Publicado em 04/04/2025, 11:25h
A política de tarifas comerciais implementada pelo presidente Donald Trump, especialmente em relação à China, vai gerar impactos significativos na economia americana, com efeitos diretos sobre os consumidores. A decisão de impor tarifas elevadas sobre produtos importados, incluindo eletrônicos, automóveis, máquinas e bens de consumo essenciais, tem como objetivo declarado proteger a indústria doméstica e reindustrializar o país, estimulando dessa forma os empregos do setor industrial dos Estados Unidos perdidos desde a década de 1970, com o fortalecimento do neoliberalismo e a terceirização da produção industrial, em especial para a China . No entanto, os resultados práticos dessa estratégia revelam uma realidade mais complexa e onerosa para os próprios americanos.
As tarifas funcionam como um imposto sobre bens importados, aumentando o custo para as empresas que dependem de componentes ou produtos fabricados no exterior. No caso da Apple, por exemplo, que produz a maior parte de seus dispositivos na China, especialistas estimam que as tarifas cumulativas de até 54% poderão elevar os preços dos iPhones e MacBooks em até 10%, resultando em aumentos de US$50 a US$150 em modelos premium. Esse impacto não se limita à produtos tecnológicos; bens essenciais como alimentos e materiais escolares também estão sujeitos a aumentos significativos.

A experiência anterior com tarifas impostas por Trump 1.0 já demonstrou como essas medidas afetam o consumidor. Em 2018, uma tarifa de 50% sobre máquinas de lavar causou um aumento de 12% nos preços finais, representando um custo adicional de US$86 por unidade para os consumidores americanos. Estudos indicam que novas tarifas poderão reduzir a renda média das famílias americanas em até US$3.900 anuais para aquelas de classe média.
O tarifaço de Trump 2.0 deve resultar em aumento da inflação, inversão da tendência de redução da taxa de juros pelo FED, e até recessão, como resultado da inibição das atividades produtivas. Esse cenário será ainda mais agravado por retaliações comerciais de outros países, como as já anunciadas pelo Canadá(25%), e pela China ( 34% para todos os produtos importados dos EUA), prejudicando exportadores americanos e intensificando os efeitos negativos na economia global.
Embora algumas empresas tentem absorver parte dos custos para manter competitividade, essa estratégia tem limites. Muitas acabam transferindo os aumentos para os consumidores ou buscando alternativas de produção em países com tarifas menores, como Índia ou Vietnã. Contudo, esses países também têm enfrentado suas próprias imposições tarifárias nos últimos anos.
A conclusão é que a estratégia tarifária de Trump, embora ambiciosa no papel, se revela problemática na prática. Longe de proteger exclusivamente os interesses americanos, ela impõe uma carga financeira significativa aos consumidores e aumenta o custo de vida. Produtos como iPhones e alimentos básicos se tornam mais caros. As famílias terão que ajustar seus hábitos de consumo para lidar com os preços inflacionados ou deixar de consumir.
Não é da noite para o dia, como quer Trump, que 40 anos de intensa globalização e interdependência das cadeias produtivas mundo afora vá desaparecer de forma mágica. Com uma canetada.
Outro fato crítico, e pouco mencionado, é que reindustrializar um setor é um processo longo, complexo e demorado, seja nos Estados Unidos ou no Brasil, e que no caso americano envolve a recuperação de setores industriais perdidos ao longo das décadas, especialmente desde a década de 1970. Não é só a infraestrutura e o hardware. É também toda a mão de obra técnica especializada que desapareceu, e que terá que ser novamente formada ou, através da imigração, atraída para trabalhar nos Estados Unidos.
Os esforços de reindustrialização se tornaram mais visíveis a partir da administração Joe Biden, especialmente em setores mais críticos e de maior valor, como o de semicondutores e as energias renováveis. O prazo médio para a conclusão de projetos de fábricas nos EUA é de cerca de 3,5 anos, com a maioria das novas instalações previstas para ficar pronta entre 2024 e 2026. Considerando a complexidade e a escala dos investimentos necessários, é razoável estimar que a reindustrialização completa possa levar de 10 a 20 anos, dependendo da continuidade dos incentivos governamentais e do engajamento do setor privado. Não é da noite para o dia.
Se for levada a sério a política de repatriação da atividade industrial produtiva perdida, os investimentos necessários serão enormes. Para internalizar totalmente a produção de semicondutores, por exemplo, se estima que os EUA precisarão investir entre 350 a 420 bilhões de dólares. Em face disso, os esforços atuais governamentais incluem pacotes de incentivos ao setor privado, como o CHIPS Act e o Inflation Reduction Act, que juntos somam cerca de 470 bilhões de dólares em subsídios e créditos fiscais para a manufatura nos próximos anos. Para completar essa estratégia, desde o governo Biden há um foco muito grande nos investimentos em infraestrutura, com um pacote de 1,2 trilhão de dólares para os próximos dez anos.
A reindustrialização dos Estados Unidos é um processo ambicioso que requer investimentos significativos (mínimo de US$ 2 trilhões) e um período prolongado de implementação. Com os esforços atuais e a continuidade dos incentivos governamentais, sem mudanças de política e de prioridades, é possível que os EUA consigam recuperar parte de sua capacidade industrial perdida nos próximos anos, mas a completa reindustrialização pode levar décadas. O mais provável é que essa reindustrialização plena seja abandonada em algum momento, especialmente se perdurar o atual sistema neoliberal.
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