Principais entregas:
- A gênese conceitual da “privataria” e o manual tucano de dilapidação estatal
- A Vale do Rio Doce: o marco zero do assalto e a lição que ninguém aprendeu
- Bolsonaro e o pacote de liquidação: BR Distribuidora, Liquigás, Oleodutos e Gasodutos, e a refinaria Landulpho Alves
- Eletrobras: a maior entrega da história por um terço do preço justo
- O enigma Tarcísio e as sombras do Banco Master sobre o patrimônio paulista
- A reação do Estado e as brechas no cerco: reestatização na mira
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Internacional, Nacional, Geopolítica, Economia, Corrupção
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Por PolitikBr I Brasília, Em 11/08/2026, 08h:44min, leitura: 22min
Editor: Rocha, J.C.

Essa é uma análise documental. Para visualizar “o todo” recomendamos a leitura dos demais artigos, e publicações relacionadas, que se somam ao tema de hoje. Boa leitura.
O Espectro de um Ciclo Vicioso
O que se convencionou chamar de “privataria”, um neologismo cunhado pelo jornalista Elio Gaspari, captura em uma única palavra a essência perversa de um processo que assombra a história econômica recente do Brasil.
Mais do que a simples transferência de ativos públicos para a iniciativa privada, a privataria representa a arte de saquear o patrimônio nacional—a entrega aviltada de joias da coroa por um punhado de moedas, enquanto a nação assiste, atônita, ao desmonte de suas próprias bases estruturais. É o ponto nevrálgico onde a ideologia do Estado mínimo encontra a ganância privada, gerando um ciclo vicioso de empobrecimento estratégico e de enriquecimento ilícito de poucos.
O padrão, uma vez estabelecido, se repete com uma regularidade tão maquinal quanto criminosa; como um vírus que se adapta à diferentes hospedeiros e contextos políticos, para perpetuar o mesmo dano: a alienação de ativos estratégicos por valores irrisórios, a pulverização do controle nacional e a captura de benefícios por grupos privados em detrimento do bem comum.
A Vale do Rio foi construída com imensos sacrifícios do povo, depois de vigorosa resistência, dos mineiros e do presidente Vargas, contra a Itabira Iron, de Percival Farquhar, foi vitima dessa política criminosa.
A Empresa – agora Vale (2008) – para ser mais palatável aos negócios e aos acionistas, foi vendida por US$ 3,3 bilhões, enquanto valia US$ 200 bilhões.
Como o leilão ocorreu em 6 de maio de 1997, sob o governo de Fernando Henrique Cardoso, a taxa de câmbio no Brasil operava sob a paridade do Plano Real, fazendo com que R$ 1,00 valesse cerca de US$ 1,00. Portanto, o lance vencedor do consórcio liderado pela Companhia Siderúrgica Nacional (CSN) foi de R$ 3,338 bilhões.
Se você tivesse um cacho de bananas que valesse US$ 9,00 você o colocaria à venda por US$ 0,15? Óbvio que não. Mas foi isso que o governo FHC fez ao vender 41,7% das ações da Companhia para investidores do setor privado.
Segundo denúncias, em maio de 1995, a Vale do Rio Doce havia informado à Securities and Exchange Comission, entidade que fiscalizava o mercado acionário dos Estados Unidos, que as suas reversas de minério de ferro em Minas Gerais eram de 7.918 bilhões de toneladas. No edital de privatização, apenas dois anos depois, entretanto, a companhia disse ter somente 1,4 bilhão de toneladas do mesmo minério. O mesmo ocorreu com as minas de minério de ferro no Pará, que em 1995 somavam 4,97 bilhões de toneladas, e foram apresentadas no edital como sendo de apenas 1,8 bilhão de toneladas.
A companhia foi privatizada de forma tão perversa, que foi atribuido valor zero às suas imensas reservas de minério de ferro, capazes de suprir a demanda mundial por 400 anos. Se isso não foi um crime de lesa pátria, eu não sei mais o que é.
Outro ponto polêmico foi o envolvimento da corretora Merrill Lynch, contratada para avaliar o patrimônio da empresa e calcular o preço de venda. Acusada de repassar informações estratégicas aos compradores meses antes do leilão, ela também participou indiretamente da concorrência por meio do grupo Anglo American. De acordo com o TRF, isso comprometeu a imparcialidade da venda.
Vamos aos lucros, e ao furto do privado ao público.
