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Por PolitikBr I Brasília, Em 28/03/2026, 17h:38, leitura: 11 min
Editor: Rocha, J.C.
O Estreito de Ormuz que sempre foi o gargalo energético do mundo. Agora, tem dono. Em menos de um mês de guerra, o Irã não apenas resistiu à maior potência militar da história — ele reescreveu as regras de passagem pelo ponto mais estratégico do planeta. Ele instituiu um pedágio de US$ 2 milhões por petroleiro. Com pagamento em dinheiro ou em criptomoedas, através de um canal de navegação de oito quilômetros. E o petroyuan foi escolhido como a moeda de fato. Enquanto isso, Trump ameaça, se contradiz e se entedia. O império assiste à implosão do seu próprio sistema.
Há exatos 29 dias, Donald Trump anunciava ao mundo que os Estados Unidos e Israel haviam lançado uma “operação militar cirúrgica” contra o Irã. A guerra duraria quatro dias. O regime dos aiatolás desmoronaria. O Estreito de Ormuz seria reaberto pela força.
Nenhuma dessas coisas aconteceu.
Nesta sexta-feira, ontem, 27 de março de 2026, o cenário é o oposto. O Irã não apenas resistiu — ele consolidou o seu domínio sobre o Estreito de Ormuz e instituiu um novo regime de passagem que, em menos de uma semana, já está sendo ratificado pelo parlamento iraniano como lei.
A novidade, revelada pelo analista geopolítico Pepe Escobar, em entrevista ao programa de Danny Haifong, é tão simples quanto revolucionária: navegar por Ormuz agora custa US$ 2 milhões por petroleiro.
As Novas Regras do Estreito: Como Funciona o Pedágio
O sistema, já em operação e prestes a ser formalizado por lei, é uma obra-prima de engenharia geoeconômica. Escobar descreve o processo em três etapas:
- Registro e Verificação: O armador do petroleiro envia todos os dados a um corretor ligado à Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC). O corretor pode estar no Irã, na Ásia Ocidental ou em qualquer país islâmico. O que importa é que sua ligação com a IRGC é certificada.
- Filtragem: A IRGC analisa as informações. Se o petroleiro tiver ligação com os Estados Unidos, Israel ou “nações hostis”, a resposta é não. Petroleiros de nações não beligerantes — China, Índia, Bangladesh, Sri Lanka, Tailândia — são aprovados sem problema.
- Pagamento e Travessia: Aprovado, é hora de pagar o pedágio. O valor é fixo: US$ 2 milhões por petroleiro. O pagamento pode ser feito em dinheiro ou, mais frequentemente, em criptomoedas pela blockchain Tron. A transação leva cerca de três segundos. Com o recibo em mãos, o petroleiro recebe autorização para navegar por um canal marítimo específico, com apenas oito quilômetros de largura, entre as ilhas iranianas de Qeshm e Larak.
“É o que os egípcios fazem em Suez. Você não atravessa o canal de Suez de graça. Também precisa pagar. Em Hormuz, nunca haviam obrigado ninguém a pagar em toda a história do Estreito. Agora é diferente. E, basicamente, eles o controlam. Portanto, é claro que têm o direito de cobrar uma taxa.” – Pepe Escobar.
Por Que Isso é Revolucionário
O pedágio de Hormuz não é apenas uma fonte de receita para o Irã. É um divisor de águas geoeconômico com implicações globais:
1. O Petroyuan se Torna Realidade
O pagamento em criptomoedas, convertido para petroyuan, estabelece um sistema de pagamento alternativo funcionando no ponto de estrangulamento mais importante do planeta. Como observa Escobar, é algo que “um zilhão de cúpulas do BRICS não conseguiu alcançar. Foi alcançado com um único movimento do Irã.”
2. A “Privatização” do Estreito
O Irã está fazendo o que o Egito faz com o Canal de Suez — cobrando pelo uso de uma via estratégica em seu território. A diferença é que, ao contrário do Egito, o Irã não tem um tratado internacional que o obrigue a manter a passagem livre. Ele está estabelecendo um novo regime por direito próprio, respaldado pela força militar que já demonstrou.
3. A Renda da Guerra
Com dezenas de petroleiros cruzando o estreito diariamente em tempos normais, o pedágio representa uma fonte bilionária de receita para o Irã — financiando diretamente a guerra que lhe foi imposta.
