Do PL 1424/2026 no Brasil à proibição de entrada de israelenses na Malásia, passando pela perseguição a Breno Altman e o assassinato de Charlie Kirk: a tentativa desesperada de silenciar as críticas enquanto o mundo se afasta do apoio a Israel.
Internacional, Geopolítica, Economia, Política
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Por PolitikBr I Brasília, Em 04/05/2026, 20h:34min, leitura: 11min
Editor: Rocha, J.C.
O momento de virada da opinião pública
A definição oficial de antissemitismo definida pela Aliança Internacional para a Memória do Holocausto (IHRA) é:
“O antissemitismo é uma determinada percepção dos judeus, que pode se expressar como ódio contra eles. As manifestações retóricas e físicas do antissemitismo são dirigidas a indivíduos judeus ou não judeus e/ou suas propriedades, a instituições da comunidade judaica e a locais religiosos.”

E quais são os povos semitas?
“Os povos semitas são definidos por falarem línguas da família semítica (parte do afro-asiático). Entre os principais, histórica e atualmente, destacam-se:
- Acadianos (incluindo assírios e babilônios, sendo os caldeus uma dinastia tardia babilônica de origem semita).
- Amoritas, arameus, cananeus (estes incluindo fenícios, hebreus/israelitas, moabitas, edomitas, e os atuais judeus e samaritanos).
- Árabes (setentrionais e meridionais, como os sabeus).
- Povos modernos (judeus, árabes, assírios, mandeús, samaritanos, etc.).
- Palestinos (Descendentes de cananeus, arameus e árabes)
- Hicsos: grupo misto, mas com liderança de origem cananeia (semita ocidental).”
O problema é de pura manipulação de conceitos e negação da informação, para se moldar a percepção da sociedade sobre o que é ou não é uma atitude antissemita, e a quem essa atitude atinge.
Note do agrupamento de povos semitas, lado a lado estão os judeus, os palestinos e outros povos. Então por que o conceito de antissemitismo só se aplica aos judeus?
O arcabouço atual sobre antissemitismo, em grande parte do Ocidente, NÃO protege os palestinos, apesar de sua origem semita.
Então, embora originalmente, “semita” se refira a um grupo linguístico (judeus, árabes, arameus, etc.), o termo “antissemitismo” foi cunhado no século XIX para designar especificamente o preconceito contra judeus.
A definição mais influente hoje é a da IHRA. Isso, provavelmente, se deve aos esforços dos lobbies sionistas, ao longo do tempo. Portanto, o combate ao antissemitismo é usado politicamente, o que acaba por excluir os palestinos da proteção e, até, criminalizar a defesa de seus direitos.
O problema real deveria ser não só proteger os judeus do ódio, mas sim coibir que essa proteção seja expandida para sufocar a defesa dos direitos palestinos.
Um estudante que diz “Israel comete apartheid” ou que defende o boicote à Israel, pode ser acusado de antissemitismo sob a lei americana, por exemplo. Entretanto, a lei não protege um palestino que sofre racismo; ao contrário, ela é usada para punir palestinos e ativistas pró-palestinos por expressarem as suas opiniões políticas e denunciarem violações de direitos humanos. Isso é um brutal e vergonhoso paradoxo.

No mundo da comunicação instantânea, em que as mídias tradicionais corporativas perdem cada vez mais espaço em moldar a opinião pública; onde o assassinato de um inocente está sempre sendo filmado, e em poucos minutos disponíveis nas redes sociais, ou mesmo em transmissões on line, mudou radicalmente a opinião pública mundial, em especial, após o genocídio cometido por Israel em Gaza. Mais de 60 mil palestinos mortos em pouco mais de dois anos, hospitais bombardeados, escolas destruídas, crianças enterradas sob os escombros — tudo transmitido ao vivo para o mundo.
Israel perdeu a guerra da narrativa. Pesquisas recentes mostram rejeição recorde em vários países. Thomas Friedman, editorialista do New York Times, resume:
“Caro Israel: quando democratas centristas e há muito tempo pró-Israel nos Estados Unidos declaram que se opõem à ajuda militar subsidiada dos EUA a Israel e questionam seu status ‘especial’, vocês estão realmente ficando sem amigos. Não é apenas na esquerda. Cada vez mais americanos de todo o espectro político veem o Israel de Netanyahu como uma criança mimada, e estão simplesmente fartos disso.”
Em resposta, o lobby pró-Israel não parece estar reconsiderando as suas políticas. Não está se perguntando por que o mundo está se afastando. Em vez disso, está tentando criminalizar a dissidência. Sufocar por artifícios legais a liberdade de crítica e de expressão.
Nos Estados Unidos: O HR 6186 e a criminalização das críticas
O deputado Randy Fine (Flórida) apresentou o HR 6186: “No Antisemitism in Education Act”. O projeto força escolas federais a adotar a definição da IHRA (International Holocaust Remembrance Alliance), que equipara certas críticas à Israel ao antissemitismo. O projeto já passou pela aprovação dos seus pares no Congresso Americano. Faltando ainda o Senado.

