Principais entregas deste artigo:
- A conexão entre o ITA, o PIX e a engenharia financeira brasileira
- A obsolescência técnica do sistema SWIFT e as suas vulnerabilidades políticas
- O CIPS chinês e a corrida global por liquidação instantânea
- BRICS Pay e UNIT: a materialização da alternativa ao dólar
- O lobby do MasterCard e da Visa contra o PIX, e o desconhecimento de Trump
Internacional, Nacional, Política, Economia, Geopolítica
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Por PolitikBr I Brasília, Em 01/09/2026, 20h:28min, leitura: 12min
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Editor: Rocha, J.C.

Essa é uma análise documental. Para visualizar “o todo” recomendamos a leitura dos demais artigos e publicações relacionadas, que se somam ao tema de hoje. Boa leitura.
Há uma ironia profunda, daquelas que a história adora preparar, no fato de que o Brasil — um país que desmontou a sua indústria eletroeletrônica, que deixou morrer a Gradiente, a Vilares, a Gurgel — tenha se mantido na fronteira tecnológica justamente onde menos se esperava. Não nos aviões da Embraer, embora eles também estejam lá. Mas em um sistema de pagamentos instantâneos que, silenciosamente, se tornou uma das mais formidáveis ameaças à arquitetura financeira construída pelos Estados Unidos, ao longo das últimas oito décadas.
O PIX, lançado pelo Banco Central do Brasil em novembro de 2020, é, para o observador desatento, apenas uma conveniência: transferências bancárias em segundos, pagamentos de boletos com código QR, uma modernização do obsoleto TED e do DOC. Para o olhar geopolítico, porém, o PIX é muito mais. É uma tecnologia de liquidação instantânea que expõe, sem piedade, a obsolescência do sistema SWIFT — um sistema que, como bem lembrou o financista José Kobori, é arcaico”.
O que Kobori revela, com a franqueza de quem transita entre os corredores do poder financeiro e as salas do Instituto Brasileiro de Mercado de Capitais (IBMEC), é que o sistema SWIFT — a espinha dorsal das transações internacionais — opera em um modelo que lembra mais o fax do que a fibra ótica. “Pra você mandar um dinheiro daqui pra fora, demora tanto”, explica ele. E não demora por acaso. O dinheiro fica retido, enquanto os intermediários financeiros lucram com o float, com o tempo morto em que os recursos permanecem cativos. Um dia, às vezes mais, de liquidação. Um atraso que soa como um anacronismo deliberado.
Mas a questão não é apenas técnica. É política. É estratégica. É existencial para a ordem mundial que os Estados Unidos construíram desde Bretton Woods – Leia esse artigo: TRUMP ESTÁ DESTRUINDO OS EUA POR DENTRO — MAS O GRANDE RISCO PODE ESTAR NO JAPÃO.
O ITA e a engenharia da soberania financeira
Durante a conversa, o apresentador mencionou que o PIX teria sido desenvolvido no Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA) — e que uma de suas evoluções seria “quebrar o sistema SWIFT”. A afirmação, que à primeira vista pode soar conspiratória, encontra eco em dados verificáveis. O engenheiro eletrônico Ângelo José Mont’Alverne Duarte, um dos principais responsáveis pela criação do PIX, é formado pelo ITA, e doutor em Economia pela Fundação Getulio Vargas. O ex-reitor do ITA, Anderson Correia, chegou a declarar publicamente que “ter um engenheiro do ITA dirigindo o departamento do Banco Central responsável pelo PIX faz uma enorme diferença ao país”.
Não se trata, portanto, de uma invenção. O PIX carrega no seu DNA a engenharia de precisão que o ITA forjou para a aeronáutica brasileira — a mesma que produziu a Embraer, que hoje vende aviões de treinamento para a Força Aérea Americana, como o Super Tucano, considerado o melhor avião de treinamento militar do mundo; o KC-390, um avião de transporte à jato multi propósito, que é um estrondoso sucesso no mundo.
A mesma tecnologia e inteligência nacionais, permitiram à Petrobrás a exploração das imensas reservas dos campos petrolíferos off shore na Bacia de Campos, e agora na Margem Equatorial, em águas ultra profundas, que nem a Shell, e nem a Exxon, e a BP conseguiram replicar ou investir no risco financeiro de gastar bilhões de dólares e nada encontrar.
Uma nação que vende, privatiza as suas empresas estratégicas – energia, água, saneamento básico, telecomunicações e outras – está fadado a ser eterna colônia das nações do norte industrializado. A opção pelo desenvolvimentismo foi o que levou a Embraer alçar os voos de hoje, e ser uma das maiores players em tecnologias aeronáuticas. Assim como ela, a Petrobrás.
