O Paradoxo do Crescimento da Renda e a Migração do Capital – Caso China

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Por PolitikBr I Brasília, Em 08/09/2026, 19h:57min, leitura: 6min

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Editor: Rocha, J.C.

Essa é uma análise documental. Para visualizar “o todo” recomendamos a leitura dos demais artigos e publicações relacionadas, que se somam ao tema de hoje. Boa leitura.

A China construiu a sua reputação de “fábrica do mundo” sobre uma base sólida: mão de obra abundante e barata, infraestrutura em expansão e uma cadeia de suprimentos incomparável. No entanto, o próprio sucesso desse modelo está gerando uma transformação silenciosa, porém profunda. À medida que a renda per capita chinesa sobe e os salários se tornam mais competitivos, o país enfrenta um paradoxo econômico: o crescimento da renda do trabalho, antes um motor do desenvolvimento, agora força a migração de setores industriais de baixo valor agregado para nações de menor custo, como a Índia, Bangladesh e Etiópia.

O fim da era do “Made in China” barato

O economista e diplomata Marcos Troyjo, ex-presidente do Banco do BRICS – Novo Banco de Desenvolvimento (NDB), – entre 2020 e 2023, traça um paralelo revelador ao lembrar a sua própria infância: os brinquedos que ganhava eram “Made in Japan”; depois vieram os “Made in Hong Kong”; em seguida, “Made in Korea”; e, mais recentemente, “Made in China”. Hoje, a Índia está prestes a se tornar a maior produtora mundial de brinquedos. Essa trajetória ilustra com precisão o movimento histórico do capital industrial em busca de custos mais baixos.

O que impulsiona essa migração? A resposta está na dinâmica salarial chinesa. Entre 1978 e 2012, a economia chinesa cresceu em uma curva muito mais íngreme do que os salários, o que permitiu alta capacidade de poupança e investimentos infraestruturais. Porém, a partir de 2012-2013, essa relação se inverteu: os salários passaram a crescer mais do que a economia como um todo.

Números que contam a história

Em 2020, o salário médio da manufatura na China girava em torno de US$ 6,50 por hora, mais que o dobro dos cerca de US$ 3,0 praticados no Vietnã.

A diferença é ainda mais gritante quando comparada com a Etiópia: enquanto o custo da mão de obra na manufatura de Dongguan (China) gira em torno de 4.200 yuan (US$ 625,88) por mês, na Etiópia esse valor é inferior a 300 yuan — ou seja, 1/14 do custo chinês.

A nova geografia da indústria global

Esse diferencial de custos está redesenhando o mapa da manufatura mundial. A China vem se afastando gradualmente das indústrias de baixo valor agregado e intensivas em mão de obra, se direcionando para setores de alta tecnologia e manufatura avançada. As fábricas de roupas, calçados, brinquedos e materiais esportivos estão migrando para novos destinos, onde a mão de obra é mais barata.

Em Bangladesh, o fenômeno é palpável. Entre julho de 2024 e agosto de 2025, a Zona de Processamento de Exportações de Bangladesh (BEPZA) atraiu 23 investidores chineses. Somente no ano fiscal de 2024 – 2025, 33 empresas investiram US$ 497,8 milhões, com potencial para gerar cerca de 59.400 empregos. Empresas como a Khaixi Group, que já havia investido US$ 60 milhões em 2022, expandiram as suas operações com mais US$ 40 milhões em 2025.

O movimento é impulsionado não apenas pelos custos trabalhistas, mas também por tarifas. A participação da China no mercado de vestuário dos EUA caiu de 37,7% em 2013 para 18% em julho de 2025. No mesmo período, a participação de Bangladesh subiu de 6% para 10,11%.

O Brasil e a janela de oportunidade

Troyjo observa que a Arábia Saudita é a Arábia Saudita do petróleo, a China é a Arábia Saudita da indústria, e o Brasil é a Arábia Saudita dos alimentos. No entanto, ele alerta que o Brasil precisa estar atento à competição global por investimentos fabris.

Enquanto a carga tributária como percentual do PIB na Índia é de 18%, no México de 19% a 20%, e nos Estados Unidos em trajetória de queda, o Brasil opera com 33% — um ambiente pouco conducente à atração de investimentos industriais de maior valor agregado – ele não fala dos extorsivos juros de quase 10% reais praticados pelo Banco Central Brasileiro, como o maior fator inibidor aos investimentos produtivos.

Um fenômeno estrutural

A migração da indústria leve para fora da China não é um acidente ou uma crise — é um fenômeno estrutural, previsível e, em certa medida, desejável. Ela reflete o amadurecimento econômico chinês e a sua transição para uma economia mais sofisticada, baseada em inovação e alta tecnologia.

Para países como a Índia, Bangladesh, Brasil e Etiópia, isso representa uma oportunidade histórica de industrialização – mas de baixo valor agregado e renda – e geração de empregos. Portanto, o movimento da economia chinesa, em certa medida, é o mesmo da trajetória dos países desenvolvidos da Europa e os EUA, detentores de tecnologias e produtos de elevado valor agregado, que assim exportam os seus excedentes produtivos, enquanto enriquecem cada vez mais, às custas dos países do sul global que lhes consomem esses produtos.

O paradoxo do crescimento da renda na China é, em última análise, a história do próprio desenvolvimento econômico: cada nação, ao prosperar, deixa para trás aquilo que a fez prosperar, abrindo espaço para que outras ocupem seu lugar na divisão global do trabalho aviltado e mal pago.

Quer saber mais? Leia a matéria completa e: O Paradoxo do Crescimento da Renda e a Migração do Capital na China

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