Principais entregas:
- A definição e o mecanismo psicológico da dissonância cognitiva segundo Leon Festinger
- A transformação da frustração individual em propósito político coletivo
- As contradições estruturais do discurso extremista (liberdade vs. autoritarismo, patriotismo vs. submissão)
- O papel das redes sociais e da “midiosfera” na criação de realidades paralelas
- A reinterpretação alucinatória dos fatos como mecanismo de defesa identitária
- O bolsonarismo e o trumpismo como fenômenos gêmeos de dissonância cognitiva coletiva
Internacional, Nacional, Geopolítica, Saúde e Bem Estar
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Por PolitikBr I Brasília, Em 02/07/2026, 09h:43min, leitura: 11min
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Editor: Rocha, J.C.

Essa é uma análise documental. Para visualizar “o todo” recomendamos a leitura dos demais artigos, que se somam ao tema de hoje. Boa leitura.
Há um fenômeno perturbador que atravessa as democracias contemporâneas, um vírus psicológico que se alastra pelas redes digitais e se instala nas mentes de milhões de pessoas. Se trata da dissonância cognitiva elevada à potência de movimento de massas. O combustível invisível que impulsiona a extrema direita no Brasil e nos Estados Unidos.
Sem compreender esse fenômeno é impossível entender por que um eleitor mantém a sua crença inabalável em um líder, mesmo quando confrontado com evidências irrefutáveis de sua incompetência, corrupção ou autoritarismo.
Em um vídeo recente, o comentarista político Reinaldo Azevedo reproduz trechos das falas do extremista Paulo Figueiredo – neto do ex-presidente e ditador João Figueiredo –, em que ele tece a sua visão sobre o ex-presidente Jair Messias Bolsonaro, condenado a 27 anos e 3 meses de prisão, por tentativa de golpe de Estado contra o Presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o vice Geraldo Alckmin:
” O ponto é o seguinte, o ex-presidente Bolsonaro é uma das pessoas mais erráticas que eu conheço….Eu quero dizer o seguinte, a opinião do presidente Bolsonaro sobre um determinado assunto muda com uma volatilidade, para usar o termo que o Trump usou a respeito do Lula, com uma volatilidade incrível…”


“…O presidente Bolsonaro pode dizer uma coisa para você hoje, chegar uma pessoa depois, convencer ele e amanhã ele decide o oposto do que ele havia decidido hoje. E eu já falei disso várias vezes. Quem viveu 2022 sentiu isso na pele.”
Reinaldo Azevedo comenta: Esse – Paulo Figueiredo – é amigo, hein?
Paulo Figueiredo, aliado de Eduardo Bolsonaro, filho de Jair Bolsonaro, se refere ao pai do amigo como: alguém idiota, errático e disfuncional.
A propósito. Ser idiota, errático e disfuncional significa agir sem bom senso, alternar comportamentos de forma imprevisível, e falhar em realizar tarefas básicas do cotidiano.
Essas três características combinadas descrevem um estado de incapacidade de adaptação. A pessoa toma decisões ruins, não mantém uma linha coerente de ação e não consegue fazer o que é esperado dela na sociedade ou no trabalho.
Portanto, se você se espelha em um líder com as características descritas por Paulo Figueiredo, na verdade, significa que você se vê nela. Se justifica nela. Se inspira nela. Ela lhe traz pertencimento. O que é um sinal claro de fraqueza do seu EU e da sua personalidade.
Cunhado pelo psicólogo social Leon Festinger em 1957, o conceito de dissonância cognitiva descreve o desconforto mental gerado pelo choque entre crenças profundas e fatos contraditórios da realidade.
Em sua obra, Festinger estabeleceu que “podem existir relações dissonantes ou ‘incongruentes’ entre elementos cognitivos” e que “a existência de dissonância produz pressão para reduzi-la, assim como para evitar o seu aumento” . Em outras palavras, o ser humano busca desesperadamente coerência — e, quando a realidade ameaça essa coerência, ele prefere distorcer a realidade a abandonar as suas crenças.
O comentarista político Silvério Filho, em recente análise publicada em suas redes sociais, ofereceu uma síntese precisa do fenômeno aplicado ao contexto brasileiro: “Dissonância cognitiva nada mais é do que a indisposição em analisar a verdade a partir das evidências”.
E prosseguiu, descrevendo o perfil do extremista de direita: “geralmente são pessoas frustradas. Ou frustradas religiosamente, ou sexualmente, ou intelectualmente, ou profissionalmente, tem uma determinada frustração” .
É nesse ponto que a psicologia individual encontra a sociologia política. O movimento bolsonarista, assim como o trumpismo, operou uma transformação notável: converteu indivíduos frustrados, muitas vezes marginalizados ou desprezados por seus pares, em “patriotas”, em “defensores da pátria”. A rejeição social foi transmutada em orgulho identitário; o fracasso pessoal, em virtude cívica.