No primeiro ano de privatização, a Empresa, “avaliada em US$ 10 bilhões pela Corretora Marril Lynch” e leiloada por US$ 3,3 bilhões, apresentou um lucro líquido de US$ 12,5 bilhões, mais de três vezes o valor de sua venda. Desde 1997 até 2024, a Vale já havia repassado US$ 208 bilhões aos acionistas. A nação lucrou com a venda? Só um tolo ou mal intencionado diria que sim.
Leia também.
O Berço do Saque da Privataria Tucana e a Gênese da Vale
A semente dessa praga, como mencionamos, foi meticulosamente documentada pelo jornalista Amaury Ribeiro Jr. no livro “A Privataria Tucana“. O trabalho, fruto de doze anos de investigação, desnudou um esquema de lavagem de dinheiro e propinas que operava em paraísos fiscais do Caribe, envolvendo figuras proeminentes do PSDB, como o ex-deputado José Serra e o seu círculo íntimo de amizades.
As evidências são estarrecedoras. Empresas de fachada nas Ilhas Cayman e nas Ilhas Virgens Britânicas serviram como dutos para milhões de dólares, muitos dos quais, segundo o jornalista, teriam retornado sob a forma de contribuições de campanha, criando um ciclo perverso de financiamento político baseado na dilapidação do Estado.
Amigos e parentes de Serra, como a sua filha Verônica, apareciam em transações suspeitas com o banqueiro Daniel Dantas, enquanto o seu ex-sócio, Gregório Preciado, viu o Banco do Brasil perdoar uma dívida vultosa apenas para, em seguida, representar a espanhola Iberdrola em novas privatizações no setor elétrico.
O valor de mercado, cerca de sessenta vezes superior ao preço de venda da Vale do Rio Doce, é a mais eloquente prova do assalto. O processo foi orquestrado com a ajuda fundamental de Ricardo Sérgio de Oliveira, ex-tesoureiro de campanha do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (FHC) e de Serra, que, segundo o livro, garantiu o aporte do fundo de pensão dos funcionários do Banco do Brasil (Previ) para o consórcio vencedor, em uma clássica operação de “dois-em-um da privataria: o dinheiro público financiava a alienação das empresas públicas”.
O Ciclo se Repete: Bolsonaro e a Liquidação Acelerada
Se a privataria tucana estabeleceu a metodologia, o governo Jair Bolsonaro a acelerou e a intensificou, transformando a venda de ativos estratégicos em uma política de Estado desenfreada e, segundo críticos, criminosa.
A lógica era a mesma: desmontar o patrimônio público para gerar caixa de curto prazo, pagar juros da dívida e beneficiar grupos privados, frequentemente com laços obscuros com o poder.
O ministro da Economia de Bolsonaro, Paulo Guedes, chegou a prometer arrecadar R$ 1 trilhão com as privatizações, mas, na prática, vendeu o ouro por uma fração de seu valor.
No setor de petróleo e gás, o desmonte foi particularmente brutal. A BR Distribuidora foi vendida em 2021, a Liquigás em dezembro de 2020 para um consórcio que inclui a Itaúsa, e a refinaria Landulpho Alves (RLam), na Bahia, foi entregue à Acelen, controlada pelo fundo soberano dos Emirados Árabes Unidos, Mubadala Capital.
Em função da guerra – Rússia x Ocidente Coletivo/ucrânia -, a margem de lucro da distribuição de combustíveis disparou: o diesel teve aumento de 124% e a gasolina, 44%. Como bem questionou a presidente da Petrobras, Magda Chambriard, em postagem no LinkedIn: “Como eu gosto de perguntar, para quem foi boa a venda da BR Distribuidora, da Refinaria da Bahia, da Liquigás?”.
O desastre é mensurável. Segundo levantamento da subseção FUP do Dieese, dos 96 ativos da Petrobras vendidos, mais de 70% foram privatizados durante o governo Bolsonaro—68 ativos ao todo.
A refinaria Rlam, que processava 300 mil barris por dia, viu a sua produção cair para 245 mil após a venda. Enquanto isso, a remuneração dos trabalhadores nas refinarias privatizadas despencou; no Amazonas, chegou a ser três vezes menor que a média nacional. O país, assim, se tornou refém de um monopólio privado, sujeito à reajustes abusivos e à desintegração de sua cadeia logística de combustíveis.
