O Desmoronamento do Império Mediático da Globo e as Eleições de 2026

O Fracasso da Globo em Manipular a Eleição de 2026

Principais entregas deste artigo:

  • O reconhecimento histórico da Globo de ter apoiado o golpe militar de 1964 e a sua relação estrutural com as elites econômicas e a direita brasileira.
  • O papel da Globo na construção da candidatura de Jair Bolsonaro em 2018 e a tentativa de repetir o mesmo roteiro em 2026 com Flávio Bolsonaro.
  • O cancelamento histórico do debate da TV Globo em 1º de outubro de 2026: a “cadeira vazia” de Lula, a intervenção do TSE, a decisão de Gilmar Mendes e a desistência de Flávio Bolsonaro.
  • A recusa de Lula em participar do debate e a sua opção pelo Flow Podcast, com mais de 1,7 milhão de espectadores simultâneos.
  • A ascensão das mídias alternativas (ICL, Brasil 247, DCM, Fórum, Cazé TV) e a perda de hegemonia da Globo.
  • A dimensão geopolítica da eleição: BRICS e multipolaridade versus influência dos EUA na América Latina.
  • A interferência declarada dos EUA na eleição brasileira e a denúncia de parlamentares democratas.

Internacional, Nacional, Economia, Geopolítica, Política

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Por PolitikBr I Brasília, Em 02/10/2026, 17h:09min, leitura: 16min

Editor: Rocha, J.C.

Essa é uma análise documental. Para visualizar “o todo” recomendamos a leitura dos demais artigos e publicações relacionadas, que se somam ao tema de hoje. Boa leitura.

Em 1º de outubro de 2026, a TV Globo protagonizou o que talvez seja o maior fracasso de sua história como operadora política: ela viu o seu debate presidencial ser esvaziado e depois cancelado horas antes de ir ao ar; isso depois que o próprio candidato que ela tentava favorecer — o senador Flávio Bolsonaro — desistiu de participar.

O episódio não foi um acidente isolado. Ele foi o ponto de inflexão de uma trajetória de décadas em que a Globo tentou, sistematicamente, moldar o resultado das eleições brasileiras, segundo os interesses das elites econômicas, da direita e da extrema direita.

Este artigo reconstrói essa trajetória, analisa o colapso do debate de 2026 e situa o episódio no contexto geopolítico que o torna ainda mais decisivo: uma eleição em que o que está em jogo é a permanência do Brasil no BRICS e a própria soberania nacional.

A Globo e o golpe de 1964: a origem do compromisso

A relação da Globo com a política brasileira não começa em 2026, nem em 2018. Ela começa em 1964.

A própria Globo reconheceu isso. Em seu projeto “Memória O Globo”, a empresa publicou um texto intitulado “Apoio ao golpe de 64 foi um erro”. No texto, ela admite: “O Globo realmente concordou com a intervenção militar, ao lado de O Estado de S. Paulo, Folha de S. Paulo, Jornal do Brasil, Correio da Manhã e outros grandes jornais.”

Não se tratou apenas de concordância. Em 2 de abril de 1964, dia seguinte ao golpe, o jornal publicou o editorial “Ressurge a Democracia”. Durante os vinte anos de ditadura militar, a Globo manteve uma relação de “fidelidade” com o regime miltar — com atritos ocasionais, mas nunca ruptura.

Esse não é um detalhe biográfico. É a chave para entender o modus operandi da empresa: a Globo cresceu como o maior grupo de mídia do país em simbiose com um regime autoritário, e nunca abandonou a lógica de que o seu papel é organizar o consenso político das elites.

Em 2013, diante dos protestos que levavam às ruas a frase “A verdade é dura, a Globo apoiou a ditadura”, a empresa escolheu aquele momento — não por acaso — para admitir o erro. Admitir o passado era, já então, um cálculo político voltado ao presente.

A Globo e a construção de Bolsonaro

Em 2018, a Globo não queria Jair Bolsonaro. O seu candidato natural era Geraldo Alckmin: governador de São Paulo, tucano, amigável ao mercado, previsível. Mas Alckmin não decolou.

Com Lula impedido de concorrer, a Globo concentrou fogo no PT e em Fernando Haddad.

A CartaCapital, em setembro de 2018, perguntou em manchete: “A Globo embarcou na candidatura de Bolsonaro?” A análise apontava que, à medida que Bolsonaro se consolidava como o principal vetor do voto antipetista, a inclinação editorial da Globo se deslocava de forma perceptível. As críticas à Bolsonaro diminuíram e os ataques ao PT e à Fernando Haddad – que viria a ser o nome do PT, em substituição à Lula – continuaram — e se intensificaram.

