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Por PolitikBr I Brasília, Em 18/06/2026, 19h:38min, leitura: 10min
Editor: Rocha, J.C.

Essa é uma análise documental. Para visualizar “o todo” recomendamos a leitura dos demais artigos, que se somam ao tema de hoje. Boa leitura.
Na quarta-feira (17), a CNN divulgou o texto oficial do memorando de entendimento entre os Estados Unidos e o Irã. O documento, intitulado “Islamabad Memorandum of Understanding”, confirma o que o PolitikBr já havia antecipado: se trata de uma capitulação histórica, disfarçada de acordo de paz.
Brett McGurk, ex-negociador americano com o Irã, que serviu em administrações republicanas e democratas, analisou o texto e disse: “É notável o quanto os Estados Unidos estão oferecendo em troca de pouco.”
Os termos são claros: os EUA se comprometem a levantar o bloqueio naval, emitir isenções – permissão imediata de venda direta – para a exportação de petróleo iraniano e derivados; devolver US 24 bilhões de ativos congelados e criar um fundo de reconstrução para o Irã de US$ 300 bilhões. Em troca, o Irã promete reabrir o Estreito de Ormuz, e “reafirmar” que não buscará armas nucleares; além de manter o status quo de seu programa nuclear durante 60 dias de negociações.
Como declararam Theodore Postol, John Mearsheimer e Jiang Xueqin em THE TRIAD OF DETERRENCE: Does Iran Already Have the Bomb? Jiang, Postol, and Mearsheimer Converge on the Same Warning
“… as inteligências ocidentais confirmaram a existência de 3 a 5 ogivas completas de posse pelo Irã. Theodore Postol, ex-assessor do Pentágono, detalha que o Irã pode produzir urânio enriquecido grau militar (90%) para 20 ogivas em semanas. E John Mearsheimer lembra o óbvio: diante de uma ameaça existencial real (Israel e EUA declararam explicitamente o objetivo de aniquilar o Irã), a busca pela dissuasão nuclear não é loucura — é a única garantia racional de sobrevivência.”

Portanto, mesmo o Irã tendo ou não artefatos nucleares – os mísseis hipersônicos com capacidade de entrega, dessas pretensas ogivas nucleares eles já tem – e reiterando o compromisso de não desenvolver armas nucleares; compromisso esse que Trump jogou no lixo, ao renunciar ao JCPOA em 2018 – Israel não estava satisfeito com o acordo celebrado pelo ex-presidente Barack Obama – a dissuasão nuclear já está estabelecida pelo Irã. Ele nem precisa, de fato, ter uma arma nuclear. Mas simplesmente poder tê-la em dias ou semanas.
A questão nuclear, os mísseis, o apoio a grupos de resistência no Líbano e na Palestina, e os direitos humanos — tudo que justificou a guerra — não são mencionados no memorando.
Como observa McGurk, “o Irã não fez nenhum novo compromisso”. O acordo é, na prática, a rendição de Washington.
A Arquitetura da Capitulação: Dois Blocos, um Jogo de Xadrez
O memorando de 14 pontos é uma peça de engenharia jurídica que, nas palavras de McGurk, é um “quebra-cabeça”. Para entender a rendição, é preciso separar o que acontece agora (Fase 1) do que fica para depois (Fase 2).
Fase 1 (Imediata): O artigo 13 estabelece que os artigos 4, 5, 10 e 11 devem ser implementados imediatamente, antes mesmo do início das negociações da Fase 2.
- Artigos 4 e 5 (Estreito de Ormuz): Os EUA levantam o bloqueio naval. O Irã remove obstáculos (minas, etc.) para que o tráfego de navios retorne aos níveis pré-guerra em 30 dias. Como McGurk observa, se o acordo parasse aqui, “seria bom para os EUA e para a economia global”. Mas o acordo não para aqui.
- Artigo 10 (Waiver para petróleo): Os EUA emitem permissões imediatas para a exportação de petróleo bruto iraniano, produtos petroquímicos e serviços associados (bancos, seguros, transporte). McGurk estima que este artigo, sozinho, entregará US$ 60 a 70 bilhões/ano pelo Irã não fazer nada, além de abrir o Estreito de Ormuz, que estava aberto antes da guerra.