A Joia da Coroa Entregue por Um Terço do Preço
O coroamento do ciclo de destruição bolsonarista foi a privatização da Eletrobras, em junho de 2022. A maior empresa de energia elétrica da América Latina, responsável por 28% da geração e 40% das linhas de transmissão do Brasil, foi entregue por R$ 33,7 bilhões. A cifra, por si sé já é ultrajante, mas a dimensão do crime se revela quando se constata, como fez o ministro do Tribunal de Contas da União (TCU), Vitaldo Rêgo, que o valor mínimo correto para se privatizar a empresa seria de R$ 140 bilhões—quatro vezes mais o que foi pago.
Não pense o leitor que a Eletrobrás era deficitária. Ao contrário. Ela gerava polpudos lucros aos investidores ano após ano. Afinal, ela, na verdade, não gerava um único KWh de energia, de fato. Ela era a holding do sistema elétrico brasileiro. A sua função era basicamente de “despacho de carga”, regulando os fluxos de energia nacional, através das diversas redes e linhas de transmissão, produzidas pelas empresas geradoras, como Furnas Centrais Elétricas e outras.
O presidente Lula resumiu a “pilhagem”: “O governo tem 43% das ações, mas no Conselho de Administração só tem direito a um voto. Quem tem 3% tem o mesmo direito do governo”.
O processo foi ainda contaminado por “jabutis” ( artifícios legais) —emendas parlamentares que encarecerão a conta de luz dos consumidores nos próximos anos, representando um custo adicional de R$ 41 bilhões.
A lei que viabilizou a privatização também determinou a contratação de usinas termo elétricas à gás natural, uma fonte de energia cara e poluente, criando obrigações de R$ 43,6 bilhões que oneram a empresa e, por tabela, o consumidor.
A venda da Eletrobras, portanto, não foi apenas um péssimo negócio do ponto de vista fiscal; foi um golpe contra a soberania energética nacional, uma submissão deliberada à interesses privados, que agora detêm o poder de definir os rumos do setor elétrico brasileiro.
A Metamorfose da Soberania: Como a Eletrobras se Transfigurou de Reguladora em Predadora e Extinguiu o Legado de Furnas
Há uma ironia trágica que poucos se dispuseram a expor. A Eletrobras, como já dissemos, antes da sua privatização foi concebida como uma espécie de escritório de coordenação e regulação do despacho de carga — uma entidade que atuava como organizadora entre fornecimento e demanda por eletricidade em todo o país, definindo quais usinas gerariam mais ou menos energia em cada momento, para atender à demanda com o menor custo possível. Ela era o cérebro da operação, não o músculo. Era a instância que, a partir de uma visão sistêmica, e de interesse público, determinava a alocação da energia gerada pelas hidrelétricas, termelétricas e eólicas espalhadas pelo território nacional. Mas o golpe privatista perpetrado pelo governo Bolsonaro não se limitou apenas à transferir ativos; ele subverteu a própria lógica do setor, transformando a reguladora em predadora, e conferiu a ela o poder de simplesmente extinguir a personalidade jurídica das empresas que outrora coordenava.
O exemplo mais brutal dessa transmutação foi a extinção de Furnas Centrais Elétricas – empresa na qual o editor teve orgulho em trabalhar, como engenheiro, por 7anos.
Fundada em 1957 pelo ex-presidente Juscelino Kubitschek, como uma subsidiária da Eletrobrás, Furnas não era uma empresa qualquer: era a espinha dorsal do sistema elétrico do Sudeste, operando 22 usinas hidrelétricas, duas termelétricas e mais de 35 mil quilômetros de linhas de transmissão; atendendo a 51% dos domicílios brasileiros, em estados que respondem por 65% do PIB nacional .
Furnas era a empresa que transportava 100% da energia produzida por Itaipu, a segunda maior hidrelétrica do mundo, e que, ao longo de décadas, construiu um corpo técnico de excelência, e um patrimônio de conhecimento estratégico sobre a gestão de recursos hídricos e segurança energética do país. Furnas era o símbolo de uma era em que o planejamento energético era tratado como política de Estado, e não como mercadoria.
