No século XVII na Europa, o termo passou a associar-se a doutrinas ocultas. A virada para o sentido político ocorreu na Inglaterra por volta de 1670, quando as iniciais dos nomes de cinco ministros do rei Carlos II (Clifford, Ashley, Buckingham, Arlington e Lauderdale) formavam a palavra CABAL ou CABALA. Nos dias de hoje esse termo passou a designar um pequeno grupo fechado que faz intrigas, maquinações ou conspirações políticas nos bastidores. A Palantir faz parte desse esquema.
Entregas desse artigo:
- A doutrina ideológica explícita da Palantir e o seu “Manifesto”
- Alex Karp: o filósofo frankfurtiano que virou arauto do fim da democracia
- Monarquia tecnocrática global: o projeto por trás do discurso
- A guerra total dataficada e o sul global como colônia de dados
- O fascismo 3.0: quando a tecnologia dispensa o Estado
- As contradições do negócio: lucros bilionários e a colonização da mente
Internacional, Nacional, Geopolítica, Economia, Corrupção
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Por PolitikBr I Brasília, Em 12/08/2026, 19h:59min, leitura: 12min
Revisto em 13/08/2026, 05h:13min
Editor: Rocha, J.C.

Essa é uma análise documental. Para visualizar “o todo” recomendamos a leitura dos demais artigos, e publicações relacionadas, que se somam ao tema de hoje. Boa leitura.
O século XXI assiste a um fenômeno que faria Orwell corar de vergonha. Não se trata mais de um Grande Irmão estatal que vigia através de telas monocromáticas, mas de uma constelação de empresários-filósofos que decidiram que a democracia é um entrave técnico e que a humanidade, em sua imensa maioria, é um recurso descartável. O centro dessa engrenagem se chama Palantir, e a sua ascensão meteórica nos mercados financeiros é apenas a ponta visível de um iceberg ideológico, que promete reconfigurar o próprio sentido de soberania e existência.
Criada em 2003 por Peter Thiel — o mesmo que financiava a “máfia do PayPal” — e liderada pelo excêntrico Alex Karp, a Palantir se apresenta como uma empresa de análise de dados e inteligência artificial. Mas seria um erro reduzi-la a isso. Como aponta o sociólogo Cian Barbosa, a Palantir é “um exemplo máximo dessa junção entre as big techs, a economia de dados, a engenharia de dados e a militarização da linguagem, do espaço público, do discurso digital e das operações diretas, diretamente militares”.

A Doutrina da Superioridade: O Manifesto que Expõe a Alma da Besta

Em 2026, Alex Karp decidiu que era hora de parar de fingir. Em Stanford, ele ministrou um curso intitulado “Quatro Aulas sobre a Volta do Anticristo”. Contudo, longe de ser uma reflexão teológica, o curso revelava o manual de instruções da nova ordem mundial. A abordagem de Karp é a de um franco-atirador intelectual: em vez de esconder o projeto, ele o expõe como um dever moral.
O que ele propõe não é menos do que a “criação de uma monarquia tecnocrática global”. Para Karp, o multiculturalismo é uma fraqueza; existem civilizações superiores que devem subjugar as demais. Esse discurso, que ecoa os piores momentos do darwinismo social do século XIX, é o cerne do que ele chama de defesa da “tradição ocidental”.
Cian Barbosa descreve esse manifesto como uma atualização do macartismo:
“Ele vai dizer que chegamos no fim da era atômica […] a era digital anuncia o fim da era atômica. […] O desenvolvimento tecnológico digital para fins militares vai responder aos impasses geopolíticos, diplomáticos que a própria era atômica coloca […] agora você pode produzir uma vigilância ostensiva e constante com drones”
Em outras palavras, a bomba atômica paralisava pelo medo da destruição mútua; a inteligência artificial e os dados permitem uma guerra permanente, asséptica e automatizada.
O Filósofo e o Mercado: A Trajetória de Alex Karp
Para compreender a profundidade do fenômeno é preciso investigar a figura de Alex Karp. Judeu, formado em filosofia e direito, Karp tentou ser orientado por Jürgen Habermas, o gigante da Escola de Frankfurt. A lenda conta que Habermas o recusou, sugerindo que Karp não “batia bem da cabeça”.
Karp escreveu a sua tese sobre “a agressão no mundo da vida”. Essa obsessão pela agressão como elemento constitutivo da sensibilidade humana, parece ter se tornado a chave de sua atuação no Vale do Silício. Ele rompeu com o progressismo acadêmico e abraçou a “tecnocracia” como o único caminho viável.
Como nota Barbosa:
“O Alex Karp vai começar a apontar a necessidade, o papel civilizacional da posição que ele e os seus colegas ocupam como organizadores, como vigias do horizonte da civilização norte-americana”.

