PolitikBr é uma mídia independente. Informar não é “torcida”. Não é distorcer, manipular ou mentir.

Por PolitikBr I Brasília, Em 10/10/2025, 18h:18, Leitura: 6 min
A política brasileira é um espelho onde o reflexo nunca é o que parece. A queda da MP que previa a taxação de bilionários, bancos e casas de apostas — apelidada de taxação BBB — foi celebrada pela extrema direita como um “revés histórico” do governo Lula. Mas, na realidade, o episódio revelou algo bem mais profundo: a extrema direita comemorou uma vitória aparente, enquanto o governo transformou o episódio em um triunfo simbólico e moral.
A narrativa construída pela oposição era simples — e rasteira: o governo teria sido derrotado. O que escapou ao cálculo dos estrategistas bolsonaristas é que o povo, ao ver os parlamentares votarem contra a cobrança de impostos sobre bilionários e grandes empresas, entendeu a manobra pelo que ela realmente é: a defesa descarada dos privilégios dos mais ricos.
A ironia do patriotismo às avessas
É nesse ponto que o jogo vira. A extrema direita, que tentou por anos monopolizar o discurso do patriotismo, foi desmascarada por seus próprios atos. O caso mais emblemático foi o de Eduardo Bolsonaro, que, em nome de suas obsessões ideológicas, articulou junto a congressistas americanos sanções econômicas contra o próprio país. Um gesto que soou, para a maioria da população, como traição à pátria.
A consequência foi imediata: Lula e o campo progressista recuperaram a bandeira do patriotismo nacional, agora associada à defesa da soberania e à proteção do interesse público. A esquerda, que havia perdido essa narrativa desde 2018, reassume o papel de guardiã do Brasil frente a um bolsonarismo cada vez mais submisso à potências estrangeiras e às elites econômicas locais.
Quando o Congresso vota contra o país
A derrubada da MP da taxação BBB, que buscava corrigir distorções grotescas do sistema tributário, mostrou como parte do Congresso – bolsonaristas, aliados de Tarcísio e Bolsonaro – permanece cativa dos grandes grupos econômicos.
Segundo Edinho Silva, presidente do PT, a taxação BBB era uma medida justa, necessária e corajosa. O texto previa que bilionários, bancos e casas de apostas online contribuíssem com uma parcela mínima de seus lucros para a arrecadação pública. Mas a Câmara rejeitou a proposta — e, ao fazer isso, não apenas expôs seus vínculos com o capital financeiro, como deu a Lula a oportunidade de encarnar o papel, que, de fato, lhe é peculiar: o de quem luta contra os privilégios descabidos das elites financeiras e empresariais, e em defesa do povo.
Gleisi Hoffmann, resumiu o sentimento nacional: “A Câmara votou contra o país e contra o povo.”
A PL da Anistia: o erro que custará caro em 2026
Como se não bastasse, o bolsonarismo insistia e ainda insiste em defender a PL da Anistia, ou o seu clone, chamada de PL da Dosimetria, que pretende perdoar os condenados e processados pela tentativa de golpe de Estado e o 8 de janeiro, em especial Jair Bolsonaro, condenado a 27 anos e 3 meses de prisão. Essa pauta, amplamente rejeitada pela opinião pública, se tornou radioativa: qualquer político que apoie essa excrescência se contamina eleitoralmente.
A cada gesto em favor dos golpistas, a extrema direita cava mais fundo o próprio isolamento. Só eles parecem não ver isso. Eles se esqueceram do ditado: “Pau que dá em Chico dá em Francisco”.
A ironia é cruel: enquanto o governo tenta tributar os super-ricos, a oposição se dedica a salvar quem tentou destruir a democracia. O contraste é devastador — e o eleitor, cansado de crises e escândalos, compreende essa diferença com clareza crescente.
Fintechs e bets: a nova fronteira da tributação
As fintechs e as bets movimentam fortunas bilionárias com baixa tributação. É uma nova elite financeira que opera sob o disfarce de inovação tecnológica, mas que, na prática, gera lucros desproporcionais e devolve muito pouco à sociedade.
Em discurso recente, Lula afirmou à Agência Brasil:
“Essas empresas precisam pagar o imposto devido neste país.”
Na esteira dessa visão, o senador Lindbergh Farias apresentou um projeto para dobrar a taxação sobre as casas de apostas, ampliando a base de arrecadação e reforçando o compromisso com a justiça fiscal.
Essa proposta não têm apenas impacto econômico: ela redefine o campo político. A esquerda assume a defesa da responsabilidade tributária, enquanto a direita vai ter que novamente se desgastar diante do eleitorado para 2026, rejeitando a nova proposta e, assim, reafirmando diante da sociedade a quem servem: aos bancos, aos bilionários e as Bet´s. Mesmo que o texto de Lindbergh se refira somente às Bet´s.
A vitória política de Lula
Após a votação da MP da taxação BBB, Lula declarou que a rejeição da Medida Provisória não era uma derrota do governo, mas uma derrota do Brasil — uma frase que ecoou como síntese moral do momento. Lula ainda completou: “Essa medida reduzia distorções ao cobrar a parte justa de quem ganha e lucra mais. Dos mais ricos. Impedir essa correção é votar contra o equilíbrio das contas públicas e contra a justiça tributária. O que está por trás dessa decisão é a aposta de que o país vai arrecadar menos para limitar as políticas públicas e os programas sociais que beneficiam milhões de brasileiros. É jogar contra o Brasil”
Entretanto, olhando por outra perspectiva, o governo perdeu, mas não perdeu, se podemos dizer assim. Se olharmos o cenário eleitoral para 2026, na ânsia de prejudicar o governo, o tiro de Tarcísio de Freitas e Cia pode sair pela culatra. Se o governo for inteligente, a perda legislativa se transformará em vitória da narrativa, se for possível a conectar ao sentimento popular de revolta contra as desigualdades sociais e os descabidos privilégios das elites financeiras .
O novo tabuleiro até 2026
O cenário para 2026 começa a se desenhar com nitidez. A extrema direita, dividida e intoxicada por pautas golpistas e antinacionais, se distancia da maioria dos brasileiros — inclusive dos trabalhadores pobres e da classe média que as sustentaram em 2018. Já Lula, com habilidade política e discurso coerente, se reposiciona como o líder que defende o Brasil dos brasileiros, que cobra dos ricos o que é justo e devolve ao povo o que lhe foi negado.
O bolsonarismo quis transformar a derrota da MP da taxação BBB em troféu. No fim, entregou a Lula o símbolo mais poderoso de uma campanha eleitoral: a causa justa, o discurso moral.
Esse artigo foi baseado em:
- https://pt.org.br/edinho-a-taxacao-bbb-e-justa-necessaria-e-corajosa/
- https://www.diariodocentrodomundo.com.br/lindbergh-apresenta-projeto-que-dobra-a-taxacao-das-bets/
- https://agenciabrasil.ebc.com.br/politica/noticia/2025-10/lula-defende-que-fintechs-paguem-o-imposto-devido-esse-pais
- https://www.brasil247.com/brasil/derrubada-de-mp-que-tributaria-o-1-mais-rico-nao-e-derrota-do-governo-e-do-brasil-diz-lula
- https://www.brasil247.com/brasil/camara-votou-contra-o-pais-e-o-povo-diz-gleisi




