Principais entregas deste artigo:
- O abandono massivo do plenário da Assembleia Geral da ONU por dezenas de delegações, incluindo a brasileira, no momento em que Netanyahu subiu à tribuna.
- O discurso de Erdogan pedindo reforma da ONU, um maior reconhecimento do Estado palestino e criticando a inação do Conselho de Segurança.
- As críticas de Macron e de Pedro Sánchez às operações israelenses em Gaza e na Cisjordânia, com acusações de crimes de guerra.
- A resposta de Netanyahu atacando o passado colonialista de França e Reino Unido, tentando inverter o eixo da acusação.
- O isolamento crescente de Israel no cenário multilateral e mundial.
Internacional, Nacional, Política, Economia, Geopolítica
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Por PolitikBr I Brasília, Em 25/09/2026, 20h:03min, leitura: 9min
Editor: Rocha, J.C.

Essa é uma análise documental. Para visualizar “o todo” recomendamos a leitura dos demais artigos e publicações relacionadas, que se somam ao tema de hoje. Boa leitura.
O mundo se levanta
A 81ª Assembleia Geral da ONU, desse ano, entrará para a história como o momento em que a complacência do mundo com as barbaridades praticadas por Israel, contra o povo palestino, se esgotou publicamente. Durante o discurso do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, nesta quinta-feira (24), dezenas de delegações abandonaram o plenário em protesto — um gesto coordenado, massivo e simbólico que mostra o isolamento do Estado judeu no cenário mundial.
A delegação brasileira estava entre as que se retiraram. Não foi um ato improvisado: o Brasil já havia feito o mesmo no ano anterior, e a ausência do chanceler Mauro Vieira no momento do discurso — ele participava de um evento em apoio à UNRWA, a agência da ONU para refugiados palestinos — reforça que a retirada foi uma decisão política calculada, não um acidente de agenda.

Netanyahu, como de costume, tentou transformar o constrangimento em espetáculo. Ao tomar a palavra, disparou: “Se restarem outros covardes morais que ainda não deixaram esta sala, façam-no agora.” Patético.
O presidente da sessão, Khalilur Rahman, teve de pedir ordem mais de uma vez. Enquanto isso, a equipe do premiê o aplaudia de pé — um contraste quase distópico com o plenário que se esvaziava.
Lula e a ONU que não funciona
Antes de Netanyahu subir à tribuna, quem abriu os debates da 81ª Assembleia Geral foi o presidente Lula, em seu tradicional discurso de abertura — o primeiro de todos os chefes de Estado, por praxe diplomática. E o tom já deixou claro o clima que se seguiria.

Lula foi direto: “A ONU está falhando em uma de suas missões mais elevadas, a de livrar a humanidade do flagelo da guerra. A sua credibilidade nunca esteve tão baixa”. O presidente brasileiro também criticou o imobilismo do Conselho de Segurança e o poder de veto das grandes potências, que transformaram a principal instância multilateral do planeta em refém de interesses dos que detém poder de veto.
E o presidente Lula não poderia perder a oportunidade. E um outro recado Mas o recado foi direcionado ao “inquilino da Casa Branca” — ainda que sem citá-lo nominalmente, em um contexto de ameaças veladas de interferência nas eleições brasileiras, e de pressões tarifárias – Lula disse: “O Brasil não cabe no quintal de ninguém” . Uma alusão ao fato dos EUA acharem que a América Latina é “quintal americano”. A frase, muito aplaudida, sintetizou a defesa da soberania nacional diante das “práticas neo imperalistas americanas” .
Lula também atacou o uso de tarifas como “armas de coerção e chantagem” — recado direto aos tarifaços americanos de 2025 e de 2026 . E, sem meias palavras, denunciou o “genocídio praticado pelo governo Netanyahu contra as mulheres e crianças em Gaza”, colocando o Brasil na vanguarda da crítica ao Estado israelense, já na abertura dos trabalhos .
O contraste com o discurso de Netanyahu, horas depois, não poderia ser mais eloquente. Enquanto Lula pregava multilateralismo, soberania e crítica ao genocídio, o premiê israelense via o plenário se esvaziar diante de seus olhos.
Erdogan e a reforma necessária
Antes de Netanyahu, o palco da ONU já havia sido ocupado por vozes que não se curvam à narrativa israelense. O presidente da Turquia, Recep Tayyip Erdogan, subiu à tribuna na terça-feira (22) com um discurso em sintonia com o de Lula: ele pediu reforma urgente da ONU, criticou a paralisia do Conselho de Segurança diante do genocídio em Gaza e defendeu o reconhecimento pleno do Estado palestino.
Para o presidente da Turquia, a Faixa de Gaza se tornou “o campo de concentração mais desumano e vergonhoso do nosso tempo”.
Erdogan não foi o único. O presidente francês, Emmanuel Macron, criticou abertamente as operações israelenses em Gaza e na Cisjordânia, enquanto o primeiro-ministro espanhol, Pedro Sánchez, denunciou o que chamou de “ofensiva planejada e coordenada de demolição” contra a ONU e as suas agências. Além disso, a Espanha tem sido uma das vozes europeias mais críticas a Israel — e não por acaso.
Netanyahu ataca o colonialismo alheio
Acuado, Netanyahu fez o que sabe fazer: atacou. Em seu discurso, ironizou as críticas da França e do Reino Unido ao colonialismo israelense, lembrando que foram esses mesmos países que “inventaram o termo”. “Acusam Israel, o pequeno Israel, de colonialismo… Que colonialismo. E quem nos acusa? Entre eles, há pessoas na Grã-Bretanha e na França. Pelo amor de Deus, eles inventaram o termo”, disse.
A ironia é amarga. Netanyahu tem razão em um ponto: foram os britânicos, com a Declaração Balfour de 1917, e depois os americanos, com o seu apoio incondicional no pós-guerra, que criaram as condições políticas para a fundação do Estado de Israel na Palestina. O que ele omite é que a Partilha da Palestina, acordada pelos EUA e pelo Reino Unido, estabelecia a criação também do Estado Palestino, o que os israelenses se recusam a aceitar até hoje. Ao contrário. Eles lhes usurparam a terra através do terror e da ocupação ilegal. Entretanto, é realmente hipócrita a posição europeia, em especial a da Alemanha. Esse mesmo Ocidente ex-colonial segue financiando e armando a máquina de guerra israelense até hoje. Mas, Netanyahu atacar o colonialismo europeu do passado, enquanto pratica colonialismo de assentamento e uma clara política de limpeza étnica é, no mínimo, uma contradição que beira ao cinismo. Surpresa nenhuma.
O genocídio impune
Não é de hoje que Israel pratica o que os especialistas e os organismos internacionais classificam como genocídio contra o povo palestino. Décadas de ocupação, expansão de assentamentos ilegais, ataques sistemáticos à civis, demolição de casas, cerco e destruição de Gaza — tudo isso sob a proteção cínica dos Estados Unidos no Conselho de Segurança e a complacência de parte da Europa.
O mandato de prisão emitido pelo Tribunal Penal Internacional contra Netanyahu, por crimes de guerra e crimes contra a humanidade, é um lembrete de que, para além da retórica, há base jurídica para responsabilização. O problema é que os EUA, não signatários do Estatuto de Roma, simplesmente ignoram a ordem — e permitem que Netanyahu viaje ao país sem maiores consequências, como fez agora para discursar na ONU.