- Artigo 11 (Ativos congelados): Os EUA devolvem os ativos congelados do Irã (cerca de US$ 24 bilhões). O banco central iraniano decide o destino dos fundos — uma diferença crucial em relação a acordos anteriores (como o de 2023), que restringiam o uso a fins humanitários.
Fase 2 (60 dias): Os artigos restantes são adiados para uma “negociação final” que começará após a implementação dos artigos 4, 5, 10 e 11. Mas, como McGurk alerta, “o Irã não fará nenhum compromisso nuclear sem o fundo de reconstrução de US$ 300 bilhões”.
- Artigo 6 (Fundo de reconstrução): Os EUA e seus parceiros regionais se comprometem a criar um plano de reconstrução de pelo menos US$ 300 bilhões para o Irã. O plano será formulado em 60 dias. Sem ele, não há acordo final.
- Artigo 7 (Fim de todas as sanções): Os EUA se comprometem a acabar com todas as sanções contra o Irã — incluindo as da ONU, da AIEA, e as unilaterais americanas (primárias e secundárias). Isso inclui sanções por terrorismo, direitos humanos, mísseis e proliferação de armas. McGurk é claro: “Isso vai além de qualquer coisa que os EUA já tenham feito ou oferecido no passado.”
- Artigo 8 (Questão nuclear): O Irã “reafirma” que não buscará armas nucleares. Mas, como McGurk observa, “a linguagem sobre armas nucleares não é nova. O JCPOA dizia a mesma coisa”. E o texto não define um caminho claro para um acordo permanente. O material enriquecido será “adequadamente tratado em um acordo final” — com a “metodologia mínima” de down-blending no local – parece estranho o Irã aceitar isso, da forma como está definido. A conferir – , sob supervisão da AIEA. Trump havia exigido que o material fosse removido do país. O acordo recua.
O Que o Acordo Não Diz
O silêncio do memorando é tão revelador quanto o que ele diz. Não há menção:
- Ao programa de mísseis iranianos.
- Ao apoio do Irã ao Hezbollah, Hamas, Houthis e outros grupos de resistência.
Como McGurk pergunta: “O Irã faria alguma concessão em troca do fim de todas as sanções? É difícil imaginar que os EUA levantariam todas as sanções apenas em troca de passos nucleares.”
A resposta implícita é: não fará. O Irã manteve as suas linhas vermelhas. Os EUA as aceitaram.
O Precedente do JCPOA e a Ironia Trumpista
McGurk lembra que o JCPOA — o acordo nuclear que Trump chamou de “o pior acordo da história” e do qual retirou os EUA em 2018 — continha exatamente a mesma promessa iraniana: “O Irã reafirma que nunca buscará, desenvolverá ou adquirirá armas nucleares.” Entretanto, aqui há uma fundamental diferença. Naquele acordo o Aiatolá Ali Khamenei estava respaldado por uma Fatwa, que determinava, expressamente, a renúncia pelo Irã aos armamentos nucleares. Ali Khamenei ao ser morto pelos EUA/Israel, jogaram no colo do novo Aiatolá, Mojtaba Khamenei, filho do Líder Supremo assassinado, a real possibilidade de revisão dessa Fatwa. O atual grupo de poder iraniano nos parece claramente favorável a que o Irã se torne um Estado nuclear, como Israel e o seu vizinho Paquistão.
O memorando envolve o pagamento de um preço altíssimo – na perspectiva de McGurk – (US$ 300 bilhões em reconstrução, o fim de todas as sanções, permissões para petróleo exportação de petróleo e derivados, devolução de ativos) para que o Irã reafirme a mesma promessa que já havia feito — e que foi destruída pela própria decisão de Trump de sair do acordo.
A ironia é cruel: Trump destruiu o JCPOA, iniciou uma guerra para “destruir” o programa nuclear iraniano, e agora assina um acordo que não é tão bom quanto o JCPOA. Como McGurk observa: “O memorando de entendimentos não mapeia o caminho para um acordo mais amplo e permanente. Na verdade, torna esse caminho mais difícil, dado o alívio concedido ao Irã no início.”
