Internacional, Geopolítica, Economia
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Por PolitikBr I Brasília, Em 26/08/2026, 11h:42min, leitura: 9min
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Editor: Rocha, J.C.

Essa é uma análise documental. Para visualizar “o todo” recomendamos a leitura dos demais artigos, e publicações relacionadas, que se somam ao tema de hoje. Boa leitura.
A conta chegou — e Washington está ficando sem saída
O professor Jeffrey Sachs não é exatamente um economista qualquer. Professor da Columbia University, onde ocupa o posto de University Professor, o mais alto grau acadêmico da instituição, Sachs é especialista em desenvolvimento econômico, macroeconomia internacional e crises financeiras. Antes de Columbia, passou mais de duas décadas em Harvard, e também atuou como assessor de diferentes secretários-gerais das Nações Unidas. A sua trajetória inclui estudos e trabalhos sobre crises de dívida, hiperinflação, desenvolvimento e finanças internacionais.
É justamente por isso que a sua advertência sobre a situação fiscal americana merece atenção.
Na entrevista que Sachs concedeu, e que comentamos neste artigo do PolitikBr, ele aponta para um problema que vai muito além do tamanho nominal da dívida dos Estados Unidos: o custo crescente para financiá-la e a dificuldade de continuar atraindo compradores para os títulos do Tesouro americano. nas mesmas condições do passado.
E o número é gigantesco: a dívida pública americana acaba de ultrapassar US$ 40 trilhões. A marca foi superada em agosto de 2026, em um momento no qual o Tesouro continua precisando tomar centenas de bilhões de dólares emprestados para financiar as suas necessidades. Em especial, a desastrosa guerra contra o Irã.
Mas o problema não é simplesmente dever US$ 40 trilhões. O problema é quanto custa rolar dia à dia essa imensa dívida.
Quando a dívida começa a trabalhar contra o próprio governo
Sachs chama atenção para uma relação elementar dos mercados financeiros: quando o preço dos títulos cai, o seu rendimento — o yield — sobe. E, segundo ele, é exatamente isso que está acontecendo.
Na entrevista, o professor afirma que a disposição dos investidores de manter títulos do governo americano está diminuindo, associando esse movimento ao enorme endividamento dos Estados Unidos, ao gigantesco déficit orçamentário e à percepção de políticas governamentais erráticas. Acho que seria justo chamar de “Efeito Donald Trump”, que parece obstinado em destruir os Estados Unidos. Será isso proposital ou estupidez?
Para continuar financiando o seu déficit – que se acumula há mais de 20 anos -, Washington precisa emitir dívida. Se os investidores exigem juros maiores para comprar essa dívida, o governo passa a gastar mais dinheiro apenas para pagar juros. Isso aumenta o déficit. O déficit exige novas emissões. E novas emissões podem exigir juros ainda maiores. O caso limite dessa situação é o default. No Brasil se chama de “calote”. É quando o devedor deixa de honrar os seus compromissos.
O interessante é que emitir dívida, por exemplo, como fez a China, teve por objetivo o progresso da nação. A tornar hoje o que ela é. Se não há capital suficiente ao desenvolvimento nacional, emitir moeda e dívida é o único caminho. Entretanto, com um objetivo claro: gerar riqueza e desenvolvimento que, na forma de impostos futuros, paguem os serviços e a própria dívida emitida. Isso requer disciplina, planos austeros de uso dos recursos públicos, e ações de longo prazo. Essa é a visão chinesa de mundo.
Enquanto eles fizeram isso e transformaram a sua sociedade em uma economia próspera que produz, literalmente, tudo, os EUA se limitaram a gastar trilhões de dólares em nada. Em intervenções policialescas mundo à fora, em intimidação, corrupção e engodos. A guerra contra o Irã é um desses colossais erros.
É a dívida alimentando o déficit, e o déficit alimentando a dívida.
O professor Sachs observa que os títulos americanos de 30 anos já ultrapassaram 5% de rendimento, algo que considera uma elevação muito significativa em relação aos últimos anos.
E aqui está o ponto realmente importante.
A questão não é se os Estados Unidos conseguem “pagar” US$ 40 trilhões amanhã. Naturalmente, não conseguem — e nem precisam fazer isso dessa maneira. O sistema funciona mediante refinanciamento contínuo: títulos vencem e novos títulos são emitidos.
O problema surge quando o custo desse refinanciamento começa a crescer mais rapidamente do que a capacidade do governo de estabilizar as suas contas, como já dissemos.
E quem vai comprar a próxima montanha de títulos?
