“Super El Niño” ou só Água Quente? Molion Contesta Versão Oficial. Negacionismo? Verdade?

Principais entregas deste artigo:

  • A tese do meteorologista Luiz Carlos Molion de que não há El Niño em 2026, mas apenas águas quentes no Pacífico desconectadas da atmosfera.
  • A explicação alternativa: um terremoto submarino no Japão, em abril de 2026, deslocou água aquecida em velocidade recorde (45 dias) até as costas das Américas.
  • A distinção técnica entre “El Niño” (águas quentes) e “ENOS” (El Niño + Oscilação Sul), e por que a ausência de acoplamento atmosférico invalida o cenário de “super El Niño”.
  • As previsões de chuva de Molion para o Brasil: atraso no Centro-Oeste e Norte, chuvas irregulares em outubro, e tempestades severas no Sul por outro fenômeno (Zona de Convergência do Pacífico Sul).
  • O contraste com o estudo da Universidade de Chicago, que projeta 450 mil mortes globais e 13,3 mil no Brasil.
  • A reflexão sobre o impacto das previsões climáticas — certas ou erradas — no plantio e nos preços futuros de soja, milho, algodão e café, e o potencial de manipulação de mercado

Internacional, Ciência e Tecnologia, Economia, Geopolítica

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Por PolitikBr I Brasília, Em 29/09/2026, 08h:21min, leitura: 18min

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Editor: Rocha, J.C.

Essa é uma análise documental. Para visualizar “o todo” recomendamos a leitura dos demais artigos e publicações relacionadas, que se somam ao tema de hoje. Boa leitura.

Quem é Luiz Carlos Molion

Luiz Carlos Molion é uma figura conhecida no debate climático brasileiro — e também uma das mais controversas. Para entender por que a sua tese sobre o “não El Niño” de 2026 merece atenção (e ceticismo), é preciso conhecer o seu percurso, as suas credenciais e as críticas que ele recebe.

A trajetória acadêmica de Molion não é contestada:

  • Graduação: Física pela Universidade de São Paulo (1969)
  • Doutorado: Meteorologia pela Universidade de Wisconsin-Madison (1975)
  • Pós-doutorado: Instituto de Hidrologia da Inglaterra (1982)
  • Fellow: Academia de Ciências de Berlim (1990)
  • Carreira: Pesquisador sênior do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), hoje aposentado; professor associado da Universidade Federal de Alagoas (aposentado); representou países sul-americanos no Comitê de Climatologia da Organização Meteorológica Mundial (OMM)

A sua produção acadêmica se concentra em dinâmica climática, variabilidade e mudança climática, clima do Nordeste e da Amazônia, energias renováveis e desenvolvimento regional. Ele tem publicações em revistas científicas respeitadas e, em décadas passadas, foi uma referência real em climatologia no Brasil.

Mas há uma aparente limitação importante, segundo os seus críticos: a especialidade de Molion é análise de variabilidade e observação climática, não modelagem climática. O pesquisador do INPE Gilberto Câmara disse: “Ele não tem base em modelagem climática. Quando faz aquelas afirmações de que os modelos do IPCC são ‘grosseiros e imprecisos’, tem a mesma autoridade que qualquer não especialista. Molion comete falácia de autoridade.” – O negacionismo climático envernizado de Luiz Molion

O que significa o rótulo de “negacionista do clima”?

Molion é rotulado como “negacionista climático” não por causa de uma discordância pontual sobre um evento específico, mas por seu questionamento sistemático das bases da ciência do clima:

As suas principais teses são:

  1. O CO₂ de origem humana tem impacto desprezível sobre o clima: ele argumenta que a atividade humana ocupa apenas 6% da superfície terrestre, enquanto os oceanos cobrem 71%, e que as emissões naturais de CO₂ (cerca de 2.000 bilhões de toneladas/ano) superam em muito as humanas (cerca de 6 bilhões de toneladas/ano). Portanto, reduzir as emissões “não mudaria nada”.
  2. O planeta está esfriando, não aquecendo: ele prevê um resfriamento global entre 2030 e 2040, com base na redução da atividade solar e em oscilações oceânicas de longa duração.
  3. A Amazônia é irrelevante para o clima global: em audiência na CPI das ONGs, em 2023, afirmou que “a Amazônia não interfere no clima global, não existe crise global”.
  4. O CO₂ é um “gás da vida”, não um poluente: ele sustenta que dobrar a concentração de CO₂ favoreceria o crescimento das plantas, e que o problema estaria em outros componentes dos combustíveis fósseis, como o enxofre.