Como observou o professor João Cezar de Castro Rocha, da UERJ, o bolsonarismo constitui uma “dissonância cognitiva coletiva”, que coloca os seus adeptos em choque.

Ele ainda aponta que a teoria de Festinger é “a chave para decifrar fenômenos coletivos como o trumpismo e o bolsonarismo — com as suas teorias conspiratórias” . Ele destaca que, no universo digital, grupos de apoio social negam “a validade de evidências contrárias à crença que precisam manter”. Essa dinâmica transforma a guerra cultural em uma “forma de vida, numa estrutura muito próxima à formação de seitas” .
A série “The Boys”, em sua temporada final, capturou com precisão essa dinâmica. Em uma cena que se tornou viral, uma das líderes da extrema direita americana é questionada sobre o que ela vende:
“Eu vendo liberdade, eu vendo o patriotismo, eu vendo a defesa do nosso povo.”
Pressionada, finalmente ela revela a verdadeira mercadoria: “Eu vendo o propósito”. O propósito — eis a palavra-chave.
O extremismo político não é movido primordialmente por ideologia, mas pela necessidade desesperada de pertencimento, de significado existencial.
O movimento transformou a vida dessas pessoas ao oferecer exatamente o que lhes faltava: uma identidade, uma missão, uma comunidade. Como bem descreveu Silvério Filho:
“essas pessoas tiveram no bolsonarismo um propósito pra vida. Elas não precisam, por exemplo, mais fazer uma faculdade para entender sobre direitos, sobre constituição, porque elas vêm na corrente de zap – whatsapp –, colocam no grupo e não precisam ser validadas por professores de universidade, porque eles próprios se validam” .
Esse mecanismo de autovaliação grupal é central para a compreensão da dissonância cognitiva em massa. Quando a identidade do indivíduo se funde à identidade do grupo, a verdade factual se torna uma ameaça existencial.
Admitir que o líder mentiu, que a eleição não foi fraudada, que a pandemia exigia vacinas, que o ataque às instituições foi criminoso — tudo isso significaria não apenas um erro de julgamento, mas a dissolução do próprio EU.
Como sintetizou Silvério Filho: “se elas forem pela verdade factual e perceberem que isso é absurdo, elas se descaracterizam, porque o sentido da vida delas passou a ser essa afirmação política desse grupo” .
As contradições da extrema direita são escandalosas e, no entanto, perfeitamente sustentáveis dentro desse regime de dissonância. A defesa intransigente da “liberdade de expressão” absoluta convive lado a lado com o apoio ao fechamento de cortes superiores e à censura de opositores.
O discurso nacionalista inflamado (“America First” ou “Brasil acima de tudo”) não impede a exaltação cega de interesses estrangeiros, que desvalorizam as próprias instituições nacionais.
A defesa da pauta moral da “família tradicional” e da vida desde a concepção contrasta diretamente com a retórica violenta do “bandido bom é bandido morto”, e o descaso com crises sanitárias ou humanitárias.
As críticas agressivas ao “sistema político corrupto” mascaram o alinhamento com velhas elites econômicas que aprofundam a desigualdade social e, são, corruptas em si.
O episódio do 6 de janeiro de 2021, nos EUA, e do 8 de janeiro de 2023, no Brasil, são exemplares desse mecanismo. A invasão do Capitólio foi retratada alternadamente como um ato de patriotas injustiçados, ou como uma armação de infiltrados da esquerda. Os acampamentos em frente de quartéis e os ataques em Brasília foram justificados sob a ilusão de que as Forças Armadas salvariam o país, e as prisões subsequentes são lidas como “perseguição política” em vez de aplicação da lei.
A realidade é rejeitada não por falta de evidências, mas porque a aceitação da realidade aniquilaria a identidade construída em torno da negação.
O ecossistema digital desempenha um papel crucial nesse processo. As plataformas de redes sociais, movidas por algoritmos que maximizam engajamento, criam câmaras de eco perfeitas que alimentam o caos cognitivo.
Diante de uma verdade factual incômoda, as redes fornecem imediatamente uma fake news reconfortante, que preserva a integridade da crença do grupo . O professor Rocha denomina esse ambiente de “midiosfera” — um espaço onde a desinformação circula com a velocidade da luz e onde o apoio social mútuo, permite que crenças inválidas sejam mantidas indefinidamente .

