Miguel Nicodelis (neurocientista): China vs EUA – A Diferença da Ciência é Brutal

Principais entregas deste artigo:

  • O colapso do financiamento científico nos EUA sob o governo Trump
  • O prestígio da ciência na China e a sua integração com o planejamento estatal
  • A crise existencial das universidades americanas diante da IA e dos cortes
  • A reação da juventude americana ao futuro que lhe é imposto
  • O contraste entre os modelos chinês e americano de desenvolvimento científico
  • A posição do Brasil neste cenário: irrelevância e ausência de um projeto nacional

Internacional, Nacional, Ciência e Tecnologia, Geopolítica, Economia

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Por PolitikBr I Brasília, Em 10/07/2026, 19h:11min, leitura: 13min

Editor: Rocha, J.C.

Essa é uma análise documental. Para visualizar “o todo” recomendamos a leitura dos demais artigos, e publicações relacionadas, que se somam ao tema de hoje. Boa leitura.

Este artigo é uma sequência da análise publicada em Encarando a Realidade: A China e o Desmoronamento da Miragem Ocidental, na qual procuramos desmistificar, de maneira objetiva, as falácias negacionistas sobre a China, em já nesse momento, não ser a maior economia mundial em poder de paridade de compra, em liderança de inovação tecnológica, e produzir mais patentes de IA do que qualquer outro país. Agora, avançamos para compreender como os Estados Unidos estão deliberadamente desmontando o seu próprio ecossistema científico, enquanto a China constrói o seu aceleradamente, com visão estratégica de longo prazo.

O Assassinato da Ciência Americana

Há uma brutalidade silenciosa em curso nos Estados Unidos. Não se trata de uma crise acidental, mas de uma política deliberada de desmantelamento do que um dia foi o motor da inovação mundial.

O renomado neurocientista brasileiro Miguel Nicodelis, que residiu mais de trinta anos nos Estados Unidos, e teve a sua carreira financiada pelo National Institutes of Health (NIH), por 32 anos, testemunhou em primeira mão a metamorfose — ou seria melhor dizer a necrose — do sistema científico americano.

“O National Institute of Health, que é o maior financiador de pesquisa biomédica, cortou 90% dos grants”, afirma Nicodelis na entrevista que serve de base a esta análise: “O cara cortou 90%. 25 mil cientistas saíram do sistema.”

Para compreender a magnitude deste corte, é necessário contextualizá-lo. O NIH não é uma agência qualquer — é o maior financiador de pesquisa biomédica do mundo. Universidades como Harvard, Johns Hopkins, Duke e Princeton, embora privadas em sua natureza jurídica, dependem maciçamente de recursos públicos para funcionar. A Johns Hopkins, segundo Nicodelis, recebia mais de 1,5 bilhão de dólares anuais em financiamento público: “Nenhuma universidade americana funciona sem dinheiro público”, resume o neurocientista.

Os números são estarrecedores. Entre fevereiro e abril de 2025, o NIH terminou 694 bolsas de pesquisa, totalizando 1,8 bilhão de dólares em cortes. Até agosto de 2025, 383 ensaios clínicos financiados pelo NIH foram interrompidos, afetando mais de 74 mil participantes. A Universidade de Columbia, sozinha, perdeu 157 bolsas — mais do que qualquer outra instituição. A Johns Hopkins, Yale, Emory, e outras universidades de elite, viram os seus projetos de pesquisa desmontados, como se fossem brinquedos descartáveis .

O governo de Donald Trump utilizou o congelamento e a ameaça de corte de bilhões de dólares, em verbas federais, para pressionar a Universidade de Harvard e outras instituições de elite americanas. A administração exigiu mudanças profundas na gestão interna das universidades, o que foi classificado pelas instituições, e por críticos, como uma tentativa de intervenção política e chantagem financeira.

Trump vê a “intelligentia” das Universidades como ameaça; atrelada aos inimigos democratas, já que os grandes nomes da governança americana saíram desses centros de elite.

Treze presidentes americanos se formaram nas universidades que foram os alvos principais e explícitos da força-tarefa, e das sanções financeiras nesse segundo governo de Donald Trump.

A atual administração mirou de forma mais intensa um grupo específico de instituições de elite — com destaque para Harvard, Columbia e Princeton —, acusando-as de tolerar o antissemitismo em seus campi e de promover políticas de diversidade (DEI).

No Brasil, sob a administração do ex-presidente Jair Bolsonaro, condenado a 27 anos e 3 meses de prisão, por tentativa de golpe de Estado, se deu a mesma coisa. As universidades, institutos federais de ensino e pesquisa, escolas de ensino fundamental e médio, creches públicas, sofreram pesados cortes orçamentários ao longo de todo o conturbado governo que, ainda, tentou controlar a livre indicação de reitores nas universidades, consideradas pela extrema direita – de Trump e Bolsonaro – como centros de doutrinação comunista.