Sem o controle do Estado, dificilmente a Petrobrás investiria capital e arcaria com os custos de desenvolver tecnologias pioneiras que a tornaram a líder do mundo em exploração off shore. Só o financiamento e estímulo do Estado permite isso.
Veja. Sem os bilhões de dólares do contribuinte americano, as grandes empresas dos EUA não seriam o que elas são hoje. Simples assim.
Esse é o Estado brasileiro, em sua faceta mais competente, puxando o investimento privado — e não o contrário. “Se o Estado vai, as empresas privadas vão atrás”, sintetiza Kobori.
SWIFT: o gigante de pés de barro
O sistema SWIFT (Society for Worldwide Interbank Financial Telecommunication) foi criado em 1973, em uma época em que o Telex era o estado da arte das comunicações. Meio século depois, ele permanece como um monumento à inércia institucional — e, mais importante, como uma ferramenta de dominação política.
A capacidade de desconectar um país do SWIFT é, hoje, uma das armas mais poderosas do arsenal ocidental. Ela foi usada contra o Irã. Foi usada contra a Rússia, em 2022, quando cerca de US$ 300 bilhões em ativos russos foram congelados no exterior. Em outras palavras menos amenas: furtados.
Esse confisco, como observou Kobori, produziu um efeito colateral que Washington provavelmente não antecipou: a perda quase completa de credibilidade do sistema financeiro ocidental. Se o dólar e o SWIFT podem ser usados como armas, então nenhum país está seguro. E se nenhum país está seguro, todos os países — especialmente aqueles que não se alinham automaticamente com os interesses de Washington — precisam de alternativas.
A China já tem a sua: o CIPS (Cross-Border Interbank Payment System), que liquida transações em yuan digital em cerca de 15 segundos. É um pouco mais lento que o PIX, mas ainda assim é uma ordem de magnitude mais rápido que o SWIFT.
O Brasil, com o PIX, desenvolveu uma tecnologia que é ainda mais veloz. Quase instantânea. E o BRICS, como bloco, já começou a trabalhar em como costumizar a tecnologia do PIX, para criar o BRICS Pay.
BRICS Pay: o “PIX internacional”
O BRICS Pay, atualmente em fase avançada de testes, é descrito por especialistas como um sistema de pagamento instantâneo e descentralizado, que permitirá liquidações diretas entre os países-membros em moedas locais, sem a necessidade de conversão para o dólar.
O bloco BRICS+ representa hoje cerca de 40% da economia mundial medida por paridade de poder de compra, contra apenas 28-29% do G7. Se o comércio intra-BRICS — que já movimenta centenas de bilhões de dólares anualmente — passar a ser liquidado, exclusivamente, em moedas locais, a demanda global por dólares cairá drasticamente.
O passo seguinte, e talvez o mais radical, é a UNIT — uma unidade de conta lastreada em 40% ouro e 60% em uma cesta de moedas dos países do BRICS+. Não é uma moeda para circular no bolso do cidadão, mas uma âncora, um padrão de valor, uma referência, que não depende da vontade de nenhum banco central em particular. É, nas nossas palavras: “o último prego no caixão do dólar”.
O lobby de MasterCard e Visa: a ignorância de Trump
Kobori revela um detalhe extraordinário sobre os ataques recentes ao PIX. “Primeiro, foi um lobby da MasterCard e da Visa com Donald Trump”. As bandeiras de cartão de crédito, que faturam bilhões com as transações no Brasil, viram no PIX uma ameaça direta ao seu negócio. E Trump, como Bolsonaro antes dele, demonstrou um conhecimento nulo sobre o que estava atacando. “Quando perguntaram pro Trump o negócio do PIX, ele falou que era contra o PIX, perguntaram pra ele e não sabia o que era o PIX. Ele só repetiu o que a Master e a Visa falaram”.
A analogia com Bolsonaro é precisa. Quando o Banco Central lançou o PIX, o então presidente foi parabenizado por um repórter e respondeu que achava que era “um negócio da aviação civil”. Ou seja, o homem que assinou o decreto — ou cujo governo assinou — não fazia a menor ideia do que estava sendo criado.
