleições de meio de mandato se aproximam (novembro de 2026). Se a economia continuar em frangalhos, os democratas podem tomar a Câmara e o Senado — e Trump corre o risco de impeachment.
  3. Internacionais: A economia global está à beira da recessão. A Europa, a Ásia e os países do Sul Global pressionam por um fim rápido do conflito.

“Ele quer evitar isso”, diz Mearsheimer, – mas foi ele que criou isso – “e, é claro, ele quer evitar que a economia internacional caia, por razões óbvias. Então, ele está desesperado. Você pode ver isso no rosto dele. Você pode ver isso em suas ações.”

O Irã no Banco do Motorista: “Eles Não Vão Dar a Trump Nenhum Espaço”

O problema central, segundo Mearsheimer, é que os iranianos estão em uma posição de força inédita.

“Os iranianos começaram esta guerra em fevereiro de 2026 em uma posição muito mais fraca do que estão agora. Eles realmente se saíram muito bem na guerra.”

Mearsheimer lembra que o Irã não apenas resistiu aos ataques americanos e israelenses, como também demonstrou capacidade de retaliar — incluindo o ataque recente à Israel.

“Aqui você tem uma situação em que Israel não atacou o Irã, e o Irã sentiu que estava livre para atacar Israel. E o Irã deixou claro que está mais do que disposto a subir a escalada conosco e com Israel. Eles se sentem no banco do motorista.”

A consequência, segundo Mearsheimer, é inevitável:

Os iranianos não vão dar a Trump nenhum espaço. Eles não lhe darão um acordo que o permita sair disso. Ele está sob pressão da fronteira econômica para fechar um acordo. Ao mesmo tempo, os israelenses não vão cooperar com ele também.”

Essa realidade mostrada por Mearsheimer, antes de ser celebrado o acordo a ser assinado em Genebra no dia 19 é, portanto, a evidência lógica da completa derrota dos EUA, já que o acordo só seria possível, com a aceitação dos principais pontos colocados na mesa pelo Irã.

O Dilema de Netanyahu: Obedecer a Trump ou Ser Humilhado

“O que está acontecendo aqui é que Trump está sendo puxado de um lado por Bibi, e ele está sendo puxado do outro lado pelas forças inexoráveis da economia internacional enquanto ela reage às rotas fechadas. Então, o que está acontecendo é que o desesperado Donald Trump está começando a colocar pressão nos israelenses de maneiras que ele nunca fez antes.”

A prova mais clara dessa pressão foi a conversa telefônica em que Trump chamou Netanyahu de “louco” e disse que o premiê israelense “estaria na prisão se não fosse por ele”.

Mearsheimer ainda disse:

“Eu acho que basicamente você vai acabar com algo como um conflito congelado. Você tem que entender o que o presidente Trump está tentando fazer aqui. Ele está tentando alcançar um cessar-fogo. A ideia é que, se você conseguir um cessar-fogo de 30 ou 60 dias, você pode então mudar para negociações sobre coisas como a questão nuclear, reparações, o futuro do pacote geral de sanções, e assim por diante.”

E vendo o que foi negociado até aqui, Mearsheimer acertou. Mas essas conclusões são as que PolitikBr já havia publicado, como as que haviam chegado outros analistas independentes, como Pepe Escobar.

O problema, segundo Mearsheimer, é que o país que pode violar esse cessar-fogo é Israel.

“Se Israel violar o cessar-fogo e os iranianos reagirem fechando os estreitos novamente… Oh meu Deus, estamos de volta à ameaça econômica que está ressurgindo. Então, eu não acho que Trump permitirá que os israelenses atrapalhem o cessar-fogo. Eles podem tentar de qualquer forma, mas eu não acho que sim.”

Nesse ponto, reproduzimos um trecho do artigo – Netanyahu: Between Humiliating Trump or Admitting Complete Defeat– em que os radicais extremistas do governo de Netanyahu se posicionam sobre o memorando acordado entre os EUA e o Irã:

“…O ministro da Defesa israelense, Israel Katz, declarou que as forças israelenses permanecerão no Líbano, na Síria e em Gaza “indefinidamente”. O ministro da Segurança Nacional, Itamar Ben-Gvir, foi ainda mais longe: “Não somos partes deste acordo. Não aceitaremos nada menos do que o desmantelamento do Hezbollah.”

A questão é se Trump conseguirá conter Netanyahu.

O Acordo em 4 Pontos: O Que Está em Jogo Agora

Mearsheimer resume os elementos centrais do cessar-fogo, que acabou sendo negociado por Trump:

  1. Cessar-fogo completo em todas as frentes, incluindo o Líbano.
  2. Abertura do Estreito de Ormuz e fim do bloqueio americano e iraniano.
  3. Devolução de US$ 24 bilhões em ativos congelados iranianos (dinheiro do Irã).
  4. Suspensão das sanções sobre a venda de petróleo iraniano no mercado global.

“Você percebe”, observa Mearsheimer, “que nesses quatro elementos você não vê evidência do problema nuclear, ou da questão de sanções ou reparações em geral, ou do controle do estreito. Todos esses problemas serão resolvidos na segunda rodada.”

É nesse ponto que Mearsheimer expressa ceticismo.

“Eu acho difícil acreditar que você vai conseguir um acordo significativo” na segunda rodada. “Trump gosta de dizer — lembre-se, isso é Trump falando — que demorou muitos anos para negociar o acordo nuclear original (JCPOA). E ele está certo. Leva muitos anos para negociar um acordo nuclear.”

A ironia, que Mearsheimer não precisa explicar, é que Trump retirou os EUA do JCPOA em 2018 — o acordo que, nas palavras do professor, teria sido muito melhor para Israel do que a situação atual.