Kiko Nogueira, no Diário do Centro do Mundo, foi mais direto, em julho de 2018: “Bolsonaro e a Globo são inseparáveis. Temer, Cunha, Aécio Neves e todo o elenco do golpe planejado com a mídia pariram o Jair Bolsonaro de 2018.”

A Globo podia não gostar do estilo boquirroto e chulo de Bolsonaro, mas preferia ele a qualquer coisa que não fosse o PT. E quando Bolsonaro se tornou o “qualquer coisa” viável, a máquina jornalística da Globo — operando com o antipetismo como denominador comum — abriu caminho para a sua eleição.

Bolsonaro sabia disso. Ele disse, certa vez: “Eu tenho uma tara pela Globo.” A frase é zombeteira, mas precisa.

2026: o mesmo roteiro, outro desfecho

Agora em 2026, a Globo tentou repetir 2018.

A lógica era a mesma: reduzir a eleição à “Lula versus anti-Lula” e concentrar o voto anti-Lula em um único candidato. Em 2018, esse candidato era Jair Bolsonaro. Em 2026, é um de seus filhos, o senador Flávio Bolsonaro. Um homem acusado de corrupção em toda a sua trajetória política, e com íntimas relações com o mundo das milícias, que hoje competem no Rio de Janeiro e em São Paulo, também pelo comércio e tráfico de drogas.

Os métodos também foram semelhantes: vazamentos seletivos, agenda setting, manipulação de debates.

Ao longo do ciclo eleitoral de 2026, vazamentos seletivos contra a família de Lula e aliados se multiplicaram — envolvendo o filho do presidente, “Lulinha”, e o senador Jaques Wagner. As fontes desses vazamentos apontam para o gabinete do ministro do STF André Mendonça, evangélico e alinhado à extrema direita.

Ao mesmo tempo, o desenho do debate da Globo — três candidatos de direita ou extrema direita (Flávio Bolsonaro, Ronaldo Caiado, Augusto Cury ) contra um único candidato de centro-esquerda (Lula) — foi amplamente interpretado como uma operação eleitoral, não como serviço jornalístico.

Propositalmente, a participação de Renan Santos (Missão) – um feroz crítico de Flávio Bolsonaro, mesmo sendo de direita – havia sido barrada pelos critérios estabelecidos pela Globo, assim como a de Romeu Zema.

Mas 2026 não é 2018. Lula não é Haddad. Lula é presidente, está na frente da disputa e — decisivamente — fez uma escolha que a Globo não podia controlar: foi ao Flow. 1.500.000 assistiram o presidente.

O colapso do debate: a noite de 1º de outubro

A sequência dos fatos é reveladora.

A Globo convidou Lula, Flávio Bolsonaro, Ronaldo Caiado, Augusto Cury e Romeu Zema. Lula recusou. Em seu lugar, a emissora planejou exibir uma “cadeira vazia” com a placa do presidente — um recurso visual destinado a transformar a ausência em argumento eleitoral permanente durante o debate. Até perguntas seriam dirigidas à cadeira vazia.

Não funcionou. O Partido dos Trabalhadores (PT) apelou ao TSE contra a manobra da Globo, e a ministra do TSE Estela Aranha proibiu o ardil global. “Não se pode usar o espaço do debate para campanha velada contra um ausente.“

Em seguida, o ministro Gilmar Mendes determinou a inclusão de Renan Santos. Romeu Zema também conseguiu uma liminar para participar do debate.

Com Renan no palco e sem Lula como alvo comum, Flávio Bolsonaro percebeu o risco: seria ele o alvo. Ele então desistiu.

Sem Lula e sem Flávio, a Globo cancelou o debate. Um evento histórico: a maior emissora do país, que por décadas organizou o calendário eleitoral brasileiro, viu o seu debate desmoronar horas antes de ir ao ar.

O Brasil 247 chamou a noite de “dia histórico: o império midiático da Globo desmoronou”.

O jornalista Reinaldo Azevedo disse com todas as letras que Flávio Bolsonaro e a Globo fugiram do debate, com medo do embate com Renan Santos.

