Discurso Hipócrita:”NOSSO SENADOR” Flávio Bolsonaro e o Dinheiro Público na Mão de Miliciano

Principais entregas deste artigo:

  • Flávio Bolsonaro destinou R$ 200 mil em emenda parlamentar à pedido de Robson Calixto Fonseca, o “Peixe”, miliciano condenado como braço operacional dos irmãos Brazão, e apontado como elo entre o assassino e os mandantes da morte de Marielle Franco.
  • “Peixe” foi quem forneceu a submetralhadora HK MP5 usada no assassinato de Marielle e do motorista Anderson Gomes.
  • Mensagens obtidas pela revista Piauí mostram contato direto entre o miliciano e o gabinete do senador, com orientação para reforçar pessoalmente o pedido em cerimônia no Rio de Janeiro.
  • O TCU não encontrou nenhuma prova de que o dinheiro tenha sido aplicado no projeto social da ONG na zona sudoeste do Rio, reduto dos irmãos Brazão.
  • Flávio Bolsonaro tem histórico documentado de proximidade com milicianos: condecorou Adriano da Nóbrega, chefe do “escritório do crime”, e empregou familiares do miliciano em seu gabinete.
  • O mesmo senador que pediu a Trump a classificação do PCC e do CV como organizações terroristas — ignorando as milícias — agora aparece beneficiando um miliciano com dinheiro público.
  • A ofensiva contra o Pix e o BRICS Pay revela que a soberania financeira do Brasil está ameaçada pela subserviência da extrema direita à Washington.

Internacional, Nacional, Política, Economia, Geopolítica

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Por PolitikBr I Brasília, Em 23/09/2026, 17h:03min, leitura: 12min

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Editor: Rocha, J.C.

Essa é uma análise documental. Para visualizar “o todo” recomendamos a leitura dos demais artigos e publicações relacionadas, que se somam ao tema de hoje. Boa leitura.

A Emenda que Pode Virar Caso de Polícia

Em 2023, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) enviou ao Senado uma emenda parlamentar de R$ 200 mil destinada a um projeto social na zona sudoeste do Rio de Janeiro. O que parecia um gesto rotineiro de parlamentar se revelou, segundo reportagem da revista Piauí publicada pelo UOL, um dos episódios mais graves de desvio de finalidade de recursos públicos já documentados no país.

O solicitante não era um prefeito, um secretário estadual ou um líder comunitário. Era Robson Calixto Fonseca, conhecido como “Peixe” — miliciano condenado em fevereiro do ano passado por ser o braço operacional dos irmãos Brazão, os mandantes do assassinatos da vereadora Marielle Franco e do motorista Anderson Gomes – condenados pelos assassinatos e cumprindo pena.

Peixe não é um miliciano qualquer. Foi ele quem, segundo a colaboração premiada do assassino confesso, Ronnie Lessa, forneceu a submetralhadora HK MP5 usada para matar Marielle Franco com dezenas de disparos, atingindo-a na cabeça e no peito. Foi ele quem apresentou Ronnie Lessa aos mandantes do crime. Foi ele, ainda, quem pediu dinheiro à Flávio Bolsonaro.

A reportagem de Breno Pires, da Revista piaui, revela que as mensagens recuperadas pela Polícia Federal mostram relação de proximidade e acesso direto, de “Peixe” à Flávio.

Em um dos diálogos, Peixe escreve a uma assessora do gabinete do senador: “Amiga, vê com o nosso senador, se consegue nos ajudar.” A resposta vem quatro minutos depois: “Manda a solicitação, meu amigo.” Em seguida, a assessora orienta o miliciano a enviar um ofício — documento que a PF recuperou com o número 00223.

Dois dias após solicitar a emenda, Peixe recebeu um convite para uma cerimônia do gabinete no Rio de Janeiro. Ele foi orientado a usar a ocasião para reforçar pessoalmente a demanda com Flávio.

Peixe levou consigo o deputado Chiquinho Brazão — irmão de Domingos Brazão, ambos apontados como mandantes do assassinato de Marielle, e condenados, como já dissemos.

O Tribunal de Contas da União (TCU) seguiu a destinação do recurso público enviado por Flávio à Peixe, e encontrou zero provas de que o dinheiro tenha sido, de fato, utilizado pela ONG em qualquer projeto social.

O valor foi liberado em espaço curtíssimo de tramitação, a partir de um simples e-mail enviado ao gabinete do senador. O “nosso senador”, segundo Peixe.