A relação com o agronegócio

Uma reportagem investigativa publicada pela BBC News Brasil demonstrou detalhadamente que associações de produtores rurais, sindicatos patronais (como ramificações da Aprosoja) e cooperativas do setor, de fato, financiam de forma massiva, as palestras de Molion e de outros céticos climáticos pelo Brasil.

Essas entidades contratam o pesquisador para apresentar previsões e análises climáticas que se alinham aos interesses dos produtores, e procuram diminuir o peso regulatório das restrições ambientais.

Essa relação de interesse não invalida as opiniões científicas de Molion, mas explica por que ele mantém alta exposição pública e influência sobre um público específico, mesmo com as suas posições sendo amplamente rejeitadas pela comunidade científica.

Sobre a tese específica do “El Niño é terremoto”

Na controvérsia de 2026, a tese de Molion — de que um terremoto no Japão deslocou água quente em velocidade anômala, que a atmosfera não se acoplou e que, portanto, não há El Niño — precisa ser lida dentro desse contexto mais amplo.

Seu modo de argumentar tem características típicas: ele parte de intuição física e observações isoladas (ventos normais, chuvas ao norte, seca no Corn Belt americano) para negar a previsão de modelos e o julgamento de instituições. Isso é coerente com a sua postura metodológica declarada — ele repetidamente afirma que “os modelos são um desastre” e que “os meteorologistas esqueceram a física do sistema”.

Mas o Projeto Comprova aponta que o climatologista Higo José Dalmagro mencionou : “a ciência aponta para um El Niño muito forte, com sinais de resposta atmosférica ao Pacífico quente”. Ou seja, a alegação factual central de Molion — a de que a atmosfera não se acoplou — parece conflitar diretamente com essa avaliação. Entretanto, veja. A expressão é: “com sinais de resposta atmosférica”. Isso também não é afirmativamente uma conclusão.

Duas narrativas, uma incerteza

Em setembro de 2026, o debate sobre o clima no Brasil atingiu um nível raro de polarização.

De um lado, organismos internacionais, veículos de mídia e centros de pesquisa apresentam um cenário alarmante: um “super El Niño” em formação, com potencial para provocar centenas de milhares de mortes adicionais no mundo e no Brasil.

Do outro lado, o meteorologista Luiz Carlos Molion, doutor em Física e pesquisador de clima, sustenta uma tese oposta: não há El Niño em 2026. Há apenas água quente no Pacífico, sem acoplamento atmosférico. Para ele, o fenômeno que está sendo chamado de “super El Niño” é, na verdade, o resultado de um evento geológico específico — um terremoto submarino no Japão, em abril de 2026 — que deslocou uma enorme massa de água aquecida em direção às Américas em tempo recorde.

A divergência não é apenas acadêmica. Ela tem consequências diretas para o plantio de safras, para a formação de preços de commodities e, potencialmente, impactante nos mercados futuros de negociação.

A tese de Molion: água quente não é El Niño

Molion parte de uma distinção técnica que, segundo ele, tem sido ignorada pela mídia e por muitos meteorologistas.

O fenômeno completo chama-se ENOS — El Niño Oscilação Sul. Ele tem dois componentes: o oceânico (águas quentes no Pacífico equatorial) e o atmosférico (a Oscilação Sul, que é a mudança no campo de pressão atmosférica entre o Pacífico central e a Austrália/Indonésia).

“Se a atmosfera não responde, se a atmosfera não se acopla ao oceano, não tem impacto na nossa chuva”, afirma Molion. “É o que estamos vendo. A água quente está lá, é o El Niño. Mas cadê a Oscilação Sul? Cadê a resposta da atmosfera em cima dessa água quente?”

Ele enumera os sinais de que o acoplamento não ocorreu:

  • As chuvas estão concentradas na Zona de Convergência Intertropical, a cerca de 8 a 10 graus de latitude norte — cerca de 800 quilômetros ao norte de onde deveriam estar se fosse um ENOS clássico.
  • Os ventos estão “perfeitamente normais”.
  • A pressão atmosférica sobre o Taiti está ligeiramente alta, e sobre a Austrália e a Indonésia continua alta.
  • Há água fria subsuperficial próxima à Austrália e à Indonésia, a 150-200 metros de profundidade.

“Normalmente, quando se tem um El Niño completo, um ENOS, chove em cima da água quente. Não é isso que está acontecendo.”, afirma ele.

A origem do calor: o terremoto de abril de 2026

Se não é ENOS, o que é? Molion oferece uma explicação física alternativa.

Em 20 de abril de 2026, um terremoto submarino de magnitude 7,5 atingiu o nordeste do Japão à apenas 10 quilômetros de profundidade. Segundo Molion, toda a energia liberada se transformou em uma onda interna no oceano, que espalhou a água quente acumulada naquela região — 4 a 5 graus acima do normal — em direção às Américas, chegando até a Antártida.

