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Por PolitikBr I Brasília, Em 17/08/2026, 11h:00min, leitura: 9min
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Editor: Rocha, J.C.

Essa é uma análise documental. Para visualizar “o todo” recomendamos a leitura dos demais artigos, e publicações relacionadas, que se somam ao tema de hoje. Boa leitura.
O neurocientista Miguel Nicolelis fez um alerta que não deve ser relevado em entrevista ao programa 20 Minutos, do Opera Mundi: o Brasil está cometendo um erro estratégico ao seguir cegamente a agenda de data centers, e inteligência artificial imposta pelos “psicopatas do Vale do Silício”.
Quem é Miguel Nicolelis
Antes de mergulharmos na entrevista, é preciso entender a trajetória do homem que está fazendo essas afirmações. Miguel Nicolelis é um dos neurocientistas mais renomados do mundo. Brasileiro formado pela USP, com doutorado pela Universidade de São Paulo e pós-doutorado pela Universidade da Califórnia, ele foi professor da Duke University, nos Estados Unidos, por mais de 30 anos.
Nicolelis ficou mundialmente conhecido por seus avanços em interfaces cérebro-máquina — tecnologia que permite que pessoas com paralisia movimentem membros robóticos, usando apenas o pensamento. O seu trabalho já foi capa da revista Nature e da Science, e ele liderou o projeto que permitiu que um jovem paraplégico desse o pontapé inicial da Copa do Mundo de 2014, no Brasil, usando um exoesqueleto controlado pela mente.
É justamente essa bagagem — o conhecimento profundo do funcionamento do cérebro humano e das possibilidades da tecnologia — que dá peso às suas críticas ao que vemos hoje.
A falácia dos data centers no Brasil
O principal alvo de Nicolelis na entrevista foi a política brasileira de atração de grandes data centers — os chamados hyperscale data centers, voltados para operações massivas de inteligência artificial.
O argumento oficial é que o Brasil tem “excedente de eletricidade” e água potável abundante, o que o tornaria um local ideal para essas estruturas. Mas Nicolelis desmonta essa narrativa peça por peça .
Primeiro, o “excedente” não é real. Como ele aponta na entrevista, há períodos do dia em que não há sobra de energia, e os reservatórios de São Paulo estão em seu pior nível em 20 anos — há risco real de blackouts e falta de água.
E tem mais. Água potável – não qualquer água – e energia são bens estratégicos e cada vez mais escassos. Portanto, alocar esses recursos em data centers que irão servir aos interesses de conglomerados de mídias e serviços digitais não nacionais, não parece fazer qualquer sentido, já que a contribuição ao desenvolvimento nacional e à geração de emprego e renda é mínimo.
Segundo, e mais importante: o Brasil está importando um modelo já contestado em outros países. Comunidades nos Estados Unidos estão se mobilizando contra a instalação desses centros, por causa do barulho, calor, uso intensivo de água, consumo de energia e ocupação de terras .
“Basicamente sem nenhuma geração de empregos de monta, sem nenhum tipo de transferência de tecnologia”, declarou Nicolelis .
E a promessa de soberania digital? Segundo ele, os dados não ficam no Brasil. Vão para os servidores americanos. “Os dados não vão ficar aqui, pode estar certo”, afirmou em tom crítico .
O que os países que realmente pensam estão fazendo
Nicolelis não está apenas criticando — ele está apontando alternativas concretas, e alguns países já estão agindo.
A Suécia removeu todos os computadores do ensino primário, e voltou ao método analógico: lápis e papel. A Finlândia, que na década de 1990 foi pioneira em computadores na sala de aula, fez um estudo de 30 anos sobre o impacto e concluiu que o efeito foi o oposto do desejado: homogeneizou a criatividade, reduziu a capacidade de expressão escrita e falada dos alunos .
“A própria Finlândia, que criou a ideia de que tínhamos que por um computador em cada sala de aula, percebeu que foi o oposto, o efeito foi o oposto”, lembrou Nicolelis.
E por que esses dados são relevantes para a discussão sobre data centers e inteligência artificial? Porque Nicolelis estabelece uma conexão direta entre a subcontratação de funções cognitivas básicas para aplicativos e o declínio intelectual que estamos testemunhando.
O cérebro está mudando — e não para melhor
Nicolelis traz dados científicos que impressionam. Ele menciona um estudo com taxistas de Londres — que, antes do GPS, precisavam memorizar toda a cidade — no qual se descobriu que a região do hipocampo (responsável pela memória espacial e pela conversão de memória de curto para longo prazo) era maior que a média da população.
O estudo ainda não foi concluído, mas a previsão dos pesquisadores é que o hipocampo já esteja diminuindo de tamanho entre os taxistas que usam GPS.
