Turismo da Saúde: Quando o Paciente Atravessa o Mundo Para Escapar do Preço da Cura da Doença

Principais entregas desse artigo:

  • O novo mapa mundial do turismo da saúde
  • Quando o tratamento do câncer fica caro demais no Ocidente
  • A extraordinária experiência de uma médica australiana na China
  • CAR-T: ciência de ponta, preço de ponta — ou não?
  • China e a industrialização da medicina de precisão
  • O SUS brasileiro como contraponto
  • Brasil: da medicina pública ao turismo médico internacional
  • Quando a saúde deixa de ser direito e vira mercadoria
  • O lucro como finalidade ou a saúde como finalidade?
  • O que está por trás da disputa entre os modelos

Internacional, Nacional, Política, Economia, Geopolítica, Saúde e Bem Estar

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Por PolitikBr I Brasília, Em 16/09/2026, 17h:35min, leitura: 15min

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Editor: Rocha, J.C.

Essa é uma análise documental. Para visualizar “o todo” recomendamos a leitura dos demais artigos e publicações relacionadas, que se somam ao tema de hoje. Boa leitura.

Durante décadas, quando se falava em turismo médico, os destinos mais lembrados eram países como Tailândia, Índia, Coreia do Sul ou, em determinadas especialidades, o próprio Brasil. A lógica era relativamente simples: pacientes de países ricos viajavam para países onde encontravam profissionais qualificados, e tratamentos ou procedimentos à custos menores.

Mas alguma coisa começou a mudar. Agora há pacientes deixando países desenvolvidos para procurar tratamentos sofisticados na China. E não estamos falando apenas de odontologia, cirurgia estética ou procedimentos relativamente simples. Estamos falando de pacientes com doenças graves, inclusive cânceres hematológicos, procurando no outro lado do mundo terapias celulares de altíssima complexidade, como a CAR-T.

O fenômeno é revelador porque coloca diante de nós uma pergunta incômoda: Como é possível que uma pessoa vivendo em um dos países mais ricos do mundo tenha de atravessar o planeta, para conseguir um tratamento médico avançado a um preço que consiga pagar?

A resposta não está apenas na medicina. Está na economia. Está na organização dos sistemas de saúde. E, principalmente, está naquilo que cada governança hesita que a saúde deve ser: um direito social ou uma mercadoria.

A paciente que precisou atravessar o mundo

Um dos relatos mais impressionantes sobre esse fenômeno aparece em uma reportagem do serviço mundial da BBC. Amanda Harvey, de Brisbane, na Austrália. tinha sido diagnosticada com mieloma múltiplo sete anos antes. No final de 2024, segundo o seu próprio relato, ela havia chegado ao limite das opções terapêuticas disponíveis na Austrália. Mas havia uma peculiaridade importante: Amanda não era apenas paciente. Ele é médica, com formação em patologia celular. E isso significa que ela tinha condições de compreender, tecnicamente, aquilo que estava procurando. E foi exatamente essa combinação — a experiência de paciente e o conhecimento médico — que a levou a pesquisar alternativas fora de seu próprio país.

Ela procurou inicialmente os Estados Unidos e o Reino Unido, e encontrou um obstáculo que nada tinha a ver com a inexistência da tecnologia. O problema era o preço e a espera pelo tratamento.

Segundo o cálculo que a própria Amanda fez, o tratamento nos Estados Unidos ou no Reino Unido poderia chegar a aproximadamente 1 milhão de dólares australianos (US$ 700 mil), sem considerar eventuais complicações, internação prolongada ou cuidados intensivos.

Na China, segundo o seu relato, o custo hospitalar e do tratamento ficou em aproximadamente 110 mil dólares australianos. Ou seja: uma diferença de quase dez vezes a menos.

Aqui está o ponto em que a discussão deixa de ser meramente médica. Porque estamos falando de uma terapia que existe. De uma tecnologia que existe. De hospitais capazes de executá-la. De médicos capazes de aplicá-la. Mas, dependendo do país onde o paciente nasceu ou vive, o acesso ao tratamento pode significar uma diferença de centenas de milhares de dólares.