Entre as frases que poderão ser criminalizadas estão:
- “Israel viola o direito internacional”
- “As políticas de Israel se assemelham ao apartheid”
- “Nossas universidades deveriam desinvestir de empresas ligadas ao exército israelense”

Charlie Kirk, – Larry C. Johnson: O assassinato de Charlie Kirk, o sionismo e as versões que desmoronam – fundador da Turning Point USA, e um dos mais influentes ativistas conservadores americanos, foi um opositor ferrenho de um projeto similar (HR 6090, 2024), chamando-o de “inconstitucional”. Kirk foi assassinado em 10 de setembro de 2025, durante um evento na Utah Valley University. O ex-diretor do NCTC, Joe Kent, alega ter sido impedido de investigar.
No Brasil: O PL 1424/2026
A deputada Tabata Amaral (PSB-SP) apresentou o Projeto de Lei 1424/2026, com 44 coautores iniciais, que equipara o antissemitismo ao crime de racismo, com pena de reclusão de 2 a 5 anos e multa, não podendo ter prescrição ou fiança. O texto define como antissemitismo manifestações que “podem ter como alvo o Estado de Israel, encarado como uma coletividade judaica”. A proposta considera como expressão do antissemitismo “efetuar comparações entre as políticas israelenses e a dos nazistas”.

Críticos apontam os riscos. Bruno Huberman, professor da PUC-SP, avaliou:
“A gente está vivendo uma caça às bruxas já no Brasil, mesmo sem o PL da Tabata Amaral. Se esse PL passar, a gente pode ter um fechamento de regime, de alguma forma; uma censura prática como se tinha na ditadura, só que em período supostamente democrático.”
Michel Gherman, professor da UFRJ, alertou:
“Você pode não gostar do discurso do Zé Maria, você pode dizer que ele defende terroristas, você pode produzir uma crítica pungente, agora você não pode utilizar o judiciário para criminalizar um discurso público. Porque amanhã esse discurso pode ser de outra ordem.”
Após a repercussão negativa, vários parlamentares retiraram as suas assinaturas: Heloísa Helena (REDE/RJ), Prof. Reginaldo Veras (PV/DF), Welter (PT/PR), Vander Loubet (PT/MS), Alexandre Lindenmeyer (PT/RS), Luiz Couto (PT/PB), Ana Paula Lima (PT/SC), Reginaldo Lopes (PT/MG), Pompeo de Mattos (PDT/RS).

O Caso Breno Altman: Perseguição em Curso no Brasil
O jornalista Breno Altman, que é judeu, se tornou alvo, desde 2023, de perseguição da Confederação Israelita do Brasil (Conib), após fazer denúncias contra o lobby sionista. O Ministério Público Federal (MPF) aceitou a queixa-crime da organização, onde a Conib alegava crime de antissemitismo.
Diferentemente do que a Polícia Federal (PF) concluiu, ao considerar que não houve crime, o procurador Maurício Fabretti deu andamento à denúncia, chegando a listar 12 publicações feitas nas redes sociais pelo comunicador, no período de 7 de outubro de 2023 a fevereiro de 2026.
Altman é um dos judeus que mais fazem críticas à ação sionista na Faixa de Gaza. Em uma das publicações, ele escreveu:
“Não há um ‘conflito’ entre Israel e palestinos. O que existe é uma longa agressão colonial, diante da qual todas as formas de resistência são moralmente legítimas. Os ataques do Hamas têm natureza anticolonial. A reação sionista é o prolongamento de um crime.”
Em resposta à ação contra Altman, foi criado um abaixo-assinado de apoio ao jornalista, com adesão de figuras públicas como Chico Buarque, Jamil Chade, Eduardo Moreira, Eric Nepomuceno, Juca Kfouri, Leandro Demori, Lilia Schwarcz, entre outros.
O Partido dos Trabalhadores (PT) também se manifestou:
“A investigação do jornalista Breno Altman pelo Ministério Público Federal e pela Polícia Federal configura um caso de injusta e inaceitável perseguição de caráter político. A ação contra o jornalista tem como única motivação o seu firme e correto posicionamento contra o massacre do povo palestino.”
Altman, ao ser informado da denúncia, publicou: “Mais uma prova dos vínculos entre sionismo e fascismo, para calar vozes que se levantam contra o genocídio palestino.”
A Condenação de José Maria de Almeida
O presidente do Partido Socialista dos Trabalhadores Unificado (PSTU), José Maria de Almeida, foi condenado a dois anos de prisão pelo crime de racismo por um discurso contra o Estado de Israel. No discurso que levou à condenação, Zé Maria disse que “não se pode aceitar que qualquer ato de resistência do povo palestino […] fosse classificado como terrorista”. Ele afirmou: “Terrorista é o sionismo colonialista de Israel. Terrorismo são os massacres do imperialismo norte-americano.”