E, na lógica do senador, ele tem razão, já que a possibilidade de estrago seria enorme se ele debatesse com Renan Santos, uma vez que ele já vem sendo exposto aos ataques da campanha Lula, lembrando as acusações de enriquecimento ilícito que pesa sobre ele e a família Bolsonaro, dos R$ 69 – 70 milhões não explicados do escândalo do caso Master, do relógio rolex e de contas diárias pagas por terceiros, do suposto envolvimento e de relações com milicianos, ou seja, uma enormidade de pretensos maus feitos que desqualificam qualquer cidadão à presidência de um país.

O Brasil de Fato publicou – Renan acusa Flávio Bolsonaro de ameaça: ‘Pra fazer chantagem, a tua campanha sabe meu telefone’ . A publicação ainda cita que Renan Santos disse:

“Venderam uma história de que eu ia ao debate igual cachorro louco. O Flávio disse: ‘Não, eu não debato com cachorro louco’. Flávio, eu estou na tua cidade. Eu estou na tua casa. Se precisar ir a um bar para a gente debater, sem falar de nenhum dos seus escândalos, eu vou. Você tem meu telefone. Até porque, para fazer chantagem, a tua campanha sabe meu telefone. Pra ameaçar, tua campanha sabe meu telefone”, acusou Renan, 

Veja nessa publicação do PolitikBr, alguns dos “escândalos” a que Renan se refere:

Flow: 1,5 milhão de espectadores e a desintermediação

No mesmo dia em que seria o debate da Globo, Lula deu uma longa entrevista ao Flow Podcast. A transmissão ao vivo atingiu 1.467.434 de visualizações no YouTube.

Segundo o UOL, o pico de espectadores simultâneos foi de 1,7 milhão — superando os recordes anteriores do próprio Lula (cerca de 1 milhão) e de Jair Bolsonaro (cerca de 550 mil) no mesmo programa, em 2022.

Flávio Bolsonaro fez uma live no mesmo horário. Chegou a 900 mil espectadores simultâneos cerca de 30 minutos antes do fim, pediu ajuda aos apoiadores para atingir 1 milhão, mas não conseguiu.

Vejam. Some as duas audiências: 1,7 milhão + 0,9 milhão = 2,6 milhões. Quanto se traduziria isso em influência junto ao eleitor e de publicidade?

Ao invés de pautar a reta final do primeiro turno, a Globo foi pautada. Um brutal erro de estratégia e estupidez.

O fato é histórico por não se tratar apenas de uma disputa de audiência. Mas sim de uma mudança estrutural na comunicação política. Como vem acontecendo no bilionário mundo do futebol, com a Cazé TV, em contraponto à dominância global de anos atrás.

O debate da Globo — em estúdio, com perguntas de jornalistas da casa, edição da casa, enquadramento da casa — é comunicação mediada. O Flow — horas de conversa, pouca edição, formato dialógico — é comunicação desintermediada.

No Flow, Lula criticou a própria lógica dos debates: “Você não pode pegar uma pessoa que tem 49% e levar para disputar com uma pessoa que está começando e tem 1%. É desproporcional até para o telespectador. Então o que você precisa é ter um processo seletivo, sabe? Não tem no campeonato? Não tem série C, série D, série B, série A? (…) aí a disputa será verdadeira, porque não dá pra brincar.”

E, sobre o caso do Banco Master, Lula disse o que dificilmente diria em um telejornal: “A gente descobre uma sequência de senadores, deputados, tudo com as meninas da Suíça, da Suécia, sei lá… Ou seja, virou uma putaria. Desculpa o palavrão, mas é uma putaria. Virou, virou. Então o povo tem o direito de saber dessas coisas. Vamos investigar, investigar. Doa a quem doer. Doa a quem doer. É isso que eu penso.”

Esse grau de franqueza é, ele mesmo, um ativo político que a mediação tradicional não permite.

A dimensão geopolítica: BRICS, EUA e soberania

Esta eleição não é apenas brasileira. Ela é geopolítica.

Flávio Bolsonaro, se eleito, provavelmente seguirá o exemplo do submisso Milei e irá retirar o Brasil do BRICS. Não é conjectura: a família Bolsonaro tem relações públicas com Washington, faz lobby por sanções contra instituições brasileiras e abraça a chamada “Doutrina Donroe” — a versão do século XXI da Doutrina Monroe, que trata a América Latina como quintal dos EUA.

Lula, por outro lado, posiciona o Brasil como um dos pilares da ordem multipolar. Na ONU, na última assembleia geral, ele disse: “O Brasil é grande demais para caber no quintal de alguém.” A frase é dirigida à Trump e aos EUA.

