O Crepúsculo da Ordem Unipolar – A Geopolítica de Trump na Cúpula de Ancara e o Avanço Silencioso da China na Eurásia

Principais Entregas:

  • A Geopolítica da Amizade Trump-Erdogan
  • O Tabuleiro Energético e Militar no Oriente Médio
  • A Crise na OTAN e a Busca por uma Nova Ordem
  • A Contraposição Estratégica da China

Internacional, Nacional, Geopolítica, Economia

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Por PolitikBr I Brasília, Em 09/07/2026, 09h:10min, leitura: 11min

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Editor: Rocha, J.C.

Essa é uma análise documental. Para visualizar “o todo” recomendamos a leitura dos demais artigos, e publicações relacionadas, que se somam ao tema de hoje. Boa leitura.

Há um antigo adágio na política internacional que afirma que as alianças são movidas por interesses, não por afetos. Contudo, na 36ª cúpula da OTAN, realizada em Ancara nos dias 7 e 8 de julho de 2026, testemunhamos a personificação crua e direta desse princípio.

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, ao desembarcar na capital turca, deixou claro que a sua presença ali não era uma homenagem à aliança atlântica, mas uma deferência pessoal ao presidente turco, Recep Tayyip Erdogan.

Em uma declaração que soou como um tapa na cara dos aliados europeus, Trump afirmou: “Se a conferência não tivesse sido realizada na Turquia, e não tivesse sido presidida pelo presidente Erdogan, provavelmente eu não teria vindo.”  Esta frase, calculadamente dita por Trump para viralizar nas mídias, atingiu o seu objetivo, mas é revelador, porém, do desdém, desde há muito tempo, de Trump em relação aos europeus. Ele os vê como um fardo para os EUA. E, no fundo, é a revelação de uma profunda fissura na arquitetura de segurança ocidental, onde a lealdade a um “amigo forte” supera o compromisso institucional com os 32 membros da aliança. E Trump fez questão de deixar isso bem claro.

A Geopolítica da Amizade Trump-Erdogan

A administração Trump sempre flertou com a ideia de que a política externa é uma extensão dos negócios e das relações pessoais. Na Turquia, isso se traduziu no anúncio de que os Estados Unidos suspenderiam as sanções impostas à Ancara pela compra do sistema de defesa russo S-400, e considerariam seriamente a venda à Turquia dos caças furtivos F-35. Até porque se ele não fizer isso, os turcos podem decidir pela compra dos poderosos caças russos, também de quinta geração, sukhoi 57. A novíssima versão dele o sukhoi 57D, ou favorecer a sua própria e avançada indústria bélica, que desenvolveu e está avançando na produção do TAI KAAN, um caça de 5ª geração, além do TAI Hürjet, uma aeronave de ataque leve e de treinamento avançado de 4,5ª geração

Para Erdogan, portanto, a reabilitação no programa F-35, não necessariamente, deve ser lida como essencial à modernização do poderio militar da Turquia, comparável ao de Israel, mas sim, política.

O gesto americano é, sim, um aceno, em um momento de enorme instabilidade na Eurásia, em que os turcos se equilibram entre continuar aliados do ocidente, mas sem perder os laços com a Rússia e com a China. Porém, em algum momento, os turcos terão que decidir de que lado irão ficar. E é por isso que Trump adula Erdogan e tripudia os europeus.

Para Erdogan, ainda, diante das pressões dos sionistas que, declaradamente, veem a Turquia como inimigo existencial, assim como o Irã, e pressionavam os americanos para continuarem vetando a venda dos F-35 aos turcos, a decisão de Trump, contrariando o poderoso lobby sionista americano, foi uma vitória espetacular.

Isso, contudo, acirrou as tensões com Israel, que vê a ascensão militar da Turquia como uma ameaça direta à Israel.

O primeiro-ministro Benjamin Netanyahu lançou um apelo público e desesperado: 

“Se eles receberem os F-35 e esses motores à jato, o equilíbrio de poder no Oriente Médio será perturbado.” .

Para Netanyahu, os EUA devem proteger “a superioridade aérea de Israel”. Em entrevistas coletivas e discursos direcionados à Casa Branca, às vésperas da Cúpula da OTAN, Netanyahu foi enfático ao dizer que o governo de Recep Tayyip Erdogan não deve receber os F-35 ou seus motores. Ele argumentou que entregar jatos de quinta geração para Ancara “alteraria o equilíbrio de forças no Oriente Médio”, e que a Turquia, por sua proximidade ideológica com a Irmandade Muçulmana e o Hamas, representa um risco inaceitável de segurança. A resposta de Trump, entretanto, foi seca e pragmática, elogiando Erdogan por transformar a Turquia em um país “muito melhor e mais forte”.

A recusa de Trump em ouvir o seu aliado mais importante no Oriente Médio – uma verdadeira “cabeça de ponte” dos Estados Unidos no “core” do mundo – evidencia um realinhamento tático: a Turquia, pela sua localização estratégica entre a Ásia e a Europa, e poderio militar, se tornou um ativo mais valioso para os projetos imediatistas de Washington, do que a influência de Israel na região ou… Trump mente, e tudo é jogo de cena para se manter nos holofotes das mídias. Tudo é possível, em se tratando de uma personalidade patológica, falsa e mentirosa.

O Tabuleiro Energético e Militar no Oriente Médio

Enquanto a diplomacia pessoal de Trump desenhava novos alinhamentos na OTAN, o cenário no Oriente Médio explodia em chamas. A cúpula de Ancara ocorreu em meio a uma escalada brutal entre os EUA e o Irã.