O Que Vem Agora: A Assinatura em Genebra e a Ameaça de Trump
O acordo será assinado amanhã, sexta-feira (19), em Genebra. Mas Trump já indicou que não o respeitará. Durante a cúpula do G7 na França, ele disse:
“Se eu não gostar, voltamos a atirar neles, lançando bombas bem no meio de suas cabeças.”
A declaração, como se vê, mostra que os compromissos para Trump valem nada. Ele fez essa declaração sem qualquer pudor, antes mesmo da assinatura. Uma violação ao espírito do acordo — que proíbe a ameaça ou o uso de força. E, como McGurk observa, “declarar no papel que uma guerra termina em todo o Oriente Médio, sem nenhum compromisso do Irã de parar de apoiar os grupos terroristas que fomentam a guerra na região, não faz nada na prática”.
E como esperar que o Irã cumpra a sua parte? Com um presidente que, a qualquer momento, pode acordar de mau humor, chamar o seu secretário da guerra e dizer: “sabe de uma coisa. Hoje vamos voltar a atacar o Irã”. Esse homem envergonha os EUA.
O cenário mais provável, segundo McGurk, é que o acordo não dure. Os EUA deram quase tudo o que tinham (alavancagem) em troca da abertura do Estreito de Ormuz. E, à medida que as negociações se arrastarem ou entrarem em impasse, a paz que o memorando de entendimentos promete estabelecer pode não durar.
A Rendição de Washington
O memorando de entendimento entre os EUA e o Irã é um documento histórico — não porque traga paz, mas porque formaliza o que o PolitikBr já vinha documentando: os Estados Unidos perderam a guerra contra o Irã.
Trump prometeu “aniquilar” o Irã e o fazer “voltar à Idade da Pedra“. Em vez disso, vai assinar um acordo que oferece ao Irã US$ 60−70 bilhões/ano de receita de petróleo e derivados, US$ 24 bilhões em ativos congelados, a promessa de US$ 300 bilhões em reconstrução, e o fim de todas as sanções. Em troca, o Irã reabre um estreito que estava aberto antes da guerra e reafirma uma promessa que já havia feito no JCPOA.
A única pergunta que fica é: quanto tempo levará para Trump, que já ameaçou violar o acordo no G7, encontrar um pretexto para rompê-lo?
O mundo respira aliviado — por enquanto. Mas a semente da próxima guerra já foi plantada.
Nota ao leitor: Este artigo buscou compilar, numa análise única e aprofundada, os elementos factuais e contextuais que cercam o memorando de entendimento entre os Estados Unidos e o Irã mediado pelo Paquistão — desde os termos do acordo (incluindo as concessões americanas e as obrigações iranianas) e a análise de Brett McGurk (CNN), até a ameaça de Trump de violar o acordo, mencionadas no G7. As fontes utilizadas são públicas e estão devidamente listadas para a sua verificação.
Agradecimento: Em apenas 17 dias de junho de 2026, o PolitikBr foi acessado a partir de dezenas de países — talvez o seu. Um agradecimento especial aos leitores dos Estados Unidos, do Japão, do Brasil, de Israel, da China, do Irã, da Rússia, e de tantos outros que nos acompanham dia após dia. Seguimos, juntos, dedicados à verdade e à paz, em todos os idiomas.
Esse artigo foi baseado em:
- CNN (Brett McGurk): How to read the US-Iran draft agreement: Big commitments from Washington, not from Tehran (17/06/2026)
- CNN: US releases official agreement with Iran. Read the 14-point text (17/06/2026)
- PolitikBr: BREAKING NEWS – A CAPITULAÇÃO DE TRUMP (14/06/2026)
- PolitikBr: NETANYAHU ENTRE HUMILHAR TRUMP OU ADMITIR A COMPLETA DERROTA (15/06/2026)
- PolitikBr: A Pax Americana de Joelhos (16/06/2026)
- PolitikBr: MEARSHEIMER: “Trump Foi Enganado por Netanyahu e pelo Mossad” (29/04/2026)