Principais entregas deste artigo:
- O relato em primeira mão de Chrystia Freeland sobre as negociações com Trump e a conclusão de que “a única coisa que funciona com este presidente é a força”.
- A estratégia canadense em três frentes: buscar áreas de acordo, a “estratégia do donut” e a recusa em capitular.
- A retaliação de Ottawa em 2018, atingindo estrategicamente os estados politicamente importantes para Trump.
- A nova escalada de 2026: proibição de quase US$ 1 bilhão em produtos canadenses e a resposta de Mark Carney.
- O contraste entre a resistência canadense e a capitulação do Panamá diante das pressões de Trump.
- O que o Brasil pode aprender com a experiência canadense.
Internacional, Economia, Geopolítica
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Por PolitikBr I Brasília, Em 01/10/2026, 19h:57min, leitura: 11min
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Editor: Rocha, J.C.

Essa é uma análise documental. Para visualizar “o todo” recomendamos a leitura dos demais artigos e publicações relacionadas, que se somam ao tema de hoje. Boa leitura.
O que Trump quer e por que o Canadá não cede
Donald Trump não esconde o que pensa do Canadá. Já chamou o país de “51º estado” dos Estados Unidos, se referiu ao primeiro-ministro como “governador” e sugeriu que Ottawa deveria simplesmente aceitar a anexação econômica. A frase dita no Salão Oval em setembro de 2026 resume a lógica: “Nós vamos ganhar tudo. Eles vão vir e dizer: ‘Senhor, sentimos muito’” , declarou o obtuso e prepotente Trump.
Mas há um problema nesse roteiro. O Canadá não está seguindo o script.
Enquanto Trump proibia, não taxava, a entrada de quase US$ 1 bilhão em produtos canadenses — bebidas alcoólicas, laticínios, motocicletas — e estimava que Ottawa voltaria “com o rabinho entre as pernas” em três ou quatro semanas, o Canadá respondia com tarifas de retaliação dólar por dólar. E uma ex-ministra, que já sentou do outro lado da mesa, resolveu contar como isso funciona.
A lição de Freeland: “A única coisa que funciona é força”
Chrystia Freeland foi ministra do Comércio Internacional, e depois das Relações Exteriores do Canadá, durante o primeiro mandato de Trump. Ela liderou a equipe canadense nas negociações que substituíram o NAFTA e publicou um artigo no The Atlantic com um título direto: “A Arte de Lidar com Trump”.
A conclusão dela é simples: “A única coisa que funciona com este presidente é a força.”
Há de se ter estratégia até para lidar com um cachorro louco.
Freeland descreve um ambiente de negociação que qualquer diplomata tradicional consideraria hostil. Insultos públicos e privados.
Trump e os seus aliados chamavam Trudeau de fraco e ela de “mulher detestável”. Gary Cohn, então principal assessor econômico de Trump, avisou aos canadenses: “Vocês definitivamente vão levar merda. A única questão é se vão levar merda com um beijo”.
Em determinado momento, a pressão foi tão pesada que Freeland conta ter se ajoelhado no banheiro feminino da Casa Branca e rezado.
Ainda assim, a estratégia canadense que emergiu desse processo se provou eficaz. Ela se dividia em três partes:
Primeiro, procurar áreas reais de acordo. Não se tratava de confronto puro, mas de identificar onde era possível avançar.
Segundo, a “estratégia do donut”. Trump ocupava o centro, mas os Estados Unidos eram muito maiores que a Casa Branca. O Canadá, então, começou a conversar diretamente com congressistas, governadores, empresários, sindicatos e líderes locais — todos os setores que também tinham algo a perder numa guerra comercial.
Terceiro, e mais importante: não capitular. Freeland é categórica: “Capitulação não é uma estratégia de negociação”.
O troco de 2018
A prova de que essa abordagem funciona veio em 2018. Trump impôs tarifas sobre o aço e o alumínio canadenses alegando se tratar de “segurança nacional” — um pretexto que Freeland classifica como “ilegal e injustificado”.