Essa ignorância, porém, não é apenas anedótica. Ela revela uma verdade mais profunda: os Estados Unidos, como potência, estão reagindo ao PIX não por um cálculo estratégico consciente, mas por pressão de interesses corporativos específicos. A MasterCard e a Visa não querem perder o mercado brasileiro. Mas, ao fazerem lobby contra o PIX, estão, sem saber, atacando uma tecnologia que pode ser a semente de um sistema financeiro pós-americano.
A fronteira tecnológica que o Brasil ainda ocupa
Kobori faz uma reflexão que merece ser destacada. O Brasil, depois de desindustrializar o país e “matar a Gurgel, matar a (Aços) Vilares, matar a Gradiente”, ainda assim se manteve na fronteira tecnológica em áreas estratégicas. A Embraer, a Petrobras, e agora o PIX. “A gente ficou na fronteira tecnológica com uma empresa: Embraer”. E a Embraer, hoje, é mais avançada que a Bombardier e a Boeing — tanto que a Boeing tentou comprá-la.
O que salvou a Embraer foi o fato de ter sido estatal durante o período em que precisava de subsídios e proteção. “Até ela chegar e falar: agora eu sou a fodona do mercado, pode me deixar”. A Petrobras passou pelo mesmo processo. E o PIX, embora não seja uma empresa, é fruto do mesmo modelo: o Estado desenvolve a tecnologia, alcança a maturidade, e então — se for o caso — o setor privado pode assumir. Mas o Estado precisa estar presente no início.
O problema, como Kobori aponta, é que o agronegócio, por exemplo, não vai se preocupar em industrializar ou criar empresas agrícolas no Brasil. “Pra eles tá bom, eles tão ganhando dinheiro. Pra que eles vão correr o risco?”. É o Estado que tem que pensar nisso.
A hegemonia do dólar em xeque
A pergunta que fica, ao final dessa análise, é: o PIX pode realmente ameaçar a hegemonia do dólar? A resposta, como tudo na geopolítica, é complexa. O PIX, isoladamente, é um sistema doméstico. Mas a tecnologia que ele incorporou — liquidação instantânea, custo zero, rastreabilidade — é o que falta ao sistema financeiro internacional para se livrar da dependência do SWIFT. E o BRICS Pay ao adotar essa tecnologia, integrando-a com o CIPS chinês e com os sistemas de outros países, então o dólar pode, de fato, perder seu papel de intermediário universal.
Os Estados Unidos sabem disso. “Eles já têm uma preocupação, porque o sistema que a China desenvolveu, o CIPS, que utiliza o RMB, o yuan digital, é muito parecido com o PIX em velocidade”. A diferença é que o PIX é mais rápido. E a China, que já tem a maior economia do mundo em paridade de poder de compra, está de olho nessa tecnologia.
“Uma das evoluções do PIX é pra melhorar a forma de pagamento e quebrar o sistema SWIFT”, afirma Kobori. Não é uma declaração oficial do Banco Central, mas é uma avaliação de quem conhece os bastidores. E, considerando que o PIX foi criado por um engenheiro do ITA, que sabia exatamente o que estava fazendo, não é uma avaliação descabida.
O que está em jogo, portanto, não é apenas a conveniência de pagar um boleto com QR Code. Está em jogo a própria estrutura de poder global. O dólar não é apenas uma moeda; é o sangue que irriga o sistema financeiro internacional, e que mantém os EUA em sua gastança desenfreada que, aliás, o mundo paga. E o PIX, com a sua velocidade e asua tecnologia, é uma pequena incisão nessa artéria. Por enquanto, é apenas uma incisão. Mas, como toda hemorragia, ela pode se tornar fatal se não for estancada a tempo.
E os Estados Unidos, ao que parece, estão mais preocupados em atacar o PIX do que em modernizar o SWIFT. Preferem o lobby à inovação. Preferem a coerção à concorrência. E, nesse caminho, podem estar cavando a própria sepultura.
Nota ao leitor:
Este artigo buscou compilar, em uma análise única e aprofundada, os elementos factuais e contextuais que cercam o PIX, o sistema SWIFT, o CIPS chinês, o BRICS Pay e a ameaça à hegemonia do dólar. As fontes utilizadas são públicas e estão devidamente listadas para a sua verificação.
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Referências Utilizadas:
- You Tube (2026): O PIX pode mudar o sistema financeiro mundial!
- PolitkBr (2026): BRICS PAY: A Arma Financeira Que Pode Concorrer com o Dólar – Um Desafio à Hegemonia Americana
- PolitikBr (2026): A Tempestade Perfeita: BRICS Pay/UNIT. O Último Prego no Caixão do Dólar e o Colapso Silencioso da Hegemonia Americana