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Por PolitikBr I Brasília, Em 08/05/2026, 19h:07min, leitura: 11min
Editor: Rocha, J.C.
Há algo de profundamente errado — e, paradoxalmente, fascinante — na política contemporânea, em especial do Ocidente. Seja na América Latina, nos EUA, na Europa, se nos referirmos às democracias.
Nós, que somos a sociedade que paga impostos e mantém as benesses da classe política, estamos, todos nós, fartos de escândalos, da manutenção de privilégios indecentes, da promiscuidade entre o público e o privado. Do proveito, em benefício próprio, do que deveria ser de todos. E quando um novo nome surge, gente “de fora”, um “outsider”, ele é aplaudido e se torna motivo de admiração.

E o que essas figuram fazem são coisas simples, óbvias: cortam privilégios, negam pagar super salários, demitem assessores sem função, inúteis, que só permanecem na administração pública através de conchavos e indicações políticas; eles se recusam a financiar shows milionários, e fazem outras ações moralizadoras. Zelam pelo patrimônio e pelo dinheiro público; do público.
Entretanto, o espanto não é que eles façam isso. O espanto é que isso seja notícia.

No Rio de Janeiro, estado onde a corrupção é endêmica faz décadas, um desembargador chamado Ricardo Couto assumiu o governo interino “por acidente”. Ele não venceu uma eleição disputando votos, não articulou alianças, não beijou bebês em praça pública. Ele estava, apenas, na linha sucessória do caos: depois que o governador Cláudio Castro foi cassado pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) por abuso de poder político e econômico, depois que o seu vice renunciou para tentar escapar da fogueira, depois que o presidente da Alerj, Rodrigo Bacellar, foi preso acusado de corrupção — alguém precisava sentar na cadeira. Coube a ele.
Desde que assumiu o cargo em 23 de março, Ricardo Couto desligou 1.419 funcionários, somente em abril, o que representa uma média diária de 39 exonerações até o dia 29.
Segundo o Palácio Guanabara, as secretarias de Governo e da Casa Civil lideram o processo, que faz parte de uma auditoria administrativa em órgãos diretos e estatais.
O governo estadual confirmou que o número de dispensas deve crescer conforme as análises internas avançarem. Uma autêntica “faxina”.
E se você pensa como administrador, em prol do público, você vai querer resolver problemas prementes ignorados pela gestão anterior. O governo do Estado agora avalia se tem condições financeiras para quitar as parcelas pendentes da recomposição salarial prevista na Lei 9.436/2021. Até o momento, o estado só havia pago apenas 13% dos 26,11% de recomposição salarial autorizada por lei, que deveria ter sido quitada em três parcelas.
E, claro, ações moralizadoras vão contra interesses políticos e o status quo. Aqueles que foram demitidos, e os seus patrocinadores políticos, certamente ficaram nada satisfeitos. Até porque, na administração pública fluminense, compadrio e amoralidade são lugar comum.
E Ricardo Couto nada fez de inovador. Ou colocar ordem na “bagunça” que era, e provavelmente voltará a ser, a governança do Estado do Rio de Janeiro, é algo de extraordinário? Que cause espanto? Mas essa é a verdade. Vem causando espanto o que o desembargador travestido de governador vem fazendo: um “outsider”.
O que era para ser um mero mandato “tampão” burocrático está se transformando em um fenômeno de opinião pública. Uma pesquisa da Futura Inteligência/Apex Partners, divulgada pela CNN Brasil, aponta que 52,9% dos eleitores fluminenses aprovam a gestão do governador interino.
A pergunta — e que este artigo se propõe a tentar responder — é: Como isso é possível?
A resposta é indigesta para a classe política tradicional: porque ele está fazendo o que deveria ser obrigação de qualquer governante. Em pouco mais de um mês, Couto exonerou, até agora, 1.600 servidores apontados como funcionários – fantasmas ou de indicações políticas do governo anterior. Negou patrocínio ao mega show de Shakira em Copacabana — enquanto o governo anterior bancou R$ 10 milhões para o show de Madona e R$ 15 milhões para o show de Lady Gaga. E Couto fez isso com uma naturalidade rara: Há uma “grave crise fiscal”. Ele também cancelou investimentos de R$ 27 milhões em títulos do governo anterior, herdados como herança maldita.
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E, como esperado, a reação veio dura. Nos bastidores da Alerj, deputados ligados ao ex-governador Cláudio Castro e ao atual presidente Douglas Ruas ameaçaram retaliar o “faxineiro”. A tática baixa, revelada pelo colunista Octavio Guedes do g1 e repercutida pelo Agenda do Poder: divulgar uma lista de supostas amantes de desembargadores que recebem da Assembleia sem trabalhar. É a “política do esgoto”: se você me tira a mamata, eu jogo lama no seu Judiciário.
Couto, vindo da toga, aparentemente, não lhes deve nada. A população, ao acordar e ver que o interino negou dinheiro para show, cortou funcionários fantasmas e cancelou títulos milionários, entende a mensagem subliminar: “Eu não sou eles”.
O Fenômeno Global: Quando o “Forasteiro” Rouba a Cena
Mas o Rio de Janeiro não é um ponto fora da curva. É um sintoma de um movimento tectônico que sacode a política ocidental. Em todos os lugares, eleitores frustrados com o “sistema” têm se voltado para figuras que se apresentam como “outsiders” — aqueles que, por não pertencerem à política tradicional, carregariam a promessa de restaurar a probidade e a eficiência. Esses líderes mobilizam um discurso de “cura” de uma democracia doente, opondo o “povo virtuoso” a uma “elite corrupta”.
Mark Carney e o Despertar Canadense
Tomemos o exemplo do Canadá. Em 14 de março de 2025, assumiu o cargo de primeiro-ministro Mark Carney, economista, ex-presidente dos bancos centrais do Canadá e da Inglaterra — o primeiro homem a chefiar duas instituições monetárias centrais. A sua ascensão não veio de eleições gerais, mas da crise interna do Partido Liberal após a renúncia de Justin Trudeau, que viu a sua popularidade definhar. Carney lançou a sua candidatura a líder liberal em janeiro de 2025, se posicionando como o “outsider” técnico, o “gestor de crises”, que consertaria a economia contra as ameaças tarifárias protecionistas de Donald Trump.