A doença é a mesma. A tecnologia é essencialmente a mesma. O que muda é o sistema econômico que intermedeia o acesso à medicina.

CAR-T: quando o sistema imunológico vira arma contra o câncer

A terapia CAR-T pertence a uma das fronteiras mais sofisticadas da medicina contemporânea.

De maneira simplificada, células T do sangue do próprio paciente são coletadas, modificadas para reconhecer determinados alvos presentes nas células tumorais, e posteriormente reinfundidas no organismo. Nessa condição, essas células modificadas são capazes de identificar com mais eficiência as células tumorais e assim eliminá-las do organismo. Nesse caso, as células do mieloma. É medicina de precisão em seu sentido mais literal. E justamente por isso a terapia é cara.

A técnica, que já salvou milhares de pessoas acometidas de cânceres associados ao sangue humano, exige coleta celular, processamento, laboratório especializado, controle de qualidade, logística, equipe médica altamente especializada, e uma cadeia tecnológica extremamente sofisticada. Mas é justamente aqui que surge a questão econômica mais interessante. Por que o mesmo tipo de tecnologia pode custar tão dramaticamente diferente dependendo do país?

A jornalista Caroline Khan, da Bloomberg, entrevistada pela BBC, apontou alguns elementos para as diferenças de preços observadas em diferentes países.

Segundo ela, medicamentos e tecnologias podem receber preços muito diferentes em mercados distintos, inclusive em razão do poder de negociação das empresas farmacêuticas, e das condições econômicas de cada país. No caso específico da CAR-T, ela também destacou a importância da escala produtiva: quanto maior e mais eficiente a capacidade de fabricação, menor tende a ser o custo de cada etapa do processo. E aqui encontramos uma palavra que explica uma parcela importante do fenômeno: escala.

A China descobriu que medicina também pode ser indústria estratégica

A China não surgiu ontem nesse mercado. Segundo a reportagem da BBC, o governo chinês já vinha tentando desenvolver o turismo médico havia mais de uma década. Um dos exemplos citados é a criação, em Hainan, de uma zona destinada ao turismo médico internacional. O movimento ganhou força com a extraordinária expansão da indústria farmacêutica e biotecnológica chinesa.

A CAR-T oferece um exemplo particularmente interessante. O primeiro produto CAR-T foi aprovado nos Estados Unidos em 2017. Na China, o primeiro produto foi aprovado em 2021. Apesar da diferença temporal, a China rapidamente ampliou a sua capacidade de pesquisa, e passou a ocupar uma posição de destaque mundial em ensaios clínicos de CAR-T. Não se trata, portanto, simplesmente de “hospital barato”. Existe uma estratégia industrial por trás desse movimento. Aliás, tudo que a China faz, o faz bem, mais rápido e mais barato.

A própria reportagem observa que o governo chinês procura transformar a imagem do país: de uma potência associada principalmente à manufatura para uma nação moderna, na vanguarda, capaz de inovar, desenvolver tecnologias e liderar setores estratégicos, no limite do conhecimento atual. É exatamente aqui que o fenômeno do turismo da saúde se encontra com a política industrial e de serviços. A medicina passa a ser estratégica na soberania e ferramenta de vantagem industrial e tecnológica da China.

E há uma informação ainda mais perturbadora: o tempo

O preço, entretanto, não é a única variável. Existe outra que, para um paciente com câncer, talvez seja ainda mais importante: tempo.

Amanda relata que as suas células CAR-T ficaram prontas para uso em aproximadamente oito dias depois da coleta. Segundo ela, nos Estados Unidos o processo poderia levar de dois a três meses. E há uma consequência dramática quando o tratamento demora: o câncer não espera a burocracia.

No caso relatado pela médica australiana, ela chama atenção para o fato de que alguns pacientes podem piorar, durante o período necessário para a fabricação das células modificadas, e chegar ao ponto em que já não estejam suficientemente bem para receber a terapia. Quando o tratamento é personalizado, o tempo também se torna parte do tratamento. E transformar tempo em burocracia pode ser tão grave quanto transformar tratamento em mercadoria.