Em janeiro de 2024, na esteira da privatização aprovada às pressas em 2022, a figura jurídica de Furnas foi simplesmente extinta. Não houve uma transição cuidadosa, nem uma reestruturação que preservasse a sua identidade operacional. O que ocorreu foi a sua incorporação pela Eletrobras — um processo que dissolveu a subsidiária como pessoa jurídica autônoma, transferindo todos os seus ativos, passivos e operações diretamente para a controladora. A diferença não é meramente semântica: enquanto uma subsidiária possui personalidade jurídica própria, diretoria e estrutura operacional independente, uma empresa incorporada deixa de existir como entidade legal. Furnas, com seus 69 anos de história e serviço público, foi simplesmente apagada do mapa corporativo, com uma canetada.
O processo foi conduzido com uma celeridade que beira ao descalabro. Após o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), cassar as liminares que suspendiam a assembleia de acionistas, a votação pela extinção de Furnas durou cerca de 15 minutos. A direção da Eletrobras já havia preparado um procedimento para agilizar a comunicação com os acionistas tão logo a liberação judicial fosse obtida, e com 95% dos votos favoráveis, o golpe foi consumado .
Por trás da justificativa de “simplificação societária” e “ganhos de eficiência”, o que se escondia era uma operação eminentemente financeira. Incorporar Furnas permitiria à Eletrobras aproveitar créditos fiscais e aumentar o seu valor de mercado em até R$ 5 bilhões.
A professora Clarice Ferraz, da UFRJ, descreveu esse evento como “basicamente uma operação financeira em detrimento da segurança do abastecimento”.
Segundo Clarice, a extinção de Furnas coloca em risco a expertise técnica, a integração do sistema elétrico brasileiro e a segurança operacional, podendo levar à mais incidentes e interrupções no fornecimento de energia.
O desmonte dos laboratórios de tecnologia, o esvaziamento do Centro de Pesquisas de Energia Elétrica (Cepel) e a substituição da expertise nacional por tecnologias importadas são os frutos amargos dessa lógica predatória.
Essa reviravolta perversa — a reguladora que engole e extingue a operadora — revela a verdadeira face da privatização. O que antes era um sistema integrado, com entidades especializadas que se complementavam em prol da segurança energética, foi transformado em um monopólio privado concentrador, onde a antiga Eletrobras, agora sob controle acionário majoritário de fundos estrangeiros como o GIC de Singapura e o CPPIB canadense; e com a presença da 3G Radar, ligada ao 3G Capital de Jorge Paulo Lemann, acumula poder para definir os rumos do setor à partir de uma lógica exclusivamente financeira, desconectada das estratégias de crescimento do Estado e do atendimento da sua população.
A “pílula do veneno” (poison pill) aprovada no processo, que limita o poder de voto do governo à apenas 10% das ações, mesmo detendo 42,6% do capital, não foi um acidente técnico; foi a blindagem deliberada contra qualquer tentativa futura de retomar o controle estatal sobre a soberania energética do país.
O que era para ser um escritório de coordenação se tornou o algoz de suas próprias subsidiárias, e o legado de Furnas, que durante décadas garantiu a segurança energética do Sudeste brasileiro, foi enterrado sob o peso de uma operação financeira que, como bem denunciou o ministro Vital do Rêgo, vendeu a Eletrobras por um valor, no mínimo, R$ 100 bilhões abaixo do que valia. A extinção de Furnas não é um capítulo menor nessa história; é o seu desfecho mais eloquente: a prova de que, na privataria, não há limites para a voracidade do capital.
O “capital” é, em essência corrupto e corrompedor. Um vírus ganancioso, que se alimenta do próprio mal que pratica. Do que subverte e destrói. Uma chaga. Um câncer.
Flávio e a Continuidade do Legado Privatista Iniciado pelo Seu Pai
A ameaça representada por uma eventual eleição de Flávio Bolsonaro em 2026, reside na continuidade e na aceleração do programa de desmonte do Estado brasileiro, agora sob a roupagem de um discurso que oscila entre o aceno ao mercado e a tentativa de capturar o eleitorado mais vulnerável.
Flávio já sinalizou, de forma inequívoca, a sua intenção em dar sequência ao legado de dilapidação do patrimônio público feito pelo pai, um projeto que, na gestão de Jair Bolsonaro, entregou joias da coroa como a BR Distribuidora, a Liquigás, a refinaria Landulpho Alves, redes de gasodutos e oleodutos, e a Eletrobras por uma fração de seu valor real como já relatamos. Um legado perverso. Até criminoso. Algumas lideranças dos países são construtoras do futuro. A de Bolsonaro foi destruidora.