Trump chegou a dizer que queria tornar o Canadá no Estado número 51 dos EUA, chamando o Primeiro Ministro de “governador”.
Mas, sob as posições de “outsider”, Carney disse: “O sistema não está funcionando como deveria e não está funcionando como poderia”. Ele não pedia votos para distribuir cargos ou prometer benefícios. Pedia um cheque em branco para a sua competência comprovada em “salvar duas economias”. Apesar de seu currículo de elite — Goldman Sachs, Harvard, Oxford — ele foi vendido como o antípoda do político tradicional, o gerente austero que chega para enxugar a gordura e impor a ordem fiscal.
No entanto, o paradoxo que cerca Carney expõe a fratura interna do conceito de “outsider”. Os seus adversários conservadores se apressaram em rotulá-lo: “Como um antigo conselheiro de Trudeau, assessor desde 2020… Carney é a coisa mais distante possível de um “outsider“. A crítica é pertinente. O que vemos, portanto, não é uma ruptura ontológica com a política, mas a encenação da ruptura. Carney parece ser o establishment vestido de novidade– como Jair Bolsonaro (condenado e preso por tentativa de golpe de Estado), no Brasil, que diziam sobre ele: o novo, embora ele estivesse a 37 anos na política brasileira.
O apelo de Carney funciona porque a população deseja acreditar na fantasia da gestão acima da política.

A Ruptura do “Outsider” Mamdani nos EUA
A eleição de Zohran Mamdani à Prefeitura de Nova York, em novembro de 2025, representou um terremoto político, consolidando-o como um verdadeiro “outsider” e disruptor que desafiou tanto o establishment democrata quanto a oposição republicana.
Como um socialista democrático – acusado por Trump de “comunista” – de 34 anos e ex-deputado estadual, Mamdani rompeu com a tradição política ao vencer figuras consagradas nas primárias, focando a sua campanha na “luta de classes” urbana, com propostas ousadas como o congelamento de aluguéis, ônibus gratuitos e impostos sobre os mais ricos. A sua vitória sobre o ex-governador Andrew Cuomo (que concorreu como independente) e a rejeição ao candidato republicano Curtis Sliwa, somadas à sua postura de enfrentamento direto contra as ameaças de corte de verbas de Donald Trump, estabeleceu um novo paradigma de esquerda progressista na maior cidade dos EUA, provando que uma agenda populista de esquerda pode capturar o eleitorado insatisfeito, rejeitando a política da direita tradicional.
Pablo Marçal e a Defenestração
O contraponto trágico a essa narrativa, e que prova a ferocidade do sistema contra os verdadeiros“de fora”, vem do Brasil recente. Pablo Marçal, o coach que disputou a prefeitura de São Paulo com discurso de ruptura radical, encapsulou o fenômeno do “outsider agressivo”. A sua ascensão meteórica nas pesquisas — baseada em ataques frontais à “política tradicional” e na promessa de uma gestão empresarial para a cidade — assustou o establishment. Não por acaso, Marçal foi rapidamente defenestrado pelos herdeiros do bolsonarismo e pelo próprio ex-presidente, que viram nele um concorrente perigoso para o espólio eleitoral.

