Enquanto o mundo debate Ucrânia, Taiwan, inflação e eleições, a automação em massa está redefinindo silenciosamente as bases do poder global. Não há tanque, sanção ou tratado comercial que seja mais transformador do que a substituição de 21 mil trabalhadores da Oracle por IA. E, no entanto, isso mal ocupa uma nota de rodapé nos grandes fóruns. Há uma cegueira estratégica dos formuladores de políticas, que beira o criminoso.
Entregas desse artigo:
- A automação nos centros de distribuição da Amazon e a substituição do trabalho humano por robôs
- A redução do quadro de funcionários da Oracle e o investimento em IA
- O desaparecimento de profissões em setores como transporte e serviços bancários
- O impacto da automação no mercado de trabalho e a precarização do emprego
- A necessidade de um novo contrato social e a discussão sobre renda básica universal
Internacional, Geopolítica, Economia, Sociedade, Direitos civis e trabalhistas
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Por PolitikBr I Brasília, Em 29/06/2026, 19h:59min, leitura: 12min
Editor: Rocha, J.C.

Essa é uma análise documental. Para visualizar “o todo” recomendamos a leitura dos demais artigos, que se somam ao tema de hoje. Boa leitura.
O capitalismo tardio, em sua ânsia insaciável por extrair a última gota de valor e reduzir custos operacionais ao menor denominador comum, está promovendo uma silenciosa transformação radical no mundo do trabalho. Esta transformação, que outrora se disfarçava sob o manto do “progresso tecnológico” e do “inevitável desenvolvimento”, revela hoje a sua face mais perversa: a substituição sistemática do ser humano por máquinas dotadas de inteligência artificial.
Estamos diante de um fenômeno que transcende à mera automação de tarefas repetitivas; se trata de uma reengenharia completa do tecido social, onde o trabalho — historicamente o principal meio de distribuição de renda — se torna obsoleto, para uma parcela cada vez maior da população mundial, seja no comércio, na indústria, e mesmo na agricultura e pecuária.

O que testemunhamos não é uma evolução gradual, balanceada, pensada entre causa e efeitos, mas uma disrupção rápida e até glorificada; sem a percepção de quão grave é isso que se presencia.

A Amazon, uma das gigantes do varejo que revolucionou a forma como compramos, está, dentre muitas outras, na vanguarda da substituição da mão de obra humana. A empresa já colocou mais de um milhão de robôs em seus armazéns.
Não se trata mais de simples esteiras rolantes ou carrinhos automatizados; a nova geração de robôs, como o Proteus, é capaz de compreender comandos em linguagem natural, conversar com os trabalhadores e operar em áreas antes restritas aos humanos. O robô, que parece um aspirador de pó robusto, transporta carrinhos pesados e percorre longas distâncias nos centros de armazenamento, enquanto os seus “colegas” mecânicos, como o Sparrow, o Robin e o Cardinal, pegam itens, embalam e empilham caixas, com uma destreza que deixa qualquer trabalhador humano para trás. A empresa já testa braços robóticos para separar itens de pedidos individuais, uma das tarefas mais executadas por humanos .
A retórica corporativa, previsível e cansativa, insiste que os robôs “criam empregos” e permitem que os funcionários se concentrem em “tarefas mais qualificadas”. John Boumphrey, vice-presidente da Amazon, afirma que “nossa experiência com robôs é que isso aumentou o emprego” . Tye Brady, diretor de tecnologia da Amazon Robotics, ecoa o mantra: “Não são pessoas contra máquinas. Se trata de trabalhar juntos” . Contudo, a realidade dos números desmente esta narrativa açucarada.
A Amazon demitiu cerca de 30.000 trabalhadores no último ano, e o CEO Andy Jassy já admitiu que a IA resultará em uma redução da força de trabalho corporativa. A empresa que emprega 39% dos trabalhadores de armazéns nos EUA, responde por 56% das lesões graves, o que torna a retórica da “segurança” no mínimo irônica .
A Oracle, uma das gigantes do Vale do Silício, apresentou lucros estrondosos, mas ainda assim, decidiu reduzir o seu quadro de funcionários de um pouco mais de 160 mil para 140 mil trabalhadores. A lógica é simples e cínica: o capital poupado com a demissão de 21 mil pessoas será reinvestido em novos centros de dados, e em mais IA. O que acontecerá com esses 21 mil profissionais demitidos? A resposta é o que nos interessa aqui, e é aí que o quadro se torna ainda mais sombrio.