Alinhado com os movimentos de extrema-direita globais, o governo Bolsonaro sustentou, publicamente, que as instituições públicas de ensino promoviam “doutrinação ideológica” e “marxismo cultural”.

O negacionismo à ciência. O repúdio à intelectualidade e à cultura do questionamento, como meios de se crescer como individuo, e somar à coletividade, se choca com as crenças extremistas de direita: não questionamento, obediência cega e outros vícios.

Trump e Bolsonaro rezam pela mesma cartilha. E o que está em jogo nos EUA não é apenas a interrupção de projetos individuais, mas a destruição de uma infraestrutura científica construída ao longo de décadas.

Como observou a Nature em agosto de 2025: “todo um corpo de pesquisa sobre equidade em saúde está sendo desaparecendo”. A frase é precisa: não se trata de cortar, mas de fazer desaparecer. Destruir.

A Ciência como Ferramenta de Estado na China

O contraste com a China não poderia ser mais violento. Nicodelis relata a sua experiência como um dos poucos cientistas estrangeiros a receber o Friendship Award, a mais alta honraria concedida pela China, a pesquisadores não-chineses.

O que ele descreve é um mundo em que a ciência ocupa o centro da vida nacional — não como ornamento, mas como instrumento central do projeto de desenvolvimento.

“Um membro da academia chinesa de ciência, que é o pico da carreira de qualquer cientista chinês, ele tem preferência para entrar no trem, embarcar no avião”, conta Nicodelis. “O cara abre a boca na imprensa, todo mundo ouve.”

A anedota que ele narra sobre o banquete, em que recebeu o prêmio, é reveladora do status da ciência na China. Ele esperava ser alocado a uma mesa distante, como ocorreria em qualquer país ocidental. Em vez disso, ele foi colocado na mesa central, ao lado do primeiro-ministro chinês.

A primeira pergunta que lhe fizeram não foi protocolar: “O senhor acha que o futuro das interfaces ser-máquinas será do método invasivo ou não invasivo?” — uma questão que, como Nicodelis observa, é “o debate mais profundo da área no mundo todo”. O primeiro-ministro, ou alguém de sua equipe, havia sido devidamente briefado sobre as questões mais avançadas da neurociência.

A China não trata a ciência como um bem cultural ou um enfeite para o seu status internacional. A ciência é, na formulação do próprio prêmio recebido por Nicodelis, uma contribuição “para o bem-estar do povo chinês”. E também, crucialmente, “principalmente um ativo econômico” — nas palavras do neurocientista. O mesmo ativo que Trump está destruindo.

Essa abordagem utilitarista e estratégica se traduz em políticas concretas. Enquanto o Brasil teve o seu programa Ciência sem Fronteiras, a China implementou um programa “50, 60 vezes maior”, segundo Nicodelis, e “voltaram tudo”.

Enquanto os Estados Unidos cortam 90% do financiamento do NIH, a China insere a ciência em seus planos quinquenais e “vai jogar bilhões nesse barato” diz Nicodelis.

O exemplo mais recente desta abordagem é o desenvolvimento chinês de sua própria máquina de litografia ultravioleta extrema (EUV), essencial para a fabricação de chips de 3 e 5 nanômetros.

Até recentemente, apenas uma empresa holandesa detinha o monopólio dessa tecnologia. “O governo chinês foi lá, quietinho, sem ninguém saber, criou o projeto Manhattan da litografia ultravioleta extrema”, relata Nicodelis.

O projeto foi conduzido sob extremo sigilo em um laboratório de alta segurança em Shenzhen. Engenheiros e cientistas operavam sob pseudônimos e com cartões de identificação falsos, para evitar espionagem e sanções ocidentais.

Uma equipe que incluiu ex-engenheiros da própria ASML conseguiu criar o protótipo utilizando partes e componentes de maquinários mais antigos da empresa holandesa, adquiridos legalmente via mercados secundários antes do endurecimento total dos embargos.

No programa espacial, a história se repete. “A China estava atrás da gente – Brasil – nos anos 80, no programa espacial. O Brasil estava à frente da China. Hoje não dá nem para conversar.” Os chineses, ao contrário dos americanos, recrutaram um professor de engenharia aeroespacial do MIT — “que ninguém dava nada para ele lá” — e o colocaram no comando de seu programa espacial. “Os caras vão chegar na Lua antes dos Estados Unidos.”

Hoje todos os canais de aviação e espaço do You Tube mostravam mais um feito dos chineses. A China realizou com sucesso o seu primeiro teste de recuperação de um foguete de classe orbital, usando o veículo Longa Marcha 10B, lançado do Centro Espacial Comercial de Hainan.