Essa “missão civilizatória” justifica tudo: a violência, a vigilância em massa, a extinção da privacidade, e a subjugação dos “rebeldes” (leia-se, Estados-Nação que resistem).
Governança sem Atrito: O Sonho da Burguesia Digital
Se o fascismo histórico precisava do Estado para organizar a sociedade e mediar os conflitos entre as frações burguesas, o “neofascismo” da Palantir quer eliminar o Estado como mediador. A ideia é substituir a política — que é feita de negociação, conflito e, portanto, “atrito” — pela gestão algorítmica.
Segundo Barbosa, essa nova elite tecnocrática “está percebendo que você pode enxugar, inclusive, a elite política que você emprega. E você pode exercer o poder técnico sobre o aparelho do Estado mais diretamente”.
Não se trata mais de financiar campanhas para influenciar decisões; se trata de tornar o político obsoleto. A classe dominante quer voltar a ser a classe dirigente, mas sem a necessidade de liderar; ela quer automatizar o poder.
Esse projeto foi explicitamente defendido por Karp na CNBC, quando ele argumenta que é “insano” terceirizar o campo de batalha dos EUA para o “consenso de Silicon Valley”, mas ao mesmo tempo em que ele posiciona a Palantir como a única guardiã confiável para gerir a “infraestrutura crítica”.
A lógica é clara: apenas a tecnocracia privada (leia-se, ele) possui a competência para salvar o Ocidente.
Leia ainda:
O Sul Global: A Colônia de Dados Perfeita
O discurso de superioridade civilizacional de Karp se traduz em política externa: o mundo é um recurso. E o Brasil, com as suas 9 horas e meia de tempo médio de tela por dia, é a colônia perfeita.
“O Brasil é uma colônia perfeita. É uma infinidade de recursos para você explorar imageticamente, para você explorar em termos turísticos… a própria população engaja por você.”
A Palantir já possui contratos com o Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE) e com o Instituto Butantan. Isso significa que dados sensíveis da população brasileira — inclusive dados biomédicos — estão sendo armazenados em uma infraestrutura que, por força do Cloud Act norte-americano, pode ser acessada pelo governo dos EUA a qualquer momento.
A “guerra total dataficada” não ocorre apenas nas trincheiras da Ucrânia ou de Israel; ela ocorre no cotidiano, quando utilizamos um aplicativo de paquera, que alimenta bancos de dados militares ou quando um jogo como Pokémon GO mapeia ruas de difícil acesso para triangulação de satélites .
O smartphone, nas palavras de Cian Barbosa, “não está ali simplesmente para ser blindado e dar um tiro. Ele está ali pra organizar, mediar a relação com tanto o espaço externo, offline, quanto com espaço online; para uma perspectiva que é simultaneamente de mercado e de guerra”.
O Preço da Conveniência: A Morte da Agência