Não se trata apenas das big techs. A automação é uma peste que se alastra por todos os setores da economia. No Brasil, a memória recente ainda guarda a imagem do trocador de ônibus, uma profissão que foi simplesmente extinta para cortar custos pela metade, transferindo a função para o motorista. Agora, o horizonte já não é mais a extinção do trocador, mas do próprio motorista.
Na Inglaterra, os testes com ônibus autônomos já estão em estágio avançado, com veículos de nível 4 operando em Cambridge. O governo britânico já abriu inscrições para um programa piloto de veículos autônomos que atuarão como táxis e ônibus.
Na China, a cidade de Xangai já emitiu licenças para operação comercial de robotáxis, e Guangzhou se tornou um verdadeiro “campo de provas” para veículos autônomos, com empresas como Pony.ai e WeRide operando sem motoristas de segurança.
Na China, se estima que o mercado de robotáxis atingirá US$ 47 bilhões até 2035. Enquanto isso, os motoristas de aplicativo e entregadores — que representam a válvula de escape para os trabalhadores precarizados — são a próxima peça no tabuleiro a serem substituídas.

No Brasil, os bons empregos do setor bancário desapareceram com os anos. O papel dos profissionais que atendiam ao público – atendentes de balcão- , no pagamento de boletos, saque de dinheiro e depósitos bancários, foi extinto. Essa função foi transferida para o correntista, que se vê obrigado a recorrer às caixas eletrônicas para quase tudo; dentro da própria agência bancária. Mesmo as funções mais gratificadas, como as dos gerentes, devem desaparecer, com o fechamento progressivo das agência bancárias, em cidades menos rentáveis ao negócio da maximização do lucro. Agora que o cliente não vai mais às agências, diante das facilidades digitais. Então, para que ter agências bancárias? Gerentes? Atendentes? E se você quer falar com o ‘serviço ao cliente”, irá se deparar com um chatbot, que, em geral, nada responde que tenha pé e cabeça. É difícil se falar com um “ser humano”. O ápice da substituição.
Esse artigo é uma pincelada nessa tragédia que está em curso. Há muito mais acontecendo em n setores da economia, em que o movimento de substituição do homem por chatbots e máquinas vem sendo experimentado.
O que mais me irrita – e procurei traduzir isso no artigo – é a retórica das big techs. Dizer que robôs “criam empregos” enquanto se demitem 30 mil pessoas é um insulto à inteligência do cidadão. É o mesmo argumento usado no século XIX para justificar o trabalho infantil: “as crianças aprendem uma profissão”. Não há honestidade intelectual nesse discurso. Há, sim, a tentativa de maquiar uma decisão puramente financeira – maximizar o lucro do acionista – com verniz de “progresso” e “inovação”.
E o que ocorre com os trabalhadores substituídos? Uma fração ínfima é “requalificada” para tarefas mais complexas, mas a grande maioria é atirada em um mercado de trabalho informal já saturado.
O cenário que se desenha é o de um colapso social anunciado. O artigo acadêmico “Artificial General Intelligence and the End of Human Employment”, de Pascal Stiefenhofer, da Universidade de Newcastle, explicita com clareza o que está em jogo. A introdução da Inteligência Artificial Geral (AGI), e de sistemas autônomos, operando à custo marginal próximo de zero, reduz a produtividade marginal do trabalho humano até que os salários tendam a zero.
A função de produção Cobb-Douglas – um modelo matemático amplamente utilizado na economia para representar a relação entre a quantidade de insumos (fatores de produção) e a quantidade de produto final obtida – , um dos pilares da economia, mostra que, à medida que o capital impulsionado por AGI se expande indefinidamente, a demanda por trabalho humano desaparece.

O resultado é uma concentração de renda extrema nas mãos dos detentores do capital, enquanto a massa de trabalhadores, sem salários, perde o poder de compra, gerando uma crise keynesiana de demanda agregada: as empresas produzem, mas ninguém tem dinheiro para comprar.
Diante deste cenário apocalíptico, a discussão sobre a Renda Básica Universal (RBU) emerge como um último baluarte de sanidade. A ideia, que já foi tratada como utopia ou devaneio de acadêmicos, ganha contornos de urgência prática.
Como argumentam Gisella Ponce Bertello e Teresa Almeida, da LSE, “a revolução da automação exige um novo contrato social” no qual o progresso tecnológico e o bem-estar humano avancem juntos. A RBU, no entanto, não é uma panaceia. O seu financiamento é um desafio monumental, e a mera redistribuição de renda sem um projeto de sociedade, pós esse evento, pode ser insuficiente para evitar a erosão do sentido de propósito e pertencimento.
O ser humano não precisa apenas de renda; precisa de propósito, de reconhecimento social, de pertencimento. O trabalho é muito mais do que salário – é identidade. “O que você faz?” é a primeira pergunta que fazemos a alguém. Quando a resposta for “nada, recebo um cheque do governo”, a crise de sentido será tão devastadora quanto a econômica.

