Scott Ritter: Por Que a Palavra Americana Vale Nada?

Internacional, Geopolítica, Economia

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Por PolitikBr I Brasília, Em 20/05/2026, 18h:49min, leitura: 12min

Editor: Rocha, J.C.

Não é de hoje. Mas é só agora, em meados de 2026, que o mundo parece ter acordado para um fato incômodo, desses que os manuais de relações internacionais preferem ignorar. O fato é este: os Estados Unidos são uma nação incapaz de cumprir acordos. Não por falta de capacidade técnica. Não por ausência de vontade momentânea de um presidente ou de outro. Mas fruto de uma incapacidade sistêmica, estrutural; quase genética.

O país pode assinar tratados, pode fazer promessas solenes, pode se comprometer publicamente com este ou aquele caminho. Mas, na prática, não há garantia — nenhuma — de que o compromisso será honrado.

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Scott Ritter, em entrevista concedida em 13 de maio, e publicada no dia seguinte no podcast Dialogue Works – Scott Ritter: O Irã Não Quebrou. Se Adaptou — e Agora Está Mais Forte do que Nunca, nos traz uma visão crua, mas realista, que deveria assombrar cada chancelaria do planeta.

Ritter compara os Estados Unidos ao clima. Ele disse: “Você não pode ignorar o clima. Ele está aí. Quando chove, você põe uma capa. Quando faz calor, se veste leve. Quando vem uma tempestade, você se abriga. Mas não se faz um acordo com o clima. O clima não segue acordos. O clima quebra qualquer compromisso, porque simplesmente não tem a capacidade de mantê-lo.”

Eis os Estados Unidos, segundo Ritter: uma potência climática — imprevisível, errática, por vezes devastadora, por vezes indiferente, mas sempre, sempre incontrolável.

O Caso JCPOA: Como um Tuíte Demoliu Anos de Diplomacia

Para entender a profundidade do abismo é preciso voltar a 2015. Naquele ano, após anos de negociações exaustivas, o Irã e o chamado grupo P5+1 (Estados Unidos, Reino Unido, França, Rússia, China mais Alemanha) chegaram ao Plano de Ação Conjunto Global — o JCPOA, conhecido popularmente como o Acordo Nuclear com o Irã.

O acordo, negociado pela administração de Barack Obama, e aprovado pelo Conselho de Segurança da ONU, impunha restrições severas ao programa nuclear iraniano, em troca do alívio de sanções econômicas.. Era, nas palavras de muitos, um triunfo da diplomacia multilateral.

O Irã cumpriu a sua parte do Acordo. As agências de inteligência ocidentais confirmaram, repetidas vezes, que o país se mantinha dentro dos limites estabelecidos. Os inspetores da AIEA (Agência Internacional de Energia Atômica) tinham acesso irrestrito às instalações críticas de enriquecimento de U235, e contabilizavam todo o urânio enriquecido.

O programa nuclear iraniano estava, de fato, sob o controle mais rigoroso de sua história.

E então veio 2018. Donald Trump, recém-empossado, retirou os Estados Unidos do acordo — com um tuíte. Não houve consulta ao Congresso. Não houve violação iraniana que justificasse a medida. Houve apenas uma decisão unilateral, caótica, movida à ego e à promessas de campanha – Na verdade, Trump atendeu, já naquela época, os desejos de Netanyahu e do poderoso lobby sionista nos EUA, que teriam ficado insatisfeitos com a celebração do JCPOA. Até porque, é de conhecimento geral que o objetivo dos sionistas é destruir o Irã; uma pedra no sapato do sionismo em estabelecer a “Grande Israel”.

Dessa forma, o acordo que Barack Obama assinou, que a comunidade internacional endossou, que o Irã respeitou — foi rasgado por um homem, em 280 caracteres.

O que o mundo aprendeu naquele dia? Aprendeu que a palavra dos Estados Unidos, em questões de Estado, não vale mais que uma postagem em rede social. Aprendeu que um acordo com Washington pode ser desfeito pela simples mudança de humor de um presidente. Aprendeu, sobretudo, que os Estados Unidos não são uma parte confiável em nenhuma negociação de longo prazo.

Ritter, com a sua experiência como ex-inspetor de armas da ONU, é realista: “O máximo que o Irã vai conseguir é um acordo. E esse acordo e 75 centavos — aliás, nem 75 centavos mais, 7 dólares e 50 — te compram uma xícara de café.” A palavra da América, sentencia, vale nada.