O senador e pré-candidato já declarou publicamente, em evento promovido pela Confederação Nacional da Indústria (CNI), que pretende privatizar estatais já no primeiro ano de seu governo, mencionando especificamente ativos da Petrobras que poderiam gerar um impacto de “algumas centenas de bilhões de reais” ( a mesma historinha “engana trouxa” de Paulo Guedes que disse que as privatizações iriam gerar R$ 1 trilhão).
Esta obsessão da extrema direita por privatizações tem, de fato, respaldo em que estratégia de desenvolvimento e segurança nacional? Nenhuma. Zero. Ao contrário. Fragiliza o Brasil e o torna vulnerável em todos os sentidos, em especial em um momento geopolítico conturbado e agressivo contra o Brasil, que tem no antigo parceiro – os EUA – um Estado hostil, coercitor e subversor.
Mas Flávio é da mesma laia dos bajuladores e submissos aos Estados Unidos. Ele, seu pai, seu irmão lá foragido. Todos eles: mal de família.
A ladainha da visão de um “governo enxuto” defendida pelo candidato, que em dezembro de 2025 já havia manifestado interesse em desinvestimentos nos Correios e uma reavaliação da estrutura da Petrobras, sugerindo que estudos poderiam levar à privatização de segmentos considerados ineficientes, é a ponta visível do iceberg das elites econômicas que assaltam e conspiram contra o Estado. Esse tal candidato clone do pai preso prega essa mesma cartilha. E a sua equipe econômica, liderada pela economista Daniella Marques, ex-presidente da Caixa, tem se reunido com o mercado financeiro para apresentar um plano que inclui a venda de ativos públicos, “privatizações e uma melhoria na eficiência da administração pública, com o objetivo de reduzir gastos”. É sempre o mesmo discurso bonito. Fajuto. Engana trouxa, como dissemos.
O perigo, contudo, não se limita à continuidade do ciclo de privatizações aviltadas. O receio de que uma gestão sob seu comando aprofunde o desmonte do Estado vai além da alienação de ativos. A equipe do senador já estuda mudanças estruturais que incluem maior flexibilização das leis trabalhistas e uma reformulação do arcabouço fiscal que rege os benefícios sociais, como o Benefício de Prestação Continuada (BPC). Tais medidas, somadas à declaração de intenção de suspender a reforma tributária para reavaliar as regras aprovadas pelo Congresso, criam um cenário de profunda incerteza e potencial regressão em direitos sociais duramente conquistados .
A tentativa de Flávio Bolsonaro de se apresentar como um “Bolsonaro mais centrado” e a sua guinada retórica em defesa do Bolsa Família e da isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil revelam, de fato, uma estratégia oportunista para mascarar a sua verdadeira agenda: o desmonte do Estado em favor dos interesses do mercado financeiro.
A sua equipe já deixou claro que vê o Bolsa Família como um programa que gera “dependência” e que precisa ser contido, visando incentivar a autonomia financeira da população. Leia-se nas entrelinhas: jogar milhões de brasileiros de volta à miséria e à fome, legado que seu pai deixou à Lula.
Além disso, a ameaça à soberania nacional se estende à política externa, com o senador demonstrando uma postura submissa aos Estados Unidos, pedindo a Trump a imposição de tarifas só se ele for derrotado por Lula, e se colocando à disposição para uma transição que agrade a Washington. Um ato de submissão tão desavergonhada, que nunca antes fora vista na história da república.
Tarcísio, o Banco Master e as Nebulosas Privatizações Paulistas
O ciclo da privataria parece não conhecer limites partidários ou geográficos, adaptando-se com facilidade à novos atores e palcos. Em São Paulo, o governo de Tarcísio de Freitas, herdeiro político do bolsonarismo, tem dado continuidade a esse legado com uma série de privatizações e concessões, que levantam suspeitas semelhantes às que marcaram os processos anteriores. As vendas da Sabesp e de diversas rodovias estaduais, por exemplo, são descritas por críticos como movimentos apressados e prejudiciais ao interesse público; que entregam o controle de serviços essenciais à grupos privados sem a devida contrapartida à população. A mesma cartilha…
Ainda mais perturbadoras são as sombras que pairam sobre as conexões entre essas operações e o Banco Master, liquidado pelo Banco Central, e cujas ligações com o poder público têm sido objeto de intensas denúncias envolvendo as “elites políticas”, em especial as ligadas ao centrão e à extrema direita (bolsonarismo).