“Você olha uma onda de El Niño, ENOS, El Niño-Oscilação Sul. Essa onda leva mais de 90 dias para atravessar o Pacífico, da Austrália até a América do Sul. Mais de 90 dias, 90, 100 dias. Essa daí atravessou na metade do tempo. Então basta se perguntar: onde é que ela adquiriu esse excesso de energia para ter viajado numa velocidade o dobro do normal? E o que resta é o terremoto.” (Molion)

O mecanismo normal do ENOS, explica ele, envolve a interação entre a atmosfera e o oceano ao longo de meses: os ventos empilham água quente do lado da Austrália, o nível do mar pode ficar 50 centímetros mais alto lá do que na América do Sul, e quando a pressão hidráulica dispara, uma onda de Kelvin traz a água quente da região do “Niño 4” em direção à costa peruana e chilena. Esse trajeto leva 90 a 100 dias.

“O que nós vimos nesse ano não tem nada disso. Foi simplesmente um terremoto que espalhou toda a água quente que estava lá em cima do Japão pelo Pacífico todinho. E é por isso que a atmosfera, são passados cinco meses, 20 de abril a 20 de setembro, e a atmosfera não se acoplou.” (Molion)

O que isso significa para a chuva no Brasil

Molion faz previsões para o regime de chuvas no Brasil.

Centro-Oeste, Norte e Nordeste (leste do Mato Grosso, Tocantins, Goiás, oeste da Bahia, Piauí, Maranhão): Nos últimos 180 dias, houve redução de 30% a 40% no total acumulado de chuvas. O solo está seco. Molion recomenda cautela: não plantar imediatamente. A estação chuvosa deve se firmar apenas em novembro, e outubro ainda terá chuvas 30% a 50% abaixo do esperado.

“O produtor não pode se desesperar e já se afobar e plantar rapidamente. Tem que aguardar um pouco.”

Sudeste (Minas Gerais, São Paulo): Também requer cuidado. Molion inclui Minas Gerais na região que deve ter chuvas abaixo do normal em outubro. A estação chuvosa se estabelece de forma mais regular a partir de novembro.

Sul (Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná): Aqui, a situação é diferente — e Molion faz questão de desvincular as chuvas intensas do El Niño.

“As chuvas que estão no Rio Grande do Sul não têm nada a ver com El Niño, absolutamente nada. Elas são produzidas por um outro fenômeno, que se chama Zona de Convergência do Pacífico Sul.”

Esse sistema se forma pelo encontro da corrente equatorial quente com a corrente polar, no Pacífico, gerando uma esteira de tempestades que atravessa o oceano e, ao encontrar a Cordilheira dos Andes, é forçada a passar por um espaço menor, acelerando e formando perturbações que se desenvolvem rapidamente em tempestades catastróficas.

“Atualmente, elas estão passando exatamente em cima do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina. Vai continuar acontecendo. Principalmente nesse ano, no próximo ano, seguramente deve acontecer condições semelhantes.”

Molion alerta para tempestades severas, granizo e até tornados na região Sul durante a transição de estação.

O outro lado: 450 mil mortes e 13,3 mil no Brasil

Enquanto Molion contesta a existência do ENOS, a Universidade de Chicago segue na direção oposta.

Uma pesquisa da universidade estima que o “super El Niño” pode provocar 450 mil mortes adicionais no mundo e 13,3 mil no Brasil. Os países mais ameaçados, além do Brasil, são a Nigéria (mais de 31 mil mortes), Indonésia e Sudão.

O número de dias de calor tórrido deve aumentar 44%. Entre as principais ameaças estão doenças provocadas pelo calor, problemas respiratórios, desnutrição, cólera, malária e dengue.

Theodore Kipping, cientista climático do Imperial College London, explica que o El Niño modifica os padrões climáticos locais, afetando a produção de alimentos e definindo se as pessoas enfrentarão inundações ou estresse térmico extremo.

Teresa Zakaria, chefe da Unidade de Redução de Riscos, Operações Humanitárias e Mudanças Climáticas da OMS, afirma: “Este não é apenas um fenômeno climático, é um multiplicador de riscos. Esperamos ver impactos na saúde em todo o mundo.”

A previsão é de que o El Niño atinja o pico no fim de 2026. Mas, segundo os pesquisadores, isso não representa o fim do perigo: no começo de 2027, o calor do verão no Hemisfério Sul vai se somar aos efeitos do El Niño. “Este super El Niño pode se tornar um sombrio cartão-postal do futuro. Uma amostra das temperaturas extremas que poderão se tornar normais em apenas algumas décadas.”