O Congresso Que Nunca Ratifica: Disfunção Institucional como Política de Estado

Mas seria injusto — e impreciso — atribuir toda a culpa a Trump. O problema é mais antigo e mais profundo. O JCPOA, por exemplo, nunca foi ratificado pelo Congresso americano. Foi um “acordo executivo”, uma categoria jurídica menor, que não exige aprovação legislativa. Obama sabia que o Congresso, de maioria republicana à época, jamais aprovaria o tratado. Então contornou o problema. E Trump, depois, se aproveitou dessa fragilidade institucional para desfazer tudo.

Esse padrão se repete. Os Estados Unidos não ratificam tratados internacionais com a consistência de outras democracias. A Convenção sobre os Direitos da Criança? Não ratificada. A Convenção sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação contra a Mulher? Não ratificada. O Tratado de Ottawa sobre minas terrestres? Não ratificado. O Estatuto de Roma do Tribunal Penal Internacional? Assinado por Clinton em 2000, mas nunca ratificado — e posteriormente “desassinado” por George W. Bush.

Há uma cultura política, em Washington, de aversão à compromissos vinculantes de longo prazo. Cada tratado é visto como uma ameaça potencial à soberania, um ato de “cessão de poder” à instâncias multilaterais. O resultado é que os Estados Unidos se apresentam ao mundo como um parceiro que exige compromissos dos outros, mas se reserva o direito de abandoná-los quando for conveniente. Quem não vê isso? Basta voltar na história.

E o mundo, agora, percebeu…E “percebeu agora” porque os EUA não são mais a superpotência hegemônica. Na verdade, os EUA é uma potência em rápido declínio; mas incapaz de conviver com essa realidade: a multipolaridade e os novos centros de poder.

“Nação Indispensável”: A Fé Cega do Estado Profundo

Por trás dessa incapacidade de cumprir acordos, há uma convicção arraigada na elite política americana. A da crença na “nação indispensável” — na ideia de que os Estados Unidos são, por destino e por direito, o líder natural do mundo. Que a ordem internacional deve ser moldada segundo os seus interesses. Que as regras, no fundo, são para os outros.

Ritter é ferino: “O chamado Estado Profundo preencheu os centros de tomada de decisão na América com pessoas que acreditam na nobreza da hegemonia americana, na inevitabilidade da dominação americana. Nós somos a nação indispensável, e ainda tem gente que acredita nessa bobagem.”

Essa fé é confortável. Permite que os formuladores de política externa ignorem os sinais de erosão — o declínio militar, o esgotamento econômico, o isolamento diplomático. Permite que tratem qualquer crítica como ingratidão ou traição. Mas o problema é que o resto do mundo já não compra mais essa narrativa.

O primeiro-ministro canadense Mark Carney, em discurso no Fórum Econômico Mundial de Davos, admitiu o que muitos pensam em voz baixa. Disse que o mundo sempre soube que a “ordem internacional baseada em regras” era, em grande medida, uma fachada. Os europeus sabem. Os asiáticos sabem. Os sul-americanos sabem. Os africanos sabem. Todos sabem que as regras foram escritas pelos vencedores da Guerra Fria e são aplicadas seletivamente — com rigor para os adversários, com flexibilidade para os aliados, e com impunidade para os próprios Estados Unidos.

Israel: O peso. Não o Ativo

Nenhum caso ilustra melhor a perda de credibilidade americana do que a situação de Israel. Durante décadas, a relação entre Washington e Tel Aviv foi apresentada como “inquebrável”. Um pilar da política externa americana. Um compromisso moral e estratégico que transcendia governos.

Pois bem. Ritter revela números – os números são públicos – que deveriam provocar alarmes: 60% da população americana, segundo pesquisas recentes, não está inclinada a apoiar Israel de forma favorável. Netanyahu, o primeiro ministro que durante anos foi recebido de braços abertos no Capitólio, tem índice de aprovação nos Estados Unidos abaixo de 59% — e caindo.

O que mudou? Em parte, o genocídio em Gaza, a devastação da Cisjordânia, a invasão do sul do Líbano — todas as operações militares que, sob a batuta de Netanyahu, transformaram Israel de vítima, em algo que muitos americanos já não conseguem defender. Mas há também um fator mais profundo: Israel, como ator geopolítico, se tornou um peso, não um ativo. O país não consegue mais oferecer aos Estados Unidos vantagens estratégicas, que compensem o custo político e diplomático.

E Netanyahu, preso a uma visão de mundo anacrônica, insiste em arrastar Washington para aventuras militares, que os americanos já não podem bancar. O resultado é que o apoio à Israel está despencando. E, como Ritter observa, “no momento em que você mexe com a economia americana e fica do lado errado dessa equação, você é o problema, não a solução”.