4. A Isenção dos Inimigos
Petroleiros com destino ou origem nos EUA, Israel ou seus aliados hostis simplesmente não passam. O bloqueio econômico que Washington tentou impor ao Irã agora se volta contra os seus próprios interesses.
A Pausa Antes da Tempestade
Neste exato momento – 27/03 -, no entanto, os petroleiros pararam. Nenhum navio está cruzando o estreito. A razão, segundo Escobar, é que todos esperam uma escalada iminente.
“Aparentemente, nenhum navio está cruzando neste momento. Até ontem, estava tudo bem. Navios vindos ou indo para a China, Índia, Iraque, Bangladesh, todos estavam cruzando. Hoje, aparentemente, ninguém está cruzando porque esperam que algo aconteça.”
O “algo” é a possibilidade de uma invasão terrestre americana. Os rumores de um desembarque “estilo Normandia” na ilha de Larak — a ilhota que guarda o canal de oito quilômetros — têm circulado nos últimos dias. O Pentágono nega, mas as forças iranianas estão em alerta máximo.
E, como lembra Pepe Escobar, a Marinha da Guarda Revolucionária controla não apenas as águas territoriais onde os petroleiros navegam, mas todo o perímetro que se estende do Golfo Pérsico ao Mar de Oman. Qualquer tentativa de desembarque será recebida com tudo o que o Irã ainda tem em reserva — e não é pouco.
Os Emirados Árabes Unidos: A Traição que Pode Custar Caro
Enquanto o Irã consolida o seu controle sobre o estreito de Ormuz, um dos mais perigosos desenvolvimentos da semana foi a posição assumida pelos Emirados Árabes Unidos. Em um artigo de opinião no Wall Street Journal, o embaixador dos Emirados nos Estados Unidos, Youssef Al-Otaiba, deixou claro que o seu país está pronto para entrar na guerra ao lado dos americanos.
A motivação, segundo Escobar, não é ideológica. É econômica.
Os Emirados assinaram US$ 1,4 trilhão em acordos com os Estados Unidos — em inteligência artificial, semicondutores e outros setores de ponta. Mas a sua economia está em colapso. Dubai, como modelo de negócios, “já era”, segundo Escobar. O porto de Jebel Ali está paralisado. O império de portos dos Emirados — que se estende da Síria à Jordânia — está desmoronando.
“Eles precisam seguir o dinheiro deles. E para que isso aconteça, precisam reativar a economia dos Emirados. No momento está um desastre total. Dubai, como conhecemos, o modelo de negócios de Dubai já está morto. Abu Dhabi, muito, muito parecido. O porto de Jebel Ali está paralisado.”
A resposta iraniana foi imediata e devastadora: o Irã publicou uma lista de cinco mega alvos que serão atingidos se os Emirados entrarem na guerra. Esses alvos incluem usinas de energia, usinas de dessalinização, centros de dados, portos e aeroportos.
“Se os Emirados decidirem entrar na guerra, então o Irã ganha um novo fôlego para atacar os Emirados e destruir completamente a sua economia. Exatamente como estão fazendo agora com os novos mísseis, que são extremamente precisos.”
A Estratégia Iraniana: Mosaico Descentralizado e Alvos Claros
Pepe Escobar resume a estratégia iraniana em três objetivos principais, que vêm sendo executados com precisão desde o início da guerra:
- Estabelecer a capacidade de dissuasão. Já demonstrada. Nenhum país no mundo enfrentou a máquina de guerra americana por um mês e saiu fortalecido. O Irã o fez.
- Expulsar os Estados Unidos do Golfo Pérsico. O primeiro passo — destruir as bases militares — está praticamente concluído. Mais de 90% da infraestrutura militar americana na região foi destruída.
- Estabelecer dissuasão em relação a Israel. Concluído em três semanas. Israel está em total desordem. As suas defesas aéreas estão exauridas. As suas cidades são atingidas diariamente por mísseis de fragmentação. O seu exército está à beira do colapso, lutando em diferentes frentes e com pouca reserva de “mão de obra”.
Tudo isso foi alcançado, como diz Escobar, pelo Irã sozinho. Uma nação sob 47 anos de sanções cruéis, com infraestrutura visivelmente degradada, mas com um capital humano excepcional e um complexo industrial-militar oculto, que está aterrorizando os Estados Unidos e Israel.