O modelo neoliberal: a saúde como mercadoria

Nos Estados Unidos, o sistema de saúde movimenta mais de US$ 5 trilhões por ano, e em breve deve atingir a marca de US$ 6 trilhões. Desse total uma parcela significativa vai par o bolso dos acionistas. Um estudo de 2026 revelou que as corporações de saúde americanas gastaram US$ 2,6 trilhões em duas décadas.

A indústria de saúde privada direcionou 95% do seu lucro líquido agregado para o bolso dos investidores. Em alguns setores específicos (como distribuidoras e farmacêuticas), os pagamentos aos acionistas chegaram a superar o próprio lucro líquido do período.

Já as fabricantes de medicamentos operam com margens de lucro médias de 23,2%, contra as margens de lucros dos planos de saúde, que giram em torno de 0,8% e 2%.

O resultado humano dessa equação é devastador. O senador Bernie Sanders, citando um estudo publicado no American Journal of Public Health, afirma que 530.000 americanos vão à falência a cada ano devido a dívidas médicas. “Sim. Precisamos do Medicare for All — AGORA”, escreveu ele.

Os críticos contestam a metodologia do número apresentado por Sanders, argumentando que ele inclui falências, em que problemas de saúde foram um fator contribuinte, não necessariamente a causa primária. Independentemente da precisão do dado, o fato de que centenas de milhares de americanos enfrentam a ruína financeira por adoecer permanece incontestável — e é uma realidade que não encontra paralelo em nenhuma outra nação rica.

Amanda Harvey resume a perversidade do sistema com uma franqueza que dispensa análises acadêmicas: “A economia da saúde significa que o financiamento real de um tratamento fica muito atrás do que é descoberto nos ensaios clínicos.”

A resposta desenvolvimentista: China e Brasil como novos polos

Enquanto o Ocidente aprofunda a mercantilização da saúde, a China e o Brasil constroem alternativas que partem de premissas radicalmente diferentes. Não se trata de caridade — é desenvolvimento científico e tecnológico à serviço da sociedade.

China: a revolução regulatória e a eficiência brutal

A China construiu, em menos de uma década, uma infraestrutura de terapia celular que hoje lidera o mundo. Como dissemos, o primeiro produto CAR-T foi aprovado nos EUA em 2017 e o primeiro produto chinês em 2021 — e hoje a China tem cinco produtos aprovados, com ensaios clínicos, em número superior ao de qualquer outro país.

O diferencial chinês está na articulação entre regulação ágil, escala industrial e negociação estatal de preços. A National Healthcare Security Administration (NHSA) negocia diretamente com as farmacêuticas: em 2023, ela conseguiu reduzir o preço de tabela do Relma-cel em 35%. A manufatura doméstica, com empresas como JW Therapeutics e IASO Bio, corta o custo por lote em 40% a 60%, em relação às instalações americanas.

A Zona Piloto de Turismo Médico Internacional de Boao Lecheng, em Hainan, sintetiza essa abordagem. Com entrada sem visto para cidadãos de 86 países, a região comprimiu o tempo de aprovação de medicamentos importados de 60 dias para uma média de 40 horas — às vezes, meio dia. O sistema de seguro especial, por 49 yuans (cerca de US$ 8.00) dá acesso a até 2 milhões de yuans (US$ 290.000), em cobertura para produtos médicos licenciados.

Os resultados são mensuráveis: em 2025, os hospitais chineses com serviços internacionais atenderam 1,28 milhão de pacientes estrangeiros, um crescimento de 73,6% em três anos. Os pacientes europeus e americanos dobraram de número, e a região do Sudeste Asiático ultrapassou 150.000 pacientes anuais.