Um Mundo Que Aprende a Viver sem Garantias

O que acontece quando não se pode confiar na, outrora, principal potência global? Acontece o que estamos vendo: o mundo se reorganiza ao redor de outras referências.

Os países do Golfo, que durante décadas terceirizaram a sua segurança para os Estados Unidos, começam a olhar para o Irã — não como amigo, mas como vizinho com quem é preciso conviver.

O Conselho de Cooperação do Golfo, construído em torno da oposição a Teerã, está morrendo. Não será substituído por outra aliança liderada por Washington. Será substituído por um entendimento pragmático de que a era do xerife americano acabou.

O BRICS avança na criação de mecanismos financeiros alternativos ao dólar. Não porque os membros do grupo odeiem a moeda americana, mas porque não confiam mais em quem a emite. Em quem a usa para bancar, de forma perdulária, a sua ineficiência estrutural produtiva e a opulência de sua sociedade de consumo. A usa como moeda de coação e coerção, de forma cínica, descarada. Cada nova sanção, cada ameaça de congelamento de ativos, cada nacionalização arbitrária de reservas estrangeiras, funciona como um empurrão a mais em direção à desdolarização.

A Europa, ainda cambaleante, começa a ensaiar uma política externa mais autônoma. Os discursos sobre “autonomia estratégica”, antes vagos e retóricos, ganham substância. Os líderes europeus sabem que não podem mais contar com o guarda-chuva americano. E sabem, também, que a Rússia não desapareceu.

A China, com a sua paciência estratégica, observa e aproveita. Não precisa declarar vitória. Basta continuar construindo — rotas da seda, parcerias de investimento, acordos bilaterais em moedas locais.

Enquanto os Estados Unidos queimam capital político e militar em frentes impossíveis, a China consolida a sua posição como a potência econômica mais estável e amigável do mundo.

O Dilema Iraniano: Como Negociar com Quem Não Cumpre Acordos

No centro desse turbilhão está o Irã. Os iranianos aprenderam, da pior maneira possível, que a palavra americana não tem valor. Foram enganados no JCPOA. Viram o acordo rasgado por um presidente, que nem sequer se deu ao trabalho de fingir que havia uma justificativa. Viram assassinatos seletivos de seus generais — Qasem Soleimani, em janeiro de 2020 — sendo tratados como mera rotina operacional. Viram sanções retornarem sem que houvesse qualquer violação de sua parte. Foram traiçoeiramente atacados duas vezes pelos EUA e Israel enquanto negociavam. A primeira em junho de 2025. Agora, em 28 de fevereiro de 2026.

E, no entanto, o Irã ainda precisa negociar com os Estados Unidos. Porque o mundo é assim — assimétrico, injusto, e porque o país que inflige as sanções é também o único que pode suspendê-las. O dilema iraniano é cruel: como fazer um acordo com quem já provou, repetidas vezes, que não honra acordos?

A resposta iraniana, segundo Ritter, tem sido exigir um compromisso que vá além do presidente. O Irã quer um entendimento entre Estados, não entre presidentes. Quer que o acordo seja ratificado, institucionalizado, blindado contra as tempestades narcisistas que passam pela Casa Branca, a cada quatro ou oito anos.

O problema é que essa blindagem não existe. Os Estados Unidos, como Ritter argumenta, são estruturalmente incapazes de oferecê-la. O sistema político americano não permite que um governo vincule o seguinte. O Congresso não ratifica tratados de forma confiável. A cultura política é avessa à compromissos de longo prazo.

Assim, o Irã se vê diante de uma escolha impossível: aceitar um acordo frágil, que pode ser desfeito a qualquer momento, ou permanecer sob sanções, isolado, mas com a dignidade de não ter sido enganado mais uma vez.

A Hora de Parar de Acreditar em Promessas

A entrevista de Scott Ritter não é um libelo contra os Estados Unidos. Tampouco um manifesto de celebração ao Irã, à China ou à Rússia. É, antes de tudo, um alerta realista.

O mundo mudou. E a mudança mais significativa talvez não seja militar ou econômica. Seja psicológica.

O mundo perdeu a confiança nos Estados Unidos. Não porque o país se tornou mais malvado ou mais incompetente — embora ambos os fatores possam ter contribuído. O mundo perdeu a confiança porque os Estados Unidos se mostraram, repetidas vezes, incapazes de fazer o mínimo que se espera: honrar a sua palavra.

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