O “Teatro do Absurdo” de Donald Trump
No centro deste furacão está um homem que, segundo Pepe Escobar, já está “entediado” com a guerra que ele mesmo começou.
“Donald Trump está entediado com a guerra no Irã e quer que ela acabe para poder seguir em frente. Você acredita nisso? O proverbial funcionário dos Estados Unidos falando com a grande mídia americana. É absolutamente desconcertante. Já era desconcertante quando ele descreveu isso como uma excursão. E agora ele está entediado com a excursão e quer seguir em frente. O que é isso?”
O padrão se repete: ultimatos que expiram sem consequências, ameaças que se transformam em recuos, anúncios de “conversas muito boas” que o Irã desmente publicamente. Na semana passada, Trump deu 48 horas para o Irã abrir o estreito. Quando o prazo expirou, ele adiou por mais cinco dias. Na sexta-feira, os mercados fecharam. O que vem a seguir?
A resposta, sugere Escobar, pode estar no mercado de títulos. Na semana passada, o rendimento dos títulos do Tesouro americano de 10 anos chegou a 5% — um nível que sinaliza perda de confiança na capacidade dos Estados Unidos de honrar o serviço da sua dívida de US$ 40 trilhões. Depois que Trump adiou o ultimato, caiu para 4,4%. Agora, com a expectativa de escalada, volta a subir.
“Se isso acontecer na próxima semana, com a possibilidade de uma mini invasão terrestre, ele vai ter que recuar, necessariamente. Na verdade, é fascinante, porque o mercado de títulos pode, no fim das contas, nos salvar, literalmente, de uma catástrofe maior, e não o mercado de petróleo.”
O Que Vem a Seguir: Quatro Semanas, Segundo Putin
O analista russo Alexander Shokhin, chefe da Federação de Indústrias e de Empresários da Rússia, revelou, após uma reunião com Vladimir Putin, que o presidente russo está convencido de que a guerra terminará em, no máximo, quatro semanas.
Se Putin estiver certo, o desfecho está próximo. Mas que desfecho?
As posições são incompatíveis. O Irã já deixou claro o que quer: retirada das tropas americanas do Golfo, pagamento de reparações, fim das sanções, programa nuclear civil livre de restrições, nenhuma limitação ao programa de mísseis ou à colaboração com aliados regionais.
Os Estados Unidos, por sua vez, ofereceram um plano de 15 pontos que os iranianos nem sequer consideraram. As negociações — que Trump insiste em dizer que estão “indo muito bem” — não existem. Foi um blefe, uma tentativa de manipular os mercados.
O Pedágio como Metáfora
O pedágio de US$ 2 milhões por petroleiro que cruza o Estreito de Ormuz é mais do que uma taxa. É uma metáfora do novo mundo que está nascendo sobre os escombros do velho.
Um mundo onde o petroyuan circula como moeda de fato no ponto de estrangulamento mais importante do planeta. Onde uma nação de 85 milhões de habitantes, sitiada por quase meio século, enfrenta a maior potência militar da história e sai fortalecida. Onde os antigos aliados do império — Paquistão, Emirados, Arábia Saudita — se veem obrigados a escolher lados, e alguns já escolheram o errado.
Trump prometeu uma guerra de quatro dias. Entramos no vigésimo novo dia e amanhã não será diferente. Serão as 4 semanas de Putin.
Trump, que prometeu destruir o Irã, viu, impotente, as suas bases serem destruídas uma a uma. Viu os seus mais caros sistema de vigilância serem varridos do mapa. Um vexame e um colossal prejuízo.
Trump prometeu abrir o Estreito de Ormuz. E agora vê o Irã instituir um pedágio.
O império que partiu para a guerra com bravatas agora assiste, entediado e impotente, à implosão do seu próprio sistema. Enquanto isso, os petroleiros esperam para pagar os US$ 2 milhões e seguir viagem.
Esse artigo foi baseado em:
- Entrevista de Pepe Escobar ao programa de Danny Haifong (27/03/2026) – https://youtu.be/8ZcdlUKSZgs?si=jLJx0O4v8cUnIGY3
- PolitikBr: A VOZ QUE QUEREM CALAR: Professor Seyed Marandi e a Verdade sobre a Guerra (26/03/2026)
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