O Pesadelo Israelense: O Irã Mais Forte, Israel Mais Isolado

Mearsheimer não tem ilusões sobre o futuro de Israel.

“Se você quiser pensar sobre o que esta guerra significa para os israelenses, eles estavam muito melhores com o acordo nuclear original (JCPOA). Eles estavam muito melhores com o acordo que eles teriam tido no dia 27 de fevereiro. Agora eles estão em uma situação em que eu não acho que eles vão conseguir um acordo nuclear.”

A razão é simples: o Irã tem urânio enriquecido a 60% — material que pode ser transformado em grau militar em semanas – ou já foi processado e 90%, grau nuclear (450 kg ou mais). Os israelenses (e os americanos) demonstraram que não têm capacidade para destruir esse programa.

“Os israelenses só demonstraram que eles não têm a capacidade, e nós só demonstramos que nós não temos a capacidade de entrar lá e pegar esse material de grau militar, e fechar a capacidade de enriquecimento nuclear para sempre.”

O resultado, segundo Mearsheimer, é que o Irã sairá da guerra mais forte do que entrou.

“É possível que os iranianos possam pegar uma bomba há especulação que o Irã já teria de 3 a 5 ogivas nucleares, e até estaria pronto para realizar um “teste nuclear” em seu próprio território, provavelmente, uma detonação subterrânea, como fez a Coreia do Norte, faz alguns anos – . Bem, certamente vão ter uma economia mais robusta, e certamente cimentaram o seu lugar como um poder regional legítimo, o qual eles não eram antes.”

Mearsheimer também observa que a guerra mudou a relação dos EUA com os países do Golfo.

“Eu também acho que isso muda a relação com o Conselho de Cooperação do Golfo (GCC). Alguns dos estados do Golfo, pelo menos, estavam um pouco chocados pela desobediência ou inabilidade dos Estados Unidos de protegê-los dos ataques iranianos. Na verdade, eles se comportaram como um ímã para os ataques iranianos. Você pode imaginar um mundo em que alguns desses países se aproximam do Irã em 10 anos do que eles eram antes.”

A construção de um arranjo de segurança regional do Oriente Médio – Turquia, Arábia Saudita, Egito e Paquistão – parece se desenhar. Algo inédito e de profundo impacto geopolítico, se realmente florescer.

“Nesse novo contexto a Ahram Online noticiou que os 4 países citados vêm testando um alinhamento discreto, impulsionado pelas consequências da guerra dos EUA/Israel contra o Irã, através de negociações de alto nível sobre segurança, estabilidade, soberania e não-interferência.

A mesma reportagem afirma que o formato ainda não é uma aliança tradicional, mas que os participantes reconhecem a necessidade de um mecanismo, em evolução, sem um caráter institucional rígido e sem provocar diretamente os americanos.” [PolitikBr, 24/05/2026]

A Comparação entre EUA, Israel e Irã: Quem Parece o Estado Pária?

Mearsheimer faz uma observação final que é, ao mesmo tempo, uma constatação e uma provocação.

“A verdade é que se você olhar para o Irã hoje e olhar para os Estados Unidos e Israel hoje, qual desses três países parece ser o participante mais responsável no sistema internacional?”

A resposta implícita é: o Irã.

“São os americanos e os israelenses que basicamente parecem ser Estados párias. Apenas correndo pelo mundo, invadindo países, causando genocídio e assim por diante. O dano que foi feito à reputação de Israel está fora dos gráficos. É muito difícil para mim acreditar o quanto de dano que Israel fez a si mesma, com ajuda do lobby. Mas também os Estados Unidos — o dano que nós fizemos a nós mesmos.”

O Mundo Observa

A análise de Mearsheimer é um lembrete de que, no final das contas, a guerra não se vence apenas com mísseis. Se vence com paciência estratégica, com capacidade de suportar a dor, e com a habilidade de forçar o adversário a recuar.

O Irã demonstrou tudo isso. Os EUA, não. E Israel, que apostou todas as suas fichas na vitória americana, agora enfrenta o pior dos mundos: um Irã nuclear à sua porta, um aliado americano enfraquecido e desacreditado, e uma opinião pública global que o vê como um Estado pária.

A assinatura do acordo em Genebra, na sexta-feira (19), se acontecer, colocamos na condicional face à volatilidade do momento, será um momento histórico. Não porque a paz esteja garantida — ela nunca está —, mas porque formalizará o óbvio: os Estados Unidos perderam a guerra contra o Irã. E Israel agora enfrenta a escolha mais difícil de sua história recente.

Como disse Mearsheimer: “Os iranianos não vão dar a Trump nenhum espaço.” E Netanyahu, que tentou sabotar todas as tentativas de acordo até aqui, terá que decidir entre humilhar Trump ou admitir a derrota completa.

O mundo aguarda. Genebra é na sexta-feira.

Nota ao leitor: Este artigo buscou compilar, numa análise única e aprofundada, os elementos factuais e contextuais que cercam o histórico acordo de paz angariado entre os Estados Unidos e o Irã em junho de 2026, com a consequente exclusão de Israel do processo decisório. As fontes utilizadas são públicas e estão devidamente listadas para sua verificação.

Agradecimento:

Em apenas 15 dias de junho de 2026, o PolitikBr foi acessado a partir de dezenas de países – talvez o seu. Agradecemos aos leitores dos Estados Unidos, Japão, Brasil, Israel, China, Irã, Rússia, Canadá, Polônia, Reino Unido, e de tantos outros países que nos acompanham. Seguimos dedicados à verdade e à paz, em todos os idiomas.

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