O elo ausente: modelos climáticos e a perda da física do sistema

Molion não poupa críticas aos modelos climáticos que embasam o alerta internacional.

“O modelo de clima é um verdadeiro desastre — é um código de computador que tenta imitar a natureza, mas o clima é muito complexo, é um sistema aberto.”

Molion argumenta que os meteorologistas antigos, sem calculadoras eletrônicas, eram obrigados a olhar os dados e interpretar fisicamente o que estava acontecendo. “Hoje não existe mais isso. Hoje é só computador, é só supercomputador, é só modelo. E todo mundo acredita muito no modelo”, argumenta ele.

A crítica central é que os modelos podem estar capturando um sinal de aquecimento oceânico, mas ignorando a resposta atmosférica — ou a ausência dela.

“Eu estou na contramão, estou sozinho. Os americanos do Centro de Previsão Climática da NOAA continuam afirmando que vai ter o El Niño, mas nós estamos vendo aí que está tudo normal.”

Ele cita evidências empíricas: a entrada de frentes frias em julho, agosto e setembro; a ausência do bloqueio atmosférico que caracterizou 2015-2016; e o veranico no Corn Belt americano em julho, que reduziu as safras de milho, soja e algodão — exatamente o oposto do que se espera de um El Niño forte.

“Se fosse um El Niño forte, como foi anunciado, eles teriam tido muito boas chuvas nesse período de julho. E isso não aconteceu. O que significa que, na realidade, não temos um ENOS. Temos apenas o El Niño, que é a água quente, que até agora não se acoplou à atmosfera.”

O que está em jogo: clima, plantio e preços

A divergência entre Molion e a versão oficial não é apenas uma disputa acadêmica. Ela tem consequências econômicas diretas.

Para o produtor rural: a decisão de plantar ou esperar depende da previsão de chuvas. Se Molion estiver certo, quem plantar em outubro no Centro-Oeste pode perder a safra por falta de umidade. Se a versão oficial estiver certa, quem esperar pode perder a janela ideal de plantio.

Para o mercado de commodities: as previsões climáticas movem preços. Soja, milho, algodão e café são particularmente sensíveis às expectativas de oferta. Um “super El Niño” confirmado tende a elevar prêmios de risco e distorcer curvas futuras. Um “não El Niño” tende a acalmar o mercado.

Para quem detém informação privilegiada: a pergunta incômoda é se as narrativas climáticas podem ser usadas para manipular preços. Se um grupo de analistas ou traders tem acesso à dados ou interpretações mais precisas sobre o acoplamento atmosférico, antes do mercado em geral, ele pode se posicionar com vantagem.

Molion não faz essa acusação diretamente, mas a sua crítica à “perda da capacidade de análise” e à crença cega em modelos sugere que o problema não é apenas científico — é também de assimetria de informação.

“É uma pena, porque hoje as mídias, a mídia, a imprensa falada, escrita, as redes sociais, elas têm um grande poder de desestabilizar tudo. E é lamentável que as pessoas falem um monte de besteira sem ter base científica nenhuma do que estão falando.”

O tempo dirá

Molion encerra com uma frase que resume a sua posição: “Posso estar errado? Posso estar errado. Mas todos os indícios que nós temos levam a gente a concluir que não é ENOS, é só El Niño. Na verdade, só água quente, e a atmosfera não respondeu.”

Se ele estiver certo, o “super El Niño” de 2026 não vai se materializar. As chuvas no Centro-Oeste vão atrasar, mas virão. O Sul continuará enfrentando tempestades severas por outro mecanismo. E o mercado de commodities terá precificado um risco que não existia. E quem teria ganho com isso?

Se ele estiver errado, o Brasil e o mundo podem enfrentar um dos eventos climáticos mais severos das últimas décadas, com impactos profundos na saúde pública, na agricultura e na economia.

O que está claro é que a disputa sobre o clima de 2026 não é apenas sobre meteorologia. É sobre quem controla a narrativa, quem lucra com ela e quem paga a conta quando ela falha.

Nota ao leitor:

Este artigo buscou compilar, em uma análise única, os fatos associados à uma recente entrevista do meteorologista e doutor Luiz Molion, à respeito do “super El Niño” em 2026 e 2027, que vem sendo apresentado ao público mundial como uma catástrofe. A tese de Molion é que o que importa é a formação do ENOS. Ele é considerado pelos críticos como um negacionista climático, e que é financiado pelo agronegócio brasileiro. As fontes públicas utilizadas estão listadas abaixo para a sua verificação.

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Referências Utilizadas:

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