Empreiteiras e fundos de investimento que orbitam em torno do Banco Master têm sido beneficiários de contratos e concessões estaduais, em um emaranhado de relações que remete aos “trens da alegria” das privatizações tucanas. A ausência de transparência e a velocidade com que essas operações são conduzidas alimentam a suspeita de que a “privataria 2.0” – título desse artigo -encontrou no Palácio dos Bandeirantes um novo e fértil campo de atuação.
O Contragolpe e a Luta pela Reestatização
Diante da voracidade privatista, uma reação começou a se articular no campo democrático e popular. Em 2024, a Frente Parlamentar Mista pela Reestatização da Eletrobras foi instalada na Câmara dos Deputados, com o objetivo declarado de reverter o processo. “Sem energia, a gente não consegue avançar no desenvolvimento nacional”, afirmou o deputado Alencar Santana (PT-SP), presidente da Frente.
O governo Lula, por meio da Advocacia-Geral da União (AGU), já recorreu ao Supremo Tribunal Federal (STF) para questionar os dispositivos da lei que limitam o poder de voto da União na empresa, um primeiro passo para retomar o controle estratégico sobre o setor elétrico.
No campo do petróleo e gás, a mobilização também se intensifica. A Federação Única dos Petroleiros (FUP), em conjunto com movimentos sociais e lideranças políticas, realizou uma plenária nacional para discutir a reestatização da BR Distribuidora, da Liquigás e das refinarias.
“A reestatização (…) é fundamental para recompor a capacidade do Estado de atuar como balizador do mercado de combustíveis e assegurar o abastecimento nacional, com foco no interesse público”, declarou o coordenador-geral da FUP, Deyvid Bacelar.
Nós concordamos plenamente com ele.
A reestatização, no entanto, é um caminho árduo e incerto, que exigirá não apenas vontade política, mas uma mudança profunda na cultura econômica do país. O desafio é resgatar o papel do Estado como indutor do desenvolvimento e garantidor da soberania nacional, rompendo com a lógica perversa da privataria que, por décadas, tratou o patrimônio público como um espólio a ser saqueado. O Brasil precisa decidir se quer ser um país que constrói o seu futuro ou o que vende o seu passado por um punhado de moedas.
Nota ao Leitor
Este artigo buscou compilar, em uma análise única e aprofundada, os elementos factuais e contextuais que cercam o fenômeno da privataria no Brasil, desde as suas origens nos anos 1990, até seus desdobramentos mais recentes. As fontes utilizadas são públicas e estão devidamente listadas para sua verificação.
Agradecimento
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Referências Utilizadas nesse Artigo
- jcrnoticiasonline.wordpress.com (2015): A PRIVATARIA TUCANA – CASO VALE DO RIO DOCE – NÓS NÃO VAMOS ESQUECER
- Wikipedia (2026): A Privataria Tucana. Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/A_Privataria_Tucana
- Brasil de Fato (2024): Desde 1997, Vale repassa US$ 208 bi a acionistas após privatização | Brasil de Fato
- Blog do Tarso (2011): Parte do capítulo 5 do livro “A Privataria Tucana” de Amaury Ribeiro Jr: Vale do Rio Doce. Disponível em: https://blogdotarso.com/2011/12/23/parte-do-capitulo-5-do-livro-a-privataria-tucana-de-amaury-ribeiro-jr-vale-do-rio-doce/
- Valor Econômico (2026): Presidente da Petrobras questiona venda da BR Distribuidora, refinaria de Mataripe e Liquigás. Disponível em: https://valor.globo.com/empresas/noticia/2026/05/06/presidente-da-petrobras-questiona-venda-da-br-distribuidora-refinaria-de-mataripe-e-liquigas.ghtml
- Fundação Perseu Abramo (2024): A criminosa venda da Eletrobrás. Disponível em: https://fpabramo.org.br/a-criminosa-venda-da-eletrobras/
- UOL Economia (2022): Eletrobras: Bolsonaro só faz sua 1ª grande privatização em fim de governo. Disponível em: https://economia.uol.com.br/noticias/redacao/2022/06/13/comeca-era-da-eletrobras-privatizada-apos-novela-de-28-anos.htm
- FUP (2026): Plenária nacional amplia luta pela reestatização da BR Distribuidora, da Liquigás e das refinarias. Disponível em: https://fup.org.br/plenaria-nacional-amplia-luta-pela-reestatizacao-da-br-distribuidora-da-liquigas-e-das-refinarias/