Além do mais, como as elites financeiras e capitalistas encararão esse momento? Como benesse? Afinal, eles serão os únicos culpados que o proletariado tenha caminhado nessa direção. Chegado a esse momento limite.
O acelerado avanço das tecnologias em si, e dessa que tratamos, em particular, é maravilhoso. Esses incríveis avanços, por exemplo, em robótica, pode nos libertar do trabalho penoso, insalubre –, mas pela total falta de planejamento humanista que vem acompanhando essas transformações, estamos automatizando o trabalho antes de automatizar a distribuição de renda, e de repensar o contrato social. É como colocar o carro à 200 km/h, antes de inventar os freios. O acidente não é uma possibilidade; é uma certeza.
Precisamos de uma re-imaginação radical do que significa “contribuir com a sociedade”. E ninguém está liderando essa conversa.
O que vemos, portanto, é um vácuo de liderança. Os governos, reféns do poder econômico e do receio de “espantar investimentos”, parecem assistir passivamente à construção de um futuro distópico.
Não há um esforço coordenado para conter as empresas na ânsia de substituir postos de trabalho por chatbots e robôs autônomos. A preocupação com o lucro máximo, em detrimento de qualquer equilíbrio entre capital e sociedade, é a única estrela-guia deste processo. Se ignora que o “inevitável progresso” possa levar a um colapso social, que por sua vez alimenta ideologias extremistas, que se aproveitam do desespero social-econômico.
Estamos trocando o emprego de milhões de pessoas por galpões escuros, onde robôs trabalham 24 horas por dia, sem salários, sem direitos, sem greves. Trocar o homem pela máquina, como fazem a Amazon, a Oracle e tantas outras corporações, em nome da eficiência, é um ato de profunda irresponsabilidade social.
Nota ao leitor: Este artigo buscou compilar, nessa breve análise, os elementos factuais e contextuais que cercam a substituição do trabalho humano por automação e inteligência artificial, bem como as suas implicações sociais e econômicas. As fontes utilizadas são públicas e estão devidamente listadas para a sua verificação.
Agradecimento:
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Referências utilizadas nesse artigo:
- Amazon’s new Proteus warehouse robot is fully autonomous. Engadget. Disponível em: https://www.engadget.com/2187338/amazons-new-proteus-warehouse-robot-is-fully-autonomous/
- The Robots Fueling Amazon’s Automation. The New York Times. Disponível em: https://vi.web-platforms-vi.nyti.nyt.net/2025/10/21/technology/amazon-robotics-automation.html
- Amazon robots will replace some ‘manual’ warehouse roles. The Mirror. Disponível em: https://www.mirror.co.uk/money/amazon-robots-replace-manual-warehouse-37247944
- Amazon unveils latest warehouse robot as tech giants continue AI layoffs. CNBC. Disponível em: https://www.cnbc.com/2026/06/05/amazon-robot-proteus-warehouse-ai-layoffs.html
- Cambridge ‘closest to driverless bus rollout in the UK’. BBC. Disponível em: https://www.bbc.com/news/articles/cgqge9wkvjgo
- Fusion’s CAVstar is the star in Cambridge. ITS International. Disponível em: https://www.itsinternational.com/products/fusions-cavstar-star-cambridge
- Passengers one step closer to booking taxi and bus-style self-driving vehicles. GOV.UK. Disponível em: https://www.gov.uk/government/news/passengers-one-step-closer-to-booking-taxi-and-bus-style-self-driving-vehicles
- Award-winning Alexander Dennis Enviro100AEV autonomous buses are on the road in Cambridge. Alexander Dennis. Disponível em: https://www.alexander-dennis.com/award-winning-alexander-dennis-enviro100aev-autonomous-buses-are-on-the-road-in-cambridge/
- Timeline of city’s development of robotaxi industry. International Services Shanghai. Disponível em: https://english.shanghai.gov.cn/en-IndustrialInnovation-Scitechcenter/20250910/37f1d4ff71cc4c3ba8ec78016ff5f340.html
- Shanghai ‘model’ sets pace for robotaxi services. China Daily. Disponível em: https://govt.chinadaily.com.cn/s/202509/10/WS68c0ec2c498e368550334f27/shanghai-model-sets-pace-for-robotaxi-services_4.html
- Catraca Livre. Empresa renomada demite 21 mil funcionários para substituí-los por tecnologia. Disponível em: https://catracalivre.com.br/noticias/empresa-renomada-demite-21-mil-funcionarios-para-substitui-los-por-tecnologia/
- Stiefenhofer, P. (2025). Artificial General Intelligence and the End of Human Employment: The Need to Renegotiate the Social Contract. arXiv. Disponível em: https://ar5iv.labs.arxiv.org/html/2502.07050
- Ponce Bertello, G. & Almeida, T. (2025). Universal basic income as a new social contract for the age of AI. LSE Business Review. Disponível em: https://blogs.lse.ac.uk/businessreview/2025/04/29/universal-basic-income-as-a-new-social-contract-for-the-age-of-ai-1/
- Função de produção Cobb-Douglas. https://pt.wikipedia.org/wiki/Fun%C3%A7%C3%A3o_de_Cobb-Douglas
- PolitikBr. https://politikbr.org/2026/04/16/transcendencia-quando-a-ia-se-torna-o-inimigo/
- PolitikBr. https://politikbr.org/2025/04/15/parasitas-de-terno-e-gravata-a-reacao-a-proposta-indecente-de-congelar-o-salario-minimo/