O Histórico que Não Deixa Dúvidas

A gravidade do episódio não reside apenas no que ele revela sobre o presente, mas no que confirma sobre o passado. Flávio Bolsonaro construiu a sua carreira política no Rio de Janeiro com proximidade documentada com o universo das milícias.

Em 2005, ele condecorou Adriano da Nóbrega, chefe do “escritório do crime” — um dos maiores matadores de aluguel da história do Rio de Janeiro — com a Medalha Tiradentes, a mais alta honraria da Assembleia Legislativa fluminense.

Não satisfeito, ele empregou, no próprio gabinete, dois familiares do miliciano: a esposa e a mãe. Tire as suas próprias conclusões, prezado leitor (a).

Adriano da Nóbrega, por sua vez, morreu em 2020, em uma operação policial na Bahia – se falava à época em “queima de arquivo” – , mas as conexões que ele representa permanecem vivas.

O pai, Jair Bolsonaro, não fica atrás. Em discurso público no Congresso Nacional, quando ele ainda era deputado federal pelo Rio de Janeiro, defendeu policiais militares da Bahia punidos por envolvimento com grupos de extermínio: “Esses policiais seriam muito bem-vindos no Rio de Janeiro enquanto o Brasil não tem pena de morte.” O registro está disponível na internet, na tribuna da Câmara, para quem quiser conferir.

A visita da família Bolsonaro à presídios no Rio de Janeiro para condecorar milicianos presos também é de conhecimento público. Não se trata de teoria conspiratória, mas de fatos registrados, documentados.

A Contradição Fatal: PCC e CV como Terroristas, Miliciano com Financiamento Público

Em maio de 2026, Flávio Bolsonaro voou à Washington e se reuniu com o secretário de Estado Marco Rubio. O objetivo era explícito: pedir que os Estados Unidos classificassem o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas estrangeiras. O pedido foi atendido com velocidade incomum — o anúncio saiu na última semana de maio, com efeito a partir de 5 de junho.

A manobra, como analisou o jornalista Reinaldo Azevedo, tinha duas dimensões. A primeira, eleitoral: Flávio poderia se apresentar ao eleitorado conservador como o homem capaz de “fazer Trump agir”. A segunda, e mais grave: as consequências econômicas, financeiras e soberanas para o Brasil para as quais ele pouco se importara. Aliás, não somente ele, mas também o irmão Eduardo Bolsonaro, condenado pela justiça brasileira e foragido nos EUA, sob a proteção de Trump.

O ministro da Fazenda, Dario Durigan, disse em entrevista à CBN: “Basta você ter uma alegação, uma visita da família Bolsonaro, uma alegação dizendo que um determinado banco brasileiro tem contas do PCC. Aí a autoridade norte-americana pode dizer: ‘Então esse banco está sancionado pelo Tesouro norte-americano, não pode operar com o Pix porque o Pix tem sido usado para movimentar dinheiro de facção criminosa.'”

O Pix, o maior símbolo de soberania financeira do Brasil, com R$ 90 trilhões movimentados até agosto de 2026, se tornou alvo de uma ofensiva que já vinha sendo articulada desde julho de 2025, quando o USTR incluiu o sistema brasileiro em seu relatório de “práticas desleais”. A razão é simples: o Pix quebra o modelo de negócios das bandeiras de cartões de crédito e débito americanas, que cobram taxas de até 2,34% por transação. E é por causa dessas e outras que o jornalista Bob Fernandes disse nesse artigo –  Bob Fernandes: Se o senador Flávio Bolsonaro fosse cidadão americano, ele seria condenado à morte ou à prisão perpétua. O que você diria se Flávio fosse um político de seu país?

Mas há uma contradição que Flávio Bolsonaro não consegue explicar. O mesmo homem que pediu a classificação do PCC como organização terrorista tem um candidato do mesmo partido (PL) apontado pela Polícia Federal como possível beneficiário de recursos, que passaram por estruturas ligadas a essa mesma organização. O escândalo do Banco Master, envolvendo Daniel Vorcaro — chamado de “irmão” por Flávio em diálogo gravado —, revelou que a firma Super Empreendimentos, do cunhado de Vorcaro, teria associações com a Reag DTVM, fintech envolvida com fundos suspeitos ligados ao PCC.