O desfecho foi judicial. Marçal teve os seus direitos políticos cassados por oito anos pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) por abuso de poder econômico. Ironia do destino: o senador e ex-juiz Sergio Moro, que também se apresentou como “outsider” anticorrupção em sua campanha (e que respondeu por crimes eleitorais similares), foi absolvido pelo TSE. A pergunta que fica, e que a população comum percebe com clareza meridiana, é: por que o tratamento jurídico tão distinto? A resposta, ainda que indigesta, parece ser a capacidade de articulação nos bastidores — algo que um verdadeiro “outsider”, por definição, não possui.
Marçal incomodava porque a sua ascensão não passava pelo filtro dos partidos, pela benção dos caciques ou pela dependência ao “Centrão”. Ele foi abatido exatamente por isso.
A Raiz do Problema: O Cansaço da “Democracia Pseudo”
Por que esses “outsiders’ empolgam e prosperam — quando não são alijados da vida política — no Rio, no Canadá, nos Estados Unidos (com Trump), no Reino Unido (com o Brexit) e em tantas outras frentes? A resposta é sistêmica, e exige coragem para ser dita: a população ocidental está farta de farsa.
O modelo de democracia liberal representativa, na forma como foi sequestrado pelo capitalismo de compadrio e pela política de conchavos, exauriu a sua legitimidade simbólica.
Nesse ambiente, qualquer figura que consiga comunicar — ou mesmo performar — se descolando dessa roda de privilégios, ganha capital político instantâneo. Não precisa nem entregar resultados concretos. Basta o gesto simbólico, por exemplo, de austeridade. De cortar a mamata.
Essa virada curativa é movida por uma crença quase messiânica de que só quem está fora do sistema pode consertá-lo. A legitimidade política passa a ser medida pelo grau de repulsa que o governante demonstra em relação à política “suja”.
A ascensão política de Ricardo Couto no Rio, de Mark Carney no Canadá, de Mamdani nos EUA, e de tantos outros “outsiders”, é a resposta da sociedade a uma democracia doente. O aplauso a eles é, na verdade, uma vaia ensurdecedora ao sistema político tradicional. Cada exoneração de um apadrinhado, cada negativa de patrocínio a um show faraônico, cada ato de “lisura”, mesmo que aparente, é um lembrete doloroso do que deveria ser a regra.
Esse artigo foi baseado em:
- Diário do Rio: https://diariodorio.com/deputados-ameacam-expor-supostas-amantes-de-desembargadores-na-alerj-em-retaliacao-a-ricardo-couto/
- Agenda do Poder: https://agendadopoder.com.br/apos-pente-fino-de-couto-deputados-ameacam-expor-amantes-de-desembargadores-que-recebem-da-alerj-sem-trabalhar/
- Sky News: https://news.sky.com/story/former-bank-of-england-governor-mark-carney-running-to-replace-justin-trudeau-as-canadas-pm-13290422
- U.S. News & World Report (Reuters): https://www.usnews.com/news/world/articles/2025-01-16/former-bank-of-canada-governor-carney-enters-race-to-replace-trudeau
- Stanford University Press: The Political Outsider — Curative Democracy and the Political Outsider (excerto) – https://press.sup.org/books/extra/?id=35988&i=Introduction+Excerpt.html
- CNN Brasil: Futura/Apex: 52,9% aprovam gestão interina de Ricardo Couto no RJ
- UOL: RJ: Ricardo Couto exonera mais de 1400 e agrada grupo de Eduardo Pae
- Sinfrerj: Governo estadual do Rio estuda viabilidade de pagar recomposição a servidores – SINFRERJ
- Revista Forum: https://revistaforum.com.br/politica/ricardo-couto-exoneracoes-alerj/
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