Para os extremistas de direita, o custo social e emocional de mudar de opinião se torna proibitivo. Como apontou Antônio de Paiva Moura, professor de História, o bolsonarismo opera como um “retrocesso aos tempos medievais e reminiscência dos homens das cavernas” . Remetendo à obra de Freud, ele observa que “as hordas urbanas são reminiscências da pré-história, que colocam os líderes no lugar dos pais ausentes ou fracassados. Solitários, os indivíduos pensam de um jeito e em grupo de outro, como se estivessem embriagados” .
A referência à distopia orwelliana é inevitável. Como na sala de torturas de “1984”, onde Winston é forçado a aceitar que 2 + 2 = 5, o extremista submete a sua razão à vontade do líder. “Os enunciados científicos são rejeitados e só é aceito o que deseja o líder ou o mandatário, o que for bom para a sua imagem”.
A recusa sistemática da ciência durante a pandemia de covid-19, com a defesa de tratamentos ineficazes como a hidroxicloroquina, é um exemplo dramático desse fenômeno.
A dissonância cognitiva, portanto, não é um mero ruído na comunicação política. É o próprio motor que sustenta movimentos autoritários em todo o mundo.
Enquanto não compreendermos que, para milhões de pessoas, a adesão à extrema direita não é uma escolha racional baseada em evidências, mas uma solução para crises profundas de identidade e pertencimento, continuaremos tratando o sintoma em vez da doença.
O desafio que se coloca é monumental: como resgatar essas pessoas do cárcere de suas próprias mentes, onde a verdade se tornou inimiga e a mentira, a única salvação? Talvez a resposta comece por reconhecer que a dissonância cognitiva não é um problema de ignorância a ser sanado com mais informação, mas uma ferida existencial que exige algo mais profundo — a oferta de um propósito que não exija a negação da realidade.
Nota ao leitor: Este artigo buscou compilar, em uma análise única e aprofundada, os elementos factuais e contextuais que cercam o fenômeno da dissonância cognitiva como alicerce dos movimentos de extrema direita no Brasil e nos Estados Unidos. As fontes utilizadas são públicas e estão devidamente listadas para sua verificação.
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Referências utilizadas nesse artigo:
- FESTINGER, Leon. A Theory of Cognitive Dissonance. Stanford: Stanford University Press, 1957.
- ROCHA, João Cezar de Castro. “Midiosfera bolsonarista e dissonância cognitiva (3)”. Rascunho, 01/12/2021. Disponível em: https://rascunho.com.br/colunistas/nossa-america-nosso-tempo/midiosfera-bolsonarista-e-dissonancia-cognitiva-3/
- SILVÉRIO FILHO. Análise sobre dissonância cognitiva e bolsonarismo. Instagram, 2026. Disponível em: https://www.instagram.com/reel/DZPpjYXR03H/
- MOURA, Antônio de Paiva. “Bolsonarismo: mistificação e transtorno mental”. Brasil de Fato, 28/11/2022. Disponível em: https://www.brasildefato.com.br/colunista/antonio-de-paiva-moura/2022/11/28/bolsonarismo-mistificacao-e-transtorno-mental/
- ANDRADE, Flávio da Silva. “A dissonância cognitiva e seus reflexos na tomada da decisão judicial criminal”. Revista Brasileira de Direito Processual Penal, v. 5, n. 3, 31/10/2019. DOI: https://doi.org/10.22197/rbdpp.v5i3.227
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- PolitikBr, https://politikbr.org/2025/08/02/4chan-o-inspirador-de-bannon-trump-e-bolsonaro-o-laboratorio-sombrio-da-extrema-direita-digital/