O primeiro estágio do propulsor retornou verticalmente e foi capturado por uma rede em uma plataforma marítima. Agora os chineses estão “nos calcanhares” da Space X de Elon Musk, no rendoso e estratégico mercado de satélites militares, e constelações para internet de uso civil.

A Universidade em Crise e a Revolta dos Jovens

O desmonte do sistema científico americano tem um correlato no colapso do sistema educacional. Nicodelis identifica uma tendência alarmante: “Pela primeira vez desde a Segunda Guerra Mundial, você tem faculdades que são focados em humanidades, pequenas escolas, fechando. Não tem aluno.”

A faculdades menores, especialmente aqueles dedicados às humanidades, estão fechando em massa — vítimas da combinação letal de falta de financiamento público e desinteresse dos estudantes, alimentado por um discurso dominante que desqualifica as ciências humanas, como inúteis para o mercado.

A ironia, como observa Nicodelis, é que um levantamento recente da Goldman Sachs e da Bloomberg mostrou que a maior taxa de desemprego, entre recém-graduados americanos, está em Ciência da Computação. Enquanto isso, os filósofos — aqueles que supostamente deveriam estar desempregados — mantêm seus empregos.

O dado não é uma defesa das humanidades contra as STEM (Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática), mas a constatação de que o mercado, mesmo em sua lógica mais brutal, não segue a narrativa hegemônica.

A crise se manifesta também na revolta da juventude. O episódio mais emblemático ocorreu na formatura da Universidade do Arizona, em maio de 2026, quando o ex-CEO do Google, Eric Schmidt, foi vaiado ininterruptamente durante todo o seu discurso. Schmidt, que havia sido convidado para falar aos formandos, tentou convencê-los de que a inteligência artificial é inevitável e que eles deveriam se adaptar. A resposta foi um coro de vaias que durou 14 minutos.

“A juventude já se deu conta de que eles não vão conseguir atingir o mesmo grau de qualidade de vida que os pais deles tinham”, diagnostica Nicodelis. “Vai ser a primeira geração da história americana que não vai conseguir viver no mesmo nível que os seus pais.”

Os números corroboram a percepção. Uma pesquisa da Gallup mostrou que sete em cada dez americanos querem regulação e desaceleração do desenvolvimento da inteligência artificial — um índice de consenso raramente visto nos Estados Unidos.

O TikTok publicou uma estatística que amplifica o contraste: acima dos 30 anos, 90% dos chineses têm a sua própria casa; na mesma faixa etária, apenas 15% dos americanos compraram uma casa.

A pergunta que os americanos começam a fazer — e que os jovens vaiaram Schmidt por tentar ignorar — é: “Para quem está indo todo esse progresso?”

Se a explosão de produtividade e a revolução tecnológica beneficiam apenas uma elite bilionária, enquanto a maioria vê seu padrão de vida se deteriorar, então o progresso não é progresso algum. É apenas uma nova forma de expropriação.

O Brasil: Nenhum Lugar, Nenhum Rumo

E o Brasil neste cenário? Nicodelis é implacável: “O Brasil não sabe nem para onde está indo.” O neurocientista relata a sua frustração: “Eu tô há 12 anos tentando levar os nossos protocolos pro SUS. O telefone não toca.” Enquanto isso, “Neymar tem mais prestígio não jogando bola há cinco anos.”

O diagnóstico é de uma irrelevância que não é apenas falta de recursos, mas ausência de um projeto nacional de longo prazo. A política de atração de datacenters, a exibição de parcerias com empresas como a Palantir: a empresa mais perigosa do mundo — como se fossem conquistas, é questionável. O discurso oficial é de estar trazendo o “controle dos dados digitais” para território nacional. Entretanto, como se trata de tecnologias digitais, trazer uma corporação, não nacional, e que é acusada de práticas lesivas à sociedade, não nos parece muito lógico. E o que isso agrega ao Brasil em termos tecnológicos? Muito pouco ou nada.

Enquanto os Estados Unidos desmontam o seu sistema científico e a China constrói o seu como instrumento de poder nacional, o Brasil permanece à deriva, tratando a ciência como um acessório decorativo ou, quando muito, como um ativo econômico subalterno. E, como sabemos, o preço da irrelevância, na nova ordem mundial, é o mesmo da irrelevância em qualquer ordem: a marginalização permanente.

Nota ao leitor

Este artigo buscou compilar, em uma análise única e aprofundada, os elementos factuais e contextuais que cercam o contraste entre os modelos científico-tecnológicos da China e dos Estados Unidos, e também do Brasil, a partir da perspectiva do neurocientista Miguel Nicodelis. As fontes utilizadas são públicas e estão devidamente listadas para verificação.

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