“Só que se você diminuiu o hipocampo de tamanho, não é só o mapeamento espacial que você perde. É toda a maquinaria de conversão de memória de curto prazo e memória de longo prazo”, alerta.
Ou seja: a conveniência está matando a agência. E aqui Nicolelis introduz o que chama de “outro cérebro”: um cérebro que não precisa pensar, não precisa memorizar, não precisa se orientar — basta seguir as instruções do aplicativo, feito um autômato.
O Editor pode dar um depoimento de quanto isso que Nicodelis fala é verdadeiro. Eu comprei uma propriedade rural de difícil acesso na Serra da Mantiqueira, cidade de Delfim Moreira (1200 m de altitude) no Estado de Minas Gerais (Brasil). E, por estar me “viciando” em “Waze” e “Google Maps”, nem me preocupei em memorizar o intricado caminho de estradas rurais até chegar à propriedade. E quando esses aplicativos ficaram “offline” no alto da montanha, me senti completamente perdido. Portanto, da mesma forma, vou voltar atrás e me orientar pelo cérebro, pelo relevo e demais características do remoto local, e não por uma “tela” que vicia, e que nem sempre é confiável. Lição aprendida.
O papel do movimento e o que a China está fazendo
Na entrevista, Nicolelis também aborda a relação entre movimento corporal e desenvolvimento cognitivo — e aqui a conversa deu um salto ainda mais interessante.
Uma das teorias mais modernas sobre por que o cérebro humano explodiu em tamanho há cerca de 3 milhões de anos, quando saímos das árvores para a savana africana, é a relação com a extensão dos membros inferiores e do ouvido interno — estruturas essenciais para correr, caçar e escapar de predadores.
“Um dos fatores fundamentais na explosão cognitiva da nossa espécie é o movimento corpóreo”, afirma Nicolelis.
Ele menciona um estudo publicado recentemente (e que chama de “talvez o maior artigo sobre interface cérebro-máquina em pacientes paraplégicos”) que mostrou que pacientes com décadas de lesão medular tiveram atrofia das áreas corticais — as mesmas áreas que atrofiam durante o envelhecimento natural. Mas com o treinamento e a recuperação do movimento, boa parte dessa atrofia foi revertida em apenas nove meses.
“O cérebro é tão dinâmico”, conclui ele.
E aqui entra a comparação com a China. Nicolelis esteve na China em janeiro de 2026 e viu o lançamento do DeepSeek — um modelo de IA que rapidamente se tornou o aplicativo mais baixado da Apple Store, superando o ChatGPT, Gemini e outras plataformas. Por quê? Porque era gratuito e rodava em qualquer laptop.
A China tem apenas 400 data centers, contra 5.500 dos Estados Unidos, diz Nicodelis. Eles descentralizaram a produção, treinam os modelos com muito menos energia e custo, e os liberam como open source.
Enquanto os americanos gastam trilhões na construção de “monstrengos” – data centers – , os chineses seguem outra estratégia .
“Eles não estão seguindo o modelo americano, de jeito nenhum”, enfatiza Nicolelis.
O que o Brasil precisa fazer
Nicolelis não defende o fim da tecnologia. Ele defende que o Brasil pense por si mesmo — algo que parece básico, mas não é o que está acontecendo.
“Nós temos que ter uma estratégia, um plano nacional da indústria digital, não atrelado necessariamente à nenhuma dessas empresas”, afirmou .
O neurocientista defende que o Brasil precisa ouvir os seus especialistas, usar a sua ciência e criar uma política estratégica digital soberana.
E, na vida pessoal, Nicolelis aplica o que prega: ele escreve os seus livros primeiro à mão, lê apenas livros de papel, mantém uma biblioteca física — porque, como dizia Humberto Eco, a biblioteca não é para ler todos os livros, mas para ter à mão o que se precisa, e saber que pode pegar.
“O Brasil acha que tecnologia é ciência”, criticou .
Quer saber mais? Leia a matéria completa e, assista à entrevista na íntegra: Miguel Nicolelis – Opera Mundi
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Referências Utilizadas
- Opera Mundi (2026): Miguel Nicolelis – Programa 20 Minutos
- Brasil 247 (2026): Nicolelis alerta para riscos da IA e critica data centers no Brasil
- Italia Stato-Civiltà (2026): Nicolelis: intelligenza artificiale, data center e nuovo feudalesimo tecnologico
- The Telegraph (2026): China steps in as Iran war drains US oil
- PolitikBr (2026): Larry Johnson: O Estreito de Ormuz, a Crise Energética Global e os Limites dos EUA
- US Energy (2026): US Energy Facts
- YouTube (2026): “Houston, temos um problema”: A China agora é mais confiável que os EUA
- National Security Journal (2026): While America Drained Its Oil Reserve Fighting Iran, China Quietly Sat on 1.4 Billion Barrels — and Won the War Without Firing a Shot