O neurocientista Miguel Nicolelis, em sua participação no debate, oferece a explicação biológica para o sucesso desse projeto. Ele alerta que a “conveniência mata a agência”. Ao terceirizar nossa memória espacial para o Waze ou a nossa capacidade de reflexão para resumos de IA, nosso cérebro, que é um “camaleão”, se reconfigura para a lógica digital.
“O cérebro chega e fala, ok, você vai estar imerso na lógica digital, eu vou me comportar como um sistema digital. Eu vou começar a destruir tudo aquilo que existe entre zero e um. Então, empatia, solidariedade, altruísmo, tudo isso não é computável em zero e um.”
Essa é a base da idiotização programada. Ao reduzir a complexidade humana à dados binários, a Palantir e as suas coirmãs (Meta, Google, OpenAI) não apenas extraem valor, mas reconfiguram a própria natureza humana. A “ditadura dos algoritmos” não é uma metáfora; é uma reengenharia da sensibilidade.
Enquanto os filhos dos bilionários do Vale do Silício estudam Platão, as massas são anestesiadas com o “scroll infinito” e a cultura do hiperestímulo.
Nicolelis tem razão: o cérebro humano é um camaleão. Mas também é uma ferramenta de resistência. Podemos escolher não nos adaptar passivamente à lógica digital. Podemos escolher manter a empatia, a solidariedade e o altruísmo — mesmo que isso seja “ineficiente” na lógica de mercado.
A Cabala e a Contradição do Mercado
Curiosamente, o discurso apocalíptico de Karp convive com números impressionantes no mercado de ações (?!). No segundo trimestre de 2026, a Palantir reportou receita de US$ 1,94 bilhão, um salto de 93% em relação ao ano anterior. O segmento comercial nos EUA cresceu 149%.
O mercado, representado por bancos como Bank of America e Deutsche Bank, elevou os seus preços-alvo, validando a narrativa de que a Palantir é a “vencedora” da corrida da IA. Mas será mesmo? Isso tudo nos parece ter lastro zero. Não há valor real. E quando esse mercado financeirizado e hiperinflado desabar, talvez a própria Palentir e a OpenAI irão pro ralo. Portanto, apostar em um futuro pretensamente imutável, maquinado por meia dúzia de lunáticos e espertalhões, dentre eles – cabeça de ponte dessa maquinação enlouquecida – Alex Karp, é apostar em um cavalo manco que pode cair na próxima “vala”. A “deepseek” que o diga.
A “monarquia tecnocrática” idealizada por Karp e Thiel é um modelo de negócios bilionário, é verdade, mas muito longe de gerar lucros sustentáveis; além de todos os problemas que causam, e as resistências que já começam a enfrentar, por ser predatório e competir com o homem por recursos cada vez mais escassos de energia e água potável.
Alex Karp é franco. Ele diz o que quer. Ele não se esconde atrás de eufemismos. Isso é, paradoxalmente, uma vantagem para nós: quando ele fala em “civilizações superiores” e “monarquia tecnocrática”, ele está nos dando o mapa do território que pretende conquistar.
Cabe a nós ler esse mapa e agir.
O Espectro do Elysium
O que está em jogo não é apenas a privacidade ou a segurança nacional. É a própria possibilidade de um futuro humano. O modelo do “neofascismo tecnocrático” proposto pela Palantir visa a substituição da política — a esfera do debate, da divergência e do conflito — pela administração técnica da existência.
As alternativas históricas, como o Cybersyn chileno ou o projeto soviético OGAS, mostram que a tecnologia poderia ter sido usada para aumentar a participação popular e a eficiência planificada. No entanto, como ressalta Barbosa, problemas políticos exigem soluções políticas: “a tecnologia, ela é fundamental, ela ajuda, mas problemas políticos só podem ser respondidos em termos políticos” .
Enquanto a esquerda se apega ao discurso do comportamento moral e de padrões ideais de comportamento, a direita tecnocrática avança com obscenidade, expondo abertamente vícios e recalques, e vendendo a fantasia de um mundo sem atritos, governado por “especialistas” que já decidiram que 6 ou 7 bilhões de pessoas são dispensáveis.
O que resta fazer
Se este artigo serviu para alguma coisa, que sirva para:
- Alertar os que ainda não viram o que está por trás do discurso tecnológico
- Inspirar os que já desconfiam, mas ainda não têm palavras para descrever o que sentem
- Conectar os que estão dispostos a construir alternativas
Não estamos condenados a viver sob uma monarquia tecnocrática. O futuro não está escrito — e não será escrito por Alex Karp, Peter Thiel ou qualquer outro bilionário que se julgue no direito de decidir quem vive e quem morre.
“Não estamos falando de um filme de ficção científica. Estamos falando do projeto que já está em andamento, com dinheiro, tecnologia e poder político. A única coisa que falta é a nossa reação.”
Que esta análise seja um tijolo na construção dessa reação.
Nota ao leitor:
Este artigo buscou compilar, uma análise única e aprofundada, os elementos factuais e contextuais que cercam o projeto ideológico e econômico da Palantir Technologies e seu impacto na geopolítica contemporânea. As fontes utilizadas são públicas e estão devidamente listadas para sua verificação.
Agradecimento:
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Referências utilizadas neste artigo:
- You Tube (2026): https://www.youtube.com/live/xZez6iyLd_w?is=rimK9_0QXEfe4NhQ
- You Tube (2026): https://m.youtube.com/watch?v=pHu-FarYZlU
- You Tube (202): https://youtu.be/PJqIlErkaG4?is=Bnc2PlB7npyQjoR7
- Política Real (2026): https://www.politicareal.com.br/o-espelho-da-ia-o-alerta-de-nicolelis-sobre-a-colonizacao-digital-das-mentes/
- Brasil 247 (2026): https://www.brasil247.com/brasil/palantir-a-empresa-que-quer-ser-o-cerebro-do-mundo-e-ja-esta-no-brasil
- Investing.com (2026): https://es.investing.com/news/stock-market-news/por-que-sube-hoy-la-accion-de-palantir-93CH-3788893
- Eastmoney (2026): https://emweb.eastmoney.com/PC_USF10/pages/index.html?code=PLTR&type=web&color=w#/hxbd
- Futunn (2026): https://news.futunn.com/post/77362276/ai-application-leader-returns-palantir-posts-its-strongest-weekly-performance
- Futunn (2026): [https://www.futunn.com/hk/stock/PLTR-US/company
- Política Real (2026): https://www.politicareal.com.br/a-face-oculta-da-palantir-por-que-o-brasil-deve-se-preocupar/