Após os Estados Unidos voltarem a insistir em tentar controlar o Estreito de Ormuz, escoltando petroleiros, algo inadmissível para o Irã, a resposta, óbvia, era que o Irã iria atacar os petroleiros. E foi o que aconteceu. Cinco eles foram bombardeados, e isso deu à Trump a desculpa perfeita para dizer que os iranianos violaram o memorando de entendimentos assinado em Versalhes e, novamente voltar a atacar o Irã: Uma queda de braços pelo controle do Estreito de Ormuz.

O Irã já havia declarado, faz semanas, que a cada ataque do consórcio EUA/Israel, a resposta seria proporcionalmente maior. E está sendo. Nesse segundo dia de novos ataques entre os dois adversários, após os ataques dos EUA ao sul do Irã, matando 14 civis, a resposta iraniana já contabilizava ter atacado 82 ativos militares americanos, espalhados por todo o Oriente Médio. A situação segue incerta nesse momento. Mas, obviamente, os EUA não tem cacife para a continuidade dessa inútil campanha. Lembrando que os EUA continuam com os seus estoques estratégicos de petróleo pesado extremamente baixos – US Oil Stockpiles and the Iranian Nuclear Sword Forced Washington’s Capitulation

A nova escalada da guerra – pausada pelo cessar-fogo, útil aos dois lados ( Scott Ritter: “The War Was Lost. Period.”) – revelou as fragilidades da estratégia americana. Trump, ao mesmo tempo em que ataca o Irã, critica abertamente os aliados europeus por não terem cedido o seu espaço aéreo e bases durante as operações. “A Itália nos recusou, a Alemanha nos recusou e a França nos recusou” , queixou-se – na verdade, a Alemanha permitiu o uso de uma base americana em seu solo, mas criticou a não comunicação prévia, e por desconhecer as estratégias. Além da Itália e da França, o país mais restritivo ao uso americano de seu espaço aéreo e centros de logística, em sua campanha contra o Irã, foi a Espanha – , demonstrando o isolamento voluntário em que a sua política belicista colocou os EUA. Ele testou a OTAN e descobriu que, embora ela seja uma aliança militar, os seus membros não estavam dispostos a serem arrastados para uma guerra não consultada, e profundamente impopular na Europa.

Ainda durante a cúpula, Trump renovou a sua obsessão pela Groenlândia, afirmando que o território dinamarquês “deveria ser controlado pelos Estados Unidos, e não pela Dinamarca” . Esta declaração não é apenas um absurdo diplomático, violando o princípio fundamental da OTAN de respeitar a soberania de seus membros; é um indicativo de uma mentalidade neocolonial e de uma visão de mundo, onde o poder é exercido pela coerção e pela compra, não pelo consenso.

Ao exigir a Groenlândia por seus recursos minerais e posição estratégica, Trump personifica a lógica do saque, em contraste direto com a lógica do investimento que os seus adversários empregam. Afinal, de que forma o governo Trump se coloca diante do mundo, senão como autênticos bucaneiros.

A Contraposição Estratégica da China

É justamente nesse vácuo de liderança, e nessa cacofonia de ameaças e exigências, que a figura da China se impõe, não por meio de bombas ou decretos, mas através da paciência histórica e do planejamento metódico.

Como analisa o estrategista Pepe Escobar, a China não busca derrubar a influência dos EUA na Eurásia com um confronto direto; ela o está “banindo” silenciosamente por meio de uma teia de negociações, investimentos e soft power. Quando os EUA perceberem, não haverá mais espaço para eles na Eurásia.

Enquanto Trump transforma a OTAN em um campo de batalha de vaidades pessoais, questionando a sua utilidade e exigindo pagamentos de proteção, a China avança com a Iniciativa do Cinturão e Rota. Enquanto Washington impõe sanções e ataques militares (como contra o Irã), Pequim negocia acordos de longo prazo e parcerias econômicas. Enquanto a política americana é errática e personalista, a chinesa é previsível, e orientada por interesses nacionais de longo prazo.

A Turquia de Erdogan, insatisfeita com o tratamento recebido da Europa e seduzida pela força de Trump, também olha para o Oriente. A participação turca na inciativa Cinturão e Rota, e os seus laços com a Rússia e com a China, demonstra a compreensão de Ancara, de que o futuro da Eurásia não será decidido unicamente em Washington ou Bruxelas. Ao mesmo tempo em que Trump elogia Erdogan, ele não oferece um projeto de desenvolvimento; oferece armas e promessas de amizade. Já a China, em sua interação com o Irã, por exemplo, oferece um acordo de 25 anos que garante investimentos e estabilidade, não apenas caças.

A questão que fica é: a quem serve esse circo geopolítico? A resposta parece evidente. Cada movimento errático de Trump, cada ameaça à Groenlândia, cada desprezo pela diplomacia multilateral, fortalece o discurso daqueles que defendem um mundo multipolar. A China não precisa desejar o declínio dos EUA; basta observar a sua autodestruição estratégica.

O poder que se constrói no diálogo e no investimento tende a ser mais durável do que aquele que se impõe pela força e pela intimidação. Nesse sentido, a estratégia da China, embora lenta e silenciosa, parece estar escrevendo o futuro, enquanto os EUA e os seus aliados apenas se debatem e reagem ao presente caótico. O “Crepúsculo da Ordem Unipolar” não é mais uma previsão; é o cenário que vemos se desenrolar diante de nossos olhos, com Ancara servindo como o palco mais recente e revelador dessa transição histórica.

Nota ao leitor: Este artigo buscou compilar, em uma análise única e aprofundada, os elementos factuais e contextuais que cercaram a Cúpula da OTAN em Ancara, em julho de 2026, e as implicações geopolíticas mais amplas, incluindo o avanço estratégico da China. As fontes utilizadas são públicas e estão devidamente listadas para sua verificação.

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