O Brasil e o gesto que ecoa
A decisão brasileira de se retirar do plenário não foi um gesto isolado. Ela se soma a uma série de posições do governo Lula que colocaram o Brasil na vanguarda da crítica ao genocídio em Gaza. Na abertura dos debates da Assembleia, o próprio presidente mencionou Netanyahu nominalmente, e o acusou de praticar genocídio. “Gerações de palestinos carregarão a dor e o trauma deixados pelo genocídio praticado pelo governo Netanyahu contra mulheres e crianças em Gaza”, disse Lula.
A retirada da delegação brasileira é, portanto, coerente com essa posição. E ecoa um sentimento que cresce no mundo: a impunidade de Israel tem prazo de validade. A ONU, mesmo com todas as suas limitações, ainda é o palco onde essa conta começa a ser cobrada publicamente.
O isolamento como fato
O que a 81ª Assembleia Geral deixou claro é que Israel está cada vez mais sozinho. Não se trata apenas de retórica anti-israelense ou de antissemitismo — acusação que Netanyahu e seus aliados usam para silenciar críticas legítimas. Se trata de um repúdio global à décadas de violência, ocupação e desrespeito ao direito internacional.
O mundo não esqueceu. E, ao que parece, não vai esquecer tão cedo.
Quer saber mais? Leia a matéria completa em: Brasil e dezenas de delegações deixam plenário da ONU durante discurso de Netanyahu
Nota ao leitor:
Este artigo buscou compilar, em uma análise única, os fatos associados ao repúdio de dezenas de países à Israel, durante a última Assembleia Geral da ONU, quando as delegações abandonaram o plenário, enquanto Netanyahu vociferava, furioso, impropérios contra os que saíam. Há uma percepção mundial bastante clara de que Israel é hoje um estado isolado e pária, com mais vozes, como as do Brasil, da França, Da Espanha e da Turquia, se levantando contra a barbárie que Israel pratica, há décadas, contra os palestinos. As fontes públicas utilizadas nesse artigo estão listadas abaixo para a sua verificação.
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Referências Utilizadas:
- Notícia Brasil (2026): https://noticiabrasil.net.br/20260924/brasil-e-dezenas-de-delegacoes-deixam-plenario-da-onu-durante-discurso-de-netanyahu-54464721.html
- Terra (2026): https://www.terra.com.br/noticias/mundo/na-onu-macron-critica-operacoes-em-gaza-e-na-cisjordania-israel-denuncia-absurdo-grotesco,86f6e834b8d9983465aa802666f9dd7fnggw7f6e.html
- Opera Mundi (2026): https://operamundi.uol.com.br/europa/premie-espanhol-denuncia-ofensiva-planejada-e-coordenada-de-demolicao-da-onu/
- Valor Econômico (2026): https://valor.globo.com/mundo/noticia/2026/09/22/erdogan-da-turquia-pede-reforma-da-onu-e-maior-reconhecimento-do-estado-palestino.ghtml
- CartaCapital (2026): https://www.cartacapital.com.br/politica/delegacao-brasileira-se-retira-do-plenario-da-onu-durante-discurso-de-netanyahu/
- O Tempo (2026): https://www.otempo.com.br/mundo/2026/9/24/em-discurso-na-onu-netanyahu-ataca-reino-unido-e-franca-por-passado-colonialista