Ottawa, então, respondeu com tarifas de retaliação escolhidas à dedo para produzir pressão política dentro dos Estados Unidos. Ketchup e geleias da Pensilvânia e Ohio. Bourbon e cartas de baralho do Kentucky. Queijo e iogurte de Wisconsin.
A lógica era simples: atingir estados importantes para aliados republicanos e para a base política de Trump, tentando provocar resistência interna. Trump reagiu furiosamente, telefonando pessoalmente para Trudeau e ameaçando a indústria automobilística canadense. Ottawa manteve as tarifas.
Poucas semanas depois, agricultores e empresários americanos começaram a organizar campanhas contra a guerra comercial. Uma coalizão chamada “Tarifas Ferem o Coração do País” passou a realizar eventos e anúncios nos estados atingidos. A pressão doméstica funcionou.
2026: a guerra híbrida se intensifica
O cenário atual é mais perigoso. Em agosto de 2026, as negociações comerciais entre Ottawa e Washington colapsaram. Trump impôs tarifas de 50% sobre cerca de US$ 20 bilhões em produtos canadenses. O Canadá respondeu com tarifas retaliatórias sobre valor equivalente.
Então veio a nova pancada: a proibição de entrada — não apenas tarifas, mas o fechamento da porta — para cerca de US$ 967 milhões em produtos canadenses. Bebidas alcoólicas representam 87% desse valor. Motocicletas Can-Am da BRP, do Quebec, também foram barradas.
O impacto econômico direto é pequeno dentro do comércio bilateral anual de US$ 880 bilhões. Mas o simbolismo é enorme. Como observou um advogado especializado em comércio, para muitos desses produtos, a tarifa de 50% já funcionava como proibição de fato — tornando a importação economicamente inviável.
Trump, no entanto, parece acreditar que a pressão funciona. Em declarações públicas, ele disse esperar que os canadenses voltem “pedindo desculpas” em poucas semanas. Chamou o Canadá de “um dos piores países do mundo inteiro” e afirmou que os EUA “vão ganhar tudo”.
Por que o Canadá aguenta (e o Panamá não)
A diferença entre a resistência canadense e a capitulação de outros países diante de Trump não é acidental. É estrutural.
O Panamá cedeu rapidamente às pressões americanas. Em 2026, o país viu o seu tribunal supremo anular o contrato da CK Hutchison — empresa de Hong Kong — para operar dois portos no Canal. O jornal pró-Pequim Ta Kung Pao acusou o Panamá de “bajular os EUA” e alertou as empresas chinesas para evitarem investimentos na região.
O Panamá também se retirou da Iniciativa Cinturão e Rota da China. Ou seja: a pressão americana sobre o Panamá não só funcionou, como prejudicou diretamente a China.
O Canadá é diferente por três razões principais:
Primeiro, interdependência. Mais de 70% das exportações canadenses vão para os EUA – no caso do Brasil, essa interpendência já esteve nesse patamar. Hoje é menor do que 10% – , mas o Canadá também é o maior fornecedor de alumínio, de aço, petróleo e energia para os americanos. Cerca de um quarto do alumínio consumido nos EUA vem do Canadá. As tarifas de Trump, por sua vez, elevaram o preço do alumínio para consumidores americanos de cerca de US$ 3.000 para quase US$ 5.000 a tonelada.
Segundo, capacidade de retaliar politicamente. A estratégia canadense de 2018 mostrou que Ottawa sabe mirar estados politicamente sensíveis. Mais de 30% das exportações de Ohio vão para o Canadá. Quase 40% das de Michigan. Ambos teriam eleições importantes nesse ano.
Terceiro, coesão interna. Pesquisas mostram que dois terços dos canadenses favorecem uma linha dura nas negociações comerciais. Mark Carney, que substituiu Trudeau como primeiro-ministro, tem aprovação em torno de 60%. Em um sistema multipartidário, esse é um número notável.