Relatórios de inteligência financeira e inquéritos da Polícia Federal mapearam caminhos do dinheiro que transitou por estruturas ligadas à integrantes ou braços financeiros da facção. Siga o dinheiro.

O Que as Milícias Têm a Ver com Isso

Flávio Bolsonaro construiu o seu discurso político usando a segurança pública como mote eleitoral. Ele fala em combate às organizações criminosas, em enfrentamento ao narcotráfico, em defesa da família e da propriedade. Mas o Rio de Janeiro que ele conhece e frequenta não é o Rio das operações policiais espetaculares.

É o Rio das milícias, das construções irregulares, dos loteamentos clandestinos, dos “escritórios do crime” que dominam bairros inteiros. É o Rio onde o Estado paralelo cobra taxas de comerciantes, controla o transporte alternativo, decide quem pode construir e onde. É o Rio onde milicianos como “Peixe” circulam livremente, frequentam gabinetes, pedem emendas e recebem dinheiro público.

Hoje, as milícias cariocas não se limitam à exploração imobiliária e ao transporte irregular de passageiros. Elas passaram a traficar drogas, disputando território com o Comando Vermelho. O que se vê no Rio é uma guerra entre facções — milícias de um lado, narcotraficantes de outro —, com a população pobre no meio, pagando o preço.

Quanto à Flávio Bolsonaro, o senador não consegue explicar as suas relações com o universo das milícias. Ele não consegue explicar, de forma convincente, por que destinou R$ 200 mil do dinheiro público a um miliciano. Ele não parece querer explicar por que condecorou Adriano da Nóbrega. E ele, muito menos, consegue explicar por que empregou familiares do miliciano em seu gabinete.

Nesse mesmo universo obscuro, temos o caso do então governador Cláudio Castro, que renunciou ao cargo em 23 de março de 2026. Ele deixou o poder como estratégia política na véspera do seu julgamento no Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Castro tentava evitar a cassação direta do seu mandato obtido em 2022, para manter os seus direitos políticos e concorrer ao cargo de senador – mais um – pelo Rio de Janeiro.

Em 24 de março de 2026, o plenário do TSE declarou Cláudio Castro inelegível por abuso de poder político e econômico, além de condutas proibidas durante a campanha eleitoral de 2022. Ele recorreu, mas em junho desse ano, o TSE negou o seu recurso. Menos um. Enfim.

Entre os principais nomes do campo da extrema direita cotados para disputar o governo do Rio de Janeiro estava Rodrigo Bacellar, então presidente da Alerj.

Bacellar – candidato de Castro ao governo do Rio -, por sua vez, acabou preso no âmbito de investigações que apuram supostos vínculos e obstrução de investigações relacionadas ao crime organizado.

Que Seja o Epílogo de Flávio

Flávio Bolsonaro não é apenas um senador que destinou dinheiro público a um miliciano. Ele é um homem que construiu a sua carreira política, conforme a sua trajetória pública aponta, com a proximidade de pessoas ligadas ao crime organizado, que empregou familiares de um miliciano, que pediu intervenção estrangeira contra o próprio país.

A gravidade é brutal por onde quer que se olhe. E a resposta oficial do senador – no caso da destinação dos R$ 200 mil à “Peixe” – é que cabe aos órgãos de controle fiscalizar. Como se ele, o responsável pelo envio do recurso, não tivesse qualquer responsabilidade sobre a efetividade da destinação da emenda que fez. Como se o dinheiro público não tivesse dono, destino, propósito.

Em qualquer outro momento da história política brasileira, uma denúncia como essa explodiria a campanha eleitoral de Flávio Bolsonaro, e tiraria dele qualquer chance de se tornar presidente da República. Mas vivemos tempos em que a democracia parece ter perdido a capacidade de punir políticos envolvidos em escândalos inexplicáveis.

Resta saber se o eleitor brasileiro ainda se lembra do que significa soberania. E se ainda se importa com ela. Se ainda se importa com probidade e decência públicas.

Quer saber mais? Leia a matéria completa:

Nota ao leitor:

Este artigo buscou compilar, em uma análise única, os fatos associados à recente investida contra a liberdade da imprensa americana em ter o direito à livre opinião, pelo governo Trump. A liberdade de expressão é um dos principais pilares da democracia americana, que Trump só verbaliza ou defende, quando lhe convém. As fontes públicas utilizadas estão listadas abaixo para a sua verificação.

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Referências Utilizadas:

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