Mais concretamente: o governo Trump vem impondo um cerco tarifário e de coerção política desde 2025 ao Brasil. Em 2025 Trump impôs tarifas de 50% sobre os produtos brasileiros, alegando que as práticas comerciais do Brasil – Pix – “prejudicam interesses americanos“. Nesse ano, ele mantém a pressão. As tarifas de centenas de produtos brasileiros voltaram ao patamar de 50% sob alegações falsas. A mesma estratégia de coerção econômica e pressão, que ele exerce sobre o Canadá.

A eleição de 2026, portanto, decide o alinhamento estratégico do Brasil. Se Flávio vencer, o país provavelmente sairá do BRICS e voltará à órbita direta dos EUA. Se Lula vencer, o Brasil seguirá como ponta de lança da multipolaridade.

A Globo, nesse tabuleiro, nunca foi neutra. O seu ataque sistemático à Lula e a sua tolerância seletiva com a família Bolsonaro coincidem com os interesses de Washington. Não é necessariamente conspiração — é convergência estrutural de interesses.

E há interferência declarada. Os EUA destinaram US$ 1 milhão para uma campanha contra o STF, conforme revelou a Agência Brasil. Parlamentares democratas americanos denunciaram a tentativa de interferência, noticiada pelo Valor.

Não é “queda do império mediático”, é obsolescência

O Brasil 247 usou a expressão o “império midiático desmoronou”. É retoricamente eficaz, mas precisa de qualificação analítica.

A Globo continua sendo um grupo enorme. O Jornal Nacional continua líder de audiência e a capacidade de pautar o noticiário ainda existe.

Mas um “império mediático” não se define pelo tamanho. Ele se define pelo poder de agenda — o poder de definir o que é notícia, quem é candidato viável, e qual é o enquadramento aceitável do debate.

Em 1º de outubro de 2026, esse poder foi publicamente recusado. Lula recusou o enquadramento da Globo. Flávio Bolsonaro também se recusou a participar, depois que as regras foram alteradas pela Justiça, e ele decidiu que não valia à pena correr o risco “Renan Santos”.

Se essa história fosse encenada no desenho animado “Leão da Montanha”, talvez a personagem de Flávio Bolsonaro tivesse dito: saída pela esquerda. Irônico.

O plano da “cadeira vazia” foi vetado pelo TSE. A exclusão de Renan Santos foi derrubada por Gilmar Mendes. Sobrou para a Globo um debate que não aconteceu.

O interessante na manifestação da Globo para não mais realizar o debate – a cadeira vazia – foi a mesma cadeira que “não existiu” em 2018 para Bolsonaro, que alegando problemas de saúde não compareceu ao debate antes do primeiro turno, enquanto no mesmo momento era exibida uma entrevista gravada com ele na Rede Record. Dois pesos e várias medidas as da Globo.

Enquanto isso, uma entrevista de 1,7 milhão de espectadores cumpriu, sem a Globo, a função central da comunicação política de massa, o que significa que a Globo deixou de ser condição necessária na política eleitoral brasileira.

Nesse tempo pós dominância Globo, os candidatos estão livres. Podem contorná-la. E os eleitores não são mais reféns de manipulação mediática ao velho estilo. O jogo agora é outro.

Para uma geração acostumada à ideia de que “sem Globo não há eleição”, isso já é um terremoto.

Quer saber mais? Leia a matéria completa [“Dia histórico: o império midiático da Globo desmoronou nesta noite” – https://www.brasil247.com/blog/dia-historico-o-imperio-midiatico-da-globo-desmoronou-nesta-noite/].

Nota ao leitor:

Este artigo buscou compilar, em uma análise única e aprofundada, a trajetória histórica da Globo como operadora política das elites brasileiras, desde o apoio ao golpe de 1964 até a tentativa de repetir, em 2026, o roteiro que ajudou a eleger Jair Bolsonaro em 2018. O epicentro da análise foi o cancelamento histórico do debate de 1º de outubro de 2026 — provocado pela recusa de Lula, pela intervenção do TSE, do ministro do STF Gilmar Mendes, e pela desistência de Flávio Bolsonaro. O texto contrasta esse colapso com o sucesso da entrevista de Lula ao Flow Podcast (mais de 1,5 milhão de espectadores) e situa o episódio no contexto geopolítico da disputa BRICS versus influência dos EUA na América Latina. As fontes públicas utilizadas estão listadas abaixo para a sua verificação.

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Referências Utilizadas:

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