O próprio Trump já admitiu, nos bastidores, que pretende usar coerção econômica para tentar anexar o Canadá. Mas coerção só funciona quando o outro lado tem mais a perder cedendo do que resistindo. Não é o caso canadense.
O que o Brasil tem a ver com isso
A pergunta que fica é inevitável: e o Brasil?
A experiência canadense oferece lições claras para qualquer país que enfrente a máquina de pressão trumpista:
Capitulação não funciona. O Panamá cedeu e prejudicou um parceiro que, em breve, será a maior e mais influente potência econômica e geopolítica mundial. Isso não pareceu nada estratégico. Ceder diante de Trump não compra boa vontade — compra a próxima exigência.
Força exige preparação. O Canadá começou a se preparar para uma possível vitória de Trump antes da eleição de 2016. O memorando interno tinha um apelido apropriado: “em caso de emergência, quebre o vidro”.
Pressão política interna é arma. Mirar estados e setores politicamente sensíveis do adversário pode ser mais eficiente do que retaliar com tarifas generalizadas.
Diversificação é sobrevivência. Mark Carney estabeleceu como objetivo dobrar o comércio canadense com os países fora dos EUA na próxima década. Ottawa ampliou negociações com a Europa, Ásia e Índia. A dependência excessiva de um único mercado é uma vulnerabilidade que Trump explora sem hesitação.
O Brasil, que é alvo de ameaças tarifárias e pressões políticas desde a posse de Trump, tem uma economia maior e mais diversificada que a canadense. E faz décadas que percebeu o perigo que é depender em demasia do comércio com um único player. Entretanto, não pode correr o mesmo erro com a China.
Como dissemos, a dependência do Brasil no comércio de trocas com os EUA é menor que 10%, e caindo. E toda vez que Trump impõe uma sanção ou pressão politica contra Lula, isso leva o presidente à redobrar esforços em direção à multipolaridade e ao comércio dentro do BRICS e com o mundo, a Europa, por exemplo.
É por isso que Trump tenta solapar o processo eleitoral brasileiro – eleição em 04/10 – e tentar, por todos os meios sujos, emplacar na presidência um senador – Flávio Bolsonaro – acusado de corrupção durante toda a sua vida parlamentar, e de relações com milícias (bandidos tão perigosos quanto traficantes de drogas), isso porque Flávio Bolsonaro se mostra desavergonhadamente servil, submisso a ele.
Uma das principais coisas que Trump deve exigir caso Flávio Bolsonaro seja eleito, é que o Brasil abandone o BRICS e se mantenha na condição que Trump exige, e que Lula nega: o quintal da casa dele. Assim como, alegremente, fez o histriônico Milei. O cara que se aconselha com o espirito de cães mortos.
Na questão do comércio, para o Brasil, paradoxalmente, com a imposição de tarifas e sanções, quem mais vem perdendo, e tem mais a perder, são os próprios EUA.
Cabe ainda lembrar, como resumiu Freeland: “Quem transforma comércio em arma precisa aceitar que o outro lado também pode aprender a atirar.”
Quer saber mais? Leia a matéria completa: “The Art of Dealing With Trump” — Chrystia Freeland, The Atlantic
Nota ao leitor:
Este artigo buscou discutir as estratégias canadenses de enfrentamento, e de como lidar com um presidente histriônico, instável e prepotente como Donald Trump. A base comentada é do artigo de Chrystia Freeland no The Atlantic. As fontes públicas utilizadas estão listadas abaixo para a sua verificação.
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Referências Utilizadas:
- The Atlantic (2026): “The Art of Dealing With Trump” — Chrystia Freeland. https://www.theatlantic.com/international/2026/09/canada-america-trade-negotiations/688807/
- Political Press (2026): “Chrystia Freeland: The Art of Dealing With Trump” (arquivo). https://politicalpress.ca/2026/09/29/chrystia-freeland-the-art-of-dealing-with-trump/
- Alternet (2026): “Trump’s own aide gave Canada a chilling warning about dealing with him” – https://www.alternet.org/trump-canada-2677959169/