Durante décadas, os títulos do Tesouro americano foram considerados um dos ativos mais seguros e líquidos do planeta. Bancos centrais, governos, fundos de pensão, instituições financeiras e investidores privados acumularam enormes quantidades de Treasuries. Isso porque o dólar era a tal poderosa “moeda de reserva”. De fato, naquele contexto, não havia outra saída.
Mas Sachs chama atenção para uma mudança particularmente importante: vários dos governos estrangeiros estão mantendo uma parcela cada vez menor de títulos americanos em suas reservas cambiais. A substituindo, por exemplo, por ouro.
O ouro ultrapassou os títulos do Tesouro dos EUA (Treasuries), consolidando uma mudança histórica nas reservas dos bancos centrais mundiais. De acordo com o relatório do Banco Central Europeu (BCE), a fatia do ouro atingiu 27% das reservas globais no final de 2025, superando os 22% mantidos em títulos públicos americanos.
Isso não significa que o dólar esteja prestes a desaparecer, nem que os Estados Unidos estejam diante de um colapso amanhã. Quando somados os títulos e os demais ativos líquidos na moeda norte-americana, os ativos denominados em dólar ainda representam 42% do total, mantendo a liderança isolada como principal divisa de reserva. Entretanto, o privilégio americano de financiar déficits gigantescos à custos relativamente baixos não é eterno.
Se uma parcela crescente dos compradores passa a exigir juros maiores para continuar financiando Washington, a conta começa a aparecer em toda a economia. Hipotecas ficam mais caras. Empresas pagam mais para captar recursos. Investimentos são adiados. O próprio governo precisa destinar uma parcela cada vez maior do orçamento ao serviço da dívida.
Sachs observa justamente essa consequência: em um mundo de juros elevados, até o financiamento de uma casa pode se tornar muito mais difícil para as famílias.
Elon Musk vê o mesmo problema
E aqui surge uma coincidência politicamente curiosa.
Elon Musk, que esteve profundamente envolvido no debate sobre redução dos gastos do governo americano, também vem demonstrando pessimismo com a trajetória da dívida americana. Em 21 de agosto, Musk respondeu a uma projeção publicada na rede X mostrando a dívida ultrapassando US$ 50 trilhões até 2030. A sua resposta foi curta: “Gráfico exato.”
A projeção mencionada por Musk parte da trajetória atual de crescimento da dívida. Ou seja: Sachs e Musk chegam a uma preocupação semelhante por caminhos completamente diferentes. Um é um economista acadêmico, com décadas de estudos sobre macroeconomia internacional. O outro é um dos empresários mais conhecidos do mundo. E ambos estão olhando para a mesma ineficiência e montanha de números assustadores.
No Brasil, números nem de longe comparáveis a esses, levam os arautos do déficit público zero a terem cólicas. Nos EUA, à exceção de poucos como Sachs, tudo parece normal. Quando não é.
O problema não é apenas econômico
Há ainda uma dimensão geopolítica.
Durante décadas, a capacidade americana de emitir a principal moeda de reserva internacional ajudou Washington a financiar déficits extraordinários. Os EUA viviam com uma espécie de cheque em branco na mão, que os demais países do mundo estavam dispostos a bancar. Isto é, a gastança americana, sendo custeada pelo planeta, de forma impune. Esse tempo parece estar com os dias contados.
Sachs em algum momento usou a expressão “império” ao se referir aos EUA. Vários analistas usam o mesmo termo. E os americanos, na qualidade de “império” tinham por premissa cobrar do mundo uma espécie de “quinto” – a quinta parte -, que os exploradores da coroa portuguesa cobravam do ouro extraído, e do suor dos brasileiros. Aliás, de que são mesmo feitos os impérios? Claro. Da pilhagem do outro. Parasitagem pura. Assim foram todos os impérios, desde tempos imemoriais.
Mas, oxalá isso se acelere, e os outros países do mundo ampliem a diversificação das suas reservas, reduzindo a sua exposição aos ativos americanos. O Brasil com os seus US$ 400 bilhões em títulos da dívida americana deveria acelerar isso. Os EUA não são mais parceiros. São antagonistas. Que o digam as tarifas de 50% agora aplicadas ao Brasil, de forma unilateral e injusta.
Quer saber mais? Leia a matéria completa e, Entrevista completa de Jeffrey Sachs no YouTube e Elon Musk concorda com previsão de colapso da dívida dos EUA na Sputnik Brasil.
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Referências Utilizadas:
- YouTube (2026): Prof. Jeffrey Sachs: The political collapse of the US
- Sputnik Brasil (2026): Elon Musk concorda com previsão de colapso da dívida dos EUA
- Xinhua (2026): U.S. national debt tops 40 trillion USD for first time in history