O PSTU anunciou que vai recorrer da decisão.
O Isolamento de Israel na Opinião Pública Global
A tentativa de criminalizar críticas ocorre em um momento em que Israel está mais isolado do que nunca.
Na Malásia: O país está entre as 13 nações que proíbem formalmente a entrada de cidadãos israelenses. A Malásia não mantém relações diplomáticas com Israel. Desde outubro de 2023, a aplicação dessa lei se intensificou. O embaixador de Israel em Singapura, Eliyahu Vered Hazan, emitiu alertas oficiais, afirmando que israelenses estão sendo detidos apenas por sua nacionalidade.
Em um dos incidentes, quatro jovens israelenses foram detidos enquanto aguardavam um voo de conexão. Em outro caso, dois homens passaram dois dias detidos antes de serem deportados. O embaixador Hazan foi direto: “Todos os detidos não haviam violado nenhuma lei ou cometido qualquer infração. A única razão para a detenção deles era que eram israelenses.”
Na África do Sul: O governo sul-africano está investigando um esquema israelense de “realocação voluntária” — leia-se: limpeza étnica.
No Brasil: Tensões em Itacaré e Morro de São Paulo. Três soldados israelenses foram presos por desacato e resistência durante manifestação pró-Palestina. Houve relatos de agressão a uma vendedora ambulante, danos a uma lavanderia e queixas sobre o comportamento de turistas em praias da região.
Nos EUA: Democratas centristas e há muito tempo pró-Israel “se opõem à ajuda militar subsidiada dos EUA a Israel e questionam o seu status ‘especial'”.
Jornalistas de renome como Tucker Carlson, Jesse Dollemore e Lawrence O`Donnell tem sido especialmente críticos quanto ao financiamento perpétuo do Estado Judeu pelos EUA.
O Fracasso da Criminalização da Dissidência
A tentativa de silenciar as críticas não é um movimento de força. É um movimento de desespero.
Em vez de enfrentar as críticas com transparência — em vez de reconhecer os erros, em vez de mudar de curso — o lobby pró-Israel está tentando fechar a boca de quem ousa falar.
O Centro Brasileiro de Solidariedade aos Povos e Luta pela Paz (Cebrapaz), em nota oficial, condenou o projeto de lei da deputada Tabata Amaral (Brasil):
“A proposta incorre em um grave erro conceitual e político ao confundir deliberadamente antissemitismo — uma forma de racismo que deve ser combatida com firmeza em todas as suas manifestações — com o antissionismo, que diz respeito à crítica a uma ideologia política e a um projeto estatal responsável por conduzir um genocídio contra a população da Palestina.”
A ironia é cruel: nos Estados Unidos, críticas à China, à Rússia, ao Irã são permitidas. Críticas à Israel podem se tornar crime. No Brasil, críticas ao genocídio em Gaza podem levar à prisão.
E o tiro pode sair pela culatra. A tentativa de silenciar a dissidência só aumenta a percepção de que Israel tem algo a esconder. A criminalização das críticas não silencia os opositores — os radicaliza. Desperta a atenção de outros e de outros e de outros.
A mudança da opinião pública parecer ser irreversível. O genocídio em Gaza, a campanha de arrasa terra no sul do Líbano; o que era escondido, camuflado, agora é transmitido ao vivo para o mundo. As imagens de crianças mortas, hospitais bombardeados, escolas destruídas — tudo isso está gravado na memória coletiva da humanidade. E Israel e os EUA cada vez mais são vistos como párias do mundo.
Esse artigo foi baseado em:
- Agência Câmara: Projeto equipara antissemitismo a crime de racismo
- Câmara dos Deputados: PL 1424/2026 – Tramitação
- O Cafezinho: Criminalização de críticas ao governo de Israel preocupa especialistas
- Revista Fórum: Breno Altman vira alvo de perseguição de sionistas e MPF
- PT.org.br: PT condena inaceitável perseguição ao jornalista Breno Altman
- Cebrapaz: Cebrapaz denuncia projeto de lei que pretende criminalizar críticas a Israel
- O Globo: Tumulto entre turistas israelenses e manifestantes pró-Palestina termina em três prisões em Itacaré
- Agência Brasil: Polícia libera turistas israelenses envolvidos em tumulto na Bahia
- The Times of Israel: Malaysia detains Israeli travelers, who are later deported (12/03/2026)
- Aliança Internacional de Memória do Holocausto