Brasil: o SUS como alternativa civilizatória

O Sistema Único de Saúde (SUS) garante, por mandato constitucional, atendimento gratuito à qualquer pessoa em território nacional — brasileiro ou estrangeiro. Em 2025, o SUS atendeu 775.000 estrangeiros, incluindo 81.000 portugueses.

A experiência de estrangeiros com o SUS se tornou fenômeno viral nas redes sociais.

A influenciadora americana Jesseka Martin, do Alasca, ficou 12 dias internada em um hospital público do Rio de Janeiro e relatou:

“Como americana, eu não sabia exatamente o que esperar. Mas, desde o primeiro dia, fui tratada com muito respeito, atenção e carinho por médicos, enfermeiros e toda a equipe. Minha experiência tem sido muito positiva, e isso mudou a forma como eu enxergo o sistema público de saúde no Brasil”

O jornalista Terrence McCoy, correspondente do Washington Post, foi atendido em Paraty após um acidente, e resumiu: “Fui atendido no Brasil e não paguei nada”.

O turismo médico ao Brasil cresce de 15% a 25% ao ano, com projeção de movimentar US$ 13 bilhões entre 2023 e 2030. São Paulo concentra 12% dos turistas ligados ao setor, e o país realiza mais cirurgias plásticas que qualquer outro no mundo — mais de 2 milhões em 2024.

Mas o desenvolvimento brasileiro vai além da estética. O país está construindo a sua própria capacidade de produção de CAR-T. Em junho de 2026, o Ministério da Saúde anunciou R$ 100 milhões (US$ 20 milhões) de investimento na terapia desenvolvida pela Universidade de São Paulo (USP) de Ribeirão Preto, em parceria com o Instituto Butantan, com eficácia de 87% contra linfomas. A Fiocruz lançou o Centro de Desenvolvimento e Produção de Terapias CAR-T, com meta de produzir o tratamento a um custo 80% menor que os produtos importados.

O ministro da Saúde, Alexandre Padilha disse: “Temos no SUS uma terapia que custa hoje em torno de US$ 500 mil o tratamento; a pessoa vai se tratar em outros países, nos Estados Unidos, paga do próprio bolso US$ 500 mil. Nós vamos ter isso no SUS de graça”.

Duas lógicas, dois futuros

A comparação entre os modelos é inevitável — e desconfortável para as nações ricas e industrializadas.

O modelo neoliberal trata a saúde como setor de acumulação de capital. O paciente é cliente; a doença, mercado; o tratamento, produto. A inovação é financiada, mas os seus frutos são apropriados privadamente, e o acesso é mediado pela capacidade de pagamento. O resultado é um sistema que produz excelência científica e miséria social em proporções equivalentes.

O modelo desenvolvimentista — expresso nas políticas chinesas e brasileiras — parte de premissa oposta: o conhecimento científico é bem público, e o acesso à saúde é direito, não privilégio. A remuneração do capital existe, mas é subordinada ao interesse coletivo. A inovação é incentivada, mas os seus frutos são socializados por meio de negociação estatal, produção pública e incorporação aos sistemas universais.

Não se trata de idealizar a China ou o Brasil — ambos enfrentam desafios enormes de infraestrutura, desigualdade regional e qualidade. Mas a direção da política é clara: enquanto o Ocidente aprofunda a mercantilização, a China e o Brasil constroem alternativas inclusivas, lucrativas e verdadeiramente humanas.

Amanda Harvey, que hoje está em remissão completa após o tratamento em Xangai, oferece o testemunho mais eloquente dessa diferença. “Não me senti tão bem desde antes do diagnóstico”, disse ela. A sua recuperação não é apenas um triunfo pessoal — é a prova viva de que outro modelo de saúde é possível.

Nota ao leitor:

Este artigo buscou compilar, em uma análise única, os elementos econômicos, tecnológicos e sociais relacionados ao crescimento do turismo da saúde, com especial atenção à migração de pacientes para tratamentos avançados contra o câncer na China e às características do modelo brasileiro de saúde pública, que recebe milhares de estrangeiros para cirurgias e tratamentos.

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Referências utilizadas neste artigo:

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